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O modernista António Ferro proclamou a década de vinte do século XX como A

Idade do Jazz-Band, o que implicitamente faz destes anos também a idade dos clubes e

dos cabarets, palco privilegiado do jazz-band, da vida nocturna que se impunha: «um ornamento digno da capital, nota indispensável para a vida nocturna da cidade»18

É certo que cada vez mais se popularizavam os divertimentos nocturnos em Lisboa:

16

Memórias de um Ex-Morfinómano, p. 85

17

Repórter X [pseudónimo de Reinaldo Ferreira], A Virgem do “Bristol Club”, Porto, Edições Primeiro de Janeiro, 1927, p. 141. Doravante esta obra será referenciada apenas por A Virgem do “Bristol Club”.

18

«Em pleno século XX a noite oferece mais atractivos do que o dia. Os que se deitam ao pôr do sol perdem o melhor da nossa época, passam pelo nosso século sem o ter vivido.»19

Perante os diversos espaços de diversão nocturna existentes, muitos deles oferecendo o mesmo tipo de actividades aos seus frequentadores, e as várias acepções de clube correntes na época, torna-se difícil descortinar quais os que realmente correspondiam à noção de clube moderno aqui em estudo. O reparo de um dos personagens do romance A Virgem do “Bristol Club” dá-nos uma aproximação à dimensão do fenómeno:

«– O que eu acho, menino, é que Lisboa se está debochando… Isto entrou numa verdadeira depravação… […] Ainda há pouco o Manecas, o pintor, me disse que havia p’ra cima de oito casas como esta…»20

Mesmo tendo em conta o funcionamento irregular e os encerramentos esporádicos de que estes clubes eram alvo, estaremos sempre a referir-nos a um universo de cerca de uma dezena de estabelecimentos e não um número de grandeza maior, o que se coaduna com a dimensão da cidade.

Contudo, várias são as vozes que se levantam para afirmar que não existem ou que são muito raros em Lisboa os estabelecimentos deste tipo enquanto espaço físico característico, quer no que respeita a clubes, quer no que se refere a cabarets. Em Janeiro de 1927, a revista ABC publicava um artigo dedicado às «Figuras de Clubs e Cabarets», no qual se declarava que, mais do que os locais físicos, raros ou praticamente inexistentes, em Lisboa existiam sobretudo as personagens que tipicamente os frequentam:

«Em Portugal é certo que muito poucos “clubs” temos dignos deste nome e é certo também que a respeito de “cabarets” ainda somos mais pobres. O que temos, porém, são figuras características que trabalham ou frequentam esses meios. E são essas figuras que dão ao “club” a originalidade e ao “cabaret” o fenómeno…»21

E as figuras a que se refere movimentam-se «de “club” em “club”»: são músicos do Bristol Club, são chefes dos criados do Alster ou porteiros do Alhambra, uns são clientes assíduos do Maxim’s, outros clientes ocasionais do Monumental. Podemos juntar a estes outros nomes, como o Palace, o Regaleira, o Clube dos Patos e o Ritz, locais frequentemente evocados na literatura como fazendo parte deste percurso nocturno.

19

Lobo da Serra, «O irlandês dos olhos de porcelana», O Domingo Ilustrado, n.º 43, 8/11/1925, p. 7.

20

A Virgem do “Bristol Club”, p. 140.

21

Para a determinação destes estabelecimentos partiu-se dos seguintes critérios: o facto de não se constituírem enquanto associações de recreio com estatutos; o reconhecimento do local enquanto clube moderno; a sua própria projecção enquanto tal; a localização na zona de eleição da cidade: os Restauradores, Avenida da Liberdade e Chiado. Assim, o elenco dos clubes nocturnos e modernos de Lisboa apresenta-se o seguinte:

- Club Maxim’s ou Clube dos Restauradores - Clube dos Patos

- Club Internacional - Palace Club

- Club Magestic, que mais tarde cede as instalações ao Monumental Club - Monumental Club

- Bristol Club

- Club Mayer, que mais tarde cede as instalações ao Avenida Parque - Avenida Parque - Ritz Club - Palais Royal - Regaleira Club - Club Montanha - Salão Alhambra

Conhecendo à partida o nome de alguns estabelecimentos22, recorri às edições do

Almanaque Comercial de Lisboa e da Lista Telefónica da época, através dos quais foi

possível determinar a localização e as barreiras temporais aproximadas da existência de alguns dos clubes nocturnos. As referências a estes encontram-se principalmente nas categorias intituladas «Associações diversas» ou «Restaurantes». O termo dancing club ou cabaret não consta sequer no índice de actividades dos estabelecimentos, embora o primeiro já exista no Anuário Comercial referente ao ano de 1948.

