Paralelamente às disputas em Touro e Massapê, “trabalhadores rurais do distrito de Itans reivindicaram junto” à Secretaria Estadual de Agricultura e Reforma Agrária “a posse” de uma área pública – a Fazenda Curupaiti – “alegando abandono e “a necessidade por parte da comunidade de trabalhar no imóvel para o sustento de suas famílias”283. A maior parte do apoio recebido pelos trabalhadores veio da Igreja, mas neste caso, se houve decepção com o assentamento tal fato não foi citada por nenhum dos entrevistados.
Assim, durante a primeira ocupação, em 1988, os acampados alegavam que “antes de ser desapropriada” eram moradores dela. “Aqui foi aonde trabalhamos com sacrifício para criar os nossos filhos, nós tínha-mos que se asujeitar ao nosso patrão e não tinha-mos direito a nada. Nós só comia no dia que trabalhava, isto foi uns 20 anos de sofrimento, porque ninguém tinha terras, e nem aonde morar(sic.)”. Quando a fazenda foi desapropriada pelo governo estadual, a CAGECE prometeu o retorno das famílias após três anos, mas não cumpriu o acordo e cedeu a maior parte das terras para a EPACE. Em 1987 estes trabalhadores conseguiram a cessão de 152 hectares da fazenda284.
Em agosto de 1987 a assembléia da Associação dos Pequenos Agricultores de Itans, entidade que administrava a terra cedida aos ocupantes, fazia opção pela “terra
281 Tal cultura política continua tão viva que é possível detectarmos estas regras e valores norteando nossas “instituições democráticas” e impregnando as relações políticas. Os pobres as assimilam como demandas. Aqueles que ingressam na disputa eleitoral jogando com cartas clientelistas são de tal forma “sufocados” por pedidos individuais em troca de voto que superam em muito suas próprias iniciativas.
282 Como afirma José S. Leite Lopes, “o vigor de uma forma de dominação pode ser avaliada por sua interiorização pelo próprio grupo dominado. Para além dos símbolos objetivados que” as classes dominantes imprimem à vida diária (em forma de normas, expectativas, instituições e ideologia), estão os símbolos escolhidos pelos trabalhadores “quando compõem uma história incorporada ao seu grupo social, e que dão sentido e vida à forma específica de dominação a que estiveram submetidos à maior parte de sua vida”. LOPES, José Sérgio Leite. A Tecelagem dos Conflitos de Classe. São Paulo: Marco Zero/UnB, 1988, p. 32.
283 “Projeto de Assentamento Curupaiti”. “PA Curupaiti”, Arquivos do IDACE. A fazenda foi desapropriada em 1981 pelo governo estadual na gestão de Virgilio Távora com a finalidade de garantir o abastecimento de água da cidade, em meio àquele programa de obras e urbanização na administração de Zé Nilton. Curupaiti passou, então, para o controle da CAGECE em março de 1981, que cedeu 389 dos 504 hectares para a EPACE.
284 “Excelentíssimo Senhor Ciro Ferreira Gomes, Governador do Estado do Ceará”. Documento enviado pelos moradores de Curupaiti, sem data. “PA Curupaiti”. IDACE.
coletiva”, criando uma identidade com o projeto das pastorais. Cada família receberia uma gleba de “duas tarefas” e a comunidade constituiria um “caixa coletivo de 10% da produção”, que seria distribuído de acordo com “os dias trabalhados por cada um”285.
Em 1990 outra ocupação foi realizada, sobre a parte que ainda estava sob controle da EPACE286. Sem qualquer retaliação do estado, “as famílias”, com “apoio da Igreja local, começaram um trabalho coletivo como meio de sobrevivência” com plantação de hortaliças, pesca, agricultura e construção de casas. Houve também a motivação para o trabalho espiritual, através das celebrações, partilha entre as famílias, visitas e trabalhos em mutirão”287.
