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A classe 3 é a que reuniu o maior número de unidades de contexto elementares (19,5%). Esta classe traz aspectos vinculados a situações de risco que ocorrem fora do ambiente escolar, mas que acabam refletindo diretamente dentro dos muros da escola: violência na família, pais usuários de drogas, violência no contexto do tráfico, assassinatos no contexto do tráfico, situações de ameaça à família:

Infelizmente, há algum tempo soube que dois dos alunos que mais me ameaçavam morreram, um num acidente de moto na Rodovia Dutra e o outro foi assassinado. Soube também que os dois eram usuários de maconha e que não abandonaram o vício. O aluno que morreu no acidente estava drogado e o segundo foi assassinado também em função das drogas.

Uma noite, aquela família teve sua casa invadida por traficantes, dispostos a cobrar uma dívida. O adolescente usuário de drogas não estava no local, por isso os traficantes assassinaram um outro filho daquela mulher, um jovem trabalhador que não tinha nada a ver com a história.

Um aluno com dificuldades de aprendizagem por causa do pai que é professor, usuário de drogas e muito violento, que maltrata a família e prejudica emocionalmente o filho.

Mas não surtiu efeito, a educanda abandonou a escola e hoje é usuária assumida publicamente e está com o estado de saúde bastante comprometido. O pior é que na família ela não era a única que fazia uso e não tem parentes que tenham punho forte para continuar buscando solução, a mesma mora com avó bem idosa e seu pai infelizmente age pior que a filha.

Claro que não tinha nenhum comprometimento com os estudos e acabou evadindo. Era um aluno casado e pai de duas crianças. Sua situação socio-econômica era precária. A mãe e os irmãos vendiam droga em casa. Apesar de ter uma vida bastante difícil, ia à aula todos os dias, mas exalava um terrível cheiro de cola.

Outros que tiveram a vida completamente modificada a ponto de abandonar escola e família, outros que morreram de overdose. Nunca tive que enfrentar uma situação mais séria em relação aos alunos usuários de drogas. Os embates e enfrentamentos mais sérios se dão fora da escola.

De maneira geral, a visão do educador sobre as drogas é pessimista, sendo frequentemente associada às “mazelas” da sociedade: violência intrafamiliar, violência do tráfico de drogas, evasão escolar, morte por causas externas.

Com relação ao aspecto escolar, vale ressaltar que a escola não aparece como um fator de proteção que dá conta de transcender os desafios vividos no contexto social ou familiar. Ao contrário, a vida escolar é mais um aspecto “destruído” pelas drogas. Assim, a visão apresentada é realmente fatalista: parece que não há nada nem ninguém capaz de deter os prejuízos gerados pelo uso de drogas.

Os professores, mais uma vez, consideram-se impotentes diante da situação. Falas como, “confesso que não soube lidar com a situação” e “me sinto frustrada por não ter conseguido fazer a diferença na vida desta criança” ilustram os dois sentimentos que aparecem simultaneamente - impotência e culpa - conforme é possível perceber na UCE abaixo:

A postura da escola foi deixar o aluno abandonar a escola e nunca mais tivemos notícias desta criança e isto me marcou muito, pois fui omissa mais do que a família.

O aluno então me disse que foi no bairro onde mora, bairro de periferia, com uns amigos que já usavam e que resolveram oferecer a ele. Ele me disse que o crack estava em uma lata de leite e que ele o inalou e tragou, complementando que assim ficava mais forte. Tentei conversar com os dois, mostrando do perigo de experimentar e logo ficar viciado, falar das consequências, mas diversos contra- argumentos apareciam. Todos baseados na ideia de que são donos da própria vida. Entendi como se esse fosse outro caminho para alguns meninos se sentirem incluídos no mundo dos jovens, além de mais fortes e senhores de si. Confesso que não soube lidar com a situação e os relatos. Me preocupei, conversei, mas tenho total consciência de que isso é muito pouco.

Entretanto, como pano de fundo dessa situação, pode-se perceber também que as ações relatadas são, em sua maioria, ações solitárias, nas quais o professor se apresenta como único responsável junto à família pela resolução do conflito, não acionando a rede da escola, como por exemplo, o conselho tutelar, centros de saúde, a segurança pública, a comunidade.

Outro aspecto interessante diz respeito à visão dos professores com relação às famílias. Essas são consideradas a principal causa dos problemas de envolvimento com drogas. Os relatos demonstram como as famílias são percebidas como desestruturadas pelos aspectos econômico-sociais, pelo uso de drogas e até pelas novas configurações familiares:

Chegando lá conversamos com a madrasta, providenciamos um banho para ele, alimento e o deixamos dormindo. Pudemos perceber o descaso da família nesse caso específico, sem mãe, pai ausente, aos cuidados de uma madrasta que demonstrou total desinteresse, pois ele morava com o pai e madrasta e era rejeitado por ambos, eles não estavam interessados na educação dele e nem com a própria vida.

E adultos vivem em situações sub-humanas, em que o único meio de sustentação é a bolsa escola. Muitas destas crianças são filhas de mães solteiras, algumas delas moram com os avós e outras vivem com os pais que são alcoólatras e alguns deles, ainda viciados em inalantes, por ser mais barato, possibilitando assim o uso frequente.

Ela era professora, seu filho era meu aluno e todos nós sabíamos que ele era usuário de drogas. Ela tinha uma vida muito sofrida, pois os traficantes iam a sua porta fazer cobrança de dívidas do filho dela. Como ela fazia salgados para vender na escola e na lancha em Mar Grande, um certo dia ela vendeu muito, então ele tramou um assalto contra sua própria casa e sua própria mãe.

É compreensível, portanto, que os professores se sintam impotentes diante das drogas, uma vez que estabelecem poucas parcerias além da família, a qual, também aparece fragilizada pela presença da mesma, seja pelo consumo ou pela proximidade com a rede do tráfico. Dessa maneira, torna-se necessário capacitar os professores a partir de uma visão sistêmica sobre o enfrentamento das situações de risco e a prevenção do uso de drogas, de maneira a compreender que a família também é um fator influenciador e influenciado por esse uso, necessitando também de ajuda e proteção. Estabelecer outros vínculos na rede de proteção irá fortalecer o papel do professor, sem exigir que esse extrapole sua função de educador e mediador do conhecimento, nem que negligencie sua função de proteção à saúde integral da criança e do adolescente:

Um ano e dois meses depois, ele estava totalmente curado desta maldita doença, o remédio foi o amor, atenção, carinho, respeito e um psicólogo que lhe cuidou com dedicação e hoje trabalha e tem uma linda família feliz.

Esta classe estabelece relações entre a situação familiar, o contexto social e as situações-problema. De alguma forma, nestas categorias são evidenciados os riscos e as consequências negativas do uso.

3.1.2.4 - Análise da Classe 7 da questão 20: ameaças e situações de risco aos