O estudo de Júlia Leitão de Barros possibilitou completar a informação que tinha reunido. A autora inventaria 21 «Clubes Tipo A», ou seja, «clube com fins comerciais, lucrativos, que funciona como ponto de reunião, onde a dança, o jogo, o serviço de

22

A propósito dos nomes dos clubes, é interessante constatar que muitos clubes recuperam nomes de célebres estabelecimentos estrangeiros, como o Alhambra, o Maxim’s, o Ritz, o Olímpia; outros adoptam o nome do palácio que lhes serve de instalações, como o Regaleira ou o Mayer; outros ainda recorrem a adjectivos que evocam o luxo e a elegância, como o Monumental ou o Magestic.

restaurante e os espectáculos se entrecruzavam», e 12 «Clubes Tipo B com Salas de Casino», sendo estes «clube[s] recreativo[s], bairrista[s] ou não, que funcionava[m] com determinado fim, fosse ele cultural, desportivo, político, artístico, etc.», que implicariam a elaboração de estatutos e a ausência de «qualquer objectivo lucrativo que ultrapassasse a mera melhoria das condições da associação.» Deste conjunto, a autora selecciona da listagem de clubes de tipo A uma amostra de 16 clubes nocturnos, que considera serem os clubes «caracterizados pelo luxo ou exotismo da sua decoração, pela frequência, amante do mundanismo cosmopolita e, naturalmente, pelo desfile de comportamentos e costumes novos e pouco banais.» 23

Se alguns clubes seleccionados pela autora, como o Maxim´s, o Clube dos Patos, o Palace, o Monumental, o Bristol, o Ritz, o Avenida Parque ou o Regaleira, não apresentam grandes dúvidas quanto à sua adequação e classificação como clubes modernos, pelas inúmeras referências a estes estabelecimentos enquanto tal, tanto na imprensa como na literatura, já o mesmo não se pode afirmar sobre os restantes estabelecimentos, quer por falta de informação conclusiva, quer por informação contraditória.

Tanto o Club Moderno como o Club das Avenidas não encaixam na definição de clube de Tipo A que a própria autora sugere, uma vez que se encontram registados como Associações de Recreio24, ambos em 1927 e em 1928 apenas o primeiro, bem como no registo das Sociedades de Recreio de Lisboa25, em 1924 o primeiro e em 1926 o segundo. A exclusão destes dois estabelecimentos da listagem de clubes pode ser ainda justificada pela sua localização fora da área privilegiada pelos restantes. Apesar de se localizarem numa zona recente da cidade, não deixam, pelas razões apresentadas, de se aproximar mais de uma realidade de “clube de bairro” e não “clube moderno da Baixa”26.

23

Júlia Leitão de Barros, op. cit., p. 37 e ss.

24

IAN-TT, ADL, GCL, 1.ª Rep., Pasta 659, Livro 809, «Registo das licenças das Associações de Recreio».

25

IAN-TT, ADL, GCL, 1.ª Rep., Pasta 1427, Livro 2173, «Registo das Sociedades de Recreio de Lisboa».

26

Por outro lado, as datas de abertura e encerramento apontadas por Júlia Leitão de Barros para o Clube Moderno (1927) são contrariadas tanto pelos pedidos realizados por este clube ao Governo Civil de Lisboa para prolongar as suas diversões para além da meia-noite ao longo do ano de 1917 (ver: IAN-TT, ADL, GCL, 1.ª Rep., Pasta 110, «Correspondência recebida: licenças para além das 0H») como pelo registo deste clube enquanto Associação de Recreio em 1928, facto corroborado pelo requerimento de licença para realizar uma festa até depois das 0H a 16 de Maio de 1929 (ver: IAN-TT, ADL, GCL, 1ª Rep., Pasta 1511, Livro 712, «Registo de Requerimentos para Festas – Lisboa»).

O Club Rato foi igualmente excluído, por falta de informação conclusiva e, sobretudo, por se encontrar já fora do espaço ao qual este estudo se circunscreve. Contudo, para o Salão Alhambra, Montanha, Internacional, Olímpia, Palais Royal a situação é algo diferente, pois apesar da informação encontrada ser bastante lacunar, estes inserem-se na zona dos Restauradores e Avenida da Liberdade.