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Tal como faziam as elites sociais naquela cidade, Mário Palmério não deixou de se empenhar para construir em torno de sua figura uma imagem pública de homem devotado e de espírito misericordioso. Como vimos, ao lado do poderio econômico e das trocas de lisonjas, a ostentação das “qualidades de coração” era um expediente largamente empregado na busca e na legitimação da distinção social. Em seu em- penho para ascender socialmente, parecia, portanto, imprescindível corresponder também a essa expectativa moral da boa sociedade ubera- bense. Assim, depois de louvar o Lavoura e o zebu naquela série de ar- tigos de 1940, Mário Palmério juntou-se às vozes que defendiam a cria- ção de um abrigo para as crianças carentes e escreveu o seguinte texto:

Uma esmolinha pelo amor de Deus...

Um fato verdadeiramente constritor marca, hoje, a civilização de nossa grande cidade: a legião de meninos-mendigos abalroando o uberabense nas

ruas, nas casas comerciais e nos cafés. Imundos, esfarrapados, a maioria ainda na primeira infância, estendem eles as mãozinhas sujas e solicitam a esmola num gesto que foi o primeiro aprendido conscientemente e numa frase que, antes de qualquer outra, lhe foi ensinada. E são os pobrezinhos recebidos, quase sempre, de dois modos: pelo uberabense comum, sem teorias sociais revolucionárias que, sem discussão, pinga o níquel; e pelo uberabense pão duro que solta um seco “não há, meu filho”. Todos os dois tipos de uberabenses procedem de acordo com sua consciência. São decen- tes. Há, porém – infelizmente os há em número reduzido – os reformado- res, os bam-bam-bans, donos de soluções infalíveis para tudo e que sabem sempre ter o pobre guri esfarrapado um pai preguiçoso e malandro que faz do filho um meio mais cômodo para viver folgado. Negam, esses turunas de cafés, solenemente, o níquel, e ainda justificam sua conduta, aos olhos dos circunstantes, sugerindo medidas de proteção e outras coisas parecidas. E, enquanto nós podemos levantar os olhos a Deus e agradecer por nos ter feito nascer numa cama melhorzinha, a gurizada, pobre, maltrapilha, suja e doente de Uberaba vai aumentando, escapulindo, de manhãzinha, dos altos, em busca, na cidade, de uns níqueis e pedaços de pão para levar ao pai paralítico, ao cair da noite (Os tais reformadores, os tais bam-bam- -bans, donos de soluções infalíveis acham que malandros só são os pobres e que o luxo da posse de um “tábis”, de uma tuberculose e de um câncer só pode caber aos ricos).

E vai aumentando o número de meninos mendigos, enquanto os outros meninos protegidos pelo acaso vão tendo destinos mais felizes.

Uberaba, porém, possui, graças a Deus, gente boa, caridosa, justa. Gente que sabe que poderia ter nascido no Campo das Amoras ou em outro lugar parecido se não fosse o misterioso acaso. Gente nobre como Paulo Rosa e Antônio Alberto. Gente que não se envergonha de se debruçar por sobre o colchão imundo para auscultar um peito ainda mais imundo de uma pobre criança nascida numa baiuca de subúrbio. Gente que não tapa o nariz com lenços de cambraia quando entra em casinhas fétidas e esburacadas. Gente que tem o coração feito de carne tenra.

A Casa da Criança e agora o Patronato de Menores estão aí para demonstrá-lo.

Auxiliai-os, povo de Uberaba!

Auxiliai-os, ó vós que acreditais que a infância de hoje são os homens de amanhã!

Auxiliais-os, também vós que deveis a Deus um imposto pesado sobre a renda que começastes a gozar desde o vosso nascimento!

Auxiliais-os, ainda vós, que vos sentis mal com o mau cheiro das roupas que a miséria deixa existir. Ficareis, assim, livres deles!

