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Desde a minha chegada à cidade de Fortaleza para cursar o Mestrado, no mês de abril de 2010, deparei-me com a presença de outros alunos africanos que vivenciavam a mesma condição que eu: jovens estudantes, sozinhos, tendo que “se virar”, em uma cidade e um país distintos dos seus. Nesta nova etapa de vida, primeiro tive que me adaptar e aprender a viver em Fortaleza, só, longe do controlo social de meus pais, familiares, vizinhos e amigos. O segundo desafio foi a adaptação ao modus operandi de uma metrópole que tinha os horários, o trânsito, os ônibus e instituições públicas distintas da realidade moçambicana. Com o tempo, fui adaptando-me à faculdade, à cidade, à cultura e à língua que, às vezes, pareciam próximas e, outras vezes, mostravam-se muito distantes.

Assim, durante três anos, morei sozinho em uma pequena kitinete, na Rua Marechal

36 Entretanto, no ano 2016, este impulsionador da Diáspora africana abandonou o Ceará, transferindo-se para o Estado da Bahia, interrompendo o excelente trabalho a animação política e cultural das comunidades africanas em Fortaleza e na Unilab.

53 Deodoro, logradouro que, à época, concentrava a maioria dos estudantes africanos no Bairro Benfica e, que ficou conhecida, inclusive, como “rua dos africanos”. Nesse período, conheci estudantes brasileiros e africanos, troquei experiências, participei de festas organizadas por africanos e por brasileiros, assim como participei das diversas agremiações estudantis que congregam africanos. Nesse tempo, fui construindo laços e adquirindo alguma experiência do “viver” em Fortaleza e pude experienciar, na minha própria trajetória, mudanças acontecidas na forma de ser, de estar e de me perceber. Foram percursos de experiência de vida ao longo dos quais a identificação originária, enquanto moçambicano, foi perdendo força para a identificação diaspórica enquanto africano.37

Ao mesmo tempo, vivenciava uma intensa experiência acadêmica, participando das aulas do Mestrado, de grupos de leitura, das discussões, assistindo palestras e outros eventos na UFC e em outras universidades, estabelecendo, desta forma, contatos e relações com estudantes, professores e pesquisadores vinculados às Ciências Sociais. Foi através de eventos acadêmicos – congressos e cursos de extensão – que visitei outros estados brasileiros, troquei experiências e mantive contatos com diferentes sujeitos de outras instituições de ensino. Dentre as experiências acadêmicas vivenciadas, destaco o Curso de Extensão e Formação sobre Atualização das Diásporas Africanas nas Américas, oferecido pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) em parceria com a organização não governamental de mulheres negras (ONG) denominada Crioula, na cidade do Rio de Janeiro, onde passei cerca de cinquenta dias, com distintas populações africanas, negras, afrodescendentes e imigrantes nas Américas. Nesse Curso, inteirei-me da realidade socioeconômica vivenciada pelas populações afrodescendentes brasileiras, norte-americanas e imigrantes, espalhadas no continente americano, bem como, mantive contato com alunos, professores e pesquisadores brasileiros, norte-americanos e asiáticos.

Nessas viagens, com fins acadêmicos, também visitei a cidade de Salvador, na Bahia, durante três anos consecutivos, participando de congressos e cursos de extensão sobre as dinâmicas identitárias nos países de língua oficial portuguesa e também sobre o movimento de GLBTI’s e suas questões no Brasil e no mundo. Foi um momento de ampliação de horizontes e de convivência com a negritude e com as diferenças no âmbito da sexualidade. Por duas

37 A questão das ressignificações das identidades etnicorraciais entre os estudantes africanos afigura-se, deveras, importante para a compreensão do cotidiano desses sujeitos na Diáspora. Assim, discuto tais ressignificações identitárias, ao trabalhar, de forma sistemática, as experiências de sujeitos diaspóricas no Ceará, particularmente, em Fortaleza.

54 vezes, estive na cidade de Recife, no Estado de Pernambuco, assim como em Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte, participando de congressos e nos processos seletivos para o Curso de Doutorado, ocasiões em que mantive contatos com outros estudantes brasileiros e africanos, em suas vivências diaspóricas. Nos eventos que participei e lugares que visitei, quase sempre, encontrava outros estudantes africanos, a maioria dos PALOP que, chegados ao Brasil, vivenciavam contextos sociais semelhantes ao meu: estrangeiros, estudantes, africanos e imigrantes temporários, inseridos na sociedade brasileira.

