Vivendo se aprende ; mas se aprende , mais, é só fazer maiores outras perguntas 49
Nosso propósito, com este pensamento, é justificar mais uma forma vertente expressiva de linguagem, dentre tantas, encontrada em Grande sertão: veredas. Cumprida a intenção, naõ podemos, entretanto, deixar de observar a exímia colocação do adjetivo verbal, em particípio presente, marca de arcaísmo lingüístico, na expressão espiava gerente para tudo.
Aqui a metáfora, por contextualização da frase, faz o adjetivo verbal ( gerente) ganhar a forma de um inusitado adjunto adverbial de finalidade. Isso ilustra metáfora por forma forjada no mais legítimo ambiente sertanejo. Note-se que todo esse brilhantismo não foge ao tema metáforas, epíforas e símbolos do mal, uma vez que a atitude de gerente inspira cuidado, atitude vigilante, previdente aos maus resultados.
4.3 - O misterioso e inexplicável Diadorim
Diadorim, ele era o em silêncios.50
Moço vistoso; seus olhos grandes ; asseado e forte ; moço tão variado ; o nariz fino; O Reinaldo tomava banho no escuro, por acostumação; tão sereno , tão alegre ; respiração dele ,tão remissa e delicada ; Não fosse um como eu ; Ouro e prata que Diadorim aparecia ali, a uns dois passos de mim ; Narro que naõ rendi melindres do feito de Diadorim; teso de consciência ; gostava aumentado ; Se escondeu; Diadorim é doido; Diadorim tinha morrido mil- vezes-mente.51
49 João Guimarães ROSA, Grande sertão: veredas, p. 312. 50 Ibid., p. 350.
51 Este cabeçalho foi criado para satisfazer uma necessidade de equacionar tantas expressões
primorosas acerca do personagem Diadorim. A idéia é a de fazer um apanhado ante a abundância de metáforas e expressões, com intenção de caracterização. A técnica que nos orientou foi o princípio de uma singela lembrança do olhar da janela de um ônibus, com reprodução idêntica de síntese e de acaso. Esse olhar retrata uma síntese verdadeira do ambiente. Isso pretendemos com as expressões sobre de Diadorim que compõem esse cabeçalho. Quisemos evitar que o leitor perdesse essa oportunidade, e, para isso usamos a técnica de colheita ao acaso. É, para nosso objetivo desnecessário citar normativamente, pois assim como naõ é importante o endereço das imagens vistas da janela do ônibus, também naõ é necessário citar número de página das expressões acerca
Colocamos, no inicio deste item, um parágrafo profundamente metafórico, depois da epigrafe. A medida deu-se pela necessidade de explorar as muitas expressões de alto valor provindas do personagem Diadorim. Acreditamos que tenha sido uma fórmula para equacionar extensão e profundidade do texto, com o incomensurável poder expressivo deste personagem, inspiração e reflexo em toda a obra.
Apresentamos neste cabeçalho, uma seleção de expressões e frases desconexas, elas surgem separadas por pontuação inerente.52 Esse arranjo marca a
influência, onipresente de Diadorim em Riobaldo, personagem–narrador em Grande sertão-veredas Mesmo que de Diadorim se leia tudo, ativamente, ele é um personagem misterioso. Hábitos noturnos são parte do seu caráter e valentia. Tentemos avaliá-lo por metáforas dele feitas. Terão metáforas dele o mal insinuado?
4.3.1 - Diadorim Menino
1- Por esses longes passei, com pessoa minha no meu lado (...) Já tenteou sofrido o ar que é saudade? 53
2- Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.54
3- “Você também é animoso”- me disse. Amanheci minha aurora. 55
4- Mais que coragem inteirada em peça era aquela, a dele. 56
5- Os gerais desentendem de tempo. Sonhação -- Acho que eu tinha de aprender a estar alegre e triste juntamente, depois, nas vezes em que no Menino pensava. 57
Destas cinco metáforas do Menino (Diadorim menino), subtraimos a metáfora mais contundente, a metáfora-mor do primeiro encontro dos meninos Riobaldo e Diadorim. Metafísica por excelência, ela se reporta anterior à referência lingüística e
de Diadorim, de João Guimarães Rosa , em Grande sertão: veredas, no cabeçalho acima. Assim cremos ter justificado normativamente a ausência das normas tradicionais nesta ocorrência .
