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CHAPTER 2: NORMS AND FEMINIST CONTRIBUTIONS TO INTERNATIONAL

2.1 N ORMS IN I NTERNATIONAL R ELATIONS

Fig. 4. Imigrantes espanhóis na construção civil. São Paulo (SP), s.d.

Em 17 de setembro de 1913, pequena nota publicada no EDE informava da morte do menor espanhol Danuro Diego, de 12 anos, ajudante de pedreiro então trabalhando nas obras da nova Igreja da Consolação, provocada pela queda de uma altura de 22 metros. Na mesma edição, notícia do acidente sofrido por Joaquim Galvez, espanhol de 25 anos, carretero que recolhia terra em um barranco na Rua Bonita e que havia se ferido gravemente, soterrado pelo desbarrancamento do mesmo68. Outra edição e mais um acidente, desta feita uma queda de andaime, sofrida pelo espanhol Vicente Luis de 18 anos, na rua Teixeira Leite69.

Os acidentes na construção civil, e as mortes decorrentes, viraram matéria corriqueira nas primeiras edições do periódico examinadas e delas não escapavam nem mesmo os operários que trabalhavam na construção da Catedral da cidade de São Paulo, cuja escavação, para a colocação “dos pilares medindo 5 metros de profundidade e 3 de largura”, provocaria um deslizamento de terra em que morreriam mais 2 espanhóis, Florentino Barba, de Cáceres, 38 anos, casado, 2 filhos, residente na travessa Tibiriçá, 38 e Francisco Justo Lopez, de Huelva, 22

68 EDE 17.09.1913. Trad. da autora. 69 EDE 18.04.1913. Trad. da autora.

anos, solteiro, “deixando ao desamparo sua mãe, viúva e 4 irmãos”. No acidente também se feriram os espanhóis Juan Muñoz, Manuel Perez da Silva, Manuel Martins e Miguel Abrahán70.

A fatalidade da morte por acidente em construção civil também batera cedo à porta da família de Juan Garcia, o “ferro-velho”, e qualquer situação de perigo com a família fazia D. Pepa lembrar-se com angústia do corpo caído e da “brecha no crânio” do filho que despencara do andaime de um prédio na Rua Líbero Badaró71.

Entre 1900 e 1910, o número de prédios anualmente construídos na cidade atingia a marca de mil. Em 1910 já eram 32.914 prédios e em 1928, 60 mil72, quase o dobro em menos de 20 anos. Esse surto de novas construções, configurando o quadro de diversificação vivenciado pela metrópole, passou a demandar uma constelação de novos ofícios, materiais e serviços, alguns mais especializados que outros.

Em ambos podia-se notar com freqüência variável a presença de espanhóis. No conjunto dos declarantes do CGE apareceram de maneira crescente albañiles, canteros, cerrajeiros, delineantes, ebanistas, encanadores, herreros, hojalateros, lateros, marmolistas, pintores, torneros e yeseros, disputando um espaço na cidade que se agigantava, enquanto as páginas do EDE exibiam anúncios publicitários requisitando e ofertando mão-de-obra para o setor.

À cidade em construção acediam inumeráveis segmentos profissionais e milhares de homens sem qualificação, grupos de trabalhadores pobres, muitos vivendo miseravelmente, provocando o aumento da massa de imigrantes semi-empregados e desempregados, gerando maior excedente de mão-de-obra e, portanto, rebaixamento da remuneração. Alimentavam-se de tarefas eventuais e funções improvisadas e marginais, sem qualquer garantia ou segurança, para as quais também eram atraídos jovens de pouca idade.

Dentre os setores que despontarão, a indústria extrativa – extração de pedra, de areia e de caulim – conservou seu predomínio por muito tempo, ligada que estava à construção física da cidade (prédios, calçamento das ruas) e era previsível que a demanda por produtos empregados nesse setor aumentasse, na proporção do aceleramento das obras.

Era comum, nesse período, observar anúncios solicitando, por exemplo, indivíduos para trabalharem em pedreiras, na extração de pedras, trabalho pelo qual se pagava por metro cúbico, ou seja, por produção. Esses agenciadores tinham seus escritórios no centro da cidade. Juan

70 EDE 27.07.1914, matéria com imagem do local. Trad. da autora 71 MARX, G. Op. cit., p. 54.

Cardoso, espanhol com agência de contratação à Rua XV de Novembro, 27, 3º andar, admitia canteros (arrancadores de pedra) e tejeros (oleiros)73, basicamente para abastecer outro setor em alta com a febre das construções, o da indústria de minerais não metálicos, fabricante de telhas e tijolos.