Assim, na condição de estudante africano, oriundo de Moçambique, residindo há mais de seis anos na cidade de Fortaleza – onde cursei o Mestrado em Sociologia, na UFC e, atualmente, concluindo o Doutorado em Sociologia, na mesma Universidade – assumi, como tarefa investigativa, adentrar nas construções identitárias de sujeitos a vivenciarem um tipo particular de Diáspora africana: a saída de África, de seus países de origem para o Brasil, na aventura de desenvolver formação profissional, no âmbito do ensino universitário superior. Por que a temática das identidades ganha relevância no fenômeno da Diáspora? Nos processos diaspóricos, como os estudantes vão reconfigurando seus processos identitários? São estas questões fundantes a mobilizar o meu esforço investigativo ao longo desses últimos cinco anos, notadamente nos percursos do Doutorado. A rigor, são incontestáveis as transformações identitárias que os estudantes africanos vivenciam nas suas trajetórias na Diáspora. Minha própria experiência, enquanto estudante e pesquisador, mostra que os estudantes africanos vão negociando suas identidades, ao longo de suas trajetórias na Diáspora. É fato inconteste que, ao investigar as ressignificações identitárias, adentro também na minha própria experiência.

Todavia, do ponto de vista teórico-metodológico, tenho clareza e consciência de que não pretendo construir uma etnobiografia.38 Assim, não me coloco como figura central no

processo investigativo desenvolvido ao longo de 5 (cinco) anos e aqui consubstanciado nesta

38 Acerca da etnobiografia, na Introdução de sua obra conjunta, intitulada Etnobiografia: subjetivação e

etnografia, Marco Gonçalves et al., (2012) argumentam que “a Antropologia tem propiciado novas conceituações que procuram dar conta das relações entre razão cultural, construção de personagens etnográficos e sujeitos subjetivados. A partir desse horizonte de reflexão, surge, a partir da tensão produtiva entre os temas clássicos da biografia e etnografia, uma nova formulação teórica, qual seja, a etnobiografia” (p.9). Estes autores afirmam ainda que, a partir de experiências individuais de cada um dos atores, em suas percepções culturais, vai- se estruturando uma narrativa que procura dar conta desses dois aspectos de forma simultânea, propondo, de uma só vez e num só momento, a relação entre subjetividade, objetividade, cultura e personalidade. Assim, a

etnobiografia propõe-se a problematizar conceitos-chave da teoria sociológica clássica e suas dualidades, como individual e coletivo, indivíduo e cultura, abrindo espaço para a individualidade ou imaginação criativa. É desta

forma que emerge a definição de etnobiografia, como construção que pretende dar conta da “intrincada relação entre sujeito, indivíduo e cultura” (Op. Cit., p.9).

55 Tese. No entanto, é indiscutível que a minha vida experiência é uma referência importante no processo de compreensão das ressignificações identitárias dos estudantes africanos e da própria Diáspora Africana no Ceará. De fato, como sujeito do processo diaspórico investigado e como pesquisador deste processo, vivencio desafios e tensões metodológicas a exigir-me uma permanente vigilância epistemológica: como constituir um processo de “objetivação participante”, rompendo com aderências e adesões mais profundas decorrentes de minha condição de sujeito do campo investigativo, assim internalizando lições de Pierre Bourdieu (1989), ao discutir os habitus39 da Sociologia Reflexiva?40

Neste sentido, ao longo de todo o processo investigativo, encarnei o desafio metodológico da dialética de aproximação e distanciamento críticos, buscando chegar à objetivação desta experiência da Diáspora. Tal distanciamento e aproximações foram por mim efetivados de forma cuidadosa e paciente, por conta dos riscos de enviesamento da realidade, tendo em vista a minha posição enquanto estudante e pesquisador africano. Assim, nessa empreitada, esforcei-me por vivenciar esta dialética da aproximação e do distanciamento: consciente da minha condição de estudante africano, busquei pesquisar indivíduos socializados em culturas e sociedades próximas às minhas de origem, procurando, de forma sistemática e recorrente, perceber processos e detalhes, ouvir sujeitos em suas narrativas, estar atento a chaves de compreensão presentes nas experiências e narrativas dos estudantes africanos.

