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Os clubes modernos lisboetas não funcionam apenas no período nocturno: diversas confraternizações socioprofissionais, homenagens, chás dançantes e matinés infantis surgem relatadas na imprensa, indicando que estes funcionavam também durante o dia. No entanto, a documentação não permite concluir se este funcionamento diurno era diário ou apenas esporádico, ao domingo.

É o período nocturno que marca verdadeiramente a actividade dos clubes, a que lhes dá a fama de clubes modernos e a que privilegiámos nesta investigação.

A introdução do período nocturno na agenda das diversões só foi possível com o fim dos constrangimentos colocados à circulação nocturna e com o alargamento do horário de funcionamento dos estabelecimentos ao longo da década de 1920. Se no início de 1918 o Governo Civil de Lisboa determina que os «cafés, restaurantes, cervejarias, leitarias, casas de pasto e clubs encerrar-se-ão à uma hora»52, horário que possivelmente não era escrupulosamente cumprido, pois em Outubro do mesmo ano reforçava-se a recomendação sobre o horário de encerramento dos estabelecimentos, solicitando à Polícia que fizesse cumprir «o determinado no art.º 2º e seus §§ do decreto

49

A Virgem do “Bristol Club”, p. 136.

50

Anúncio publicado na revista ABC ao longo do ano de 1927.

51

Nome de Guerra, p. 14.

52

IAN-TT, ADL, PCL/PSP, Livro 249, «Registo de Ordens de Serviço», «Ordem de Serviço n.º 23», 23/01/1918.

n.º 3173 de 1 de Junho de 1917»53. Em 1920 o Governo Civil concede licença a vários estabelecimentos para estarem abertos até às 4 horas da manhã. Entre estes estabelecimentos encontramos leitarias, restaurantes e cafés, muitos deles situados nas proximidades dos clubes nocturnos54.

Em meados de Fevereiro de 1921, os estabelecimentos autorizados a estarem abertos das 0 às 4 horas incluíam já o Monumental, o Maxim’s, o Palais Royal, o Ritz Club e o Clube dos Patos55. Estes seis clubes continuavam a ter licença para encerrar apenas às 4 horas em meados de Março do mesmo ano56.

A noite dos clubes parece começar por volta das oito e estender-se até às cinco ou seis horas da madrugada. Quanto aos ritmos deste horário nocturno, é a literatura que nos dá as melhores informações. Às oito da noite os clubes já se encontravam abertos ao público. A essa hora podia-se jantar, embora a ceia fosse a refeição mais concorrida. Em

As Criminosas do Chiado, Georgette combina um encontro com César às oito no Ritz

para jantar. Também Palmira, em A Virgem do “Bristol Club”, se encontra frequentemente com um diplomata americano no Bristol Club para cear à mesma hora. Mas quem habitualmente jantava nos clubes a essa hora eram os empregados:

«Era a hora do jantar no Bristol Club – a hora de mínima animação em todos os cabarets; a hora onde raros espectadores vêem assistir à refeição do pessoal e dos papillons.»57

Surgem na literatura várias indicações de que alguns empregados teriam direito à refeição a esta hora.

«Pelas nove da noite, encontram-se quase sempre as mesmas pessoas no Roma Club: algumas raparigas galantes, as papillons, que fazem parte da casa […]; alguns rapazes de elegância irrepreensível, os bailarinos pagos […]; um ou outro empregado superior do clube que tem direito a comida, além do salário, e alguns raros frequentadores que, uma vez por outra, capricham em jantar ali, embalados na música branda, sonhadora, que a orquestra, àquela hora calma, executa sem o auxílio do jazz ruidoso, reservado para mais tarde, quando a animação pede um ambiente de loucura ou de histeria.»58

As primeiras horas eram calmas, sem grande movimento, contando apenas com a presença dos funcionários e de alguns raros clientes. Por volta das onze da noite começavam a chegar mais frequentadores, apresentando-se já alguns números de dança:

53

Idem, Livro 250, «Registo de Ordens de Serviço», «Ordem de Serviço n.º 281», 08/10/1918.

54

Idem, «Ordem de serviço n.º 357» de 22/12/1920 e «Ordem de serviço n.º 5» de 05/01/1921.

55

Idem, Livro 256, «Registo de Ordens de Serviço», «Ordem de Serviço n.º 48», 17/02/1921; «Ordem de Serviço n.º 51», 20/02/1921.

56

Idem, «Ordem de Serviço n.º 76», 17/03/1921.

57

A Virgem do “Bristol Club”, p. 136.

58

Mário Domingues, O Preto do “Charleston”, Lisboa, Livraria Editora Guimarães & C.ª, 1929, p. 19. Doravante esta obra será referida apenas por O Preto do “Charleston”.

«Eram onze horas. Ouviram-se os primeiros ruídos do jazz-band. A luz da sala teve um brilho mais intenso. As mesas iam-se ocupando de frequentadores. […] Não tardou que Tomé, o preto dançarino, executasse o seu primeiro “charleston” dessa noite […]»59

A animação ia aumentando com o avançar da noite: «Já dera a meia-noite. Começava a respirar-se um ambiente de nervosismo e de loucura, ao qual os mais fortes de espírito dificilmente resistiriam.»60 Depois da meia-noite acorriam aos clubes os que tinham saído de outros espectáculos61.

