A perspectiva de Vygotsky tem sido freqüentemente relacionado e complementado pelo princípio da dialogia proposto por Bakhtin. Smolka (1997:42) considera que, apesar de ter
“apontado a natureza fundamentalmente social e dialógica das formas de linguagem, Vygotsky não chega a formular explicitamente esta DIALOGIA INTERNALIZADA, ou seja, ele não analisa o movimento dialógico na atividade mental individual (...)”
Bakhtin (1992) começa por dizer que todo o signo é ideológico e de natureza social, que não representa apenas uma parte da realidade, mas sim que reflete e refrata outras dimensões desta mesma realidade. Considera então que consciência e atividade mental não podem existir sem expressão semiótica, o que
“ (...) a própria consciência só pode emergir e se afirmar como realidade mediante a encarnação material em signos.”(p.33)
“A lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica, da interação semiótica de um grupo social.”(p.36) “Se a atividade mental tem uma significação, se ela é apenas uma realidade isolada (...) então obrigatoriamente, a atividade mental deve manifestar-se no terreno semiótico.”(p.51)
Assim para Bakhtin, a palavra é o instrumento semiótico privilegiado pois é dotada de propriedades que fazem dela o objeto fundamental do estudo das ideologias. Segundo Bakhtin (op.cit.,36):
“A realidade toda da palavra é absorvida por sua função de signo. A palavra não comporta nada que não esteja ligado a essa função de signo, nada que não tenha sido gerado por ela. A palavra é o modo mais puro e sensível de relação social.”
A palavra acompanha toda criação ideológica. Todas as manifestações da criação ideológica – todos os signos não-verbais – apesar de não poderem ser substituídos por palavras, “banham-se no discurso e não podem ser nem totalmente separadas dele (...) A palavra está presente em todos os atos de compreensão e em todos os atos de interpretação.”(Bakhtin, op.cit., 38).
Para Bakhtin, os sentidos de uma palavra não existem em si mesmos, prontos e acabados, mas são elaborados e determinados nas/pelas enunciações concretas produzidas pelos sujeitos, onde as condições de produção são constitutivas do sentido do enunciado. Em outras palavras, Bakhtin (op.cit., 113) entende que:
“A situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação.”
Assim é que, em Bakhtin, os enunciados representam “a verdadeira unidade da comunicação verbal.” , à medida que A língua penetra na vida através dos enunciados concretos que a realizam, e é também através dos enunciados concretos que a vida penetra na língua.” Bakhtin (1997:282).
A enunciação representa, então, apenas uma fração do processo de interação verbal que se realiza de forma ininterrupta e contínua entre os sujeitos. Por isso mesmo Bakhtin (1992:123) destaca ainda que:
“A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas lingüísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação
verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações.
A interação verbal constitui assim a realidade da língua”
Bakhtin encara como diálogo as diferentes formas de interação verbal. Assim é que o conceito de dialogicidade em sua perspectiva não se limita ao “diálogo real”, aquele que se realiza face a face, e que é, sem dúvida, uma das formas mais simples e clássicas da comunicação verbal, quando a “alternância dos sujeitos falantes”, que indica as fronteiras dos enunciados, apresenta-se com excepcional clareza. Considera também, que obras mais complexas como um livro, e até mesmo as enunciações de um falante individual, podem revelar a sua natureza dialógica, evidenciando uma pluralidade de vozes. Isto porque:
“a experiência verbal do homem toma forma e evolui sob o efeito da interação contínua e permanente com os enunciados individuais do outro. É uma experiência que se pode, em certa medida, definir como um processo de
assimilação, mais ou menos criativo, das palavras do outro
(e não das palavras da língua). Nossa fala, isto é, nossos enunciados (que incluem as obras literárias) estão repletos de palavras dos outros, caracterizadas, em graus variáveis, pela alteridade ou pela assimilação, caracterizadas, também em graus variáveis, por um emprego consciente e decalcado. As palavras dos outros introduzem sua própria expressividade, seu tom valorativo, que assimilamos, reestruturamos, modificamos.” (Bakhtin,1997:314)
Para Bakhtin a dialogia implica sempre em uma multiplicidade de vozes daí o caráter polifônico palavra. A enunciação é um produto da interação entre indivíduos socialmente organizados, “procede de alguém” e se “dirige para alguém”; há, portanto, sempre um auditório social e uma situação social, orientando as enunciações dos interlocutores.
Se a enunciação é o produto de uma interação social entre indivíduos, a palavra, portanto, não é propriedade exclusiva do locutor, mas faz parte de “um território comum do locutor e do interlocutor” (p.113), é então, ao mesmo tempo “nossa” e dos “outros”. Nesse processo constante de interação de vozes, revela- se também, a multiplicidade de sentidos/significados possíveis atribuídos à palavra, daí o seu caráter polissêmico.
Nesse movimento polifônico e polissêmico estabelece-se um jogo, onde diferentes concepções, valores e interesses são confrontados ou aproximados e esta relação só é possível quando circunscrita nos limites de uma mesma comunidade semiótica. Nesse sentido, é que a elaboração dos
sentidos/significados se desenvolve, por sua vez, através de um processo necessário de negociação que é dialógico/dialético, onde a palavra do falante provoca uma contra-palavra do ouvinte.