De fato, mergulhei no universo dos sujeitos, buscando sempre “estranhar o familiar”, por distintas vias: observação permanente, conversas infindáveis, entrevistas em profundidade, transcrição atenta e reflexiva dos discursos dos entrevistados e uma atitude vigilante no resgate da minha própria experiência. Neste sentido, ajudou-me a permanente interlocução com a minha Orientadora Alba Carvalho que, também, acompanhou a minha trajetória existencial a hibridizar-se com minha trajetória acadêmica. Desse modo, no curso do

39 Bourdieu (2003) define habitus como um “sistema de disposições adquiridas pela aprendizagem implícita ou explícita que funciona como um sistema de esquemas geradores, e gerador de estratégias que podem estar objetivamente em conformidade com os interesses objetivos dos seus autores, sem terem sido expressamente concebidos para esse fim” (p. 125).

40 Buscando orientações no exercício do “ofício da pesquisa”, tomei, como uma de minhas referências, as contribuições de Bourdieu (1989) no texto Introdução a uma sociologia reflexiva da obra O Poder Simbólico, um texto clássico no qual, o autor propõe uma sociologia como uma atividade racional e realista, orientada para a maximização e utilização dos recursos de forma proveitosa, no sentido do pesquisador ser capaz de controlar seus próprios vieses, fugindo da armadilha de uma busca mística. Argumentando Bourdieu que sociologia reflexiva significa constante vigilância do próprio cientista produtor de conhecimento, em relação ao próprio campo e ao objeto que estuda. Chama atenção para a necessidade de vigilância teórico-metodológica, de modo a evitar enviesamentos que impeçam a configuração das tessituras do fenômeno em estudo.

56 processo investigativo, fui (re)discutindo com a Orientadora, minhas próprias vivências e percepções, no sentido de não tomá-las como algo dado e, sim, como material investigativo.

Durante as observações de campo e entrevistas, procurei, encarnar uma postura de distanciamento crítico, muitas vezes, encarado com estranhamento pelos meus interlocutores de pesquisa que achavam que, por eu ser estudante africano, conheceria já o universo por eles e elas vivenciado. Cabe aqui esclarecer que este universo de estudantes, oriundos de diferentes países e etnias africanas é deveras heterogêneo. Desse modo, defrontei-me também com distinções consideráveis entre os sujeitos do campo. Muitas vezes, as distinções de país, nacionalidade, classe, renda, etnia, grau acadêmico constituíram barreiras que me distanciaram do coletivo de estudantes africanos, em sua diversidade. Ao mesmo tempo, esses estudantes, denominados africanos, mostraram-se a mim com semelhanças, por conta do processo histórico em comum, na condição de oriundos da uma cultura bantu,41 com grupos

culturais e línguas em proximidades, enquanto sujeitos do continente africano e de países que foram colônias europeias durante centenas de anos, vivenciando guerras de libertação nacional e, depois, guerras civis. E, mais: tenho em comum com os estudantes, as experiências de subdesenvolvimento, conflitos políticos, guerras, secas, fomes, epidemias, dentre outros elementos.

É, fato inconteste que as vivências da mesma condição – ser africano, negro, estudante, estrangeiro, integrante de agremiação estudantil e da Diáspora africana, passando por situações semelhantes aos meus interlocutores – foram elementos que facilitaram, de certo modo, a minha inserção em campo e permitiram-me adentrar nas residências e kitinetes dos estudantes, nas diferentes esferas de suas vidas estudantil, profissional, afetiva, mas também nas suas frustrações e experiências negativas, devido ao preconceito e discriminação raciais. Enfim, as aproximações e as distinções foram desafios que enfrentei permanentemente no meu campo, exigindo estratégias e posturas metodológicas na afirmação da dialética

41 Bantu é a designação de uma grande família linguística da África Subsahariana, com mais de 300 povos ou grupos etnolinguísticos que possuem línguas e culturas próximas. A designação bantu foi cunhada em 1862 pelo antropólogo alemão Wilhelm Bleek, ao perceber a diversidade e quantidade de línguas com características comuns. Umas das características linguísticas entre esses povos é o fato do plural se formar no início e não no final das palavras, como acontece com as línguas latinas. De fato, os povos bantu ocupam 2/3 do continente africano, na região a sul do deserto do Sahara. (Ba)ntu é o plural de (Mu)ntu, que significa “os homens”. Tal designação surgiu quando da migração e colonização bantu do norte do continente para as terras da região subsaharianas, onde trouxeram, entre outras novidades, a tecnologia do ferro, a enxada de cabo curto e a cultura do milho. Nesse processo de colonização, por conta da sua superioridade tecnológica e militar passaram a dominar os Khoi-khoi e os San, povos nativos da região e passaram a chamar-se de “os homens”. Para uma maior compreensão sobre a migração bantu a sul do Equador, Cf. a obra de Comitini (1982, p. 73).

