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FILLAN HERRED

Esse grupo adaptado de Givón (1993) também não foi encontrado em pesquisas anteriores que trataram do apagamento dos clíticos no Português Brasileiro – em particular, daquele sobre o qual nos debruçamos – todavia consideramos oportuno contemplá-lo, tendo em vista o fato de que as estruturas de-transitivas mediais normalmente refletem alguma mudança externa ou interna por parte do sujeito. Isso nos fez refletir sobre a possibilidade de influência desse grupo no processo de variação do marcador em destaque, identificando os tipos de mudança que tendem a manter e os que tendem a apagar.

Estatisticamente, o grupo foi selecionado como significativo, logo após o de pessoa gramatical do sujeito. A seguir, apresentamos e discutimos os resultados alcançados, que se encontram sumarizados na tabela abaixo:

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Tabela 2 – Influência do tipo de mudança indicado pelo verbo sobre a distribuição da ausência (versus a presença) do clítico medial no falar popular de Fortaleza

Fatores Aplicação/Total Percentual (%) Peso Relativo48

Posição 2/4 50.0 0.785

Estado físico 30/80 37.5 0.655

Condição 110/328 33.5 0.512

Estado mental 64/214 29.9 0.416

Percebamos que os fatores que mais favorecem a supressão do clítico medial são a posição (0.785), o estado físico (0.655) e a condição (0.512). Este último ocupa um ponto considerado neutro. Com baixo nível de apagamento, encontramos o fator estado mental (0.416). Tal resultado já era, de certa forma, esperado, pois, nos casos das mudanças físicas, posicionais e de condição, os sujeitos mediais encontrados em nossos dados eram predominantemente inanimados, o que evidencia o seu menor envolvimento no processo expresso pelo verbo. Em outras palavras, podemos considerar que nossa hipótese foi atendida nesse sentido, pois o clítico tende a se esmaecer em estruturas mediais que evidenciam mudança de posição, de estado físico e de condição. Observemos, a seguir, exemplos que ilustram essas mudanças:

(29) Eu num sei se te/ se existe algum meio de contornar a situação nas áreas de risco, se existe algum que os cara possam fazer pra que quando a água descer

poder escoar. Eu num sei. Nunca prestei atenção sobre isso. (NORPOFOR / DID-

68)

(30) Porque assim, tá assim, tá aquela ponte lá, aí tal. Aí você olha prum lado, tá todo riscado. Aí os prego tão caindo. As madeira (...) tão: quebrando. Pronto. (NORPOFOR / DID-68)

(31) saia logo de perto não queria saber aí eu peguei tive um sonho que eu voltava estudar aí o sonho realizou pronto estou aqui ... estou aqui::: vou a luta (NORPOFOR / DID-18)

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Para efeitos de comparação, fornecemos os pesos relativos em função da presença: a) posição – 0.215; b)

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Se, como afirmam Ribeiro (1908) e Said Ali (1964, 1966), encaramos o clítico médio como um elemento que indica espontaneidade do ato ou envolvimento mais cognitivo/emocional do sujeito no evento expresso pelo verbo, compreendemos que ele é menos frequente em mudanças que afetam, parcial ou totalmente, o estado físico dos sujeitos os quais normalmente tendem a ser inanimados quando se manifestam em médias clíticas que expressam processos materiais (LIMA, 2009). Isso não quer dizer que o sujeito não é afetado pelo processo. Nesses casos, o sujeito sofre a interferência de uma mudança ocorrida espontaneamente ou de um ato causado por um dado elemento externo (causativo) e se exime da sua participação no fato ocorrido; todavia, em termos escalares de envolvimento, parece estar menos envolvido no processo expresso pelo verbo do que os indivíduos humanos em eventos mentais. Em outras palavras, observamos que, em relação aos fatores posição, estado físico e condição, os sujeitos – que tendem a ser inanimados ou abstratos – além de não ocasionarem ambiguidade de sentido em relação ao papel temático (se agente ou paciente), demonstram que sofrem mais consequências físicas, externas ou perceptíveis do que se envolvem emocional ou mentalmente no processo indicado pelo elemento verbal, o que parece justificar a omissão do clítico.

Nos exemplos acima, notemos que os sujeitos a água (29) e as madeira (30) classificam-se, nessa mesma ordem, como força inanimada e inanimado, e o sujeito o sonho (31) caracteriza-se por ser uma entidade abstrata. Eles participam de processos de mudança de posição, física e de condição – respectivamente – que ocorrem ou podem ocorrer por causação de um elemento ou por motivos espontâneos. Desse modo, o grau de envolvimento é menor se comparado às mudanças cognitivas e emocionais nas quais identificamos a predominância de entidades animadas e humanas. Talvez, alguém questione o fato de os eventos expressos nos exemplos (29) e (30) se caracterizarem pela espontaneidade, alegando que há algum elemento externo contribuindo para a sua efetivação. De fato, nessas ilustrações, é possível inferirmos, em termos contextuais e discursivos, os elementos que puderam influenciar na mudança – no caso do exemplo (29) a atitude de alguns caras; no exemplo (30), o tempo ou o descuido das pessoas. Todavia, devemos lembrar que, em várias situações, o causativo não é recuperável, mesmo no contexto discursivo, por motivos pragmáticos, como: puro desconhecimento do causador do ato, descomprometimento do enunciador com a identificação do elemento causador etc.

