A seguir, apresentamos e discutimos os grupos extralinguísticos que foram selecionados significativamente do ponto de vista estatístico.
6.2.2.1 F aixa etária
A variável faixa etária comumente é utilizada em pesquisas de cunho sociolinguístico, contribuindo bastante para a compreensão dos fenômenos de variação/estratificação e mudança. Sabemos que a tendência geral é a de que usos inovadores são mais recorrentes no falar de indivíduos mais jovens. Tal fato resulta em uma distribuição linear crescente ou decrescente, conforme afirma Tavares (2003, p. 86-87): “de um lado da escala, temos a faixa etária mais jovem, com as freqüências de uso mais elevadas, e do outro a
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faixa etária mais velha, com as freqüências de uso mais baixas ou mesmo zero.” É relevante salientarmos que, conforme a autora, essa associação entre a juventude e as transformações linguísticas se deve às mudanças sofridas pelas relações sociais ao longo da história de vida de um indivíduo. Sendo assim, no período da adolescência, durante o processo de busca da identidade com os mais diversos grupos ou tribos, é dada preferência a algumas formas linguísticas reconhecidas, na maioria das vezes, como estigmatizantes – por fugirem à norma padrão. Os jovens tendem a incorporar tais formas ao seu vernáculo e a utilizá-las intensamente em seu discurso diário.
Lembremos que, assim como também nos sugere Tavares (op. cit.), mesmo sendo as variações e mudanças mais visíveis em falas de pessoas mais jovens, a reconfiguração frequente da gramática ocorre nos indivíduos de modo geral, independentemente da faixa etária na qual se enquadram. Tendo em vista o fato de que os contextos comunicativos não se repetem, a gramática de uma pessoa emerge de forma diferente a cada uso, com porções linguísticas organizadas de modo distinto.
Em nossa pesquisa, os resultados que obtivemos em relação ao grupo faixa etária surpreendeu-nos. Visualizemos na tabela 3:
Tabela 3 – Influência da faixa etária do informante sobre a distribuição da ausência (versus a presença) do clítico medial no falar popular de Fortaleza
Fatores Aplicação/Total Percentual Peso Relativo49
Faixa etária 1 55/208 26.4 0.424
Faixa etária 3 151/418 36.1 0.538
Como podemos verificar, os falantes mais jovens apagam menos (0.424) o clítico medial em comparação aos mais velhos (0.538). Nossa hipótese era bem diferente do que os dados estatísticos nos apontam. Esperávamos que os falantes da faixa etária 1 (15 a 20 anos) tivessem predileção pela omissão e que os da faixa etária 3 (acima de 50 anos) primassem pela manutenção. Isso entraria em convergência com o que afirma Duarte (1989) – segundo a qual a ausência dos clíticos entre os mais jovens tende a ser absoluta – e Monteiro (1994) – que acredita serem os clíticos mais mantidos na fala dos idosos.
Todavia, resultados como os nossos já foram alcançados por alguns pesquisadores em relação ao apagamento dos clíticos em geral (ROCHA, 1999; RODRIGUES; PEREIRA, 2006; MELO, 2005; MELLO, 2009). Rocha (1999) verificou que não há correlação direta
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Para efeitos de comparação, fornecemos os pesos relativos em função da presença: a) Faixa etária 1 – 0.576; b) Faixa etária 3 – 0.462.
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entre a variante zero e a faixa etária, pois os falantes de idade mediana e os mais velhos correspondem aos maiores responsáveis pelo apagamento dos clíticos no PB. Além da autora, Rodrigues e Pereira (2006), ao tratarem da mudança linguística em direção à perda dos clíticos no PB, constataram que os falantes jovens realizam mais os clíticos (0.74 de presença) do que os adultos (0.59) e os idosos (0.42).
Melo (2005) também obteve resultado semelhante ao de Rocha (1999) e associou o baixo índice de omissão dos clíticos entre o público jovem à forte influência da escola, que exerce papel importante no desempenho linguístico dos falantes (cf. TARALLO, 1990). Essa maneira de pensar entra em convergência com o que afirma Duarte (1989, p. 29): “a escola é um meio que municia o indivíduo com a habilidade de usar o clítico, e esse fator está associado à idade, é relevante na realização de sua variante”.
Da mesma forma que os linguistas anteriores, Mello (2009) mostrou, em sua pesquisa acerca do comportamento dos clíticos no falar de João Pessoa, que a faixa etária jovem tende a manter o clítico mais do que os falantes adultos. Assim como a autora, consideramos que a manutenção do clítico – no nosso caso, o medial – pela juventude esteja relacionada com a escolaridade dos indivíduos. Sabemos que o contato dos jovens com a instituição escolar é bastante intensa e mais recente – em relação aos indivíduos com mais de 50 anos e de mesma escolaridade – o que contribui para a preservação do pronome junto aos verbos. Diferentemente deles, os mais velhos, por estarem mais distanciados da escola, não sofrem tantas pressões linguísticas, o que lhes confere maior liberdade durante a produção do discurso cotidiano.