Essas olarias ou cerâmicas funcionando no período compunham pequenas e médias unidades, algumas artesanais, em bairros periféricos da cidade, e preferentemente junto às margens dos rios, em geral às do Rio Tietê, na Penha74. Usualmente, pedia-se “camaradas tejeros”, ou, quando não, apenas tejeros e ladrilleros75, cuja preferência, explicitada nos anúncios, recaía sobre os orensanos ou alicantinos76.

Há indícios de que essa atividade era praticada preferentemente por galegos, e também no Interior do Estado. Na seção “Notas de viaje”, em matéria sobre a excursão promovida pela região de Monte Azul, o EDE faz menção à “Fazenda S. Juan”, de Juan Saborido – o qual aparece em foto com o uniforme de Capitão da Guarda Nacional77 – localizada na Estação Monte Verde. No inventário da propriedade, descrito pelo anúncio, há uma fábrica de telhas e ladrilhos, de nome “La Gallega” pertencente ao genro de Saborido, Sr. José Cemos78.

Na Capital, no período, já pontuavam grandes indústrias de cerâmica: a dos Irmãos Falchi, a Sacoman Frères, na Vila Prudente e a antiga Rodovalho, depois Melhoramentos, além da Companhia Mecânica Importadora, na Água Branca, embora a maior produção ainda estivesse a cargo das menores79.

Nestas pequenas unidades, o material recolhido, mistura de terra negra, turfosa, barro branco e areia, transportado pelos carroceiros em carroças, seguia para a amassadeira, movida à força animal ou a motor, antes de ir para as formas de tijolos, trabalho geralmente de mulheres e crianças. A secagem, processo posterior, podia durar de 10 a 15 dias, quando então entravam no forno, operação que demandava de 90 a 100 horas80.

73 EDE 13.02.1920.

74 EDE 07.04.1913.

75 Tejero é quem faz telhas e também tijolos (oleiro); ladrillero, quem faz ladrilhos. 76 EDE 22.05.1913.

77 Esse dado evidencia o poder político que detinha esse indivíduo na localidade. Dentre suas prerrogativas enquanto “capitão”, o sujeito poderia recomendar ao governo a nomeação dos majores, capitães, tenentes e alferes que, organizados em batalhões ou regimentos, constituíam “grupo de políticos e chefes eleitorais devotados”. Cf. AMERICANO, J. Op. cit., 1957, pp. 141 e ss. Trad. da autora.

78 “A fazenda possui 380 mil pés de café, com produção de 14 mil arrobas que, vendidas, alcançam a cifra de um milhar de libras esterlinas; já lhe ofereceram um milhão de pesetas pela fazenda; possui 45 casas de colonos; casas para depósitos; prédio para maquinário de limpeza e preparação do grão de café e de arroz; moinhos para farinha de milho”. EDE 22.05.1913. Trad. da autora.

79 LEME, M. Op. cit., 1984, p. 240. 80 AZEVEDO, A. Op. cit., 1945, p. 83.

Aproveitando-se da arrancada da cidade em seu salto de crescimento, profissionais autônomos estabeleciam-se por conta própria e tornavam-se importadores de segmentos afins: “José Gimenez, mecânico fabricante de modelos divisores para fábricas de mosaicos e ladrilhos. Importador de F. Guilhon & Fils, de Avignon, especialistas em máquinas e acessórios para industrias de cimento comprimido. Rua Paula Souza, 75”81.

Os arrancadores de pedra ou canteros (ou picapederos, conforme alguns registros) provinham majoritariamente da Região da Galícia e, especialmente, da cidade de Pontevedra. Dos 26 inscritos no CGE apenas na primeira década, 24 eram dessa Província82. Muitos outros canteros, também ingressados neste período encontravam-se domiciliados em Jundiaí, possivelmente atraídos pela ferrovia, para cuja manutenção eram requisitados. Notamos que havia uma intensa movimentação dessa categoria, especialmente para o norte do país, sobretudo para a cidade de Belém (PA), e queremos crer que, também neste caso, estivessem sendo atraídos pela ferrovia, no caso a Madeira-Mamoré. No ano de 1911 especificamente e em menor escala, observamos uma movimentação atípica em direção à cidade de Guaxupé (MG), de jovens canteros também naturais de Pontevedra, com idade média de 21 anos, declarando-se “canteros carabineros do 2º Destacamento”.

Seu número tendeu a crescer a cada década examinada, mantendo-se regular para todo o período considerado (1893-1922) revelando, no entanto, que os naturais de Pontevedra continuavam mantendo a hegemonia83.

