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A impossível e invivível antecipação exaustiva do trabalho relaciona-se com a própria condição humana de vida. Há uma impossibilidade de uma completa modelização do mundo em que se vive e há também uma impossibilidade de se conceber uma vida humana sem recentramentos. Isso seria invivível, pois o humano tem necessidade de transformar seu meio segundo suas próprias normas de saúde, de gerir sua própria vida (Brito &Athayde, 2011). Sem a inventividade diante do inédito, sem as transgressões às normas, não se produz história. E, ao produzir história pelo trabalho, o sujeito também produz a si mesmo:

Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação impulsiona, regula e controla

seu intercâmbio material com a natureza. (...) Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. (Marx, 1977, p. 211)

A possibilidade de criação nos interstícios da prescrição é oportunidade àquele que trabalha de construir seu mundo e a si mesmo, de objetivar a sua subjetividade, de produzir sua saúde; é espaço para seu próprio desenvolvimento.

O trabalho não é apenas uma imposição, uma obrigação, uma injunção que nos é feita. É, igualmente, uma oportunidade que nos é dada de construção de nós mesmos. O trabalho funciona como um operador de identidade, como um meio de construção de nós, de nossa identidade, um operador central do desenvolvimento da pessoa. (Jobert, 2014, p. 25)

Numa possibilidade de escolha hipotética, pergunto ao inspetor qual das funções ele preferiria: a fiscalização dos maquinistas ou a facilitação da circulação dos trens. Ao que ele responde:

A gente ficar por conta da circulação, é, eu acho que é melhor mexer com trens. Aí, ó, você consegue se desenvolver mais, né? Ah, problema de locomotiva, cê [sic] vai lá, ajuda a resolver, beleza. Ah, o trem deu isso, trem deu aquilo, então são coisas que você já tá [sic] acostumado a fazer, não sai da sua rotina não, entendeu? Eu, como maquinista, já tava [sic] habituado a fazer isso, então eu sei muito mais fácil [sic] resolver esses problemas da circulação do que ficar nessa parte burocrática de [aplicar as ferramentas de controle]. (...) [Facilitar a

circulação] ao mesmo tempo que te faz pensar, né? Eu gosto muito também porque

o seguinte: te recicla. Acaba forçando uma reciclagem pra [sic] você. (Pedro,

Pedro relata que os problemas da circulação são sempre de alguma maneira inéditos e que, para resolvê-los, convoca sua experiência acumulada durante seus anos como maquinista. Além disso, o inspetor explicita que, se, por um lado, aplicar as ferramentas de controle é trabalho burocrático, por exigir o cumprimento de uma série de prescrições, por outro, para resolver os nós da circulação, agir para além das normas prescritas é, muitas vezes, uma necessidade. As situações a serem resolvidas na circulação de trens são um emaranhado de fatores não antecipáveis. Mesmo quando é possível cumprir as normas, a urgência do fluxo das locomotivas, muitas vezes, torna inviável o cumprimento exato do que está prescrito.

Pedro pontua que prefere se dedicar à circulação de trens porque se desenvolve

mais diante do inédito que sempre surge no mosaico formado pelos fatores que compõem

os nós do ir e vir dos trens. Diante de situações marcadas por vazios de normas, que convocam seus saberes e experiências, Pedro se recicla. Ou seja, renormaliza a prescrição por meio da revalidação dos seus saberes constituídos quando era maquinista, para responder à exigência singular do aqui e agora – que lhe é imposto pela situação de trabalho de inspetor –, através de escolhas, da eleição de valores, utilizando os recursos que tem no momento da atividade. Nessa reconsideração constante do próprio uso de si está a possibilidade de desenvolvimento do sujeito que trabalha.