Uberabenses: quando um Paulo Rosa e um Antônio Alberto estender- -vos a mão, solicitando-vos um óbulo para a Casa de Criança e para o Patronato de Menores, não o negueis. Prestais ouvidos aos bater desses dois grandes e generosos corações e ouvireis as vozes de milhares e mi- lhares de meninos pobres, doentes, imundos, miseráveis, maltrapilhos, balbuciando, este doloso apelo:

“Uma esmolinha pelo amor de Deus…” (ibidem, 3.8.1940, p.5)

É interessante observar que, na retórica do texto, o uso do impera- tivo afirmativo na segunda pessoa do plural e de frases curtas e repletas de ensinamentos morais trouxe aos últimos parágrafos um caráter inequívoco de uma oração – ou de uma parábola. Foi com essa bela prece literária direcionada aos “pobrezinhos”, portanto, que Palmério manifestou, pela primeira vez, os sentimentos humanitários que de- veriam legitimar sua atuação social. É injusto, evidentemente, acusar Mário Palmério de cinismo, ou de demagogia, pois não há indícios de que ele não acreditava no que dizia. Ao contrário, sua crítica aos que tapavam o nariz “com lenços de cambraia” é um dado revelador de certa aversão ao luxo que o professor sempre fazia questão de mani- festar em diversas circunstâncias – ainda que, por necessidade social e política, atuasse naquele cenário de requinte. Contudo, notamos que o tema das crianças de rua jamais seria abordado novamente em seus artigos – o que significa que essa questão não se tratava de uma causa que inspirasse engajamento permanente. Não obstante, o que nos interessa, acima de tudo, é verificar a sintonia de Palmério com o imaginário caritativo daquelas elites, assim como apontar o seu empenho em expressar publicamente a sua índole altruísta e piedosa.

Pois bem. Duas semanas depois, um católico Mário Palmério fez questão de escrever um artigo sobre Nossa Senhora da Abadia, a padroeira da cidade:

Boa, milagrosa e misericordiosa Senhora da Abadia: faz anos hoje, meu tempo feliz de menino. Tempo em que, junto à minha mãe, levantava-me cedinho, ainda na hora de poder ver a estrela d’Alva, bonita e grande, ir se sumindo devagarinho e bem longe, no céu.

Tempo feliz, em que não havia causa melhor no mundo de que passar pela praça da Misericórdia, pelos trilhos orvalhados e rasgados no meio dos “mal-me-queres” e das “maravilhas” de todas as cores, em busca, lá no alto, de Sua pequenina igreja.

Tempo feliz, em que podia repousar meus olhos na Sua imagem e ficar, o tempo todo da missa, pedindo à Senhora coisas e mais coisas impossíveis. [...]

Hoje, tenho um medo enorme de Seus olhos. Sinto que eles estão sempre olhando para mim, com tristeza, pela ingratidão, que tive com a Senhora e pelo muito que pequei.

Boa, milagrosa e misericordiosa Senhora da Abadia. Não me olhe com tristeza… Eu preciso voltar, de novo, a seus pés. Tenho tantas coisas para pedir a Deus! E só a Senhora poderá consegui-los para mim… (ibidem, 12.8.1940, p.2)

Uma vez mais, em outro artigo que novamente sugeria uma prece, Mário Palmério procurava, nessa oportunidade, afirmar a sua identificação com a cultura católica local por meio da exibição de uma intimidade histórica e familiar com a padroeira da cidade. Amparado por essas declarações públicas de misericórdia e de fé, o jovem profes- sor parecia moralmente habilitado a integrar o círculo de uberabenses virtuosos naquela sociedade cristã e conservadora.

Ainda que não seja possível precisar o período exato do seu des- pertar para as aspirações partidárias, temos observado que a atuação social de Mário Palmério jamais deixou de manifestar alguma ambição pelo poder. Assim, conscientemente ou não, a apropriação que faria da simbologia sagrada – e, de outro modo, a representação que a im- prensa faria de sua atuação social – acabaria se revelando de natureza eminentemente política. Por isso, podemos notar que, devido também ao imaginário que envolvia sua própria atuação profissional, a escalada social e empresarial de Mário Palmério foi, aos poucos, sendo inter- pretada, nos jornais da época, como uma verdadeira ascensão de um

ídolo sagrado que – à custa de infindáveis sacrifícios – assume uma missão divina, entrega-se a uma jornada legendária e vence cada um dos desafios até alcançar a “vitória integral”. Ou seja, em um prenúncio daquilo que se configuraria como uma autêntica ascensão mítica, Mário Palmério passou a ser paulatinamente representado como o herói que levaria o seu povo ao triunfo e à glória.