Alguns canteros mais prestigiados chegaram a trabalhar com Ramos de Azevedo, caso de Antonio Rotea, casado e residente na Rua 25 de março, 10, que, tendo se dirigido ao Rio de Janeiro “por incumbência de seu patrão, lá teria desaparecido misteriosamente”. Essa matéria, com o título de “Desaparecido” circulou no EDE e, além de pontuar a preocupação da família que solicitava providências às autoridades espanholas daquela cidade, sugeria a hipótese de que “a polícia poderia tê-lo detido por equívoco”84.

Os albañiles ou pedreiros também compõem esse mesmo perfil de mão-de-obra rotativa e ocasional. Acorreram à cidade prontamente em proporção superior a muitas outras categorias no período, revelando, por sua concentração nos dois primeiros anos de existência do CGE, que talvez já estivessem nela domiciliados há mais tempo. Após esse boom inicial, a

81 EDE 23.07.1913. O cimentoé substituído pelo concreto armado para prédios com mais de quatro andares, a partir de 1920.

82 Relatório Access 10.

83 A respeito dos canteros, procedência, fluxos e destino no Brasil, ver: EIRAS ROEL, A. y REY CASTELAO, O. Op. cit., 1992, especialmente pp. 258 e ss.

84 EDE 24.04.1919. Ramos de Azevedo comandava um dos maiores escritórios de engenharia e arquitetura na cidade. Trad. da autora.

categoria oscilou com números menores, reaparecendo novamente com força depois da Primeira Guerra. Vinham indistintamente de diversas regiões da Espanha, porém, em maioria da Região Andaluza (43%); da Galícia (27%) e da Catalunha (7%), apresentando idade mínima de 17 e máxima de 62 anos85. A análise da planilha de dados cumulativos evidenciou grande incidência de pedreiros com registro anterior de jornaleros, sobretudo a partir do início da década de 1920, rubrica que alguns exibiram em diversos registros seqüenciais anteriores. Curiosamente, no entanto, quase a mesma proporção de pedreiros tornava, com periodicidade variável, a declarar-se jornalero, indício da natureza rotativa, descontínua e instável da atividade para a qual havia um exército de homens disponíveis.

E não era apenas a mão-de-obra desqualificada que se via atraída para a atividade. Foi observada a ocorrência de indivíduos com ofício, temporariamente exercendo a atividade de pedreiro, e, nesse particular, o caso de José Solé Valles, de Tarragona, é exemplar. Localizamos seu primeiro registro em 1903, informando ser pedreiro. No registro seguinte, realizado em 1906, contudo, já se declarava encuadernador, profissão de seu irmão, Martín, também inscrito e que, em 1913, inauguraria um Taller Gráfico – aliás, em concorrido banquete oferecido à comunidade espanhola86 –, no qual José Solé passaria a trabalhar.

Artigo publicado no Fanfulla, jornal da colônia italiana, informava em 1911 que, levando-se em conta a estação das chuvas e das festas, o pedreiro trabalhava em média 20 dias por mês, perfazendo 220 dias por ano, recebendo um salário de 1.320$000 (hum conto, trezentos e vinte mil réis), valor que lhe facultava gastar consigo e com sua família, geralmente numerosa, a irrisória quantia de 3$616 ao dia87. Esse aspecto, o da escassa remuneração, provocava notável mobilidade entre esses homens.

O ramo da construção civil revolucionou o mercado de trabalho da cidade, com o leque de novas ocupações e atividades que passaram a orbitar à sua volta, abrindo novas perspectivas e oportunidades para o estabelecimento de pequenas oficinas de artesãos, ao lado das indústrias que progressivamente se estabeleciam.

É o caso da enorme expansão da indústria metalúrgica para a fabricação de materiais e componentes, como pregos, materiais de encanamento, artigos de serralheria, etc. e esta foi a oportunidade encontrada para pequenos serralheiros, geralmente residentes no bairro do Brás

85 Relatório Access 19.

86 O Taller Gráfico realizava: “serviços de encadernação, papéis pautados, fábrica de livros em branco, material escolar, importação de papéis para imprensa e escritório” e estava situado na Avenida Rangel Pestana, 244. EDE 10.11.1913.

instalarem suas pequenas oficinas de serralheria para a “fabricação de ferramentas”, as quais progressivamente iam se ampliando e necessitavam de “camaradas aprendizes”88.