Na perspectiva bakhtiniana, o ouvinte apresenta sempre uma atitude “responsiva”, pois “ele concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa, adapta, apronta-se para executar, etc.” (Bakhtin, 1997:290). Enfim, ele apreende a enunciação do outro que se realiza no quadro do seu discurso interior, ou seja, as “palavras alheias” são incorporadas e confrontadas com as próprias palavras já elaboradas pelo sujeito provocando as contra-palavras. Por isso mesmo a palavra na linguagem é ao mesmo tempo “nossa” e dos “outros”.
Pensar o processo de (re)construção do conhecimento, a partir do princípio da dialogia proposto por Bakhtin, implica, portanto, em concebê-lo como encontro/confronto de vozes sob condições de interação, ou seja, como um processo discursivo.
Gênero discursivo
Bakhtin (1997) considera que o uso da língua em diferentes atividades da esfera humana se dá sob a forma de enunciados concreto e únicos. Tais enunciados refletem as condições específicas de produção e ainda a própria esfera dessas atividades não apenas “por seu conteúdo semântico (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais, mas também e sobretudo, por sua
Desta forma, cada esfera da atividade humana acaba por gerar “tipos relativamente estáveis” de enunciados que ele denominou “gêneros do discurso”. De acordo com esta perspectiva bakhtiniana o locutor faz uso não apenas das formas prescritivas da língua, ou seja, os componentes e estruturas gramaticais, mas também dos gêneros discursivos. Nesse sentido, falamos por meio de diferentes gêneros do discurso, aprendemos a adequar nossa fala a determinados gêneros dependendo das circunstâncias sociais em que nos encontramos.
A distinção entre estes diferentes gêneros do discurso é possível através de particularidades específicas presentes no enunciado e que refletem as suas condições de produção. Assim é que, em cada gênero variam, as fronteiras, o acabamento específico do enunciado, a relação do enunciado com o próprio locutor (autor do enunciado) e com os outros parceiros da comunicação.
Consideramos que estas noções poderiam ser utilizadas para caracterizar o contexto da sala de aula de Ciências. Neste estudo nos interessa, particularmente, a relação do enunciado com o locutor e com os demais parceiros da comunicação, uma vez que representa a seleção de um determinado gênero no qual se realiza o querer dizer do locutor. Esta seleção é feita não apenas em função da especificidade do sistema no qual se realizam essas práticas discursivas, mas também em função da temática e dos interlocutores envolvidos.
No que diz respeito à relação do enunciado com o próprio locutor, Bakhtin identifica dois aspectos a serem considerados: o conteúdo semântico referencial e a expressividade do locutor ante seu objeto de sentido.
De acordo com Wertsch (1993) vários critérios podem ser adotados para identificar as classes dos conteúdos semânticos referenciais (temas ou esferas): relações indicativas de contextos extralingüísticos, relações indicativas de contextos intralingüísticos; objetos não lingüísticos e objetos lingüísticos, este último envolvendo relações descontextualizadas entre signos, aproximando-se dos conceitos científicos tais como propostos por Vygotsky.
O “aspecto expressivo” comporta a relação valorativa, emocional do locutor diante do objeto do discurso. Nesta relação entra em cena o estilo individual, ou melhor, o juízo de valor do locutor que se realiza mediante um enunciado concreto. Ao mesmo tempo, esta expressividade é marcada pelo próprio gênero de discurso, uma vez que a seleção de determinadas palavras é feita a partir de outros enunciados que já estão inseridos em gêneros discursivos. Assim Bakhtin (1997:312) argumenta:
“O gênero do discurso não é uma forma da língua, mas uma forma do enunciado que, como tal, recebe do gênero uma expressividade determinada, típica, própria do gênero dado. No gênero, a palavra comporta certa expressão típica. Os gêneros correspondem a circunstâncias e a temas típicos da comunicação verbal e, por conseguinte, a certos pontos de contato típicos entre as significações da palavra e a realidade concreta. Daí se segue que as possibilidades de expressões típicas formam como que uma supra-estrutura da palavra.”
A relação do enunciado com os outros na cadeia contínua da comunicação verbal reflete em sua essência a categoria de dialogicidade proposta por Bakhtin (op.cit.,316) que envolve sempre polifonia e polissemia:
“Os enunciados não são indiferentes uns aos outros nem são auto-suficientes; conhecem-se uns aos outros, refletem-se mutuamente (...) O enunciado está repleto dos ecos e lembranças de outros enunciados, nos quais está vinculado no interior de uma esfera comum da comunicação verbal.”
Assim é que o enunciado se apresenta como um fenômeno complexo e polimorfo à mediada que ele acolhe não apenas a relação do locutor com o seu objeto de sentido mas também incorpora, modifica e reestrutura, a relação com o enunciado dos outros acerca desse mesmo objeto.
Considerando-se ainda o outro no processo de interação verbal, Bakhtin destaca que vários fatores influenciarão na seleção de um determinado gênero de discurso tais como: o grau de informação, os conhecimentos, as opiniões e convicções do destinatário.
A partir dessas noções propostas por Bakhtin, podemos pensar, que o discurso que se realiza na sala de aula é orientado pelos objetivos estabelecidos pelo professor, pelo conteúdo que vai ser abordado, pela natureza das atividades realizadas, pelas características gerais do alunos, seus interesses, desejos e conhecimentos e pela inserção destes no contexto da interlocução.
2.3. Wertsch: uma aproximação sóciocultural da mente a partir de