O trabalho de Nassif, Santos e Pereira (2008) traz uma análise empírica da indústria brasileira, considerando um período mais longo que os estudos anteriormente citados. Este trabalho nos permite de verificar se existem mudanças
122 substanciais na estrutura industrial brasileira do período da abertura comercial a meados da década de 2000. Tal análise ganha relevância dado a mudança de discurso político quanto a relação entre Estado e mercado na transição dos governos Fernando Henrique Cardoso para os governos Luiz Inácio da Silva. Se a abertura comercial ocorreu principalmente durante os governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso e estes foram marcados por um discurso de liberalização comercial, redução do Estado na economia e privatização, nos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, o discurso foi – no caso do governo Dilma é – pautado por um Estado indutor da economia, com política industrial e programas sociais voltados para geração de emprego e renda.
O estudo de Nassif, Santos e Pereira (2008) não nos permite apontar solidamente tendências de longo prazo, mas nos permite verificar se ocorreram mudanças substanciais na estrutura industrial brasileira e identificar se os setores que ganharam maior relevância foram os maiores geradores de emprego, de crescimento, ou de produtividade.
O estudo utiliza o novo modelo de geração de emprego do BNDES, reformulado pelo Grupo de Indústria e Competitividade do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O novo modelo possibilita atualizar a matriz insumo-produto e imprime uma sofisticação frente aos anteriores, uma vez que flexibiliza a hipótese de que todos os setores obtêm retornos constantes de escala. O novo modelo utilizada a desagregação da economia em 42 setores, estabelecendo 3 esferas de produção econômica que são: agropecuária, industrias e serviços.
Iniciando pelos grandes agregados setoriais, para um aumento simultâneo de demanda de R$ 10 milhões em cada setor, a agropecuária lidera o ranking quanto à capacidade potencial de gerar empregos (total de 1.054), seguida pelo setor de serviços (744) e pela indústria (619). Numa análise um pouco menos agregada, dos cinco segmentos com maior potencial gerador de mão de obra na economia brasileira, quatro estão situados no setor de serviços: os serviços prEstados às famílias (1º no ranking), o comércio (3º), os serviços prEstados às empresas (4º) e a administração
123
pública (5º). A agropecuária fica com a segunda colocação (NASSIF, SANTOS e PEREIRA, 2008, p. 162).
TABELA 4.4 – Estimativa dos empregos gerados na agropecuária, indústria e serviços em 2007, em resposta a aumentos na produção de R$ 10 milhões
(A preços médios do ano)
FONTE: Nassif, Santos e Pereira (2008)
Quando a análise se dá por setores mais agregados (como foi apresentado na tabela 4.4), verifica-se que o setor de serviços ocupa do primeiro ao sexto lugar, com exceção apenas do segundo lugar, que é ocupado pelo setor agropecuário. A indústria só aparece no sétimo lugar, com a indústria de transformação, com potencial de geração de 638 empregos totais.
GRÁFICO 4.16 – Estimativa d
em resposta a aum
FONTE: Nassif, Santos e Pereira (2008)
O estudo nos mostra que o novo modelo de geração de empregos com dados de 2007 e com uma metodologia mais sofisticada també
tradicionais como maiores geradores de emprego totais e diretos. O primeiro colocado em geração de emprego totais é um setor da indústria tradicional que, segundo o modelo com 42 setores
serviços prestados à família, com 1.261 empregos gerados e, logo após, vem o setor de agropecuária, com geração de 1.054 empregos
milhões na produção do respectivo setor
em geração de emprego são setores da indústria de transformação, que são os setores mais intensivos em tecnologia e possuidores de maior capacidade de inovação.
a dos empregos gerados na economia b
aumentos de produção de R$ 10 milhões (A preç
Nassif, Santos e Pereira (2008)
O estudo nos mostra que o novo modelo de geração de empregos com dados de 2007 e com uma metodologia mais sofisticada também apresenta os setores tradicionais como maiores geradores de emprego totais e diretos. O primeiro colocado em geração de emprego totais é um setor da indústria tradicional que, segundo o modelo com 42 setores geraria 1.496 empregos, seguido pelo setor de serviços prestados à família, com 1.261 empregos gerados e, logo após, vem o setor de agropecuária, com geração de 1.054 empregos dado um acréscimo de 10 milhões na produção do respectivo setor. Vale ressaltar que os 13 piores colocados go são setores da indústria de transformação, que são os setores mais intensivos em tecnologia e possuidores de maior capacidade de
124 brasileira em 2007,
reços médios do ano)
O estudo nos mostra que o novo modelo de geração de empregos com dados de m apresenta os setores tradicionais como maiores geradores de emprego totais e diretos. O primeiro colocado em geração de emprego totais é um setor da indústria tradicional que, geraria 1.496 empregos, seguido pelo setor de serviços prestados à família, com 1.261 empregos gerados e, logo após, vem o setor dado um acréscimo de 10 . Vale ressaltar que os 13 piores colocados go são setores da indústria de transformação, que são os setores mais intensivos em tecnologia e possuidores de maior capacidade de
125 Como já foi tratado anteriormente, a análise dos setores sem considerar a dinamicidade de setor com base na variação de produtividade é incapaz apontar para uma política industrial eficiente. Vejamos os gráficos abaixo, que relacionam a variação da produtividade entre os anos de 1994 e 2003:
126 GRÁFICO 4.17 – Produtividade do trabalho (valor adicionado/pessoal
ocupado na agropecuária, indústria e serviços em 1994 e 2003
(em R$ milhares constantes de 2003)
127 TABELA 4.5 – Produtividade do trabalho na Economia Brasileira em 2003
(em R$ milhares por trabalhador)
128 Como era de se esperar, os segmentos com maiores índices de produtividade são os mais intensivos em tecnologia. Esta observação é relevante, pois se choca com a constatação anterior sobre a geração de emprego e crescimento. Quando verificamos o gráfico que confronta os dados de produtividade de 1994 com 2003, verificamos que no setor industrial se concentra mais da metade da produtividade da economia brasileira. Nos dados de 1994 a indústria representava 52% da produtividade total da economia, em 2003 a importância da produtividade da indústria cresceu para 56%. Tanto o setor de serviços quanto o de agropecuária tiveram redução de produtividade entre 1994 e 2003.