Oficinas de pintura também se estabeleciam: “executa-se qualquer trabalho relativo ao ramo de pintordecorador; contratos para pintura total ou parcial de edifícios e estabelecimentos comerciais ou industriais, anúncios, letreiros de lojas, etc”89. Outras funções ou atividades paralelas também foram impulsionadas, caso do construtor-empreiteiro. Negócio próspero, a empreita, uma espécie de “terceirização” atual, envolvia a contratação de pessoal e a execução do contrato da obra:

Antonio Moral, Construtor – Encarrega-se da construção de edifícios e de fachadas; reforma de edifícios, seja por contrato ou por administração; dispõe de um elevado número de operários para levar a cabo as obras que se encomendem; também executa toda classe de reformas. Tratar em seu escritório: Rua Piratininga, 26-A ou em sua residência, Rua da Moóca, 77. Também informam no Café América90.

Apenas 6 meses depois, a empresa expandia-se. Em sociedade com um conterrâneo, a oportunidade para ampliar o raio de ação, instalado em local prestigiado e investindo-se de novas atribuições: “Antonio Moral e Rafael Dominguez. Construtores, Aprovação de Plantas na Inspetoria de Higiene e na Câmara Municipal. Travessa do Comércio, 2 – 2º piso – Palacete União Mútua”91.

Empreiteiros ou constructores de obras, como se declaravam no CGE, esses indivíduos já estavam estabelecidos na cidade desde 1893 e foi exatamente nos dois primeiros anos de sua existência que observamos a maioria dos seus registros92.

Circulavam pelos países do cone sul, e na primeira década do Novecentos, podiam ser percebidos refluindo da Argentina, buscando melhores oportunidades: “Carpinteiro recém- chegado da Argentina, com muita prática de planos (projetos) [onde] trabalhou como contratista (empreiteiro), possuindo certificados. Dirigir-se a Manuel Porto, Hotel dos Viajantes, Rua da Conceição, 86”93.

Filhos de espanhóis, pertencentes às famílias mais abastadas e que tiveram oportunidade de cursar a Escola Politécnica94, à época estabeleciam-se em ramo correlato:

88 EDE 18.06.1912. Esta mencionada localizava-se na Rua Martin Buchard, 31. 89 EDE 03.11.1920. De Antonio Garcia. Rua Maestro Cardim, 25. Trad. da autora. 90 EDE 14.08.1913. Trad. da autora.

91 EDE 11.02.1914. Trad. da autora. 92 LRC 1893 e 1894.

93 EDE 28.11.1913. Trad. da autora.

94 Existia desde 1893, especialmente com os cursos de Engenharia Civil. In: LEME, M. Op. cit., 1984, p. 251.

“Escritório Técnico de Engenharia. Sociedade constituída por engenheiros e arquitetos. Diretor- chefe: Héctor Eiras Garcia, engenheiro civil. Rua Brigadeiro Tobias,194”95.

Segmento afim, a representação comercial de firmas e casas comerciais estrangeiras, fabricantes de diversos materiais e produtos, apresentava-se como garantia de excelente negócio, ao qual aderiram os dois filhos de Eiras Garcia com um sócio, Luis Mestres, constituindo a Hermanos Eiras Garcia & Mestres, Rua Brigadeiro Tobias, 93, tendo como representadas, em maioria empresas americanas, as seguintes96: de Indianápolis, a The Reilly Co., fábrica das pinturas Weatherwax, para madeira, ferro, cimento e ladrilho; de New York, a The Williams Patent Cruscher and Pulverizer Co., fábrica de máquinas de quebrar e moer carvão, material de cimento, argila, materiais fibrosos, pedras, etc. e a The Specialty Device Company, fabricantes das brocas (perfuratriz) marca Standar (sic) para abrir poços e para instalação de postes. De Cincinati, Ohio, The Edwards Manufacturing Co., fábrica de materiais de aço estampado para tetos e paredes exteriores, ornamentos, material galvanizado, estampado e pintado e da Filadélfia, fábricas de anilinas e corantes e produtos químicos.

Ao crescimento vinculado à expansão física da cidade, percebia-se paralelamente um florescimento do comércio de materiais de construção, elétrico e de ferragens: “Fernandez & Caballero. Grande depósito de materiais de construção, lenha e carvão. Rua São Caetano, 213. Vendas a varejo e atacado”.

Tais depósitos e lojas tiveram um crescimento enorme. Eram apenas 20, até 1914, sendo que, apenas 15 anos depois, somavam 178. Ao lado desses, surge um novo tipo de negócio na cidade, o depósito para a venda de materiais usados “assoalhos, portas, janelas, venezianas, vigas, caibros, ripas, banheiras, fogões, pias, latrinas, etc. Al. Glete, 2”97.

95 EDE 07.10.1919. Trad. da autora.

96 EDE 21.01.1919 e 08.11.1919. Trad. da autora. 97 EDE 26.06.1919. Trad. da autora.