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4.2   Data  fra  intervjuer  med  musikkterapeuter

4.2.2   Musikkterapeut  2

Dehon apresenta quatro exemplos que não merecem ser imitados por qualquer educador: a crueldade das aves de rapina, a irresponsabilidade dos pássaros da noite, a preguiça e grosseria do avestruz, a vaidade e o orgulho agressivo do pavão.

3.1 Aves de rapina

A índole “dura e cruel” das aves de rapina, de acordo com Dehon, é transmitida por intermédio de uma educação que abandona os filhotes quando eles ainda necessitariam do cuidado dos pais. É estimulado um clima de competição entre os filhotes e a repreensão dos pais é violenta, utilizando castigos. Neste texto, Dehon descreve, pelo menos três tipos de escolas de sua época. A primeira − que começava a tomar o lugar dos “internatos” onde a educação era dada em tempo integral − é a escola pública, em que os alunos permaneciam

apenas uma parte do tempo e o restante não estavam mais sob responsabilidade dos professores. O Colégio São João, por sua vez, era uma escola de tempo integral. O segundo tipo de escola que Dehon deixa transparecer no texto é aquela cuja finalidade era, simplesmente, o aprendizado de uma profissão. Seria o que hoje chamamos de cursos técnicos. Ele critica esta escola por não formar o ser humano como um todo, mas apressadamente o preparar para o competitivo mercado de trabalho. O terceiro tipo de escola que encontramos neste trecho é aquela tradicional, em que a correção da “palmatória” era um recurso didático utilizado sistematicamente.

As aves de rapina como o abutre [vautour] e o gavião [buse] têm uma índole dura e cruel; eles se dedicam à caça, mas somente em alguns momentos do dia. Bem, estes pássaros são tão desprezíveis para a educação porque transmitem seus costumes para os pequenos. Quase todos têm o costume desnaturado de colocar seus filhotes para fora do ninho muito antes que todas as outras aves e, no momento em que ainda necessitam dos cuidados e das ajudas para a sua subsistência. A natureza dos pequenos se ressente da educação e dos exemplos recebidos. Basta crescerem um pouco e não param de se agitar e de disputar o alimento e um lugar no ninho, de modo que o pai e a mãe, várias vezes, intervêm e os matam, ou batem neles para acabar com a briga. Não há nada nisso que se pareça com nossas famílias? Mas não

encontramos outras famílias onde a vida lembra este triste quadro?11

Fica bastante claro, neste texto, que a educação proposta por Dehon passa por outro viés motivacional que a concorrência capitalista, a violência pedagógica ou o típico laissez-faire,

laissez-passer de certas fórmulas modernas em que o aluno é deixado aos seus próprios cuidados. O pedagogo deve, realmente, “acompanhar” seu educando com ternura e vigor. O capítulo dedicado aos castigos é, simplesmente ignorado por Dehon, conforme verificamos na análise de sua leitura de Rollin.

Está presente, neste discurso, um tipo de sociedade idealizado por Dehon; uma civilização do coração. Ele presenciava a ascensão do socialismo e a consolidação do capitalismo. A Rerum Novarum havia identificado uma nova polarização idelológica da humanidade. O capitalismo está bem representado nestas aves da rapina diurnas. O que importa é a livre concorrência. Os princípios do liberalismo, assentados sobre a seleção natural, estão descritos neste texto com primor. Os mais fracos acabam morrendo. O que vale é o capital, em detrimento do trabalho e da pessoa humana. Lembremo-nos que ele está discursando para uma “sociedade de ajuda mútua”, ou seja, uma organização de solidariedade,

no qual a vontade de construir uma sociedade alternativa e de inspiração cristã era muito forte. Os anseios por uma verdadeira fraternidade e liberdade estavam presentes e eram facilmente entendidos pelos ouvintes. A escola idealizada por Dehon deveria estar a serviço da construção desta “nova sociedade”, que estava um passo além do capitalismo e socialismo da época.

3.2 Pássaros da noite

Novamente, utilizando os pássaros noturnos de rapina, Dehon critica a educação que opta pelo abandono dos filhos ou dos alunos. Sua insistência inicial é que existe um processo pedagógico no qual é fundamental o acompanhamento e a presença. Ele mostrará como isto pode ser feito nos inúmeros exemplos de pássaros bons educadores.

Os pássaros noturnos, como o mocho [hibou], a coruja [chouette], se caracterizam por seu gosto pela rapina. Querem roubar os ovos e as provisões das outras aves. Pássaros sacrílegos, eles entram em nossas Igrejas do campo para beber o óleo da lamparina do santuário. Bem, estes pássaros amigos da rapina e do roubo são péssimos educadores. Colocam seus ovos a descoberto no buraco de um muro ou sobre as vigas. Não colocam nem ervas nem folhas para recebê-los; não se preocupam em fazer um ninho. Isto não lembra as famílias onde os menores são abandonados e que, privados de toda

educação, acabam seguindo o exemplo de seus pais?12

Chama atenção o modo enfático como Dehon critica o roubo e o sacrilégio desta segunda categoria de maus educadores. Poderíamos perceber aqui também uma alusão às leis anti-clericais de Ferry, que acabava de expulsar os jesuítas da França e que limitava o acesso das Congregações “não autorizadas” ao ensino. Dehon diz que este tipo de “pássaros” não prepara o ninho para os seus filhotes. De fato, Ferry muitas vezes teve que se defender da acusação de que seu projeto de escola para todos conduzia ao improviso. Temos exemplos bastante atuais deste tipo de proposta pedagógica, que passa mais pelo idealismo político do que pela reflexão filosófico-educacional. O resultado é um milagre aparente que resolve o problema educacional por meio da simulação de cifras, mas, em sala de aula, o problema continua, às vezes, agravado. Dehon percebe que educação não se improvisa. É preciso

12 Ibidem, p. 7. O mocho é uma espécie de coruja, também conhecida como coruja-de-igreja, ou coruja-

“preparar o ninho”. Há em sua noção de Educação Integral esta dimensão de “cuidado” fortemente estabelecida.

