Sobral é uma cidade de porte médio da região noroeste do Ceará, situada na zona do sertão centro-norte do Estado. Sua localização é determinada pelas coordenadas
geográficas de 3º 41’10” de latitude sul e 40º20´59” de longitude oeste, com altitude média de 70 m. É ligada à capital do Estado pela rodovia BR-222, distante de Fortaleza, 238 km. Também se comunica com a capital por via aérea, em vôos diários e por via férrea, atualmente, utilizada para o transporte de cargas. Conforme, o mapa destacado acima, a localização do Município de Sobral no Estado do Ceará, bem como os seus limites (ao norte com a serra da Meruoca, Municípios de Alcântaras, Santana do Acaraú e Massapê; ao sul Municípios de Forquilha, Groaíras, Cariré, Santa Quitéria; ao leste Municípios de Miraíma e Irauçuba; e ao oeste Municípios de Coreaú e Mucambo). Sobral tem uma área de 2.129 km², sendo o 13º do ranking em extensão territorial no Ceará. Possui 11 distritos, incluindo o Distrito-Sede. Por estar bem localizada e possuir vias de fácil acesso, a sede de Sobral centraliza a produção de bens, mercadorias e serviços, comercializando-os para muitos Municípios cearenses e algumas áreas do norte do País. É a segunda maior cidade do Ceará e a quinta maior em população, possui aproximadamente 199.750 mil habitantes, número que alcançou na última década. É sede de macrorregional e microrregional de saúde, somando os habitantes das cinco microrregiões que formam a macrorregião chega- se a mais de um milhão de habitantes (AGUIAR JR, 2005; IBGE, 2010).
Girão e Soares (1997) assinalam que a ocupação histórica de Sobral representa a política da Coroa Portuguesa no período colonial, que consistia na concessão de sesmaria (cerca de três léguas – dezoito quilômetros à margem dos rios e riachos) que transformou o norte do Ceará em uma região de grandes fazendeiros, no fim do século XVII. Nesta conjuntura, foi criada a Fazenda Caiçara que se expandiu ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, quando passou a povoação. Esta fazenda pertencia ao Capitão Antônio Rodrigues Magalhães que, em 1743, doou parte de suas terras para construção da Capela de Nossa Senhora da Conceição, futura matriz da cidade de Sobral. Em torno da matriz e, mais tarde, da capela do rosário, surgiram as primeiras casas da povoação. Os bairros da Matriz e do Rosário formavam dois pequenos centros de atividade, que pouco a pouco foram se desenvolvendo até se unirem mediante o aparecimento de novas ruas entre eles. No dia 5 de julho de 1773, a povoação de Caiçara foi elevada a Vila, com o nome de Distinta e Real Vila de Sobral. Em 12 de janeiro de 1841, pelo Decreto n° 229, a vila de Sobral foi elevada à categoria de cidade, com o título de Fidelíssima Cidade Januária de Acaraú, pelo presidente José Martiniano de Alencar. Em 25 de outubro de 1842, pelo Decreto n° 224, a cidade de Januária passou a ser chamada cidade de Sobral (cidade que surge de antigos sobrados).
Nesse contexto, os primeiros serviços de natureza sanitária que surgiram eram extremamente precários, na maioria das vezes vinculados à caridade e às ações religiosas. As personagens mais conhecidas desse período que prestavam atendimentos à saúde eram os barbeiros, pajés, curandeiros, parteiras, religiosos e curiosos. Todos faziam atendimentos à saúde, mas sem oficial qualificação ou controle por parte do Estado (SILVA, 2007).
No fim do século XIX e início do século XX, o progresso econômico e cultural pelo qual passou a Cidade decorria de sua ótima posição geográfica, bem como da implantação da Estrada de Ferro Camocim-Sobral, que era passagem obrigatória das mercadorias que desembarcavam no Porto de Camocim, onde seguiam para a Europa em navios (GIRÃO &SOARES, 1997).