6.2.2.2 Escolaridade
Sabemos que a escola é responsável por mudanças na fala e na escrita de quem a frequenta. Ela tem o importante papel de conservar e valorizar as variantes prestigiadas, tendo em vista a leva de transformações linguísticas ocorridas em uma dada comunidade de fala. É por isso que a escolarização colabora para a especialização dos padrões de fala e escrita em conformidade com os ditames da língua padrão.
Com base nisso, também reconhecemos que a tendência ao uso de formas não valorizadas pela norma padrão da língua está associada ao baixo grau de escolaridade dos usuários (LABOV, 1966, 2001). Portanto, em relação ao clítico, é de se esperar que ele seja mantido por quem tem mais anos de estudo (GALVES, 2001). Sustentam essa ideia pesquisas que versam sobre o comportamento variável dos clíticos, a saber: Nunes (1995), Rocha
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(1999), Melo (2005), Sakamoto (2008). Todavia, nossos resultados, em relação ao clítico médio, se contrapuseram aos obtidos pelos teóricos retrocitados. Vejamos a tabela 4:
Tabela 4 – Influência da escolaridade do informante sobre a distribuição da ausência (versus a presença) do clítico medial no falar popular de Fortaleza
Fatores Aplicação/Total Percentual (%) Peso Relativo50
0 a 4 anos 68/219 31.1 0.470
5 a 8 anos 75/244 30.7 0.462
9 a 11 anos 63/163 38.7 0.596
Segundo as informações estatísticas, os falantes com mais anos de escolarização apresentaram um peso relativo um pouco maior em relação ao apagamento (0.596), sendo seguidos pelos que têm menos anos de estudo (0.470) e os que se encontram no nível de escolarização intermediário (0.462). Percebamos que esses valores são quase neutros, o que faz com que essas faixas sejam levemente desfavorecedoras da ausência.
Conforme aludimos, hipotetizamos que, quanto maior o grau de instrução, maior a probabilidade de o falante manter o clítico em suas produções orais. No entanto, os resultados nos mostram o contrário. É válido ressaltarmos que não estamos adotando um posicionamento extremista, o qual desvaloriza a competência das pessoas menos escolarizadas. Seria incabível tal postura, já que os dados evidenciam informantes com muitos anos de estudo os quais suprimem o clítico.
Assim como nós, Mello (2009) também constatou que, em relação aos clíticos em geral, os usuários com baixo grau de escolarização tendem a empregar mais o marcador pronominal do que os de alto grau de instrução. A linguista considerou que a omissão do clítico parece não se configurar como um fenômeno estigmatizado. A variação não limitada à baixa escolaridade mostra que a variável parece não se mostrar tão saliente, deixando de ser atribuído, portanto, valor social negativo ao apagamento. Todavia, para asseverarmos isso, seria necessária a realização de testes de atitude linguística – algo não desenvolvido por nós na presente pesquisa.
Para justificarmos os nossos resultados em relação à escolaridade, devemos retomar novamente o que foi obtido quando da análise do fator faixa etária. Vimos que os jovens mantiveram mais o clítico medial do que os mais velhos e associamos isso ao fato de essa faixa jovial estabelecer uma relação mais intensa e recente com a instituição escolar,
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Para efeitos de comparação, fornecemos os pesos relativos em função da presença: a) 0 a 4 anos – 0.530; b) 5
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contribuindo, assim, para a conservação do clítico na memória gramatical dos falantes. A priori, quando correlacionamos com a escolaridade, verificamos que parece haver uma incoerência nessa interpretação, pois os mais escolarizados apagaram mais o pronome. No entanto, isso pode ser justificado quando – cruzando estatisticamente os fatores faixa etária e escolaridade (cf. Subseção 6.2.3) – identificamos que, na verdade, os mais escolarizados que apagam o clítico medial são os informantes mais velhos. Desse modo, conseguimos – pelo menos parcialmente – manter nossa justificativa, pois quem tende ao apagamento do clítico é o grupo dos mais velhos, o qual, mesmo tendo maior grau de escolarização, mantém-se mais distante temporalmente do âmbito escolar do que os mais jovens com menor escolaridade. Diante disso, reiteramos que, apesar do baixo grau de escolarização, a faixa jovial tem um contato mais recente com a prescrição do ensino de língua, o que parece contribuir para o acionamento rápido das regras gramaticais normativas arquivadas na memória dos indivíduos.