4.3 Putting together the fseq
4.3.4 Multiple fseqs and the preliminaries of a gap-based
Infelizmente a fraqueza do coração de muitos não permitem a eles se tornarem fieis, porque aí até para a gente se salvar a gente tem que ser fiel e guardar o que temos recebido de Deus. O que ele prometeu: guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. O agressor de nossa alma é astuto e traiçoeiro e ele pega alguém que já estava no evangelho, até mesmo sem ser delinquente. Pessoas dentro das igrejas desfalecem.1(Palavras de um pregador com mais de 10 anos de experiência em evangelização em presídios do RN).1
Esse espaço foi destinado a discussão sobre a possibilidade de haver uma representação57 falsa da figura do evangélico e as impressões negativas sentidas por parte dos
entrevistados (agentes penitenciários, policiais militares, presos não evangélicos e até mesmo evangélicos), decorrentes desta “fachada58”, aparentemente utilizada por alguns presos que se
encontram custodiados em Alcaçuz.
Goffman (2002) afirma que o “papel” que um indivíduo representa é talhado de acordo com os papéis dos outros indivíduos. Aplicando esta observação à pesquisa, tem-se a análise do “papel” representado pelos presos evangélicos, diante dos presos não evangélicos, agentes penitenciários, Diretor e Vice-Diretor. Neste seção, portanto, o foco está na representação dos presos evangélicos ao interagir socialmente com os outros atores citados.
Goffman (2002) defende que quando o indivíduo está na presença imediata de outros, sua atividade terá um caráter promissório. Este indivíduo, entretanto, nem sempre representará59 o seu “eu” próprio, ou seja, a verdade, podendo, em outra via, transmitir
informação falsa intencionalmente por meio da fraude ou da dissimulação, porém, mesmo assim, os outros, provavelmente, acharão que devem aceitar o indivíduo em confiança, oferecendo-lhe uma justa retribuição, pois “a sociedade está organizada sob o princípio de que qualquer indivíduo que possua certas características sociais tem o direito moral de esperar que os outros o valorizem e o tratem de maneira adequada” (GOFFMAN, p. 19, 2002).
Contudo, caso os atores sociais percebam que o indivíduo está manipulando o aspecto supostamente espontâneo de seu comportamento, passarão a procurar no próprio ato da manipulação alguma variação da conduta que o indivíduo não tenha conseguido controlar, chama atenção Goffman (2002). A importância de tal situação, para Goffman (2002), está na sua consequência: “uma falsa impressão mantida por um indivíduo em qualquer de suas práticas pode ser uma ameaça ou papel inteiro do qual a prática é apenas uma parte, pois uma revelação desonrosa em um área da atividade de um indivíduo lançará dúvida sobre as múltiplas outras, nas quais não tenha o que ocultar” (GOFFMAN, p. 64, 2002).
57
Goffman (p. 28, 2002) utiliza o termo “representação” para se referir a toda atividade de um indivíduo que se passa num período caracterizado por sua presença contínua diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma influência.
58
Goffman (p. 29, 2002) explica que “fachada” seria a parte do desempenho do indivíduo que funciona regularmente de forma geral e fixa com o fim de definir a situação para os que observam a representação. Fachada, portanto, é o equipamento expressivo de tipo padronizado intencional ou inconscientemente empregado pelo indivíduo durante sua representação. Entre as partes da fachada pessoal inclui os distintivos da função ou da categoria, vestuário, sexo, idade, características raciais, aparência, atitude, padrões de linguagem, expressões faciais.
59
1Quanto à segurança sobre esta representação, Goffman (2002) defende que ela variará de acordo com as informações que os outros possuam a respeito daquele.
Dentro das paredes do estabelecimento social encontramos uma equipe de atores que cooperam para apresentar à plateia uma dada definição da situação. Encontramos às vezes uma divisão entre região dos fundos, onde é preparada a representação de uma prática, e a região de fachada, onde ela é representada. O acesso a estas regiões é vigiado, a fim de evitar que o auditório veja os bastidores e para impedir que estranhos participem de uma representação que não lhes é endereçada. (GOFFMAN, p. 218, 2002).