Por conta dessa conjuntura de desenvolvimento, principalmente, na metade do século XIX, Sobral foi sendo tomado por um grande contingente de pessoas. Todavia, a má estruturação urbana passou a gerar graves problemas de higiene, aliados a um crescente surto de epidemias, em particular, a cólera, a varíola e o sarampo. Ao mesmo tempo, acontecia o fortalecimento da Medicina Sanitarista nas grandes províncias brasileiras, em particular, São Paulo e Rio de Janeiro, que acabaram impondo ao poder oligárquico sobralense a necessidade de copiar experiências desenvolvidas nessas outras províncias (SILVA, 2007).
De modo geral, vale a pena apresentar pelos menos onze aspectos envolvendo o campo da história e da área da saúde mental, que destacam Sobral no interior do Ceará: I - por possuir uma história político-econômica privilegiada; II - por dispor de patrimônio legado de modelos arquitetônico associados aos traços da aristocracia local, formada ao longo dos séculos XVIII e XIX; III - ter sido a primeira cidade cearense a ser tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) entre 1997 e 1999; IV - por ter criado a primeira instituição especializada em atendimento psiquiátrico da Zona Norte do Estado, em 1974; V – por sempre ter sido sede de macrorregional e microrregional de saúde; VI - por ter entrado em 2000, na relação da “Rede Internacional de Municípios Saudáveis” (SOARES, 2004) – cuja experiência mais destacável encontra-se no Canadá, onde se trabalha numa dimensão que transcende a área da saúde; VII - por ter criado o primeiro Serviço de Residência Terapêutica (SRT) do Ceará e de toda região nordeste e também o primeiro de caráter público criado no Brasil logo depois da publicação, pelo Ministério da Saúde, da Portaria nº. 106, de 11/02/2000; VIII - por ter sido contemplada em 2001 com o prêmio David Capistrano da Costa Filho, na categoria Experiências Exitosas em saúde mental, promovido pelo Ministério da Saúde; IX
- por ter recebido em 2003 homenagem do Governo Federal pela organização da saúde mental no Município; X - por ter ganhado em 2005 o Prêmio de Inclusão Social, na categoria clínica; e XI - por ter recebido em 2006 o Prêmio Saúde É Vida (categoria Saúde Mental) promovido pela Editora Abril.
Tal pioneirismo tem rompido com as fronteiras nacionais, sendo potencializado no campo da política, das narrativas sobre Sobral e nos meios de comunicação que reforçam a ideia de “sobralidade triunfante” e a “city marketing” (FERREIRA, 2010b).
As narrativas locais em sua maioria estão registradas em livros de autores locais42e nos meios de comunicação que se preocupam em reforçar a Sobral de visibilidade nacional e internacional, a “sobralidade triunfante” e a “city marketing”.
Herbert Rocha (2003) aponta que as elites sobralenses são reforçadas por ondas de sucessivos eventos internacionais e locais que prolongaram o seu legado eurocêntrico até renderem-se ao monoculturalismo norte-americano na metade do século XX. O apelido pejorativo de “Estados Unidos de Sobral” denota a prosperidade de uma classe dominante relativamente às demais cidades cearenses, que refletia no espaço urbano suas convenções europeias. O referido apelido teve origem após a II Guerra Mundial, quando os Estados Unidos eram a referência de civilização do mundo ocidental e não mais a Europa destruída pelo conflito. Como ressalta Silva (2011, p. 60-61) “[...] durante o ‘governo Cid Gomes’, a cidade também ficaria conhecida como ‘United States of Sobral’, tendo em vista o fato de o prefeito ter adquirido um ônibus no modelo inglês e com a placa nesta língua – ‘school bus’ – para levar alunos à escola pública”.
Monteiro (2015, p. 26 grifo nosso) com base em Nilson Freitas também revela em sua pesquisa que
circulam histórias jocososas que falam do lado “besta” do sobralense, que favorece uma “americanização” da cidade no período em que Cid Gomes foi prefeito, entre 1997 e 2004. É muito divulgada notícias de jornal, artigos na internet [...] e pelos “causos” contados pelos moradores de Sobral a “doação” de uma fundação dos Estados Unidos a Ciro Gomes, no ano de 1988, de 15 ônibus escolares amarelos como o nome inglês “school bus” e que atualmente já não circulam pela cidade por falta de percas e de manutenção adequada. [...] [Na realidade,] os ônibus amarelos foram comprados pela Prefeitura, através de
42Ver COSTA, Lustosa da.Sobral cidade de cenas fortes. Rio – São Paulo – Fortaleza: ABC Editora, 2008; LIMA,
Cásar Barreto. As fantásticas estórias de Sobral. 3a Edição, Fortaleza: Premius, 2010; LIMA, Cásar Barreto.