Vejamos. Desde as primeiras notícias sobre a criação do Liceu Triângulo Mineiro em 1940, o Lavoura e Comércio (22.7.1940, p.4) já deixava registrado os seus votos pelo êxito da “missão” de que Mário Palmério estava imbuído. O jornal dizia que aquele professor era um dos homens que “se empenhavam em levar, mais adiante ainda, nossa civilização” (ibidem, 9.7.1940, p.5) e noticiava com entusiasmo as “sensacionais” conquistas que ele trazia para a cidade em suas viagens à capital (ibidem, 22.7.1940, p.4). Mário Palmério, por sua vez, sempre que tinha oportunidade, não deixava de afirmar o seu “compromisso sagrado” (ibidem, 26.12.1941, p.1) com a educação em Uberaba. Nas homenagens que recebia no dia de seu aniversário, Palmério era sempre representado como aquele que não poupava esforços para contribuir com o progresso de sua terra (ibidem, 1º.3.1941, p.4) e, em outras circunstâncias, era descrito como o homem que punha “todas as forças do seu idealismo a serviço da causa da instrução entre nós” (ibidem, 16.1.1942, p.2).

Ninguém melhor que o prof. Mário Palmério soube compreender as necessidades da população uberabense e, também, ninguém melhor que ele soube ir ao encontro dessa necessidade. O Liceu Triângulo Mineiro está fadado ao mais absoluto sucesso e a fé e confiança que o ilustrado professor declarou depositar na colaboração do povo uberabense não foram formuladas em vão. Pode-se dizer que o Liceu Triângulo Mineiro já venceu, embora tenha aberto as portas de seu ginásio há dez dias. (ibi- dem, 8.1.1942, p.4)

Em pouco tempo, todo o circuito de amabilidades passou a afirmar a ideia de que Mário Palmério era uma espécie de guerreiro irredutível que jamais se desvia de sua missão. “Surpreende-me, sim, o esforço

heroico despendido pelo nosso jovem conterrâneo no sentido de realizar o seu benemérito ideal”, afirmou o prefeito Whady Nassif (ibidem, 22.1.1942, p.6).

Na medida em que a surpreendente ascensão profissional o tornava cada vez mais célebre, Mário Palmério passou a ser descrito por meio de um vocabulário repleto de metáforas míticas e religiosas. Com isso, ano a ano, após inúmeras menções aos “sacrifícios vencidos”, às “lutas pelas realizações de seu ideal” e à superação das etapas de seu “grandioso empreendimento” rumo à “vitória” ou ao “triunfo”, per- cebemos um momento de ascendência do herói mundano à categoria de guerreiro de fé.

Era comum, naquele tempo, que as elites ilustradas associassem a ideia da educação a uma dimensão sagrada. Por ocasião da fundação do Ginásio Triângulo Mineiro, por exemplo, José Mendonça argumentou, em tom épico, que “ensinar, transmitir à mocidade os conhecimentos acumulados pelas gerações, perpetuar no futuro o resultado dos esfor- ços dos nossos antepassados e das nossas próprias vigílias” era “uma das mais nobres e altas missões que se pode atribuir a um homem”. Assim, Mendonça construiu o louvor a Mário Palmério a partir da seguinte argumentação:

Uma casa de ensino é um foco de cultura, e, por isso mesmo, um sol vivo no meio social, a esclarecer os espíritos; a difundir a luz e o calor da ciência e das experiências adquiridas pelo gênero humano em séculos e séculos de pesquisas, de trabalhos e de sacrifícios; a orientar a juventude pelos caminhos seguros do bem, da verdade e da justiça; a redimir os povos das brumas e das caligens da ignorância e da submissão.

Por isso, quando entro numa casa de ensino, sinto a emoção profun- da e o fervor religioso de quem penetra num templo de Deus. (ibidem, 26.1.1942, p.2)

Gomes de Matos foi um dos que melhor expressaram esse empenho em carregar de mágico e de sagrado a atuação de Mário Palmério em sua “grandiosa aventura”. Afirmando que Palmério parecia erguer a sua escola tal como se a obra já tivesse saído completa da lâmpada

maravilhosa de Aladim, Gomes de Matos saudou o “idealismo robusto e impenitente deste moço que só sabe respirar em horizontes amplos, infinitos” e louvou a obstinação heroica e a abnegação plena daquele homem que não distraía “um instante sequer” de seus objetivos.