Com base nas observações tecidas nesta seção, até o presente momento, vejamos os resultados encontrados na pesquisa que se identificam com elas. Sobre a impressão negativa da representação, por exemplo, podemos destacar que alguns presos entrevistados, que se disseram evangélicos, reconheceram que há presos que se aproveitam de uma fachada, criada com base na imagem do evangélico, para ocultar uma outra representação, como posto acima, não endereçada à plateia. Por exemplo, o representação do evangélico é incompatível com certas condutas, como uso de drogas e indisciplina. Assim, ao representar o evangélico para alguém, no caso da pesquisa, para agentes penitenciários e outros presos, restariam, em tese, afastadas as condutas consideradas negativas na prisão, como uso de drogas e de celular.
Outra observação: uma mesma representação pode produzir impressões diversas sob aqueles com os quais se interage. Em relação a este aspecto, citamos uma situação que ocorre durante a pesquisa, na qual um preso “evangélico” afirmou que outro presos entrevistado não era evangélico, como teria dito. Para mim, a impressão da representação foi positiva, pois pareceu sincero, tendo dito que aceitou o evangelho, mas que não costumava frequentar os cultos da prisão, por não se sentir a vontade naquele ambiente. Já para o outro preso, a representação passava uma impressão negativa, talvez, pelo fato de não participar dos cultos, o outro apenado tenha tido esse juízo de valor em relação aquele.
Muitos entrevistados demonstraram ter esta impressão negativa da representação de alguns atores pertencentes à categoria social dos presos evangélicos, sob o argumento de que teriam tido acesso aos “bastidores”, onde aconteceriam as representações verdadeiras do “eu” (o preso usando drogas, celulares, falando gírias etc), as quais desmascaram a representação simulada do evangélico, pois, dizem ainda que quando estes falsários interagem para a “plateia”, com os presos que parecem ser realmente convertidos, adotam um comportamento parecido com o destes: o modo de andar, falar (não usam gírias) e tratar os outros (com formalidade e respeito), sobretudo, quando estão diante deles (dos responsáveis pela Administração do Presídio – agentes penitenciários e Direção).
Figura 21. Imagem de uma bíblia, com anotações de números
de celular em uma de suas páginas, mostrada na reportagem sobre revista realizada no Pavilhão I (que contava com 226 presos, na ocasião), em Alcaçuz, após a fuga de 20 jan 2012.
Fonte: Programa Patrulha da Cidade. 27jan2012.
A pesquisa indicou que os presos podem usar a religião como meio de conseguir privilégios, como sair dos pavilhões, onde o perigo é maior, e ir morar no Setor Médico, onde a “liberdade” (dentro do possível) é maior, pois têm um contato mais fácil com a Administração, ficam mais tempo sem estar trancados nas celas, trabalham, têm um local próprio para os cultos. Vejamos o que dizem, sobre essa questão, dois dos presos evangélicos entrevistados, que já moraram no Pavilhão 1:
Pedi a um agente pra tirar nós, porque alguns agentes aqui sabem, né, que ali dentro havia muito furada, muita morte. (...) Nós aqui no Pavilhão sofremos muito. Fizemos até campanha de oração em jejum pra ganhar, da parte de Deus, um privilégio de um trabalho, e Deus deu, né? Foi ele (Entrevistado 12).
Você acha qun já mudou para mnlhor?
Mudou, que eu tava no pavilhão, vim pra cá pra fora, ta bom demais.
Você nra dn qual pavilhão?
Do 1. Um pavilhão bastante complicado. (Entrevistado 14 – Preso evangélico)
A imagem do crente traduz-se em confiança, e, num ambiente prisional, onde a regra é desconfiar dos presos, quando se encontra alguém em quem se pode, de certa forma, confiar mais, ou, desconfiar menos, é natural que a essa pessoa sejam conferidos mais benefícios que àquelas que ostentam um comportamento mais indisciplinado.
Segundo Prandi (2007), Sociólogos entendem que a religião intervém na visão de mundo, muda hábitos, inculca valores, enfim, é fonte de orientação da conduta e Antropólogos ensinam que “a cultura constitui um processo pelo qual os homens orientam e dão significado às suas ações através de uma manipulação simbólica que é atributo fundamental de toda prática humana”, nas palavras de Durham (2004).
história de vida de cada ator social deve ser interpretada de acordo com os valores culturais a que o mesmo está sujeito, diante dos estímulos ambientais a que se sujeita, pois só assim conseguir-se-á entendê-lo de modo mais eficiente e completo.