Estórias de Sobral. 4a ed. Fortaleza: Premius, 2012; LIMA, Cásar Barreto. “Causos de Sobral”. Fortaleza: Premius,
2010; ANDRADE, Anahid. Terra de Contrastes. Edições Centenário. Rio de Janeiro, 1968; COSTA, Lustosa da [1938]. Clero, nobreza e povo de Sobral. Brasília: Senado Federal, Centro Gráfico, 1987; LIMA, César Barreto. Sobral de todos os santos – Fortaleza: Premius, 2011; SOARES, José Teodoro. A idéia de modernidade em Sobral. 2a
ed. –Fortaleza: Editora UFC/ Edições UVA, 2004.; Loyola Rodrigues, Francisco José. De Sobral saem os rumos: 99 poemas essenciais de Loyola Rodrigues. Sobral/Fortaleza: IMPRECE, 2008.
licitação “com o preço mais em conta que os nacionais diretamente dos Estados Unidos”.
Nilson Freitas (2010b, p.38) em seus estudos sociológicos analisa a publicação de um determinado jornalista que
em seu artigo expõe vários argumentos para construção da imagem do ser ‘sobralense’. Em um determinado trecho, o autor dá explicações para o caráter ‘cosmopolita’ da cidade, o ‘esnobismo’ de seus habitantes e a imagem de país ‘estrangeiro’ associado ao local. Diz ele: ‘Não são raros, por exemplo, os nomes de famílias, locais e instituições com raízes estrangeiras. Hoje, o sotaque sobralense é forte e bastante característico. Entretanto, não faz tanto tempo, o francês era língua corrente em reuniões da alta sociedade e nos saraus literários e a cidade ganhou um verdadeiro arco do triunfo em 1953. O inglês era soletrado em lugares como Derby Club – cujo nome foi inspirado na famosa prova de turfe de Londres – ou Palace Club, principal salão de festas da cidade”.
Deste modo, a sociedade sobralense foi marcada pela influência europeia, inclusive, no interior das residências mais tradicionais ainda é possível encontrar pianos e porcelanas importadas. Entre o inglês e o francês encontramos a “Sobral triunfante”, cujo povo frequentava o Teatro Apolo (1867-1910) e o Teatro São João fundado em 1880, em atividade até hoje, considerado o mais antigo do Ceará (SILVA, 2007). A cidade possui o Museu Dom José Tupinambá da Frota (1971), considerado o 5º do Brasil em Arte-Sacra e Decorativa, pelo Conselho Internacional de Museus; “Museu do Eclipse” (1999), criado em comemoração aos 80 anos da comprovação da Teoria da Relatividade. Um espaço totalmente climatizado que tem um moderno observatório, filiado à Associação Mundial de Astronomia. Entre os equipamentos de ponta, destaca-se o telescópio mais potente e avançado das regiões Norte e Nordeste do Brasil; Museu MADI Internacional (2005). Espaço inaugurado por ocasião do aniversário da cidade, e que deu visibilidade internacional para a cultura sobralense.
Este museu é o primeiro do gênero construído no Brasil e também único representante do “Movimento Madi” no País. Ao todo, possui cerca de 100 obras doadas por artistas Madi do mundo inteiro; “Arco de Nossa Senhora de Fátima”, também chamado de pelos sobralenses de “Arco do Triunfo”, por ser uma réplica do monumento francês, mas que apresenta a visível marca cristã pela presença da imagem de Nossa Senhora de Fátima fixada em cima do monumento. Este, por sua vez, foi construído em homenagem à passagem da imagem peregrina da referida Santa em 1954; “A Margem Esquerda do Rio Acaraú” (2004), um espaço de lazer de grande estrutura e visibilidade turística.