A questão foi resolvida em 1992, quando a CAGECE assinou um “contrato de comodato” com a Associação dos Pequenos Agricultores de Itans, “para um grupo de 28 famílias”288 por um período de 10 anos, garantindo a permanência da comunidade até a criação do assentamento.
Entre esse momento e a emissão de posse de Massapê, a Igreja matriz foi invadida e revirada. Os suspeitos foram obviamente relacionados aos adversários dos movimentos populares. O caso criou comoção e repercussão midiática no estado, unindo temporariamente até mesmo os católicos que discordavam da participação da Igreja nos movimentos289. Foi nesse ambiente de ameaça que surgiu a Frente de Libertação da Terra(FLT), fruto deste contexto de lutas camponesas e das experiências que militantes como Auxiliadora tiveram com o MST. De acordo com Auxiliadora, “a Igreja estava muito visada” e “uma das formas que a gente encontrou foi” criar uma entidade que fosse porta-voz, assumindo a liderança pelas ações de luta pela terra.
Por conta dessa ameaça à Igreja, a Ir. Elvira sugeriu criar de fachada algo parecido com o MST, só que a nível de município, pra despistar e encobrir essas ações da Igreja[...] e para o plano ficar mais completo inventamos bandeiras, tudo do jeito que era pra ser, tivemos várias reuniões[...] Mas aí durou pouco, porque a gente percebeu que estava indo de choque com o MST e não era esse o nosso plano290.
285 Documento da Associação dos Pequenos Agricultores de Itans, 03 de agosto de 1988. “PA Curupaiti”. 286 “Senhores Autoridades Competentes do Estado do Ceará, Sr. Governador”. Documento escrito por Auxiliadora Bezerra e enviado em nome dos “trabalhadores rurais de Itans”. Sem data. Pasta “Conflitos de Terra-Quixadá”, CPT/CE.
287 Livro Tombo da Paróquia, fls. 56-verso.
288 “Projeto de Assentamento Curupaiti”. Op. Cit. Em 1996, a construção do Açude Castro em Itapiúna – para o abastecimento de Itapiúna e Capistrano – permitiu a exploração completa da terra. Em 1999 o governo estadual criou o Assentamento.
289 Livro de Tombo da Paróquia, fls. 58-frente.
De fato, a cartilha revela um discurso semelhante ao do MST sobre a questão agrária. Seu objetivo era fortalecer “a luta pela libertação da terra e ajudar na formação e consciência das famílias sem terra e assentados deste estado”. A cartilha destacava quatro “experiências de ocupações e assentamentos” lideradas pela FLT: Massapê, Touro e Curupaiti, em Itapiúna, e Umari-Casa Forte, em Beberibe, cidade onde Auxiliadora atuou pelo MST291.
Penso que essa experiência da FLT não significou apenas a criação de uma entidade fictícia. À medida que os conflitos de terra e com a prefeitura se avolumavam, que acampamentos e assentamentos eram criados, a partir de 1988-89 foi se constituindo um movimento mais autônomo em relação às pastorais, ligado ao MST e aos sindicatos, articulando camponeses de Itapiúna, Capistrano e Baturité.
Assim, em abril de 1988 era promovido um “Encontro Paroquial das Áreas Assentadas [e de] Conflitos de Itapiúna”. Em 1989 promoviam-se encontros nas comunidades de Curupaiti, Touro, Riacho da Várzea, São José, Cupira, Nova Olinda, Lázaro e Queixada, além de reuniões de sem-terra em Caio Prado, Itans, Boa Vista, Cal e Palmatória, que desembocaram no “Encontro Municipal de Sem Terra de Itapiúna” no dia 28 de julho. Em setembro era organizado um novo “Encontro dos Assentados de Itapiúna”
Em 1990, quando aparecem os primeiros registros da FLT, a entidade organizou diversos encontros com trabalhadores de Itapiúna e de outros municípios. Neste ano, esses movimentos organizaram ocupações em Fortaleza no INCRA e na SEARA292. Em 1992, com a criação dos assentamentos em Touro e Massapê, e a conseqüente diminuição das ameaças, a mobilização de camponeses – assentados, ocupantes ou sem terra – prosseguiu e de alguma forma, os militantes desse movimento conseguiram espaço na direção do STR. Criaram também a APROMAB (Associação dos Produtores Rurais do Maciço de Baturité), associação para promover o desenvolvimento e a produção econômica das comunidades integrantes.