Os setores com maior produtividade segundo a tabela acima foram os de utilidade pública, que em sua maioria representam monopólios naturais como produção e distribuição e energia elétrica, água, gás e saneamento básico. Estes dados sugerem que os sinais de mercado são importantes para elevação da produtividade, mas em hipótese alguma são suficientes para uma escalada permanente e duradoura de produtividade.
A tabela aponta que os setores com maior capacidade de geração de emprego, mesmo com os dados de 1994 a 2003, são os piores colocados quanto à produtividade, com isso tendem não sustentar crescimento e geração de emprego no longo prazo. Os melhores colocados em crescimento de produtividade são intensivos em capital e englobam setores com alta e média intensidade de tecnologia.
Podemos observar no gráfico abaixo as supostas dicotomias de crescimento/emprego e produtividade. A exemplo do trabalho de Najberg e Pereira (2004), o gráfico abaixo capta a dispersão dos setores da economia entre geração de emprego, crescimento econômico e produtividade. O gráfico expressa dados dinâmicos de 1994 a 2003, assim demonstra a variação do crescimento, ocupação e produtividade.
129 GRÁFICO 4.18 – Dinâmica do Valor adicionado, emprego e produtividade
na Economia Brasileira (1994-2003)
FONTE: a) Nassif, Santos e Pereira (2008) b) Dados do IBGE
O gráfico acima nos traz informações de grande relevância para os objetivos desta análise, uma vez que confronta a estrutura produtiva brasileira de dois períodos distintos. A distinção entre os dois momentos analisados estão no campo político, uma vez que o discurso voltado à liberdade do mercado passa a se voltar para ações de Estado, a outra distinção reside nas profundas transformações tecnológicas presenciadas no mundo, em um curto espaço de tempo.
Ainda que não se possam fazer constatações seguras de tendências de longo prazo, em um gráfico dinâmico podemos verificar não só a estrutura atual da indústria, mas também em que direção caminha a economia brasileira no tocante à geração de emprego, crescimento e produtividade. De certa forma, ainda que o Brasil não seja um país definidor da dinâmica do capitalismo mundial e não tenha
130 uma indústria marcada pela inovação, em um ambiente de concorrência mundial, entender as tendências da estrutura produtiva brasileira também é dar passos para entender as estruturas produtivas do capitalismo contemporâneo.
No que diz respeito a geração de emprego e crescimento, o ideal é que todos os setores ocupem o quadrante superior direito, que corresponde a um crescimento elevado, com elevada geração de emprego. Mas se pensarmos em evolução da indústria, com progresso tecnológico, competitividade e sustentação de crescimento e emprego no longo prazo, é necessário que os setores estratégicos estejam no quadrante superior direito, mas acima da reta inclinada, que indica a produtividade acima da média da economia.
O que podemos verificar no gráfico dinâmico é que o setor que conseguiu maior produtividade com geração de empregos foi o de Extração de Petróleo e Gás Natural, Carvão e Outros Combustíveis. Com taxa de produtividade, em 2003, de R$ 736,8 mil por trabalhador, este setor esteve como o mais bem colocado em todas as variáveis. Em seguida veio o setor de Comunicações, com R$ 163,6 mil por trabalhador de produtividade em 2003. O setor de vestuário aparece em seguida, nos quesitos produtividade e geração de emprego. O setor de Fabricação e Manutenção de Máquinas e Tratores não se destacou tanto em geração de crescimento, mas atingiu a mesmo marca que o setor de comunicações na geração de emprego, estando ainda acima da produtividade média. Na lista dos setores que mais geraram empregos com crescimento de produtividade vem administração pública; papel e gráfica e aluguel de imóveis. Quando observamos os setores que contribuíram mais com crescimento e com produtividade acima da média, verificamos o setor da indústria do açúcar, que apresentou produtividade, em 2003, na marca de R$ 88,6 mil por trabalhador; em seguida vem a indústria do café, com R$ 56,9 mil por trabalhador; siderurgia, com R$ 278,6 mil por trabalhador em 2003; Fabricação e Refino de Óleos Vegetais e de Gorduras para Alimentação, e ainda o setor de químicos diversos.
O que podemos constatar em tal analise dinâmica é que mesmo os setores tradicionais intensivos em trabalho tendem a absorver menos trabalhadores por
131 unidade de produto em função do progresso tecnológico. O gráfico demonstra que independente de estarmos verificando crescimento/produtividade ou emprego/produtividade, os setores que aparecem melhor localizados são os mais dinâmicos, que registram maiores saldos em progresso tecnológico. Assim se é possível apontar para alguma tendência no que diz respeito a crescimento, geração de emprego e variação de produtividade é que, ainda que os setores tradicionais se posicionem como maiores geradores de emprego e crescimento em números absolutos e em curto prazo, os setores mais dinâmicos, com maior conteúdo tecnológico possuem uma taxa de crescimento, nas três variáveis, maior que os setores tradicionais e com maior potencial à sustentabilidade.