Assim, quando se considera, no mínimo, um esboço da imagem conferida a um determinado ator social, por exemplo, o evangélico, muitos podem se aproveitar desse estereótipo para buscar atingir algum objetivo. Na prisão, pode muito bem ocorrer isso. Se um preso percebe que um tipo de pessoa está tendo vantagens, pode muito bem tentar seguir aquela linha de comportamento para tentar lograr alguns de seus anseios.
Teve um preso entrevistado, por exemplo, que se disse evangélico, e que antes de iniciada a entrevista, perguntou: “Responder essa entrevista vai ajudar no processo, é?” A resposta foi negativa: “Não, uma coisa não tem nada a ver com outra”. Esta passagem serve para elucidar que esta conduta não garante que ele não seja evangélico e que apenas esteja usando de má-fé para conseguir um benefício; pois evangélico ou não, todos procuram suas melhoras. A sinceridade da conversão é muito particular e não deve ser interpretada de modo taxativo. A dúvida paira e permanece sem uma resposta absoluta: ele é evangélico e também busca ter vantagens de outra ordem, que não a religiosa? É evangélico porque percebe que em sendo assim consegue vantagens? É evangélico e busca melhoras, como qualquer pessoa buscaria?
Vejamos o que alguns entrevistados exprimem sobre essa questão da provável conversão ao evangelho.
A gente sabe muito bem que não é só a questão específica de religião, sabe- se que há o interesse de quem vem de fora, não só de dar um apoio religioso, mas interagir na área jurídica, para ajudar o preso; o preso, por sua vez, têm outros interesses, até de ordem íntima. (...) Então, não há só o interesse religioso, mas o interesse material, as vezes financeiro, afetivo, então, quer dizer, a coisa é muito mais complexa. (...) Com sinceridade, eu não acredito que todos que dizem que aceitaram Jesus, realmente aceitaram. Muitos dizem da boca para fora. Eu diria, que uns 5% aceitaram de verdade. (Ex-diretor)
Tens uns que são, não todos, tem uma minoria, na verdade, que tem um perfil de vândalo ainda, apesar de ser evangélico. (...) Boa parte desses que se convertem, se convertem para receber alguma coisa, para receber algum material de higiene, alguma atenção. (...) Eles (os evangelizadores) trazem material de higiene, algumas roupas, e, o mais importante, para eles é a atenção. Geralmente, eles não têm atenção nem da família nem de ninguém. Aí, eles, quando tem uma atenção maior, os evangelizadores proporcionam isso a eles, atenção. (Ex vice diretor)
O próprio evangélico reconhece:
(...) O evangélico tem tanto privilégio aqui dentro da cadeia que... alguns presos respeitam, né? Respeito dentro da cadeia, até por outros presos. Ou
seja, porque os presos, muitos deles, respeitam o nome de Jesus, mesmo que não conheça. Mas quando um homem se torna um crente dentro da cadeia, ele ganha respeito, né? Até por outros, né? Mas o snnhor acha qun
tnm alguns qun fingnm qun sn convnrtnm só para tnr um tratamnnto mnlhor?
Ter um tratamento melhor e quando sai volta pro crime de novo. Não se converteu. Fingindo, no meio da gente ali pra ganhar privilégios, ou seja, pra ganhar algumas coisas ou..., num lugar desses, ganhar um emprego melhor, né? Porque muitos aqui porque se diz cristão, aí a autoridade confia nele e dá uma posição melhor a ele, né? Muitos, né? Uma outra coisa que eu achei muito legal também em ser crente é porque, ali, a gente, pra comer bem aqui, tem que mandar uma comida escondido, né? Ou, então, pela visita, a mãe ou a Irma, a esposa, pra Direção não começar... (Entrevistado 12 – Preso evangélico)
O próximo trecho consta de uma entrevista feita a um preso que já foi evangélico em sua adolescência, e que, antes de ser preso já não era. Afirma que frequenta os cultos, mas não quer se intitular evangélico na prisão, justamente devido a visão pré concebida daqueles que desconfiam da real intenção professada pelos presos que se dizem evangélicos.
Por qun você acha qun têm pnssoas qun nunca tivnram uma rnligião... Aí é prnsa n passa a tnr uma rnligião, mas quando sai, não fica mais na rnligião...
