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A obra analisada por Lima (2003, p. 196) é Dramática da língua portuguesa, de Marcos Bagno.
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As regras da variante padrão escrita, prescritas pela gramática normativa, e as regras empregadas na fala correm em eixos distintos, como vimos na seção anterior. Assim, não se poderia afirmar que as regras veiculadas pelas gramáticas estejam obsoletas porque não são empregadas na média de falares da língua portuguesa. Todavia, algumas pesquisas têm se pautado na comparação entre as regularidades encontradas na fala e a norma prescrita pela gramática normativa, para afirmar a obsolescência desta.
Scherre, ao criticar colunista de jornal de grande circulação que, em sua coluna sobre o uso da língua portuguesa, contrapõe a língua falada não-monitorada às regras da gramática normativa infringidas na fala, conclui (2005, p. 70) que “confundir fala espontânea com escrita monitorada ou confundir gramática normativa com língua pode realmente causar enormes distúrbios na comunicação”. A autora, porém, em muitos momentos na mesma obra realiza comparações desse tipo, incorrendo, portanto, nos mesmos erros daqueles que critica: os paragramáticos.
É usual na nossa tradição gramatical a afirmação de que a concordância de número plural é de natureza obrigatória [...]. Todavia, estudos diversos têm mostrado que, na modalidade falada do português brasileiro, a concordância de número plural nem sempre ocorre (SCHERRE, 2005, p. 19).
Eles também não diz (SCHERRE, 2005, p. 53).
Essas troca de experiência vai crescendo (SCHERRE, 2005, p. 53). Aí bateu dois senhores na porta (SCHERRE, 2005, p. 53).
Também análises com corpora diversificados ocorrem em Bagno (2002c). Embora as atividades didáticas propostas pelo lingüista sugiram pesquisas com a realização da distinção entre o corpus da modalidade falada e o da escrita, todas as propostas sugeridas partem de uma leitura em três gramáticas normativas sobre o ponto a ser pesquisado. Como exemplo de uma das pesquisas propostas como atividade didática132, citemos aqui (2002c, p. 139-140) o estudo comparativo entre o emprego da regência dos verbos ir e chegar. A atividade consiste
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na leitura sobre a regência desses verbos em três gramáticas e em um trabalho de observação do emprego da regência desses verbos conforme a modalidade falada e a escrita. Outra atividade (2002c, p. 145-146) consiste na ampliação da pesquisa sobre o uso da preposição “a” em outros verbos para verificar que “no português do Brasil [há] um crescente declínio do uso da preposição A”. O autor não esclarece, porém, sobre o gênero textual a ser analisado, tampouco sobre grau de (in)formalidade do mesmo.
Não estamos, com isso, afirmando que análises com corpora diversificados não possam ser realizadas. Entendemo-las bem-vindas e científicas quando realizadas para mostrar a diferença entre uma modalidade e outra e entre gêneros textuais de níveis de registro formal e informal. Não podemos concordar, porém, com o emprego dos resultados obtidos através dessas pesquisas sejam empregados como argumento de que a escrita formal segue tais normas na atualidade e de que a partir dessas pesquisas (BAGNO, 2002c, p. 80) possamos “reconstruir todo nosso conhecimento gramatical, corrigir as falhas das gramáticas tradicionais e dar um rumo diferente às práticas pedagógicas”. A aceitação desses resultados para tal evento implicaria a desconsideração de conhecimentos produzidos pela Lingüística relativos aos gêneros textuais e, principalmente, à diversidade dialetal. 133
Preti (2004, p. 18) esclarece que teorias atuais de Lingüística procurariam ver as duas modalidades como um continuum, pois há textos falados que se aproximam da escrita e escritos que se aproximam dos falados. Como exemplo, o autor cita as gírias e as expressões chulas empregadas pela mídia impressa. A divulgação da internet, afirma o lingüista, trouxe à baila “textos indecisos entre uma modalidade e outra” (2004, p. 18). Embora o autor exemplifique sua posição quanto à interferência de uma modalidade na outra com exemplos do vocabulário, ele afirma (2004, p. 19) que “os redatores de jornal já se afastaram, sob muitos aspectos, das formas puristas que se defasaram”, em alusão a regras normativas.
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A colocação de Preti (2004) leva a outro ponto que necessita de algumas considerações, a saber, o tratamento uno dado por análises que se valem de corpora diversificados aos mais diversos gêneros textuais veiculados em um jornal (SCHERRE, 2005; BAGNO, 2002c; BORTONI-RICARDO, 2005). Pesquisas que procuram mostrar a obsolescência das regras prescritas pela gramática normativa não realizam a distinção de textos de escrita em nível formal e aqueles que contemplam marcas da oralidade, como os de caráter artístico, anúncios publicitários, cartas de leitor, entre outros.134
É desnecessário falar que a escrita formal é própria da notícia jornalística, mas não de todas as seções desse tipo de periódico135. Aliás, o que caracteriza alguns dos gêneros textuais136 que circulam nesses periódicos é justamente o desprendimento às regras formais. Entendemos que esperar que textos produzidos por pessoas de baixa escolaridade137 tenham o mesmo grau de seguimento das normas prescritas pela gramática normativa que os textos produzidos por aqueles cujo exercício da profissão está eminentemente ligado à escrita formal e que tiveram anos a mais de bancos escolares que o primeiro grupo fere um dos princípios mais caros e valiosos por que a sociolingüística vem lutando: o respeito à diferença lingüística. Valem aqui as palavras do poeta Gullar (2006, p. 12): “Não vamos esperar que um feirante ou um porteiro se expressem de acordo com a norma [prescrita pela gramática normativa]. Mas quem tenta usar a língua oficial por dever de ofício, como instrumento de trabalho, tem de conhecê-la direito”. Entendemos que as pesquisas que não levam em conta o gênero textual a que pertencem os textos que formam os corpora da pesquisa comprovam a existência da variação,
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Sobre os diferentes gêneros textuais de que se compõem esses periódicos, veja-se Marcuschi (2003, p. 35), cujo conceito de gênero textual assumimos nesta tese. O autor, nesse texto, chama a atenção também para as diferenças entre os gêneros orais e os escritos.