3.3 O avestruz preguiçoso

Após criticar a anti-pedagogia da crueldade e da irresponsabilidade, Dehon critica a didática do menor esforço.

O avestruz [autrouche] é um pássaro preguiçoso e estúpido. Ele é descrito na Sagrada Escritura pela dureza com seus filhos. Não lhes dá efetivamente nenhum cuidado após o nascimento. Seus pequenos ficam abandonados, privados de toda educação e de todos os benefícios da sociedade; por isso, se tornam tão estúpidos quanto seus pais e mães. Não se encontraria também entre os humanos, famílias onde a preguiça e a apatia mantêm a estupidez e a grosseria? 13

O avestruz já era conhecido desde tempos muito remotos na Síria, Arábia e Mesopotâmia. Ela faz parte do universo simbólico da Bíblia. No livro de Jó (39,13-18) encontramos uma referência à ostentação, crueldade e estupidez com que trata os seus ovos e seus filhotes: “É cruel com os seus filhotes como se não fossem seus”14. Esta ave é classificada entre as “aves impuras” no livro do Levítico (11,16). Dehon utiliza claramente a simbologia bíblica do avestruz para insistir em outra face da pedagogia do abandono: a crueldade, a estupidez e a preguiça. Ele critica o educador preguiçoso, que utiliza a lei do menor esforço como se fosse, desta maneira, educar bem os seus alunos. Sua reflexão sempre mostra os efeitos que a opção pedagógica dos pais tem na vida dos filhos. A crítica constante do abandono mostra que, para Dehon, um princípio fundamental da Educação Integral é o “compromisso” com os educandos. É certo que existem muitos “professores-avestruz”, que escondem sua ignorância com uma duvidosa didática construída sobre permanentes reuniões de grupo, leitura de textos e plenários. Esta fórmula, que já começa a dar sinais de cansaço, é bastante cômoda para o professor que não conhece bem a matéria ou que tem preguiça de dar

13 Ibidem, pp. 7-8.

14 O texto bíblico de Jó afirma, literalmente: “O Avestruz bate as asas alegremente; com penas de cegonha

foge rápido. Entretanto, quando deixa os ovos no chão, a fim de que se aqueçam na areia, esquece-se de que algum pé poderá pisá-los ou que algum animal do campo os venha esmagar. É cruel com os seus filhotes como se não fossem seus e, embora penando em vão, não o perturba temor algum. Pois Deus o privou de sabedoria e não lhe deu inteligência”. Encontramos outras referências semelhantes ao avestruz na Bíblia, em: Dt 14,15; Is 13,21; 34.13; 43.20; Jr 50,39; Mq 1,8. Todas elas são referências negativas.

aulas. Chamamos este método de “didática do menor esforço”. Infelizmente, percebemos que a crítica mordaz de Dehon é de impressionante atualidade. Há muitos professores que fazem “de conta” que ensinam, enquanto os alunos fazem “de conta” que aprendem.

3.4 O pavão vaidoso

A última classe de maus educadores criticada, com típica ironia francesa, por Dehon, é a do “educador-pavão”.

O pavão [paon] é o símbolo da vaidade e do orgulho. Sua vida é fazer

pompa. Ele acredita que é o rei da baixa-corte e põe o bico em tudo. Bem, ele abandona muito cedo seus pequenos para ocupar-se com suas pompas e eles, imitando o que viram, logo se tornam vaidosos e agressivos. Não

existem muitos pavões em nossas cidades?15

Ao criticar a pedagogia da vaidade, Dehon sugere que a verdadeira sabedoria se alcança pela via da humildade. Suas imagens antropomórficas poderiam remeter a muitos cidadãos de seu tempo, que eram os “reis-da-baixa-corte”. Pode ser tanto um ministro da educação, com pretensão de ser presidente; ou um novo rico, pequeno burguês; ou ainda um professor que centraliza toda a atenção sobre si mesmo e sobre seu desempenho quase teatral em sala de aula. Há certos professores que estão mais preocupados em ensinar do que em garantir que os alunos aprendam. Seu sistema pedagógico está centrado na “ensinagem” e não na aprendizagem. No fundo, suas aulas se resumem numa demonstração vaidosa de seus conhecimentos. Não é incomum que o nível de suas aulas esteja um pouco além da capacidade de compreensão dos seus alunos, justamente para ressaltar “sua sabedoria”. Há outros que adotam procedimentos demagógicos, criticando com ironia vazia esta ou aquela autoridade para chamar atenção sobre si mesmos.

O professor-pavão é um fenômeno comum nos nossos dias. Parece que Dehon acertou em cheio ao colocar este modelo de “anti-educador” para fechar o grupo dos maus educadores. Mais uma vez, como nas três categorias anteriores, o resultado do “abandono dos educandos” é o estímulo para um comportamento agressivo.

Cada uma destas quatro categorias abandona seus filhotes por um motivo próprio. O abutre e o gavião os abandonam para prepará-los para o mundo da concorrência mortal; a coruja os abandona para roubar; o avestruz os abandona por preguiça e ignorância e o pavão por orgulho e vaidade. A crítica transversal que encontramos nas entrelinhas desde discurso é realmente o abandono no qual os educandos se encontram quando seus educadores são cruéis, irresponsáveis, preguiçosos, ignorantes ou vaidosos.