57 proximidade/ distanciamentos críticos.

África Surge et Ambula42

Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério. Dormes! e o mundo rola, o mundo vai seguindo... O progresso caminha ao alro de um hemisfério E tu dormes no outro sono o sono do teu infindo... A selva faz de ti sinistro eremitério,

onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo... Lança-te o Tempo ao rosto estranho vitupério E tu, ao Tempo alheia, ó África, dormindo... Desperta. Já no alto adejam corvos

Ansiosos de cair e de beber aos sorvos

Teu sangue ainda quente, em carne sonâmbula... Desperta. O teu dormir já foi mais que terreno... Ouve a Voz do teu Progresso, este outro Nazareno Que a mão te estende e diz-te: - África, surge et ambula! Quando o Poeta "sacode" esse mundo e lhe

grita que desperte é ainda porque: ...no alto adejam corvos

Ansiosos de cair e de beber em sorvos

Teu sangue ainda quente, em carne sonâmbula... (Rui de Noronha)

42 Surge et ambula, em latim significa “levanta-te e caminha”. Este poema da autoria do escritor, poeta e moçambicano Rui de Noronha (1909-1943), intelectual mestiço, que viveu no período colonial, quando Moçambique pertencia ao império ultramarino português. A poesia, inspirada na expressão bíblica, a partir das palavras ditas por Jesus Cristo, ao curar um homem paralítico, sintetiza o olhar proto-nacionalista de Noronha sobre o continente africano e seus povos, colonizados, dominados, violentados e explorados das mais diversas formas pelas nações europeias. Nesse período, os africanos não podiam expressar-se livremente, a partir de sua cultura, sem serem oprimidos e, poucos tinham instrução. Desta forma, a poesia, mesmo com as influências e estéticas europeias, era um meio de subterfúgio para expressar e encarnar seu nacionalismo e origens africanas.

58 2. CONTEXTUALIZAÇÕES DE ESPAÇO E TEMPO: ÁFRICA NOS PERCURSOS DA HISTÓRIA

A proposta investigativa de análise da Diáspora estudantil Africana no Ceará-Brasil, em tempos contemporâneos, exige uma contextualização de África nos percursos da História, demarcando suas distintas inserções no cenário geopolítico, circunscritas nas relações colonialistas, nos movimentos nacionalistas de lutas pelas independências das nações africanas e nos circuitos pós-independências. Senão vejamos! O continente africano é constituído por cinquenta e quatro países e, cada nação é formada por múltiplos grupos etnolinguísticos, com marcantes diversidades culturais e religiosas. A rigor, é preciso atentar que, em cada país, coexistam diversas etnias, línguas e religiões. Assim, neste segmento analítico, dissertamos acerca do lugar do continente africano e sua inserção na Modernidade Ocidental europeia. Para tal, recorremos, essencialmente, à historiografia africana e ao debate com os historiadores africanos e europeus que escrevem sobre África nos diversos períodos: colonial, entre as duas guerras mundiais, nos processos de independência de seus diferentes países e nos circuitos pós-independências. Cabe aqui recordar que a nossa ideia, neste segmento, é trazer a África em “movimento” e sua dinâmica sócio-político-econômica e cultural, em uma abordagem panorâmica sobre o continente, suas contradições, desafios presentes e futuros. É a tentativa de uma reconstrução histórico-política a incidir na África Subsahariana, conforme pode ser visualizado na Figura 1.

59 Ao longo da História, o continente africano foi submetido a diferentes processos de colonização por potências europeias, a configurar um mapa político de submissão a diferentes colonizadores, conforme circunscrito na Figura 2.

Figura 4. África colonizada e dividida geográfica e politicamente pelas potências europeias