52 Ponto e vírgula, cuja regra indica mudança de assunto no meso parágrafo. Isso queremos
enfatizar, são menções várias acerca de Diadorim, Essas expressões naõ poderíamos sonegar neste estudo, pois estaríamos perdendo parte expressividade de Guimarães Rosa nesta obra. Assim ,como um voo razante de pássaro benfazejo, fazemos colheita fácil no manancial roseano e trazemos por meio desta estratégia , que aqui explicamos .
53João Guimarães ROSA, Grande sertão:veredas,p.23-24 54 Ibid.,p 54.
55 Ibid.,p.84. 56 Ibid., p.86. 57 Ibid.,p.86.
foi, em parte responsável por nosso interesse por teorias da comunicação. Está, portanto, sacralizada e como tal isolada: “Muita coisa importante falta nome”58. Se o seu enredamento epifórico exorta o silêncio, também remete à zona anterior da conceituação, no espírito humano59. Entretanto, a noção da falta (que na expressão citada é uma flexão do verbo faltar) vale-se do vazio, e esta constatação metafísica é paradoxalmente muito expressiva. Esta, acima de todas surge para nós, do ponto de vista da filosofia da linguagem, como a metáfora máxima, talvez, desta obra.
As metáforas 1 e 2 da nossa relação apontam para um mal afetivo. Na primeira vem exposto o sofrimento na saudade abstrata do ar (lembrança com lamento). Na segunda, o fator tempo sugere velhice, e velhice com mágoa é mal.
Em 3, animoso diz de estado e conduta de alma, diz do coração, em sua mais tradicional versão , que não é o físico. Não por acaso, vem a segunda oração cheia de luz: Amanhecer e aurora. Quando, entretanto Riobaldo declara minha aurora está definitivamente captado pela entidade Diadorim, por meio de um paradoxo que podemos chamar de identidade dependente. Em 4, coragem inteirada em peça, e dele é o reconhecimento de uma coragem maciça. São noções que nos encaminham para a compreensão do personagem Diadorim, de Guimarães Rosa, controverso, razão e motivo do desespero de Riobaldo.
Em 5, a controvérsia é preclara : Sonhação termo regional para ilusão, alegre e triste juntamente, exprime a perturbação patente, mantenedora do drama que teve como ápice a dupla tragédia, a da morte e a da revelação de que não poderia ter havido drama algum.
A introdução pequena da apresentação de Diadorim, O Menino e Riobaldo menino surge como um marco, primeiramente na vida do narrador Riobaldo, que amadureceu, e, pela dor da angústia e da ansiedade passa a ser rapaz. O Menino, pois, é a imagem do rito de passagem, para Riobaldo. O amadurecimento de ambos aliou-se a partir dali. Daí o entusiasmo no reencontro, e a queda violenta e de
58 João Guimarães ROSA, Grande sertão: veredas, p. 86.
59 Emmanuel KANT, em Critica da Razão Pura detalha o processo de apercepção das categorias.
Essa apercepção virá a ser , mais tarde , no processo da codificação da linguagem , a primeira manifestação de um sistema do qual a simbolização é o último. A partir do símbolo surgem as figuras de linguagem, em nível filosófico. Por outro lado, o da Linguística faz lembrar Saussure, e sua noção de sintagma. Ver gráfico, no capitulo I ,(1.2; ). No fragmento por nós comentado, em Grande sertão-veredas .João Guimarães ROSA metaforiza o sentimento de Riobaldo Menino, na ocasião em que conheceu Diadorim Menino refere-se a essa zona anterior à linguagem.
surpreendente efeito, na tragédia apresentada a Riobaldo, com a morte de Diadorim. Essa morte rompe para Riobaldo a convivência com o amigo e bom soldado, e em dimensão muito mais significativa rompe com o mistério, que traz no seu bojo o vazio da perda do amor, e com equívocos de várias ordens.
