Nestes pouco mais de 20 anos de materialização do processo de reestruturação do setor do coco estamos diante de um novo tempo do cultivo brasileiro do fruto. Para Elias (2003), Bernardes (2010) e Frederico (2010), esse novo tempo que se instala na agricultura do país, e não somente no cultivo de coco, é marcado principalmente pela presença de objetos técnicos recentes, que permitem uma maior velocidade das ações, seja na produção, no trabalho, na indústria, na circulação, na distribuição ou no consumo, levando a novas formas de uso e organização espaciais. O que vemos hoje, e cada vez mais, é um “campo que acolhe o capital novo e o difunde rapidamente com tudo o que ele acarreta, isto é, novas formas tecnológicas, novas formas organizacionais, novas formas ocupacionais, que aí rapidamente se instalam” (SANTOS, 1996, p. 142).
Salienta-se que a chegada do novo sempre remete a modificações, uma vez que “quando uma variável se introduz num lugar, ela muda as relações preexistentes e estabelece outras.
Todo o lugar muda” (SANTOS, 1994, p. 99). Ainda de acordo com Santos (1985), o novo está quase sempre ligado a inovações, enquanto o velho é tudo aquilo que já existia antes da chegada desse novo, e portanto não deve ser visto como sinônimo de atraso, mas sim como algo representativo de um tempo que já passou, de algo que coexiste com um conteúdo mais novo em relação ao que já existia anteriormente. Dessa forma, há uma coexistência mútua entre o novo e o velho, a exemplo do que é observado na produção de coco.
Atualmente podemos perceber a existência de dois modelos produtivos completamente distintos no Brasil: um centrado no cultivo de coqueiro gigante e outro no cultivo de coqueiros anão e híbrido. Assim, destaca-se que a reestruturação produtiva não atinge toda a produção de coco no Brasil com a mesma intensidade, processando-se de maneira diferenciada quanto ao cultivo dessas diferentes variedades de coqueiro. Percebe-se que o cultivo de coqueiro gigante é o menos incorporado ao contexto de reestruturação produtiva, uma vez que, em geral, sua produção ainda se dá fortemente baseada em moldes extensivos e semiextensivos, com uma rarefeita utilização de inovações técnico-científicas e agronômicas, sem realização de adubação, pulverização e irrigação, salvo algumas exceções encontradas em grandes fazendas que cultivam essa variedade (foto 01).
Além disso, observa-se nestes últimos anos uma crescente redução do cultivo de coqueiro gigante no Brasil, e isso pode ser justificado, entre outros fatores, pelo longo tempo de espera para o início da produção dos frutos, por volta de cinco anos, pela dificuldade em se colher esses frutos – já secos (foto 02), voltados para a produção de coco ralado, sobretudo –, e pela idade avançada dos coqueirais brasileiros, acarretando uma produtividade menor. Associada a isso está a proliferação de pragas nos coqueiros, os quais, por não receber os cuidados necessários, acabam ficando altamente susceptíveis e não resistindo. De acordo com Fontes (2010, s.p.), os “atuais plantios encontram-se em sua maioria abandonados, com produtores desestimulados, em função não somente dos baixos preços do coco seco, como também, da falta de políticas governamentais de incentivo à cultura”.
O cultivo dessa variedade, concentrado quase que exclusivamente no litoral da região Nordeste, lida ainda com uma forte concorrência do mercado externo, em virtude das importações de coco seco realizadas por empresas brasileiras, que adquirem o produto por um preço irrisório em países da Ásia, inviabilizando por completo a rentabilidade da produção interna do fruto. Outro fator que explica a redução do cultivo de coqueiro gigante no Brasil é a saturação do mercado de coco ralado e leite de coco. Ainda segundo argumenta Fontes (2010), se nada for feito para reestruturar esse cultivo, teremos que nos acostumar com as imagens dos
coqueirais apenas como formadores da paisagem cênica do nosso litoral, preservados apenas em resorts e condomínios, ou restritos a pequenos plantios54.
Foto 01 – Cultivo de coqueiro gigante em Trairi/CE. Foto 02 – Produção de coco seco em Amontada/CE.
Fonte: Cavalcante, 2014. Fonte: Cavalcante, 2014.