Da uma às duas da manhã é a hora mais animada, com danças, música, «uma multidão ávida de prazer, irrequieta e ruidosa, que esbracejava e gargalhava alto, mais por inspiração das bebidas multicolores do que por motivos de graça verdadeira.»62

«Era 1 hora da manhã. […] O Monumental àquela hora regurgitava. Uma nuvem colorida de mulheres decotadas formigava, inquieta, pelas salas. Uma orquestra, ao fundo, tocava o Jazz-band […]»63

Mas havia quem chegasse apenas por volta das duas da manhã, para cear ou conviver:

«Eram duas da manhã quando Gil, Guilherme de Mendonça e Rafael de Gois, em franca camaradagem com Norberto de Lemos, a sua amante Luísa Silvar e Georgette Pessau, francesa duvidosa, muito canalha e muito oxigenada, que mantinha relações com Guilherme, abancaram para cear.»64

Às quatro da manhã a animação ainda continuava:

«Eram quatro da manhã […]. Era a hora paradoxal da animação do Club. Viera desaguar na sua sala gente de todos os outros cabarets, de mistura com actrizes, com mundanas esfíngicas que só surgiam de madrugada, estrangeiros de passagem no Tejo… Tinham apagado os focos brancos – e a sala ficara apenas iluminada pelas lâmpadas dos frisos… […] No ring os corpos das dançarinas, de amassados que estavam, não se ritmavam ao compasso da música… As marteladas do jazz-band eram entrecortadas pelo estralejar das gargalhadas…»65

Contrariando a ideia da existência de uma animação forte que se prolongava noite fora, a novela Os Noctívagos descreve noites que, embora só terminem por volta das cinco da madrugada passadas em vários clubes, como o Maxim’s e o Regaleira, no entanto, contam com poucos frequentadores a partir das três da manhã, os «últimos 59 O Preto do “Charleston”, p. 24. 60 O Preto do “Charleston”, p. 25. 61

Ver, por exemplo, João Ameal e Luís de Oliveira Guimarães, As Criminosas do Chiado (Lisboa, Edição de João Romano Torres e C.ª, 1925, doravante referida como As Criminosas do Chiado), onde Tomás Galvão e Álvaro de Brito vão fazer uma leve ceia ao Monumental depois de assistir a um espectáculo no São Carlos.

62

O Preto do “Charleston”, p. 25-26.

63

As Criminosas do Chiado, pp. 140-141.

64

Uma Rapariga Moderna, p. 73.

65

grupos, isolados, tristes, quase fúnebres.»66 São raros os que ficam até ao fim, mas quer o cansaço, quer o excesso de álcool levam a que alguns se deixem ficar nos clubes até de madrugada. Por outro lado, o espírito de boémia “exige” que se goze a noite até ao fim:

«Quatro horas da manhã. […] Os três adolescentes pálidos continuavam no seu posto, cumprindo o seu dever – o dever snob de não sair do club antes das quatro e meia, levantando as golas dos sobretudos, com ares solenes de enfastiados…»67

São os jogadores os que têm a fama de ficar no clube até mais tarde, não dando pelo passar das horas de tal maneiras se encontram embrenhados neste passatempo alienante:

«[…] são os donos dos “clubes” de jogo, os pagadores, os banqueiros que depois de atravessarem uma noite inteira […] vão reunindo pouco a pouco numa última casa, que fecha mais tarde […]. Ao meio-dia ainda se joga»68

Animados ou não, muitos saem do clube ao amanhecer, para acabar nos cafés abertos àquela hora:

«Já tinham retirado os músicos. A sala começava a ter o aspecto de uma casa de negócio à hora de fechar. Lá fora andavam os primeiros carros que acordam o sol das cidades. Mas aquela mesa ia no meio da festa. […]

Uma vez na rua, apagada já a iluminação pública, começava a nascer o azul da manhã […]. D. Jorge enfiou com as damas por um café cujas portas nunca tinham sido fechadas desde a sua inauguração. […] chamou o criado e deu-lhe uma nota visível, várias vezes o valor do bagaço, e não quis o troco. Queria um automóvel.»69

Para voltar a casa impõem-se o táxi: «Os “táxis” inegavelmente auxiliaram Lisboa a civilizar-se, a ter vida nocturna, a ter movimento até alta madrugada.»70 A par da «idade do jazz-band», vive-se também a «idade dos táxis», outro símbolo de modernidade e movimento.

A descrição do horário dos clubes leva-nos à conclusão de que os seus frequentadores tinham uma enorme disponibilidade de tempo de ócio. São frequentes as referências às olheiras dos frequentadores dos clubes, muitas vezes realçadas pela maquilhagem. Se não se dorme de noite, passa-se a manhã seguinte a dormir. Há uma ruptura de costumes com os horários de trabalho, pois o tempo é inteiramente dedicado

66 Os Noctívagos, p. 35. 67 Os Noctívagos, p. 45. 68

Mário Domingues, «Combate dos Leões», ABC, 6/04/1922, p. 3.

69

Nome de Guerra, p. 30.

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ao ócio. Os rígidos horários tradicionais são quebrados em nome de uma maior liberdade de movimentos:

«o mundo divide-se em dois grupos, o dos avançados e o dos retrógados […]. Ninguém faz caso do giro dos ponteiros, a insubordinação alastra e progride […]. Janta-se à hora da ceia e ceia-se no dia seguinte… Como seria possível que aqueles que tudo faziam de véspera compreendessem o prazer do modernismo, sintetizado em ignorar-se cinco minutos antes o que vai fazer-se cinco minutos depois?»71

O sentimento de modernidade passa por nunca parar, pelo imprevisto, pela fuga aos horários estabelecidos, pela mudança de hábitos da qual os clubes fazem parte.