4.3.2 - O moço Reinaldo
O reencontro com o menino, agora Moço Reinaldo traz para Riobaldo alento que, no texto de Grande sertão :veredas, aparece pelos signos. Construimos aqui nova tabela, pois seguimos a sequência do reencontro com o Menino, feita em poucas páginas . Sendo assim, a brevidade desse relato do reencontro (em relação a outros tantos na obra) e a variedade de tendências metafóricas merecem destaque. Para tal procedimento elaboramos nova tabela de número II.
1- Fugi. De repente, eu vi que naõ podia mais, me governou um desgosto. 60
2- Construí de desconfiar. Não do fato d’ele tal encarecer - pois todo tropeiro sempre muito pergunta -; mas do jeito como os outros dois ajudavam aquele a me ver. 61
3- Mas me reconheceu, visual . Os olhos nossos donos de nós dois (...) Digo . Ele se chamava Reinaldo. 62
4- O Menino me deu a mão: e o que mão a mão diz é o curto. 63
5- Mesmo o que eu estou contando, depois é que eu pude reunir relembrado(...) –porque ,enquanto a dois assim se ata, a gente sente é mais é o que o corpo o próprio é : coração bem batendo. Do que o que : o real roda e põe diante . –Essas são a hora da gente As outras, de todo tempo todo, são as horas de todos. 64
6- ...era um homem finório. Manoel Inácio, Malinácio dito.(....)me deu almoço ,me pôs em fala. 65
7- Dali , rezei minha ave-mariazinha de de-manhã, enquanto se desabaldava e amilhava. 66
8- E, aí desde aquela hora, conheci que , o Reinaldo, qualquer coisa que ele falasse ,para mim virava sete vezes. 67
60 João Guimarães ROSA, Grande sertão:veredas,p. 105. 61 Ibid., p. 107. 62 Ibid., p. 108. 63 Ibid., p. 108. 64 Ibid., p. 108. 65 Ibid., p. 106. 66 Ibid., p. 111.
9- Resvalo. Assim é que a velhice faz. Também o que é eu vale e o que é que não vale? Tudo. Mire e veja: sabe por que é que eu não purgo remorso ? Acho que o que naõ deixa é minha boa memória. A luzinha dos santos- arrependidos se acende é no escuro . Mas, eu, lembro de tudo.68
10- Escuta : eu não me chamo Reinaldo, de verdade. Este nome apelativo, inventado (...) carece de você não me perguntar por quê. (...) A vida da gente dá sete voltas – se diz. A vida nem é da gente. 69
67 João Guimarães ROSA, Grande sertão: veredas, p. 112. 68 Ibid., p. 112.
69 Ibid.,p.120.
TABELA II: O Moço Reinaldo
• Relembramos aqui, parte da observação feita na tabela anterior, com referência ao uso dos itálicos. Eles são usados, no espaço da tabela II, para evidenciar os termos, expressões ou pólos metafóricos. Ainda indicamos que, na coluna três, aparecem menções do foco principal da metaforização em análise , porque elas, assim indicadas serão analisadas em detalhe na sequência do texto , sempre sendo identificadas por seu número, indicado na primeira coluna
Sequência Metáforas (texto) Enredamento epifórico + tipologia N° 1
N° 2 N° 6
..me governou um desgosto Construí de desconfiar
...era um homem finório. Manoel Inácio, Malinácio dito.(....)me deu almoço ,me pôs em fala
Verbo/ Linguagem regional / cultura
Verbo/ Linguagem regional / cultura
Aglutinação e Pólos metafóricos:Mal e Inácio
N° 3 Os olhos nossos donos de nós dois Lexis poética, por meio de aliteração e inversão de ordem, também regional /cultural .
Pólos metafóricos -1°- Os olhos nossos ; 2° pólo metafórico – nossos donos (notar ambiguidade planejada da palavra nossos, aparecendo nos dois pólos,e o reforço pleonástico, em estilo