Por outro lado, há uma expansão de áreas cultivadas com coqueiro anão e híbrido, que são a representação mais fiel da reestruturação produtiva do setor. Quando nos referimos ao contexto atual do fruto no Brasil estamos falando basicamente do cultivo dessas duas variedades, em ampla expansão por todo território nacional, passando a ocupar até mesmo áreas não tradicionais no cultivo de coco, conforme indicam Fontes et al. (2002) e Martins e Jesus Júnior (2011). Motivados pelo mercado aquecido de coco verde no país (foto 03), os produtores estão investindo cada vez mais no cultivo dessas variedades (foto 04), com uma utilização intensiva de tecnologia, ciência e informação.
Dessa maneira, a modernização da produção de coco é uma realidade apenas para os cultivos de coqueiro anão e híbrido. Foram essas as variedades mais contagiadas pela reestruturação produtiva e as que mais absorveram as inovações advindas com a agricultura científica. Além disso, destaca-se que é também nas áreas de cultivo de coqueiro anão e híbrido onde o capital encontrou meios mais favoráveis de se difundir e de se territorializar, uma vez que foram essas as áreas elencadas pelo agronegócio para alavancar a quantidade produzida do fruto, impulsionada pelo aumento considerável do consumo de água de coco, favorecendo a inserção desse produto nos circuitos globalizados da produção e do consumo.
Assim, percebe-se que, conforme aponta Santos (1994, p. 98), “o novo não chega em todos os lugares e quando chega não é ao mesmo momento; por isso, o novo nem sempre chega quando é absolutamente novo”. Desse modo, devemos entender a recente modernização da produção de coco como algo setorialmente concentrado, já que somente os cultivos de
54 No entanto, apesar de uma certa estagnação, deve-se ficar claro que o cultivo de coqueiro gigante ainda persiste
coqueiros anão e híbrido foram inseridos nesse contexto. O capital preferiu intencionalmente atuar no cultivo dessas duas variedades em detrimento do coqueiro gigante, visto que o retorno financeiro e a renda auferida são infinitamente maiores.
Foto 03 – Produção de coco verde em Acaraú/CE. Foto 04 – Cultivo de coqueiro anão em Paraipaba/CE.
Fonte: Cavalcante, 2014. Fonte: Cavalcante, 2014.
Além dessa expansão dos cultivos de coqueiro anão e híbrido, chama atenção também a difusão do modelo produtivo do agronegócio pelos coqueirais do país, ancorada no ideário de se perceber a produção de coco enquanto atividade econômica de enorme potencial de crescimento, denotando o avanço da agricultura de mercado no cultivo desse fruto, onde a acumulação de capital passa a ser a palavra de ordem, segundo asseguram Bühler e Oliveira (2012). A propagação desse ideário pode ser facilmente observada, por exemplo, quando se conversa com algumas pessoas-chave que atuam no setor com a finalidade de compreender o atual momento do cultivo de coco no país, como presidentes e diretores de algumas empresas e representantes do poder público.
De um modo geral, há uma grande euforia do setor especialmente em torno do que vem sendo chamado de “agronegócio do coco”, termo inclusive já utilizado pela mídia e por alguns pesquisadores, a exemplo de Fontenele (2005). Um dos relatos mais significativos que ouvimos que comprovam essa euforia do setor, além de outros, foi em uma entrevista55 com o diretor de agronegócios da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (ADECE)56. Segundo ele,
Atualmente o coco é um grande negócio, eu estou enfatizando a questão do “atualmente”. Na verdade, ele atualmente está um grande negócio. Esperamos que ele continue a ser um grande negócio! Mas por que que ele está um grande negócio e ainda não é um grande negócio? Ele está se transformando num grande negócio, muitos investimentos ainda precisam ser feitos. Antigamente, há uns 20 anos, nem mesmo se podia considerar a produção de coco como uma atividade econômica, quadro muito diferente do observado atualmente.
55 Entrevista realizada em fevereiro de 2014, na sede do órgão, em Fortaleza.
56 Ligado do Governo do Estado do Ceará, esse órgão é responsável por fomentar o desenvolvimento econômico
O agronegócio do coco é uma realidade por todo o país, e isso tem tudo para se firmar ainda mais. Tem muita gente grande de olho no coco!
