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Multivariate analyser av fruktbarheten og botidog botid

4. Hvor mange barn?

5.3. Multivariate analyser av fruktbarheten og botidog botid

Ao final deste trabalho é interessante destacar alguns aspectos que chamaram a atenção do pesquisador, mas que não foram abordados diretamente por não fazerem parte dos objetivos da pesquisa.

O estudo desenvolvido mostra como as esferas da cultura penetram no mais profundo dos indivíduos tornando-se subjetividade. As transformações sociais e culturais que ocorrem no capitalismo ao longo dos últimos séculos acabam por alterar a formação do indivíduo, que se apresenta menos capaz de resistir à autoridade e às metas da sociedade. Ao mesmo tempo, pode-se perceber que a cultura torna-se uma força independente e impessoal que domina sobre os homens. A interpretação de Adorno e Marcuse sugere tais elementos, sem negar a existência de pequenas parcelas da população que dominam sobre a produção cultural e rumos políticos da sociedade, entretanto, até os dominadores sofrem os efeitos de tal processo e a consequente regressão na formação da subjetividade. Adorno (1955/1991) adverte que a psicologia ou subjetividade não é nenhuma reserva do particular protegida do geral. Quanto mais crescem os antagonismos sociais, mais perde sentido o conceito liberal e individualista de subjetividade. O mundo pré-burguês não conhecia ainda a psicologia (enquanto subjetividade) e o totalmente socializado, com a invasão das esferas particulares pela produção material, não necessita mais de tal esfera. O poder social torna-se total, não necessitando de agentes mediadores como o eu freudiano e a individualidade. Assim, a cultura que é uma produção dos homens quando reunidos em sociedade torna-se independente destes a partir dos mecanismos engendrados pelas transformações sociais, políticas e econômicas.

Outro elemento que pode ser destacado da pesquisa é que a psicanálise freudiana, ao resignar-se ao estudo do indivíduo enquanto mônada demonstra como tal método pode servir de suporte para estudos a respeito da relação indivíduo e sociedade. A ideologia não é apenas um véu que encobre a realidade concreta, mas esta por meio da cultura penetra nas profundezas dos indivíduos e se transforma em subjetividade. Tal processo demonstra que a luta contra a ideologia não deve se pautar meramente em aspectos racionais desta, mas também afetivos e inconscientes.

Vale destacar, que na presente pesquisa os aspectos ideológicos da teoria freudiana não foram profundamente trabalhados, mas apenas citados, haja vista as produções estudadas de Adorno e Marcuse ressaltam tal aspecto. Todavia, não é possível negar alguns elementos da psicanálise que servem para encobrir contradições sociais. Dentre eles pode-se destacar:

Primeiramente, ‰ perceptƒvel que Freud interpreta toda a hist•ria da humanidade a partir de categorias burguesas e liberais como famƒlia e indivƒduo. Al‰m disso, ele reduz as contradi‚‡es sociais, a forma‚€o de grupos e massas, o carˆter violento e repressivo da cultura ao mito expresso em “Totem e Tabu” (FREUD 1913/1996). Assim, elementos que surgem a partir da domina‚€o do homem sobre o homem e da natureza interna e externa s€o relegados apenas a aspectos do microcosmo familiar e da horda primitiva (que parece a famƒlia burguesa estudada por Freud), esquecendo-se de todas as tens‡es sociais que perpassam tal fen•meno. N€o se deve negar que a constitui‚€o hist•rica da famƒlia estˆ intimamente ligada Š domina‚€o entre gera‚‡es no modelo liberal, mas tal aspecto n€o se reduz ao Œmbito familiar, mas ‰ mediado socialmente.