Porque se esconde detrás da palavra de Deus, pra ganhar algo melhor, né? Uma confiança. Ta entendendo? Porque muitos inventam de ser crentes aqui no presídio, não é pra aceitar Jesus, muitos é pra se esconder atrás da palavra de Deus, pra ter uma oportunidade, ta entendendo? Já saiu muito daqui evangélico e depois que saiu cometeu pior do que o que era. (Entrevistado 16)
Por fim, também nesse sentido, um preso não evangélico:
Eu não tenho nada contra ninguém, mas pra mim, se esconde tudo atrás da bíblia.
E nlns sn nscondnm atrás da bíblia pra quê?
A gente ta nesse lugar, né, a gente ta nesse lugar, a gente quer a melhora da gente. Aí, uns acha que ser isso aí, vai sair mais rápido... Eu penso eu. Vai sair mais rápido, gente vai olhar com outros olhos pra eles. (Entrevistado 31)
Já a visão dos agentes, em regra, pode ser representada pelos trechos seguintes:
Qual sua opinião sobrn os prnsos nvangélicos, aqui nm Alcaçuz, no caso?
95% dos presos evangélicos usam a religião pra se dar bem.
Eu qunro qun você foqun só na rnalidadn dn Alcaçuz. A sua nxpnriência dn 9 anos.
A maioria deles é pra se dar bem. (...) Eu acho que até pra enganar o... o... o servidor, né? (Agepen 2 – 2000)
(...) De uma margem de 10 que se diz evangélico eu estouro 2 que sejam de verdade. O resto...
E os outros sn diznm nvangélicos por qun nm sua opinião?
Pra ter regalias.
Qun tipo dn rngalia?
Ficar em local privilegiado com eles mesmos, com os evangélicos. Porque os evangélicos, na maioria das vezes quando eles são, eles retiram eles dos cantos mais perigosos e pra colocar numa cela só eles mesmos. (Agepen 8 – 2009)
Eu penso o seguinte: alguns usam da prerrogativa de ser evangélico pra tirar benefícios. Muitos poucos que realmente...
Qun tipo dn bnnnfício?
É... Ficar num canto melhor, pra se beneficiar em relação ao tempo que ele tem de passar aqui dentro, né? Apesar de muito poucos realmente seguir a carreira de evangélico. (Agepen 3 – 2000)
Diante das respostas dadas nas entrevistas, verifica-se que a maioria dos agentes penitenciários tem a opinião de que os presos apenas usam a imagem do evangélico para conseguir alguma regalia que lhes interesse, e não porque se converteu realmente.
Outro ponto que, tanto agentes penitenciários quanto os presos evangélicos entrevistados reconhecem, é a presença do respeito. Essa questão parece ser uma decorrência lógica do ganho desses privilégios. Respostas obtidas nas entrevistas mostraram que ser evangélico na prisão, em regra, denota respeito, pois presos não evangélicos costumam confiar neles, e, por isso, pedem conselhos e gostam de ouvir a palavra deles. Nesse sentido, declarou um dos entrevistados: “E até mesmo, às vezes, por causa de um respeito também, dentro de uma cadeia, né, pra ser respeitado. Não todos, mas têm alguns assim” (Entrevistado 8 – Preso evangélico). A Administração, por sua vez, ao confiar neles acaba por tratá-los também com mais respeito.
Teve um entrevistado, que citou uma situação bastante peculiar, nesse sentido: contou que conheceu uma pessoa que se dizia evangélico enquanto estava preso, mas que ao encontrá-lo na rua e chamá-lo de irmão, ele teria dito, “aqui eu sou boy fulano”. Esta passagem leva a duas possíveis interpretações: o preso, enquanto preso, pode ter-se utilizado da imagem do evangélico apenas para conseguir algum benefício ou a religião serviu naquele momento como instrumento de suporte, de consolo, para enfrentar a solidão e o sofrimento, que cessaram ou diminuíram quando ele foi solto, e, por isso, não despertou mais a necessidade de ser religioso.
Isoladamente alguns entrevistados apontaram outros motivos para o fato do preso abandonar a religião, como a infidelidade, a fraqueza etc. Vejamos alguns relatos.
O snnhor acha qun há prnsos qun quando sanm do rngimn fnchado, não pnrmanncnm na rnligião, por quê?