Pesquisadores da Embrapa, por exemplo, já publicam relatórios onde são ressaltados os benefícios do tal agronegócio do coco verde, um setor que “tem grande importância, seja na geração de divisas, emprego, renda ou alimentação” (MATTOS et al., 2006, p. 03). E há ainda aqueles que consideram o coco como a grande aposta do setor agrícola brasileiro como um todo, conforme relataram alguns empresários e produtores entrevistados. Em reportagem publicada pela Revista Globo Rural57, o proprietário de uma importante empresa do coco chega a dizer que tem grandes esperanças de que esse fruto se transforme dentro de 20 anos em uma
commodity, tendo seu preço cotado nas bolsas de valores pelo mundo, tal qual a soja, o milho
e o algodão, acreditando ser o coco “a bola da vez”do agronegócio brasileiro.
Como exemplo de empresas agrícolas que hoje atuam produzindo coco no Brasil e disseminando o ideário de desenvolvimento centrado na difusão e territorialização do agronegócio, podemos citar entre as principais: Sococo (no Pará), Ducoco, Cohibra e Unique (no Ceará), Aurantiaca (na Bahia), Kero Coco e Queiroz Galvão (em Pernambuco) e Coco do Vale (na Paraíba). Essas empresas, que cultivam exclusivamente as variedades anã e/ou híbrida, estão entre os principais agentes que propagam a expansão do agronegócio do coco no país, contribuindo para acentuar ainda mais o avanço do grande capital na produção do fruto, que passa a regular uma parte importante de tudo o que acontece nesse setor.
Dentre todas essas empresas citadas, o caso da Sococo chega a ser emblemático e digno de nota, pois configura-se como um dos mais significativos exemplos do evidente processo de territorialização do capital no cultivo do fruto, especialmente em virtude das enormes proporções do investimento empreendido por essa empresa. Fundada em 1966 em Alagoas, hoje a Sococo é a principal empresa agrícola e agroindustrial do setor de coco do Brasil, além de ser também uma das mais antigas. Já contando com uma unidade industrial instalada em Maceió (AL), em 1981 a empresa dá início a um grande plantio de coqueiros híbridos no município de Moju (nordeste do Pará), conforme aponta Siqueira et al. (2002), culminando na disseminação do primeiro cultivo de coco na Amazônia, mesmo ano em que inaugura sua segunda unidade industrial, dessa vez em Ananindeua, também no Pará.
Ao implantar suas fazendas no Pará, a Sococo foi a principal grande responsável pela desconcentração geográfica da produção do fruto em direção à região Norte. Após o início do primeiro plantio de coqueiros híbridos em Moju, a empresa realizou inúmeras aquisições de
57 Fonte: http://goo.gl/AF4RMv, Revista Globo Rural – “Água de coco faz carreira de sucesso no exterior”, matéria
terra e hoje possui 20 mil hectares, com aproximadamente 6 mil hectares produzindo e o restante ocupado por floresta nativa. Além disso, em 2007 a empresa adquiriu outras fazendas em território paraense, dessa vez no município de Santa Isabel, onde realiza um plantio de coqueiro anão em 2 mil hectares58. Além da grande quantidade de terras ocupadas pela empresa, um total de 22 mil hectares em plena Floresta Amazônica, o destaque da Sococo vai também para a quantidade de coqueiros cultivados.
Somente em Moju há aproximadamente um milhão de coqueiros plantados, o que faz da Sococo a maior empresa agrícola do setor de coco do mundo. Esse cultivo, exclusivamente de coqueiros híbridos, fornece uma quantidade que vai de 110 a 150 milhões de frutos produzidos por ano, inteiramente aproveitados em suas unidades industriais. Hoje o proprietário da empresa se orgulha de possuir essa imensa quantidade de coqueiros e de ser considerado como o “rei do coco”, conforme relatou em uma reportagem veiculada pela Revista Globo Rural59, representando um título que auxilia sobremaneira na difusão do ideário desenvolvimentista do agronegócio, analisado por Bezerra (2009).
Esse exemplo da Sococo, além de vários outros que podem ser evidenciados, revelam sobretudo a acirrada atuação do grande do capital no cultivo de coco, a partir da difusão do modelo produtivo do agronegócio, assentado exclusivamente no latifúndio, utilizando modernos insumos e implementos agrícolas, com um plantio de coqueiros basicamente anões e/ou híbridos e ainda com expressiva atuação também no setor agroindustrial. Assim, se em períodos anteriores eram somente os pequenos produtores que cultivavam o fruto, hoje observamos também uma série de grandes empresas investindo fortemente no setor. Como se pode perceber, a produção de coco no Brasil já não é mais a mesma, especialmente quando se observa a difusão e a territorialização do agronegócio latifundiário.