Outro elemento ideol•gico que pode ser encontrado nas obras estudadas refere-se Š quest€o da agressividade. Freud (1930/1996) muito rapidamente naturaliza a agressividade, n€o procurando as raƒzes polƒticas econ•micas e sociol•gicas desta. O autor sugere que a agressividade pode ser mediada pela agress€o da cultura Šs puls‡es, mas por fim relega tal elemento Š biologia, diminuindo a complexidade do tema e defendendo a ideologia burguesa.

Al‰m das quest‡es expostas, destaca-se que alguns elementos n€o foram trabalhados nesta pesquisa, mas sugerem a possibilidade de futuras investiga‚‡es. Um deles remete-se a rela‚€o entre natureza e cultura. Tal tema ‰ extremamente complexo e n€o foi devidamente aprofundado nesta pesquisa. Todavia, algumas perguntas surgiram durante o desenvolvimento da pesquisa: O que s€o as puls‡es para Freud e para Adorno e Marcuse? Qual a rela‚€o entre puls€o, cultura e natureza?

Outro tema interessante e que necessita de maiores aprofundamentos refere-se Š transforma‚€o da viol„ncia da cultura em agressividade nos indivƒduos. A “Dialética do Esclarecimento” (HORKHEIMER e ADORNO, 1944/1985) trata sobre a g„nese de tal processo na cultura por meio da internaliza‚€o da l•gica do sacrifƒcio e pelo domƒnio da natureza externa se estendendo Š natureza interna. Deve-se ressaltar as transforma‚‡es na cultura, sociedade e forma‚€o do indivƒduo a partir das transforma‚‡es no capitalismo, mas deve-se pensar como a viol„ncia da cultura transforma-se em agressividade individual mediada pela cultura na atual configura‚€o social.

As novas configura‚‡es sociais indicam um processo social mais cruel na domina‚€o dos indivƒduos. As obras estudadas de Freud destacam que a puls€o ‰ recalcada, ficando o desejo inconsciente e a proibi‚€o consciente. Nota-se que no capitalismo monopolista at‰ mesmo a proibi‚€o torna-se inconsciente (o recalque do recalque), dando aos indivƒduos a sensa‚€o da liberdade de a‚€o, ao mesmo tempo em que esta ‰ administrada para fins de

consumo. Um dos exemplos de tal manejo pela cultura ‰ a pseudoliberdade sexual, que demonstra os limites da liberdade na sociedade capitalista e denunciam a acentua‚€o da solid€o do indivƒduo no capitalismo tardio pela dissolu‚€o de institui‚‡es que vinculavam as pessoas entre si, mesmo que de forma autoritˆria. Percebe-se nesse movimento uma tend„ncia a vincular as pessoas n€o entre si, mas exclusivamente pelo consumo, at‰ mesmo de outras pessoas.

Tal elemento demonstra o anacronismo de certas contribui‚‡es freudianas, indicando a altera‚€o do que ‰ denominado na psicanˆlise de rela‚‡es objetais. A puls€o se fixaria em objetos no modelo psicanalƒtica clˆssico. A forma‚€o de eus fragilizados por processos narcƒsicos e a externaliza‚€o e padroniza‚€o de supereus, acompanhada pela felicidade no consumo sugerem que a puls€o n€o ‰ mais investida em objetos, mas na pr•pria t‰cnica, assim como no eu. Assim, com o fetiche da t‰cnica, os homens, despidos de autonomia, apresentam satisfa‚€o libidinal e agressiva n€o por meio de objetos, mas pelo uso da t‰cnica – para consumo de mercadorias e pessoas, que na atual configura‚€o do capitalismo tornam-se a mesma “coisa”. Tal processo traz profundas implica‚‡es para o pensamente psicanalƒtico, como tamb‰m, para o frankfurtiano, haja vista a importŒncia de compreens€o das formas de subjetiva‚€o geradas por tal processo.