Mário Palmério possui a seu serviço a maior força com que se movi- mentam os elementos de vida, de realização e de progresso. É essa alavanca poderosa da vontade, a que nada resiste, quando tem como ponto de apoio a cristalização pura de um apostolado. A vocação do educador adquiriu em Mário Palmério, um sentido de absorvência, de vida integral. (ibidem, 2.2.1944, p.2)

Até mesmo os personagens que participavam de sua trajetória passaram a ser descritos em termos religiosos. Ao comentar sobre a decisão de Afrânio Azevedo em custear trinta alunos no Ginásio Triângulo Mineiro, por exemplo, o Lavoura e Comércio (16.1.1942, p.2) publicou o seguinte: “Só mesmo os que privam com o sr. Afrânio Azevedo, os que conhecem os tesouros de bondade do seu coração e a largueza de vistas do seu espírito, não duvidam da verdade de uma dádiva tão generosa”. Quando se anunciou que um dos pavilhões das novas instalações do Ginásio Triângulo Mineiro teria o nome de Afrânio Azevedo, o Lavoura e Comércio (28.7.1943, p.1) mais uma vez afirmou que o pecuarista era “portador de um coração boníssimo, voltado sempre para o bem” e por isso merecia ver seu nome imortali- zado naquele prédio, sobretudo tendo em vista que toda a população já o cercara de uma “auréola” de simpatia de admiração.

Desse modo, em 1944, as representações do triunfo do guerreiro de fé já estavam consolidadas. “Mário Palmério venceu”, registrava o Lavoura e Comércio em 1944. “E vencerão também aqueles outros jovens que vierem buscar, junto com os ensinamentos de um grande professor, a Fé, esta grande Fé que nunca abandonou um grande trabalhador, dono de um espírito indomável, tecido com fibras que não sabem o que é ceder” (ibidem, 14.7.1944, p.6, 2). Para O Triân-

gulo (1º.3.1946, p.2), Palmério fazia de sua profissão “um verdadeiro

Em 1946, Palmério já estava consagrado como o “grande incen- tivador” da educação na cidade e, nos dizeres do Lavoura e Comércio (1º.3.1946, p.5), ocupava um “lugar inconfundível na galeria dos que mais se esforçam e trabalham pelo engrandecimento do ensino e do erguimento do nível cultural desta região”. Quando em 1946 anunciou a criação de uma faculdade em Uberaba, foi descrito como um homem que tinha “vocação para o professorado” e cuja capacidade e espírito de iniciativa já o haviam celebrizado como “um dos maiores benfeitores da educação da mocidade uberabense”, que não poupava esforços “para impulsionar o progresso” da cidade: “O prof. Mário Palmério sagra-se na admiração dos habitantes desta vasta região brasileira como um dos legítimos paladinos da instrução e merece por isto mesmo os mais acalorados aplausos [...]” (ibidem, 9.4.1946, p.1).

A conquista da inspeção permanente ao Ginásio Triângulo Mi- neiro – o “mais alto grau do reconhecimento oficial”, nas palavras do

Lavoura e Comércio (9.10.1946, p.6) – foi descrita como mais uma

“magnífica vitória” de Mário Palmério. E a partir desse momento, as referências sagradas à sua figura alcançaram um novo patamar. Sob o título “Cruzada de instrução do Ginásio Triângulo Mineiro”, por exemplo, um editorial do Lavoura representou a trajetória de Mário Palmério por meio de uma retórica que invocava uma verdadeira guerra santa contra as trevas do analfabetismo e a favor da iluminação dos espíritos por meio da educação.

Todos os louvores são poucos [...] para saudarmos a vitória dos que põem o seu ideal a serviço da educação e da juventude no Brasil. Aparecem no campo de luta do magistério particular como verdadeiros cruzados. [...] Devorados pela chama sagrada da vocação, fazem da própria vida um altar de oferenda, por um Brasil maior e mais consciente de si mesmo.

Mário Palmério é um desses. Na falange de denodo dos jovens pro- fessores da nossa terra, conquistou um lugar de exceção. [...]