Interessante ressaltarmos que nossa perspectiva interpretativa parece entrar em convergência com as conclusões obtidas por Tarallo (1983) e Duarte (1996) em relação ao preenchimento ou não dos objetos anafóricos. Segundo esses investigadores, quando os

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antecedentes se tratam de referentes de natureza animada, sua subsequente pronominalização na fala é favorecida. É certo que o clítico médio não se trata de um complemento anafórico, no entanto – conforme já explicamos em nossa metodologia – ele se trata de pronome correferencial e pode indiciar o grau de afetamento do sujeito envolvido no evento verbal.

O fator estado mental se mostrou, conforme sugerimos em nossa hipótese, mais resistente à supressão do clítico. No ranking estatístico, ele apresentou peso relativo 0.416. Nossos resultados convergem para os que foram obtidos por Lima (1999), segundo a qual os verbos mentais, emocionais e perceptuais tendem a empregar o pronome, pois eles se caracterizam por expressarem o modo como o indivíduo aprecia o mundo e expõe suas crenças, seus pensamentos, seus sentimentos e suas percepções. Desse modo, o SN sujeito – que apresenta o traço [+animado] – se mostraria mais envolvido cognitiva e emocionalmente no processo expresso pelo verbo, o que justificaria a não omissão do clítico (cf. exemplo (32)). Recorrendo ainda à noção de marcação (GIVÓN, 1995), consideramos, assim como Tavares (2003) e Mello (2009), que os verbos mentais são mais marcados, pois apresentam maiores dificuldades de processamento cognitivo e demandam maior atenção, diferentemente dos verbos os quais indicam mudanças de posição, estado físico e condição. Sendo assim, é justificável a manutenção do clítico médio nesses casos, vez que ele representa um reforço do grau de afetação e integração do sujeito no evento verbal medial (MACAMBIRA, 1986).

(32) não mamãe...não se preocupe não...me dê o papel (NORPOFOR / DID-66)

Além disso, acreditamos que o apagamento, nesses casos, também provocaria problemas de clareza em relação ao papel do sujeito – se assume mais o comportamento de agente ou de paciente – fazendo com que a estrutura de-transitiva assumisse uma configuração mais próxima da sua contraparte transitiva, de natureza mais agentiva. Isso poderia ocasionar dificuldades de apreensão da mensagem, a não ser que se recorresse à situação para eliminar dúvidas de compreensão (BANDEIRA, 2007). É o que podemos observar no exemplo anterior (32) e em (33):

(33) eu fiz a... re-matrícula... aí comecei a fazer... aí [ ] né? desmotivei de novo... (NORPOFOR / DID-12)

Notemos que, tanto em (32) quanto em (33), a eliminação do clítico pode sugerir certa agentividade por parte do sujeito, se não fosse o contexto discursivo global. No caso de

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(32), não houve o apagamento do clítico, mas se tivesse ocorrido poderíamos ter dúvidas quanto ao papel do sujeito (agente ou paciente). Afirmamos isso pelo fato de haver o verbo preocupar com valor agentivo (alguém/algo preocupa alguém), o que alteraria o valor medial que defendemos. Nessas ocorrências, somente o contexto situacional colaboraria para a eliminação da ambiguidade. Em (33), já conseguimos identificar um caso de apagamento do clítico junto ao verbo mental desmotivar, que também pode expressar sentido agentivo (alguém desmotiva alguém). No exemplo em particular, as informações cedidas no próprio contexto discursivo nos mostram claramente que o sujeito não pratica um ato, mas sofre um desestímulo que por ele não é controlado. Todavia, caso essas informações não fossem recuperadas, a construção permitiria uma interpretação por meio da qual a entidade sujeito se comportaria como um elemento volitivo, iniciador e controlador do ato verbal.

Mesmo defendendo essa ideia, percebemos que esses resultados não parecem corroborar os de Sakamoto (2008), os quais evidenciam um comportamento mais ou menos variável dos predicados de experimentação mental, apresentando leve tendência a se realizar (0.61). Mello (2009) concluiu que tais predicados foram uns dos que menos favoreceram o preenchimento do clítico (0.22). Não podemos esquecer, entretanto, que, mesmo não dando o tratamento adequado ao clítico médio e incluindo-o – por vezes – em outros tipos de se, os trabalhos desenvolvidos por D‟Albuquerque (1984), Nunes (1995) e Melo (2005) mostraram que, em localidades mineiras e cariocas, a tendência é omitir o clítico que acompanha os verbos mediais.