Um •ltimo ponto a ser registrado refere-se Š opini€o divergente de autores psicanalistas recentes, que divergem dos frankfurtianos ao discordarem que a concep‚€o psicanalƒtica estrutural do sujeito, em sua rela‚€o com a Linguagem, implique na nega‚€o da historicidade dos la‚os sociais em que eles se inserem. Embora n€o tenha sido objetivo da presente disserta‚€o recensear e sistematizar os trabalhos que advogam esta concep‚€o, ponderou-se pela conveni„ncia de se assinalar a presen‚a da mesma no campo atual da Psicanˆlise. Neste sentido, em "O Conhecimento da Sociedade e da Cultura", Pacheco Filho (1997) prop•s que "a compreensão psicanalítica dos fatos sociais busca articular, por meio do processo edípico e do complexo de castração, a construção da subjetividade e do laço social", rejeitando a "oposição simplificada entre indivíduo e sociedade" e "pleiteando que sujeito e desejo só existem em função do laço social" (p.124). Ele argumenta que a Psicanˆlise mostra as defici„ncias do projeto de uma ci„ncia dos fatos humanos, que destr•i pela hipermoleculariza‚€o o seu objeto, em sua estrat‰gia inadequada de superespecializa‚€o dos cientistas, exatamente ao rejeitar uma separa‚€o artificial entre indivƒduo e sociedade:

Propor que o Édipo, o inconsciente e a Castração sejam os articuladores da constru‚€o do sujeito e do la‚o social implica, obviamente, em escapar a uma compreens€o da estrutura‚€o edƒpica como limitada Šs inter-rela‚‡es entre os membros da trƒade fundamental da famƒlia de classe m‰dia pequeno-burguesa. Em primeiro lugar, porque a pretens€o investigativa da psicanˆlise n€o se esgota na

anˆlise do processo edƒpico sob o capitalismo e, menos ainda, nos limites estreitos de uma de suas classes econ•mico-sociais. Em segundo, porque mesmo no caso do

Édipo pequeno-burgu„s, a constela‚€o social jˆ se encontra influenciando os

acontecimentos fundamentais: ‰ na condi‚€o de porta-vozes dos sƒmbolos da cultura e das prˆticas e leis da sociedade que os pais participam da castração simbólica do pequeno estreante na vida social. E ‰ tamb‰m nesta circunstŒncia que eles influenciam os modos de rela‚€o do sujeito com seu desejo e com os outros significativos, em todas as m•ltiplas possibilidades de estabelecimento de la‚os

sociais: no que eles evidenciam de massifica‚€o ou de singularidade; de irracionalidade ou de racionalidade; de inconsci„ncia e desconhecimento dos motivos de suas a‚‡es ou de intencionalidade consciente e deliberada; de passividade determinada pelo contexto s•cio-cultural ou de eventual a‚€o ativa operadora de transforma‚‡es sociais; em suma, no que apresentam de regra ou de

exce‚€o.(PACHECO FILHO, 1997, p.124)

Sendo assim, caberia distinguir entre a "alienação estrutural" do sujeito humano, em suas rela‚‡es com a estrutura transist•rica da Linguagem, e a "alienação histórica do capitalismo" teorizada por Marx, jˆ que "o 'mais-de-gozar' não se confunde com a 'mais- valia'. Cito Lacan no Seminário 16: 'Não é pelo fato de o trabalho implicar a renúncia ao gozo que toda renúncia ao gozo só se faz pelo trabalho.' " . (Pacheco Filho, 2011, p.1). Em um artigo intitulado " 'Lease your body': a encantação do corpo e o fetichismo da mercadoria", ele prop‡e que a afirma‚€o da trans-historicidade da estrutura n€o implicaria em subestima‚€o da relevŒncia da conting„ncia hist•rico-social e sim na explicita‚€o daquilo que lhe forneceria, no sujeito, a sua base de apoio:

