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A eleição presidencial brasileira de 1989 foi a primeira eleição direta desde 1960 e significou um momento de especial interesse na história política brasileira, gerando expectativas nos observadores internacionais, inclusive venezuelanos. Ao todo, 22 candidatos concorreram ao pleito. Naquele momento, se destacava a baixa popularidade do presidente Sarney, que assumira na condição de vice-presidente devido ao falecimento do presidente Tancredo Neves, eleito, de forma indireta, em 1985. Além disso, Sarney construíra sua carreira política apoiando e se beneficiando da ditadura: esse déficit de legitimidade era agravado pelo insucesso do governo na condução da crise econômica e da dívida externa.

O Plano Cruzado posto em prática nesse novo governo gerou muita expectativa no momento de seu lançamento, em 1986, mas resultou em fracasso quanto a sua meta de

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Libro Amarillo correspondente ao ano de 1990, p. 176.

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estabilizar a economia e conter a escalada inflacionária. A moratória da dívida externa, nova tentativa governamental de solucionar os problemas econômicos, também fracassou por falta de apoio interno e devido a resistências internacionais.

Nesse contexto, a iniciativa diplomática de aproximação com os vizinhos da região, com especial destaque para os acordos de comércio com a Argentina (1986) e as visitas do presidente à Venezuela (1987 e 1989), representaram uma das poucas ações bem sucedidas do governo Sarney. Esta situação de isolamento político levou a que todos os candidatos à

primeira eleição direta se declarassem, em maior ou menor grau, em oposição a ele.212

Havia muita expectativa quanto ao desempenho dos candidatos da esquerda, em razão do bom desempenho que os seus partidos demonstraram nas eleições municipais do ano anterior. Especialmente o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido dos Trabalhadores (PT) foram vitoriosos em cerca de 25% dos quatro mil municípios brasileiros, projetando boas perspectivas para a candidatura de seus líderes, respectivamente Leonel Brizola e Luis Inácio Lula da Silva. Os principais jornais brasileiros consideravam que a eventual vitória de qualquer um desses dois candidatos na eleição de 1989 representava um risco ao que consideravam a boa gestão da dívida externa: o corte de gastos e programas sociais, além de privatização de empresas do Estado, para pagamento integral e pontual de juros. De fato, a suspensão do pagamento da dívida externa fazia parte do programa do PT em

1989.213

Na cobertura da imprensa brasileira sobre as relações entre o Brasil e a Venezuela, a desconfiança frente aos candidatos da esquerda se manifestou através da comparação, pelos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil, entre Carlos Andrés Pérez, com seu discurso crítico ao FMI, e Leonel Brizola. Nos dias que se seguiram à eleição do novo presidente

venezuelano, O Estado de S. Paulo lembrou que ele havia declarado ser “grande amigo” de

Leonel Brizola.214 Poucos meses depois, o Jornal do Brasil destacou esse fato, através de uma

reportagem na qual se referia a Andrés Pérez como “democrata com tendências esquerdistas”

e o “mais populista dos políticos venezuelanos”.215

212 LAMOUNIER, Bolívar. “Antecedentes, riscos e possibilidades do governo Collor”. In: LAMOUNIER,

Bolívar (org.). De Geisel a Collor: o balanço da transição. São Paulo: Ed. Su maré, 1990, p. 23.

213 SECCO, Lincoln. História do PT. Cotia, SP: Ateliê Ed itoria l, 2011, p. 133. 214

O Estado de S. Paulo, 09/12/1988.

215

No intervalo de um ano, entre a eleição presidencial venezuelana ocorrida em dezembro de 1988 e a eleição brasileira, cujo segundo turno aconteceu em dezembro de 1989, a cobertura que os principais jornais brasileiros fizeram sobre a crise política do primeiro ano de Carlos Andrés Pérez (decorrente, em grande parte, da contradição entre seu discurso crítico e adesão ao neoliberalismo, na prática) foi marcada pela critica ao seu discurso contrário ao

neoliberalismo, visto como “aventura populista”. Enquanto os dois governos tentavam

apresentar as relações bilaterais como coincidências e positivas, os jornais brasileiros criticavam o populismo de Carlos Andrés Pérez e defendiam a modernização.

Durante o processo das eleições no Brasil, emergiu a figura de Fernando Collor de Mello como sendo o candidato mais bem identificado com a modernidade econômica e

política que esses veículos de imprensa, juntame nte com a influente TV Globo, defendiam.216

Collor era o governador do pequeno estado de Alagoas e pouco conhecido do eleitorado brasileiro. Sua juventude (tinha 40 anos quando foi eleito), seu estilo reconhecidamente arrojado e impetuoso de se comunicar contribuíram para a composição da imagem de um candidato modernizador e, portanto, capaz de mudar o país. Esperava-se que ele fosse capaz

de derrotar, nas eleições, os candidatos da esquerda, identificados como populistas – palavra

sempre utilizada como sinônimo de “demagogos” – e vinculados com o que era retratado

como anacronismo socialista, comparado sempre com a desagregação então em curso do mundo socialista.

Collor, diferentemente de Brizola e Lula, era considerado moderno, no sentido de que estava afinado com o discurso que emanava de Washington, segundo o qual não haveria futuro em um possível enfrentamento entre devedores e credores do sistema econômico internacional. Segundo essa perspectiva, cabia aos devedores ajustar suas economias ao pagamento dos valores exigidos, mediante a diminuição dos gastos do Estado. O governador

de Alagoas conquistou fama nacional como “caçador de marajás” por força de sua ação

enérgica na diminuição do quadro de funcionários públicos em seu estado.217 Uma vez eleito,

comemorou sua vitória com uma frase marcante: “o Brasil não trocou de presidente, trocou de

geração”.218

216 LAM OUNIER, op. c it., p. 29.

217 CA RNEIRO, Maria C. R. O Governo Collor – 1990-1994. São Paulo: Editora Três, 1999, p. 42.

218 Jornal de Brasília, 10/03/1990. Referênc ia ao discurso modernizador da campanha de Fernando Collor pode

ser encontrada em CERVO, Amado L. “Relações Internacionais do Brasil”. In: CERVO, Amado L. (org.) O Desafio Internacional: a política exterior do Brasil de 193 0 a nossos dias. Brasília: Ed. UnB, 1994, p. 52.

2.2 AS RELAÇÕES BILATERAIS APÓS AS ELEIÇÕES VENEZUELANA E