10. DESKRIPTIV STATISTIKK OM NUF
10.1 N ÆRINGSFORDELING
A nosso ver, definir emoção não nos parece uma tarefa fácil. Não obstante, de início, antecipamos que, de um ponto de vista científico, adotamos a concepção de que as emoções são conceitos abstratos, os quais estão ligados ao pensamento e às experiências com nossos corpos. Assim, lembramos que essa visão é regulada por Kövecses (2005), cujas contribuições se mostraram basilares para a nossa investigação.
Evidentemente, essas observações não são compartilhadas por toda a comunidade científica, posto que há divergência entre os teóricos, bem como entre os leigos. Desse modo, são percepções muito distantes do senso comum. Skinner (2003, p. 177), por sua vez, pontua que o leigo se encontra em vantagem, pois é capaz de “identificar e classificar as emoções não apenas com facilidade, mas também com coerência considerável.” Destacamos que, do nosso ponto de vista, um leigo tem êxito nessa tarefa, já que está exercendo o seu papel, isto é, o de um indivíduo do senso comum. Entretanto, no discurso científico, diríamos que o estudo da emoção necessita de evidências mais precisas.
Ainda tecendo considerações acerca de uma visão do senso comum e contrapondo-a com o olhar científico, para o senso comum, a emoção está extremamente associada a sentimento. No entanto, emoção não envolve exclusivamente sentimento, segundo a perspectiva adotada, conforme explicitaremos mais adiante. Neste momento, cabe mencionar, em consonância com Enfield e Wierzbicka (2002), que o material linguístico empregado na descrição das emoções é fornecido pelos falantes. Nas palavras dos autores, “a questão metodológica mais importante no estudo das emoções é a língua; pelo modo como as pessoas conversam, temos acesso às 'descrições populares' das emoções.” (ENFIELD; WIERZBICKA, p. 1, tradução nossa)44.
O estudo das emoções é antigo, data da filosofia de Platão e de Aristóteles. Platão desmerecia a emoção, ao passo que era valorizada por Aristóteles, para quem representava uma das mais interessantes facetas da existência. Depois de Aristóteles, a conceptualização de emoção de Descartes foi predominante até o início das teorias psicológicas geradas no final do século passado. Com Descartes, a noção de emoção era essencialmente cognitiva, e ele propôs que a emoção pertencia à alma, a qual era vista como um desdobramento da mente (STRONGMAN, 2003). Assinalamos que o dualismo era natural para o fazer científico de Descartes; o dualismo residia, por exemplo, entre corpo e mente e entre corpo e alma. No
44 The most important methodological issue in the study of emotions is language, for the ways people talk give us access to "folk descriptions" of the emotions.
tocante ao dualismo entre corpo e alma, a pesquisadora Wierzbicka (1992) explica que, segundo a teoria popular, o ser humano teria uma estrutura dualística. Para essa teoria, “[...] uma pessoa tem duas partes – uma que pode ser vista (o corpo) e uma que não pode ser vista (a alma).” (WIERZBICKA, 1992, p. 35, tradução nossa)45. Assim, Wierzbicka (1992) argumenta que existia esse dualismo, mas ele sofreu uma mudança à medida que a mente se sobrepôs à alma. É, pois, dessa sobreposição que seria decorrente o dualismo corpo e mente.
Além desses estudiosos, Damasio (1999) acrescenta que Charles Darwin, Willian James e Sigmund Freud colaboraram para o desenvolvimento do estudo científico da emoção, escrevendo sobre os seus diferentes aspectos no final do século XIX. Com o trabalho realizado por eles, a emoção passou a ter um lugar privilegiado no discurso científico. Contudo, Damasio (1999) explica ainda que as propostas desses autores não tiveram efeitos sólidos devido principalmente ao vigor da visão romântica. Para os românticos, o lugar da emoção era o corpo, enquanto a razão cabia ao cérebro. Foi somente nas últimas décadas do século XX, com o desenvolvimento das ciências cognitivas, que a emoção passou a ter o seu lugar de destaque (DAMASIO, 1999).
Dentre os investigadores, gostaríamos de colocar em foco, inicialmente, o trabalho de Johnson-Laird e Oatley (1992). A pesquisa deles parte da hipótese de que haveria emoções básicas e de que a existência dessas emoções explicaria problemas enfrentados pelo sistema cognitivo. Emoções, de acordo com a teoria de Johnson-Laird e Oatley (1992, p. 209, tradução nossa)46, “[...] são o resultado de avaliações cognitivas grosseiras que provocam sinais internos e externos e conjuntos de planos de ação correspondentes. São emoções, pois têm causas cognitivas, ao invés de fisiológicas.” Notamos, nessa definição, a presença do aspecto cognitivo. De fato, Johnson-Laird e Oatley (1992) propõem um conjunto de emoções básicas, em que figuram: felicidade, tristeza, raiva, medo, desgosto e talvez desejo.