Quis, persistiu, venceu. Se as suas mãos se mostravam pobres de elementos materiais, a sua alma tinha a riqueza infinita de um idealismo incomportável. Mário Palmério sentiu que não se pertencia a si mesmo, mas à sua terra, ao seu povo, às gerações novas de Uberaba, que ele ajuda

a nutrir com o pão do espírito, fortalecendo-a intelectual e moralmente, para as lides maiores, nos planos superiores da vida. E a sua obra se mediu pelo tamanho do seu ideal. Aí está, na paisagem das nossas conquistas, ligando um presente de grandezas a um futuro de portentosidade. Ube- raba tem razão de orgulhar-se de filhos dessa estirpe, de moços que têm a temeridade confiante dos Jasões, na conquista dos velocinos de ouro. (ibidem, 20.12.1946, p.6)

Ou seja, a partir de 1946, Mário Palmério passou a ser descrito como um desses guerreiros “devorados pela chama sagrada da voca- ção” que faziam “da sua própria vida um altar de oferenda” em favor do país. Em mais uma representação de abnegação e de altruísmo absolutos, Palmério era um homem que “não se pertencia a si mes- mo, mas à sua terra, ao seu povo”. Ao oferecer o “pão do espírito” às novas gerações, conduzindo-os aos “planos superiores de vida” com aquela “temeridade confiante dos Jasões na conquista dos velocinos de ouro”, Mário Palmério era o portador sagrado de “um presente de grandezas” de um “futuro de portentosidade”. Desse modo, podemos afirmar que os termos utilizados para representar Mário Palmério, como “sacrifícios”, “heroico”, “auréola”, “apostolado”, “sagra-se”, “paladino”, “Cruzada”, “chama sagrada da vocação”, “altar”, entre outros, sugerem um empenho inequívoco em carregar a sua figura de sagrado. Portanto, não foi casual que, por ocasião da criação da Faculdade de Odontologia, o Lavoura e Comércio (5.8.1947, p.1-2) tenha atribuído propriedades miraculosas ao dinamismo do professor: “Os que não creem em milagres apenas têm de abrir os olhos e ver, como nós vimos, em três tempos transformados dois pavilhões do Colégio do Triângulo Mineiro, que antes se destinavam ao internato, em anfiteatros, em salas especiais disso ou aquilo”.

É particularmente interessante notar o empenho da imprensa em distinguir as promessas de Mário Palmério das “confabulações de ga- binete” que, podemos facilmente deduzir, diz respeito à tradição local em contentar-se com o imaginário. Gomes de Matos empenhou-se bastante para firmar essa distinção. Referindo-se a Mário Palmério, escreveu:

E sonho, para ele, não quer dizer nefelibatismo, não significa viagens de abstração pelos intermúndios. Sonho para ele significa princípio de ação e dessa ação grandiosa que põe estremecimentos de contágio em todos quantos bem avaliam o valor e a grandiosidade de uma das mais ousadas iniciativas que já se tomaram entre nós. (ibidem, 2.2.1944, p.2)

Assim, vemos que, nesse processo de consagração, Mário Palmério passou a ser representado como o herói sagrado capaz de sobrepujar todas as frustrações históricas da “Terra Madrasta” e de seu povo infeliz. A sincronia daquele empreendedorismo épico com o caráter sagrado de sua figura parecia querer forjar a imagem quase mágica do homem que transforma sonhos em realidade – a partir da lâmpada mágica de Aladim, na metáfora antológica de Gomes de Matos.

Quem transformou o espólio de falência do antigo Ginásio Brasil no incomparável triunfo do Colégio Triângulo Mineiro, também podia reabilitar a cidade do fracasso da sua antiga escola de Odontologia e Farmácia, que não passou de uma aventura malograda, por lhe terem faltado os necessários fundamentos de patrimônio material e de convicção idealista. (ibidem, 5.8.1947, p.1)

Em outro editorial publicado por ocasião da criação da Faculdade de Odontologia, Palmério foi descrito como um homem que seguia “transformando as suas palavras em cimento armado” antes que as pessoas tivessem tempo de duvidar das suas promessas.

Ainda mal se sussurrava que Mário Palmério iria fazer em Uberaba uma Escola de Odontologia e já os pedreiros estavam levantando paredes, o material necessário já começava a chegar para a montagem dos laboratórios e gabinetes e as démarches junto às autoridades oficiais do ensino estavam quase concluídas. (ibidem, 6.8.1947, p.2)

O caráter épico de seu empreendedorismo era expresso por meio de metáforas diretamente relacionadas ao imaginário da mitologia clássica, bem ao gosto do ideal de erudição daquelas elites ilustradas. Como vimos, o professor chegou a ser comparado a Jasão em busca

dos velocinos de ouro. Referindo-se mais uma vez a Mário Palmério, certa vez um editorial do Lavoura e Comércio (1º.8.1947, p.6) regis- trou o seguinte: “A Faculdade de Odontologia que funda e que, como