Com isso, compreende-se que o objeto mais-de-gozar (um "b•nus" e n€o uma

transgress€o Š lei da interdi‚€o do gozo) possa ter sido destinado historicamente, no capitalismo, Š explora‚€o do trabalho e Š forma‚€o de "mais-valia" (a mola

propulsora dessa forma de la‚o social). Do mesmo modo, compreende-se que a "encantação" do objeto do desejo possa ter oferecido o fundamento sobre o qual veio a se apoiar, historicamente, o "fetichismo da mercadoria", no sentido marxiano

do misterioso "quiproqu•" pelo qual "a rela‚€o social determinada dos pr•prios homens assume aqui a forma fantasmag•rica de uma rela‚€o entre coisas.[ MARX,

A mercadoria (1867/2006).]" (PACHECO FILHO, 2010, p.40)

Na opini€o desse autor, a 'teoria dos discursos' lacaniana teria trazido contribui‚‡es valiosas para se pensar sobre os la‚os sociais em sociedades especƒficas, como o fez Lacan, p. ex., com suas reflex‡es sobre o 'discurso capitalista'. Em um artigo de 2009, intitulado "A praga do capitalismo e a peste da Psicanálise", prop‡e-se que a aliena‚€o originˆria e constitutiva (estrutural) do sujeito seja o que o leva a "oferecer-se como instrumento de um Outro (um Pai Onipotente), na esperança de escapar aos sofrimentos ordinários da vida humana" (PACHECO FILHO, 2009, p.143). Na constru‚€o do la‚o social os sujeitos elaborariam um saber coletivo, "que os asseguraria da ilusão mútua de que estão juntos na mesma fantasia e de que se remetem ao único e mesmo Outro Absoluto e sem falhas" (Id.). Isto constituiria a disposi‚€o estrutural e ‘trans-hist•rica’ do la‚o social, presente em qualquer

sociedade humana. Por‰m, haveria um adicional de aliena‚€o do la‚o social implicado pelo capitalismo, que responderia por uma amplia‚€o crescente e por um acr‰scimo progressivo da aliena‚€o do sujeito, nessa forma hist•rica especƒfica de sociedade. E isso ocorreria na medida em que:

o valor-de-troca surge na cena hist•rica como um modo particular de se conseguir um poderoso e in‰dito instrumento de articula‚€o, fixa‚€o e padroniza‚€o da ‘desejabilidade’ por um objeto, para os sujeitos de uma sociedade/cultura: talvez pud‰ssemos nos referir a isto como a fixa‚€o/padroniza‚€o/homogeneiza‚€o do

‘valor-desejo’ de um objeto, para os sujeitos de uma sociedade/cultura. (Ibid., p. 157)

Para este e outros autores recentes, o sujeito da Psicanˆlise n€o seria, portanto, uma ess„ncia eterna nem um conceito vazio e a-hist•rico do ser falante, implicando tamb‰m a perspectiva "da subjetividade hist‡rica, sustentada sobre as categorias de discurso e de saber, que indica em que a articula‚„o do sujeito e do la‚o social requer a coloca‚„o em jogo de figuras da subjetividade – distintas da estrutura do sujeito – relativas aos tipos de saberes historicamente e culturalmente determinados". (ASKOFAR•, 2009, p.165) Daƒ vem o temor de RAMOS (2010) (ele mesmo um autor influenciado pela Psicanˆlise e pela Teoria Crƒtica), de uma leitura unilateral frankfurtiana, exclusivamente hist•rica da metapsicologia freudiana:

Quando as categorias do sujeito s€o completamente absorvidas pela teoria social, reproduzem-se, na teoria, os esfor‚os que a sociedade tem feito para calar o sujeito. Disso decorre nossa resist„ncia Š entrega dos universais da psicanˆlise Š mesma l•gica hist•rica das categorias sociol•gicas: o sujeito, enquanto universal, n€o ‰ redutƒvel ao indivƒduo e Š subjetividade, enquanto particulares, a n€o ser sob os efeitos conscientes ou inconscientes da opress€o. (RAMOS, 2010, p.142).