Tomkins (2008) elabora uma classificação das emoções, categorizando-as em positivas, negativas e neutras (resting). As positivas incluem interesse-excitação, prazer- alegria; as emoções negativas, aflição-angústia, medo-terror, vergonha-humilhação, desprezo- desgosto, raiva-fúria; por último, as emoções neutras abrangem surpresa-sobressalto. Para esse especialista, emoção está relacionada à memória de experiências que afetam as pessoas. Embora Tomkins (2008) tenha essa posição e realize a classificação supra-apresentada, reconhece que não há acordo geral sobre o que afeta as emoções.
45 [...] a person has two parts-one that can be seen (the body) and one that cannot be seen (the soul).
46 […] are a result of coarse cognitive evaluations that elicit internal and external signals and corresponding suites of action plans. They are emotions because they have cognitive rather than physiological causes.
Ainda sobre uma classificação das emoções, à semelhança da categorização proposta por Tomkins (2008), Kövecses (2000) preconiza que as emoções podem ter uma valoração positiva ou negativa, o que, para ele, é uma classificação mais geral. O autor acrescenta que a classificação pode ser determinada pelo funcionamento ou não das emoções.
Sem dúvida, há outras teorias e definições que realizam uma investigação sobre as emoções. Todavia, assumimos as concepções que as cercam desenvolvidas por Lakoff (1987), por Kövecses (2000), por Enfield e Wierzbicka (2002) como fundamentais para esta pesquisa, uma vez que nos parecem ser mais adequadas aos nossos propósitos e às características do nosso material, conforme será detalhado na sequência. Nessa linha, Lakoff (1987, p. 377,
tradução nossa)47 conceitua emoções da seguinte forma:
Emoções são frequentemente vistas como sentimentos desprovidos de qualquer conteúdo conceptual. Porém, além de sentir o que sentimos, também impomos um entendimento sobre aquilo que sentimos. Quando agimos sob nossas emoções, agimos não só em função de sentimento, mas também em função dessa compreensão. Conceitos emocionais são, portanto, exemplos muito claros de conceitos que são abstratos e ainda têm uma base evidente na experiência corporal.
Nesses termos, Lakoff (1987) contesta a visão de que as emoções não teriam qualquer ligação com os pensamentos. Além disso, esse semanticista concebe os conceitos emocionais como exemplos claros de abstrações e, ao afirmar que eles têm uma base corporal evidente, esse autor é coerente com a hipótese que defende, dado que a obra em discussão pertence à geração da mente corporalizada, momento no qual a base experiencialista é uma das suas características. Quanto à estrutura conceptual das emoções, Lakoff considera-a extremamente complexa e que origina uma grande variedade de inferências não triviais.
Para Kövecses (2000), por outro lado, as emoções englobam subcategorizações conjuntas, que incluem pensamentos, estados, eventos, ações e paixões. Do nosso ponto de vista, a definição oferecida por ele é certamente abrangente, mas, concomitantemente, é clara. Em razão disso, é essencialmente nessa definição que estamos enfocando a referência às emoções. Ademais, Enfield e Wierzbicka (2002) convergem para o posicionamento de Kövecses (2000), visto que, para esses pesquisadores, emoções envolvem também um conjunto de processos. Nas palavras de Enfield e de Wierzbicka (2002, p. 2, tradução
47 Emotions are often viewed as feelings devoid of any conceptual content. But in addition to feeling what we feel, we also impose an understanding on what it is that we feel. When we act on our emotions, we act not only on the basis of feeling but also on the basis of that understanding. Emotional concepts are thus very clear examples of concepts that are abstract and yet have an obvious basis in bodily experience.
nossa)48, as “emoções’ combinam sentimentos, pensamentos e eventos/processos corporais de formas complexas.” Diante dessas visões, concebemos que a noção de emoção não está reduzida a “sentimentos”. Wierzbicka (1999, p. 4), a fim de diferenciar emoção de sentimento, elucida que o conceito de “sentimento” é universal, enquanto o conceito de “emoção” estaria ligado à cultura.
De modo geral, levando em conta as três últimas definições de emoção expostas, a posição assumida neste trabalho se aproxima delas, principalmente, porque, avaliamos que desconsideram uma possível dicotomia entre razão e emoção. Ao contrário, evocam uma aliança entre emoção e pensamento, além de a emoção estar condicionada a um conjunto de processos complexos e à nossa experiência corporal.
As emoções estão arraigadas naquilo que é de mais abstrato, aos processos mais intangíveis das pessoas, como Kövecses (2005) diz, e são compreendidas, geralmente, por um processo metafórico, em que ocorre uma transferência de sentidos. Devido ao fato de as emoções estarem dentro de um domínio mais abstrato, entendemos que nunca são comunicadas diretamente, porém, de algum modo, precisam se tornar acessíveis a outras pessoas. Nesse âmbito, as expressões linguísticas cumprem essa função das quais as unidades fraseológicas, mais especificamente as expressões idiomáticas, são exemplos clássicos reconhecidos, dada a sua grande carga de expressividade. Desse modo, torna-se possível explicar as emoções nas mais diferentes línguas.
Acreditamos, contudo, que seja necessário refinar melhor como é feita a distinção entre as emoções nesta investigação. Para tanto, problematizamos, na sequência, a forma como as emoções são expressas para alguns autores.