Apesar disso, tal movimento não se desprendeu completamente da Igreja, permanecendo (até a saída de Pe. Eudásio, em 1996), dependente de seu apoio. Até 1993 a mobilização de pastorais e CEBs permaneceu forte, porém dividindo o espaço com outras entidades. Com a conquista de assentamentos nas áreas de conflito, a Igreja direcionou sua atenção para o fortalecimento das comunidades rurais através de projetos e financiamentos.
291 “Frente de Libertação da Terra – FLT: caderno de formação n. 01”. Ceará, 20 de agosto de 1990. Fonte cedida por Auxiliadora Bezerra
Pe. Eudásio conseguiu por meio de ONGs nacionais e estrangeiras o financiamento de pequenos projetos, como construção de cisternas, açudes etc.
Então, os conflitos mais intensos deixaram a esfera das propriedades e foram trazidos pelos camponeses para a cidade diante das reivindicações em períodos de escassez. Os anos de 1990, 1992 e 1993 presenciaram em diversos momentos a presença destes trabalhadores na cidade, se organizando, protestando e ameaçando saquear depósitos públicos de comida. Após o saque de 1988, ocorreu um “aprendizado” utilizado nestes primeiros anos da década de 1990 e que foi estimulado pela Igreja.
Foi exatamente nesse momento que os movimentos populares que por mais de uma década orbitaram em torno da Igreja entraram em refluxo. Poderemos apontar algumas razões que propiciaram esta nova conjuntura, algumas relacionadas a processos que escapam a realidade local, outras ao desestímulo criado ao engajamento militante na Igreja por D. Adélio, bispo da Diocese desde 1988. Por outro lado, esse mesmo refluxo esteve intimamente relacionado à crise interna que se abateu sobre a militância a partir de 1992. O episódio inicial destas desavenças esteve ligado à coligação entre o PT e o PSDB, partido de Joaquim Clementino, na eleição daquele ano, lançando Auxiliadora como candidata à vereadora. Contudo o momento mais grave desta crise foi a acusação no ano seguinte contra ela e Josias Maia (seu namorado), de terem desviado recursos financeiros, que estavam sob sua responsabilidade, destinados ao desenvolvimento de projetos em comunidades rurais. Ambos os episódios criaram um racha insuperável e irreparável na militância293.
Apesar destas circunstâncias, tal desmobilização apresentava sinais de um “esgotamento temporário” das formas pelas quais os movimentos sociais haviam se apresentado até então, revelando uma certa “acomodação” no comportamento político daquela gente, fazendo com que os trabalhadores recriassem suas estratégias de resistência294.
293 Josias, acusado por Auxiliadora de ser o responsável pelo desvio, desapareceu da cidade. A divisão interna da militância em torno destas acusações revelou também algumas “intrigas miúdas” que já vinham ocorrendo entre eles. Hoje, após uma década e meia, o clima de discórdias e acusações ainda continua.
294 Como disse E.P. Thompson, as pessoas não protestam a vida inteira, é necessário dissimular e lidar com o
status quo, buscando adequar suas expectativas segundo a linha de menor resistência. THOMPSON, E.P.
Folclore, Antropologia e História Social. In: As Peculiaridades dos Ingleses e outros artigos. Org: A.L.Negro e S.Silva. Campinas-SP: Editora da Unicamp, 2001, p.262.