Infidelidade. Infidelidade mesmo. É. Tem uma causa aqui que leva muitas pessoas a se desviarem rápido. É abandonar a leitura bíblica e a falta de oração na vida. Tem um versículo da palavra de Deus que diz: Primeiro Timóteo, capítulo 4, versículos 4 e 5 que diz: Toda criatura de Deus é boa, sendo recebida com ação de graça, mas pela oração e pela palavra ele é santificado. Então, quando falta isso na vida, a oração e a palavra de Deus, a pessoa perde a santidade e volta para a vida cotidiana, normal ou pior do que estava, se era uma pessoa perigosa, volta a ser pior do que era. (Pregador da Assembleia)
Vejamos como se posiciona um dos presos evangélicos entrevistados, sobre esse aspecto:
No snu ponto dn vista, você acha qun nlns abandonam a rnligião, por qun, dnpois qun sanm da prisão?
Por causa das suas fraquezas. Porque... Ele começa a... O pecado é prazeroso, é muito prazeroso. Prostituição é prazeroso. Dinheiro é prazeroso... Então o pecado é muito prazeroso... Nossa carne ama essas coisas... Né? Eu vejo o seguinte: que eu não olho para essas coisas, que se eu passar a olhar para isso, eu também caio. Eu vejo nas melhores famílias... (Entrevistado 10)
Por fim, a pesquisa demonstrou também que a maioria dos agentes penitenciários e presos não evangélicos, além da Direção da época, acredita que muitos presos apenas usam a imagem do crente para ganhar mais confiança e serem menos visados e assim poderem praticar condutas consideradas ilegais ou mesmo faltas disciplinares, de forma a despertar menores suspeitas, ou seja: diminui a chance de serem surpreendidos e, em consequência, punidos. Um dos agentes entrevistados chegou a afirmar que teve um preso que se dizia evangélico, que fugiu, aproveitando-se da menor vigilância conferida a ele. Vejamos um trecho de um preso não evangélico que também apresentou essa opinião: “Acho que tem uns que procura Deus, mas tem uns que é só pra ficar melhor aqui dentro, né? Porque tendo uma religião todo mundo trata melhor. Ele é crente, ta entendendo, não faz nada errado. A imagem é essa, aí eles aproveitam isso aí. Eu acho assim”. (Entrevistado 18)
Muitos outros opinam nesse sentido, o seja, que uma parte realmente segue os preceitos religiosos do evangelho, mas que, em contrapartida, outra parte, se aproveita da imagem e, em consequência, do tratamento conferido ao evangélico. Abaixo seguem alguns trechos das entrevistas, que fortalecem esse entendimento:
Não, tens uns que é fiel a Deus mesmo, e têm outros que é patifaria, se escondendo atrás da bíblia. Todos eles são calmos, entendeu, mas tem deles que diz que é crente, e não é crente. Usa droga, fuma um cigarro escondido, faz algumas coisa. Isso aí é a vida particular deles, ninguém tem nada a ver com isso não. (Entrevistado 25)
Um ponto interessante explicitado nesse trecho diz respeito ao comportamento do preso que se diz evangélico (engloba-se aqui tanto os supostamente convertidos, quanto os que fingem), que de forma unânime foi apontado como detentor de melhor disciplina, pelos entrevistados. Assim, quando estão diante da Direção, eles se mostram disciplinados, e apenas quando surge uma oportunidade, dentro de suas celas, eles usariam seus celulares e drogas. Conclui-se, desse modo, que, mesmo ainda sendo falho e não ideal, o comportamento melhor já pode ser tomado como decorrência positiva em virtude da “prática” religiosa. Vejamos outros posicionamentos:
(...) Eu tenho um exemplo, desse 1 ano e pouco que eu cheguei aqui, eu me deparei com um camarada, um preso, que ele trabalhava num outro setor e veio pra aqui pra copa, acho que, assim, pelo bom comportamento e sempre eu percebia que ele andava com a bíblia na mão, mas quando chegou aqui, não passou muito tempo, ele fugiu. Todo mundo chamava ele de abençoado, era muito conhecido por abençoado, abençoado pra lá, abençoado pra cá, mas foi ele quem fugiu. Sempre andava com a bíblia na mão, se dizia convertido, mas depois disso ele foi recapturado. É o fato que eu conheço de alguém que se dizia evangélico e fugiu. (Agepen 4)1
O exemplo supracitado demonstra que o preso, ao que tudo indica, se utilizou da