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No gênero notícia, a norma gramatical empregada é a prescrita pela gramática normativa, como atesta Lima (2003). O vocabulário empregado nesse gênero textual algumas vezes é mais informal, conforme aponta pesquisa de Rocha (2002b).
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Anúncios publicitários, colunas literárias, cartas do leitor (quando este não domina a norma padrão).
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Sabemos que os anos de escolaridade não são determinantes no desempenho da produção textual, porém não podemos negar o fato de que um dos objetivos da escola é levar o aluno a ter domínio da escrita.
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o que é inerente a qualquer língua viva, mas não comprovam que as regras prescritas para os textos de gêneros formais estejam em desuso138.
A inobservância do gênero textual a que pertence a produção escrita necessariamente levará a índices bastante elevados de não-concordância com as regras normativas nos estudos comparativos, como bem demonstram os números apresentados em diversas publicações que realizam tal empreendimento (SCHERRE 2005; BAGNO, 2002c).
Por outro lado, em estudos que dão tratamento diferenciado a textos de gêneros formais e informais, em vista das particularidades que lhes são inerentes e que os caracterizam, esses índices de rebeldia às normas oficiais, próprias da modalidade escrita informal, são bastante reduzidos (LIMA, 2003). Essas são, portanto, formas diferentes de delinear o quadro da
norma padrão. Pesquisas que desconsideram o gênero textual para o levantamento dos dados
necessariamente apontarão maior discordância com as regras prescritivas que as pesquisas que consideram o genro textual com o qual se faz o levantamento sobre a concordância com as normas prescritas pela gramática normativa. Nesse sentido, ressaltamos as palavras de Decat (2005, p. 127): “a língua varia em função do uso, o qual está ligado aos propósitos e aos gêneros textuais”.
Além das pesquisas realizadas com corpora diversificados de gêneros textuais para a comprovação da obsolescência das regras normativas, cabe-nos ainda mencionar que encontramos também pesquisas que não apresentam dados estatísticos sobre a inobservância das regras normativas em textos de escrita formal. A título de exemplificação, tomemos duas frases dos jornais Correio Brasiliense e Folha de São Paulo transcritas por Scherre (2002, p. 232-232): “Não IMPORTA as sucessivas DECISÕES judiciais ...” e “FALTA ao governo FH DECISÕES corajosas e firmes...”. Com esses dois exemplos, a autora conclui que: “embora
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Pesquisa realizada com textos de gêneros textuais de escrita formal demonstra que as regras normativas estão em amplo uso na língua portuguesa (LIMA, 2003).
com baixa freqüência, observa-se também ausência de concordância verbal com sujeito plural depois do verbo na escrita padrão [...]” (grifo nosso). Ainda que a lingüista não nos tenha fornecido índices sobre a freqüência desse fato lingüístico, ela observa que a ausência da concordância com o sujeito posposto ao verbo é de “baixa freqüência”.
Os dados apresentados por Lima (2003, p. 185) – 0,4% das ocorrências de ausência de concordância com o sujeito posposto – confirmam a colocação de Scherre. Por outro lado, porém, esses dados sobre o não-atendimento à norma não corroboram, ao menos neste caso, a conclusão de que “a gramática normativa do português brasileiro precisa ser atualizada” (SCHERRE, 2002, p. 244). Concordamos com a afirmativa da autora, mas os dados apresentados não parecem apontar para essa necessidade, pois entendemos que a “baixa freqüência” do não-seguimento à norma prescrita pela gramática de que falam Scherre e Lima não justifica a atualização dessa obra. Ao menos não a justifica nesse caso.
Scherre (2005) pontua que a variação da concordância na língua falada estaria comprovada; na modalidade escrita, os indícios sobre esse fato lingüístico seriam evidentes, inclusive em textos produzidos por pessoas com alto grau de escolarização e em textos que passaram pelo processo de revisão. A autora ressalta, porém, que, no último caso, as estatísticas sobre a freqüência de variação ainda não são conhecidas. A ressalva de Scherre sobre a ausência de dados estatísticos acerca da mudança dos usos lingüísticos em textos de escrita monitorada ou revisada enuncia a preocupação da própria autora para com as exemplificações por ela apresentadas. Assim, entendemos que a falta de dados estatísticos, como fala a própria autora, impede generalizações sobre a mudança que estaria em curso na escrita monitorada. Nesse sentido, gostaríamos de fazer nossas as palavras de Martinet (1971, p. 30 apud HAUY, 1994, p. 8): “qualquer descrição será aceitável se for coerente, isto é, se se basear num ponto de vista determinado”.
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