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A fim de buscar respostas para o questionamento central desta tese “Que diretrizes podem ser formuladas para a produção autônoma do espaço pelos grupos de trabalho associado?”, este trabalho acadêmico foi estruturado em sete capítulos, sendo o primeiro referente à apresentação do objeto de pesquisa, os métodos empregados e sua estrutura.

O segundo capítulo discute o contexto social que originou o espaço de trabalho, ou o espaço exclusivo para o desempenho de atividades produtivistas. O objetivo é demonstrar a dependência que a esfera da produção tem do universo da reprodução e, notadamente, como essa dependência é obliterada e reforçada pelas relações patriarcais. Em um segundo momento, investigo como o processo de trabalho, e a sociedade são organizados segundo as teorias de organização racional do trabalho, e quais os efeitos sobre a produção do espaço. No final do capítulo, apresento a arquitetura inspirada na ideologia da máquina e os

principais aspectos que direcionam as decisões dos técnicos especialistas. De modo geral, o espaço de trabalho é concebido pelos arquitetos privilegiando as atividades produtivas que contribuem para a agregação de maior valor ao produto, considerando o trabalhador “padrão” – indivíduo jovem do sexo masculino, mediante a prática projetual.

O terceiro capítulo aborda o conceito de “trabalho associado” e as vertentes de pesquisa em Economia Solidária presentes no Brasil. Após indicar em qual vertente esta tese se enquadra – vertente da Economia Popular – complemento a discussão sobre os mecanismos de permanência de relações de opressão entre classes sociais, a partir das ideias do sociólogo Jessé Souza (2009; 2010). Mediante o marco teórico de Tecnologia Social, pesquiso as bases que fundamentam o desenvolvimento de uma tecnologia que promova a autonomia dos coletivos de trabalho. Posteriormente investigo as propostas de produção do espaço que contemplam práticas não opressoras e que, portanto, configuram tentativas de produção de um novo conhecimento no campo da arquitetura. A partir da crítica às propostas ditas participacionistas, e tendo em mente as propostas de autonomia coletiva, analiso as práticas de arquitetos engajados com os grupos de trabalho associado e com sua produção do espaço. Concluo que os recursos e aparatos empregados pelos arquitetos reproduzem as relações sociais amparadas na divisão do trabalho, na propriedade privada e na mercantilização do espaço – que, segundo Mészáros (2006 [1970]), representam instrumentalidades capitalistas que subordinam a esfera da reprodução à acumulação de capital.

O quarto capítulo apresenta os estudos de caso de grupos de trabalho associado, os quais denomino “coletivos de trabalho”. Analiso as relações sociais de produção, a organização do trabalho, as relações de propriedade, as forças produtivas empregadas na produção do espaço, a liderança e sua representatividade, os processos de decisão, os conflitos negociados no grupo e os recursos utilizados para a tomada de decisão sobre a organização espacial. Para tanto foram escolhidos dois grupos localizados na região da Pampulha: um de artesanato e outro de triadores de resíduos sólidos urbanos, que se enquadram na economia popular. Visando ampliar o escopo da pesquisa para grupos com consciência e organização política, à pesquisa de campo foi acrescentada uma associação de bordadeiras e uma de costureiras. Nos estudos de caso, optou-se pela coleta e análise qualitativa dos dados, quando foi empregada a técnica de entrevista narrativa.

O quinto capítulo analisa os principais achados da pesquisa de campo a partir das contradições que os coletivos de trabalho enfrentam para autoproduzir o espaço. A união versus a separação entre moradia e trabalho revela a vulnerabilidade biológica e social a

que os membros associados estão submetidos. O padrão reprodutivista versus o padrão produtivista de produção do espaço indica a importância do predomínio da racionalidade reprodutivista sobre a produtivista. O espaço político versus o espaço simbólico demonstra o perigo de transformar o espaço como “meio de reprodução e produção” em “mercadoria”. A produção autônoma do espaço versus a produção heterônoma do espaço ou a autoprodução mostra a relevância do acesso ao conhecimento pelos coletivos para a tomada de decisão consciente. A luta pela política versus a luta pela sobrevivência evidencia a necessidade de superar a alienação, de modo que o indivíduo isolado se transforme em indivíduo social. Essas contradições somente são superadas pelos coletivos de trabalho quando são discutidas entre eles, nos espaços políticos, cuja função é agregar os membros para o debate e não centralizá-los para o consenso.

O sexto capítulo apresenta as bases conceituais para as práticas de arquitetos e outros técnicos ocupados com a emancipação dos coletivos de trabalho. Retomo as contribuições dos conceitos de pobreza política, da precedência da reprodução sobre a produção, do cotidiano, e da autonomia coletiva para a produção autônoma do espaço pelos coletivos de trabalho. Após discutir os arranjos sócio-espaciais elaborados pelos coletivos e identificados na pesquisa de campo, finalizo o capítulo recomendando aos técnicos especialistas que atuem no desenvolvimento de instrumentos que potencializem o modo como os coletivos produzem seus espaços. Parafraseando Baltazar e Kapp (2006), essa instrumentalidade fundamenta-se no resgate da autonomia do usuário como produtor do espaço e do arquiteto como designer de interfaces e mediações, instrumentalidades que ampliam as possibilidades de atuação do arquiteto para além da ferramenta heterônoma do projeto.

O sétimo capítulo indica algumas recomendações para a produção do espaço pelos coletivos de trabalho. De modo a potencializar os traços de autonomia e a superar as relações opressoras de gênero e de trabalho, os técnicos ocupados com os coletivos devem estar atentos aos arranjos sócio-espaciais elaborados pelos coletivos para transpor os conflitos advindos da separação entre moradia e trabalho. Quanto maior o espaço político onde os membros dos coletivos de trabalho atuam ativamente na deliberação de normas que garantem a subordinação da produção à reprodução, maior é a possibilidade de existência de relações não hierárquicas entre seus membros.