O desenvolvimento (...) remete à transformação orientada dos recursos disponíveis em um indivíduo, em um coletivo, em uma organização, em um território. A transformação orientada dos recursos disponíveis preexistentes produzida pela história, pela ação anterior, pela sedimentação da experiência acumulada, seja no plano individual seja no plano coletivo. Aqui, parte-se do que existe e não da metáfora do vazio. Desenvolver é fazer algo diferente a partir dos recursos

disponíveis já acumulados (...), é ao mesmo tempo continuidade e ruptura entre o preexistente que, revisitado, torna-se o recurso para uma ação futura e a própria ação. O que se supõe que não esteja na repetição, mas na abertura de alternativas, na exploração de possíveis que não foram abertos pelo passado, pois, no fundo, cada ação que se produz é a ação que triunfa em relação a outras ações que seriam possíveis. (Jobert, 2014, pp. 26-27)

A história se faz e refaz nas mais de duas décadas de vida de Pedro, na ferrovia, envolvido com a circulação de trens. É marcada pela continuidade, no acúmulo de experiências e saberes, e pela ruptura a cada vez que o inédito convoca renormalizações, transformando o que está dado, mas nunca terminado: a realidade laboral, sempre em movimento, sempre aberta a inúmeras alternativas ainda não construídas. A atividade é então “uma matriz incessante de contradições potenciais. Por esse fato, ela não cessa de fazer história” (Schwartz & Durrive, 2008, p.26).

Na tarefa de fiscalizar os maquinistas também há renormalização, em toda atividade há, mesmo que no mais ínfimo (Schwartz & Durrive, 2010). Pedro prefere o questionário impresso, alivia certas perguntas, despontua o maquinista sem perda na ficha funcional considerando a não gravidade da situação, etc. Entretanto, nessa faceta do trabalho, a função do inspetor é fazer cumprir a norma diante de uma série de prescrições destinadas tanto ao trabalho do maquinista quando ao dele próprio. Há inúmeras metas e tabelas para prescrever o como fazer que engessam a atividade de trabalho. A margem de manobra em cada uma das tarefas é um dos fatores que as diferencia quanto às possibilidades de desenvolvimento.

No trabalho de facilitar a circulação de trens há muitas páginas em branco a serem preenchidas de histórias, e não apenas algumas pequenas lacunas como naquele de

fiscalizar os maquinistas. Histórias essas que renormalizam a própria prescrição do ofício. No trabalho prescrito do inspetor não há nenhuma referência à resolução dos problemas de circulação de trens, e as soluções cotidianas que os inspetores criam aos problemas da circulação nem sequer são registradas. As reuniões semanais dos inspetores com seu supervisor têm como foco as metas acerca da fiscalização dos maquinistas, enquanto a circulação de trens, atividade principal e primeira da empresa, raramente tem lugar na pauta. Mas os trens não circulam na Região Metropolitana de Belo Horizonte sem um trabalho cotidiano dos inspetores. Mesmo sem qualquer respaldo da formalidade, a história se faz, ela não se enclausura na norma. Como descrito anteriormente, é frequente, antes da reunião, enquanto aguardam o supervisor, os inspetores conversarem sobre suas vivências na circulação de trens. E, assim, a história insiste na sua existência, se faz e é compartilhada, mesmo na informalidade das trocas entre os colegas.

Nessa história que foge à norma prescrita, as possibilidades de desenvolvimento se relacionam à grandiosidade da tarefa facilitar a circulação de trens, que exige muitos saberes e um alto grau de experiência porque convoca muitos recursos do inspetor para gerir situações complexas com várias porosidades das normas, inúmeros fatores não antecipáveis e coletivos a construir, que desembocam em renormalizações constantes. Renormalizações que são feitas “tentando estabelecer uma relação da saúde – no sentido mais amplo – no meio, quer dizer, uma relação na qual tentamos fazer prevalecer o que para nós são valores fundamentais de vida” (Schwartz & Durrive, 2010, p.98).

Considerando a saúde como a possibilidade de instituir novas normas, de tolerar infrações à norma habitual através da recriação (Canguilhem, 2005, 2010), não é difícil compreender a preferência de Pedro pelo trabalho na circulação de trens. A fiscalização dos maquinistas em mais de 400 itens prescritivos implica uma escassez de possibilidades

de renormalizar, tanto por parte dos inspetores quando por parte daqueles que conduzem o trem, e, portanto, uma escassez de possibilidades de produção de saúde. Em vez de burocrata, fiscalizador de regras, ele prefere ser maestro e propor sinfonia para instrumentos tão diversos. Nesse sentido, o desenvolvimento no trabalho está relacionado à possibilidade de escrever a própria história, no esforço constante de fazer prevalecer os valores que se consideram fundamentais para um viver em saúde (Schwartz & Durrive, 2010).

4. TERCEIRO VAGÃO: POR QUE PUNIR OS MAQUINISTAS? A FUNÇÃO