A decisão de realizar um estudo que tem como objetivo geral caracterizar as interações discursivas que se estabelecem em aulas de Ciências, buscando possíveis relações com a construção do conhecimento pelos alunos, envolve uma série de implicações relativas aos procedimentos de coleta e análise de dados e por isso mesmo, relativas à definição de uma perspectiva metodológica adequada.
Isto porque, ao olharmos para dentro das salas de aulas adotando uma perspectiva sócio-interacionista, tomamos como unidade de análise o movimento discursivo que se realiza em suas condições concretas de produção a fim de encontrar elementos que nos ajudem a compreender a relação entre o discurso e o processo de (re-)construção do conhecimento. Este olhar, orientado, em particular, pelo princípio da dialogia de Bakhtin, envolve focalizar os enunciados
interlocutores. Por isso mesmo, acreditamos que é neste contexto das interlocuções que podemos apreender possíveis indícios do processo de elaboração conceitual dos alunos. Além disso, nos interessa caracterizar as concepções dos alunos antes e ao final do processo pedagógico, a fim de identificar as concepções e (re-)elaborações conceituais, constituindo-se em uma base de dados que pode ser relacionadas aos movimentos discursivos realizados na dinâmica da sala de aula.
Neste sentido, consideramos que a abordagem metodológica qualitativa se revela a mais coerente e conveniente face a natureza e objetivos desse estudo. A seguir, apresentamos as características principais da abordagem aqui utilizada.
Rompendo com os pressupostos do paradigma positivista, que acredita que os fenômenos podem ser fragmentados e explicados a partir de uma relação de causa e efeito, o referencial metodológico qualitativo reconhece a realidade como uma construção social onde os fenômenos analisados podem ser “compreendidos dentro de uma perspectiva holística, que leve em consideração os componentes de uma dada situação em suas interações e influências recíprocas.” (Alves, 1991: 55). Pode se dizer ainda, que a perspectiva qualitativa busca alcançar a completude e complexidade dos fenômenos que estão imersos em um contexto social, histórico e dialético. Referendando estes aspectos Minayo (1994:10), assim caracteriza a perspectiva qualitativa:
“As Metodologias de Pesquisa Qualitativas [são] entendidas como aquelas capazes de incorporar a questão do SIGNIFICADO e da INTENCIONALIDADE como inerentes aos atos, às relações, e às estruturas sociais, sendo essas últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação, como construções humanas significativas.”
Dentre as várias características básicas da pesquisa qualitativa apontadas por Lüdke & André (1986:11/12), vale destacar aquelas relevantes para o nosso estudo:
”a) A pesquisa qualitativa tem o ambiente “natural” como fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumental;
b) Os dados coletados são predominantemente descritivos.”
Sobre os estudos qualitativos, interessa destacar, que estes variam de acordo com o grau de estruturação. Alves (op.cit.) chama a atenção sobre a divergência existente entre os pesquisadores qualitativos em relação a esta característica: enquanto alguns defendem um mínimo de estruturação da pesquisa, outros consideram a necessidade de um maior grau de estruturação.
Para sustentar esta última posição, encontram-se argumentos que consideram que o pesquisador geralmente, tem algumas questões presentes em sua mente, além de um referencial teórico, ainda que amplo, que orientam a seleção de um determinado problema e a coleta e análise de dados.
por questões e um referencial teórico que, à medida que o estudo foi se desenvolvendo, foram sendo ajustados, tornando-se mais diretos e específicos.
Dentre as várias formas que a pesquisa qualitativa pode assumir, optamos pelo estudo de caso, enquanto modalidade que trata de uma situação “natural”, sem a manipulação intencional do pesquisador e que tem por objetivo descrever a realidade de maneira complexa e contextualizada.
Sobre o estudo de caso, Lüdke & André (op.cit.,17) comentam que:
“O estudo de caso é o estudo de um caso, seja ele simples e específico (...) O caso é sempre bem delimitado, devendo ter seus contornos claramente definidos no desenrolar do estudo. O caso pode ser similar a outros, mas é ao mesmo tempo distinto, pois tem um interesse próprio, singular. Segundo Goode e Hatt (1986), o caso se destaca por se constituir numa unidade dentro de um sistema mais amplo. O interesse, portanto, incide naquilo que ele tem de único, de particular, mesmo que posteriormente venham a ficar evidentes certas semelhanças com outros casos ou situações. Quando queremos estudar algo singular, que tenha valor em si mesmo, devemos escolher o estudo de caso.”
As autoras apontam ainda, as características básicas relacionadas aos estudos de caso e que consideramos pertinente, destacar aquelas relevantes à nossa investigação. Assim, os estudos de caso a) enfatizam a “interpretação em contexto”; b) buscam retratar a realidade de forma completa e profunda; c) utilizam uma variedade de fontes de informação; d) revelam experiência vicária e permitem generalizações naturalísticas; e) procuram representar as diferentes e às vezes conflitantes pontos de vista presentes numa situação social; f) utilizam uma linguagem e uma forma mais acessíveis do que os outros relatórios de pesquisa.
Desta forma, os estudos de caso se revelam vantajosos, uma vez que os elementos que constituem o foco da pesquisa (eventos, sujeitos, ações, lugares) são tratados como unidade em uma estreita relação que é social, histórica e cultural. Por isso mesmo, em nossa investigação, optamos por realizar um estudo qualitativo que focaliza duas salas de aulas de Ciências e Biologia do curso regular noturno. Para tanto recorremos ao estudo de caso de duas unidades de ensino.