Alguns artistas dentro e fora do Brasil passaram a solicitar a direção e arranjos de Lenine em suas produções. Em 2005, Lenine produziu os álbuns
Segundo, de Maria Rita, e De Uns Tempos pra Cá, de Chico César. Além destas e
outras produções, Lenine já estava preparando seu segundo álbum e DVD ao vivo, o
Acústico MTV, gravado em 2006.
Em 2007, outra encomenda feita a Lenine foi a trilha do espetáculo de dança
A Centelha, para o Grupo Corpo23. No mesmo ano foi convidado a fazer outra trilha para a mesma companhia, Breu, que se transformou em CD e DVD. Em 2007, trabalhou também no CD Lonji, do cantor cabo-verdiano Tcheka.
No próximo ano foi a vez de um novo CD de inéditas: Labiata.24 O nome do CD é um trocadilho: a palavra remete a lábia, palavra, discurso convincente, poesia, retórica, o “palatável” (SANTOS, 2011, p. 122).
23 O Grupo Corpo é uma das companhias brasileiras de dança contemporânea mais conhecidas
dentro e fora do país. Surgiu em 1975, em Belo Horizonte (MG). Seu primeiro espetáculo foi Maria Maria, com música original de Milton Nascimento, roteiro de Fernando Brant e coreografia de Oscar Araiz (GRUPO CORPO, 2012).
Após Labiata foi a vez de uma coletânea de canções compostas por Lenine e seus parceiros para diversas encomendas em novelas, filmes, teatro, espetáculos de dança e comerciais para TV, ainda não registradas em nenhum dos CDs anteriores. Nascia assim o CD Lenine.doc-Trilhas, em 2010. O álbum seguinte, Chão, foi lançado em 2011.
1.6.6 O álbum Chão
Seu CD mais recente, Chão, foi lançado em 2011 e produzido por ele, seu filho Bruno Giorgi e Jr. Tostoi. Em várias entrevistas Lenine definiu os ruídos encontrados em Chão - os passos em seu orquidário, os batimentos cardíacos de seu filho Bruno, uma motosserra e o derrubar de uma árvore, o silvo de uma chaleira indicando ebulição, a máquina de lavar, os sons de cigarras e o canto do canário belga Frederico II -, como influência da música concreta.
Em suma, Chão não possui as características originais da música concreta de Pierre Schaeffer e Pierre Henri. Mas, se aproxima dos estudos e experiências do canadense Murray Schafer (1933 -...) que, segundo Yehudi Menuhin e Curtis W. Davis foi o grande responsável “por analisar o conteúdo de ruído de muitos ambientes a fim de determinar como as pessoas decidem o que é aceitável e o que não é” (MENUHIN; DAVIS, 1990, p. 19). Ou ainda pode ser remetido ao ano de 1917, quando foi estreado o balé Parade, do compositor francês Erik Satie25, onde se utilizou ruídos de sirenes, tiros de armas de fogo e uma máquina de escrever na obra.
25 Erik Alfred Leslie Satie (1866-1925) ou Erik Satie foi um compositor francês cujas principais obras
foram escritas entre as décadas de 1880 e 1920. Geralmente é associado ao movimento surrealista. No entanto, não se encaixa de forma plena em nenhum dos movimentos musicais definidos pelos historiadores de arte.
De certa maneira Lenine testa assim seu público, não no sentido da pesquisa acadêmica e da educação da “claraudiência”26, como o faz Schafer, mas até onde seus admiradores o acompanhariam em uma nova trajetória musical, tanto no CD, como ao vivo, onde tem utilizado recursos surround para que a experiência sensorial da plateia em relação aos sons gravados no CD sejam mais “reais”.
Podemos extrair de Chão também uma possível tentativa de Lenine se
aproximar da música clássica.27 No programa Roda Viva, de janeiro de 2012, Lenine disse que “a música clássica é que mais ouve atualmente”, mostrando assim uma ligação com este outro universo musical e a abertura para novos espaços e plateias, assim como já conquistaram Astor Piazzola e Frank Zappa no passado, que transitaram entre a música popular e a música clássica.
Apesar de Chão não ter bateria em nenhuma de suas faixas (um diferencial em relação ao restante dos seus trabalhos), esse disco possui várias das características encontradas nos seus álbuns anteriores.28 Na música Raoni (Zé Rocha), do álbum Baque Solto, por exemplo, Lenine já havia trabalhado com sons da natureza (água, pássaros, grilos). Em O Dia em que Faremos Contato, a ideia de “uma faixa só”, onde algumas das músicas se ligam umas às outras, sem o intervalo - como ocorre em Chão - já havia sido utilizada pelo compositor também, além de ruídos como pano de fundo das suas canções.
26 Claraudiência é o nome que Murray Schafer dá à capacidade de se “ter poderes especiais de
audição”. Schafer entende que as pessoas precisam ser ensinadas a “limpar” sua audição através de exercícios, o que as levaria a serem mais educadas sensorialmente (MENUHIN; DAVIS, 1990, p. 25- 26).
27 Música de diversas épocas e lugares (em especial, desenvolvidas por compositores do continente
europeu) que não pertence às tradições “populares”. No entanto, a terminologia “música clássica” é por vezes confusa uma vez que, historicamente, pode remeter apenas a um período da música europeia chamado “Clássico”, compreendido entre meados do século XVIII até o início do século XIX. Mas preferimos chamá-la de “clássica” à “erudita”, sendo este segundo termo utilizado por vezes para legitimar a música feita por músicos e cantores de orquestra, maestros e regentes de corais como superior às formas “populares”. Merece atenção na academia um trabalho de pesquisa que demonstre que diversas composições chamadas de “eruditas” não estão no mesmo nível de excelência na harmonia, construção melódica, contraponto, orquestração, forma, técnica instrumental e vocal de muitas músicas denominadas como “populares”, o que inverte o real sentido da palavra. Entendemos que ambos os gêneros se complementam, como é observado por Ulhôa (1997, p. 07): “Estas estéticas, ao mesmo tempo em que se opõem, são complementares, pois constroem suas práticas e representações a partir de referenciais comuns. Entretanto, uma por estar num campo da grande produção, da cultura popular, funciona de maneira metonímica, sintagmática, melódica, heterogênea, e a outra, por estar num campo de produção restrita, da cultura erudita, funciona de maneira metafórica, paradigmática, harmônica, homogênea”.
Para nosso segundo capítulo fica, portanto, a questão: a antropofagia é uma das principais características da obra de Lenine? E na música brasileira, podemos considerá-la como base suas diversas fusões?