Ao longo dos tempos, têm surgido algumas aceções de dor. Contudo, tem sido difícil alcançar uma definição que seja satisfatória para todos, na medida em que existem formas diversas de se entender a dor, assim como diferentes teorias (Gala et al., 2003; McGuire, Kim, & Lang, 2004).
De facto, com Aristóteles, acreditava-se que a dor era uma emoção. Mais tarde, Descartes sublinha que a dor resultava de uma sensação desencadeada no corpo do indivíduo. Posteriormente, o modelo biomédico valoriza unicamente as causas orgânicas, retirando qualquer relevância aos fatores emocionais e afetivos. Contudo, com o desenvolvimento de investigações que procuravam compreender a dor, para além da componente física, a componente psicológica do indivíduo para a caracterização da dor ganha importância (Breton, 2007).
É dos sintomas mais comuns nos cuidados de saúde, tendo repercussões no indivíduo, na sua família e na sociedade (Bair, Wu, Damush, Sutherland, & Kroenke, 2008; Breton, 2007; Butchart, Kerr, Heisler, Piette, & Krein, 2009; Turk, & Wilson, 2010), constituindo-se, enquanto doença, uma ameaça à integridade do sujeito, promovendo sofrimento, sendo biopsicossocial e caracterizando-se como uma experiência pessoal de caráter multifactorial (Breton, 2007). A sua presença constante apresenta ameaça à identidade do sujeito, na medida em que afeta o paciente em diversas dimensões – física, psicológica, emocional, social, laboral, familiar, relacional, entre outras (Butchart, Kerr, Heisler, Piette, & Krein, 2009; Hwang, Wilkins, et al., 2011).
De acordo com Melzack e Casey (1968), a dor é uma experiência sensorial que enfatiza o papel significativo das variáveis psicológicas na reação do indivíduo, ou seja, para os autores, a reação sensorial discriminativa a lesões teciduais activaria, em simultâneo, as componentes afetivas e motivacionais da experiência de dor.
Sternbach (1986) defende que nem todos os estímulos similares são percebidos com a mesma quantidade de dor, ou seja, é uma experiência desagradável que não apresenta uma relação linear estímulo-resposta.
Sasdelli e Miranda (2001) referem que a dor resulta da reação de um estímulo álgico, filtrada e modulada, ampliada ou reduzida pela pessoa que a recebe, de acordo com as influências excitantes ou inibidoras, como a memória, as emoções e as cognições. Assim, a dor é encarada como uma experiência única para cada pessoa, sendo esta portadora de uma história de vida, de motivações anteriores e de crenças, associadas ao seu estado físico e mental do momento.
Outros autores (Huge, et al., 2006) definem a dor como uma experiência subjectiva e individual que não está, necessariamente, associada a lesão tissular e que é caracterizada, quanto à intensidade e qualidade, de forma multidimensional discriminada, sendo que as componentes afetivo-motivacionais promovem a sua mudança.
Em 1979, a IASP abandonou a conceção unidimensional da dor, ou seja, a dor passa a ser definida como uma experiência multidimensional desagradável, que envolve tanto a componente sensorial como a componente emocional, associando-se a uma lesão real ou potencial dos tecidos do organismo, ou sendo descrita em função dessa lesão, variando de indivíduo para indivíduo (White, & Stein, 2010).
Independentemente dos conceitos de dor que foram surgindo ao longo dos séculos, atualmente a definição de dor da IASP é comummente aceite na comunidade científica (Merskey, 1979), sendo que o conceito do processo doloroso por parte da IASP, distingue duas componentes: (1) a nociceção, e (2) a reatividade à dor (Ferreira, & Torres, 2000).
De acordo com Portenoy e Kanner (1996, citado em Grabois, 2002), a definição da IASP associa o conceito tradicional de que a dor reflete uma experiência sensorial, com as componentes afetivas e cognitivas; estes dois elementos, em particular os psicossociais, influenciam a sensação de dor e o seu resultado na qualidade de vida (Grabois, 2002).
A IASP (1986) refere que por ser uma sensação subjectiva, cada indivíduo aprende a utilizar o seu conceito de acordo com experiências anteriores. Existem pessoas que sentem e relatam dor na ausência de lesão tissular identificada ou de qualquer outra causa fisiopatológica, geralmente devido a razões psicológicas; outras respondem de forma diferenciada ao mesmo estímulo doloroso, e outras apresentam respostas similares face a estímulos de intensidade e natureza diferentes.
A dor é subjectiva e individual, ou seja, é um processo complexo e multidimensional associando-se à área lesada experiências prévias de eventos dolorosos, estados emocionais e história pessoal e familiar (Merskey, Lindblom, Mumford, Nathan, & Sunderland, 1994; Sardá, 1999). A IASP (1986) acrescenta que a atividade induzida por um estímulo nocivo no recetor
nocicetivo não é dor, porque a dor é sempre um estado psicológico, apesar de frequentemente se poder observar uma causa física.
A definição de dor da IASP inclui uma associação imprevisível e variável entre a área lesada e a dor (Cheville et al., 2000), apresentando um importante avanço na compreensão deste fenómeno. De facto, a definição da IASP suplanta todos os modelos e exposições simplistas, como o de (i) considerar a dor como tendo uma vertente subjectiva, (ii) apresentando-a como uma experiência complexa, (iii) conceder importância ao relato verbal do indivíduo sobre a definição do seu quadro, (iv) considerar que a vivência dolorosa acarreta relações entre os elementos da experiência sensorial e o estado emocional aversivo, e (v) atribuir significado aos episódios sensitivos desagradáveis (Chapman, 1986).
Segundo a IASP (1986), o “sentir dor” envolve estruturas físicas, psíquicas e culturais. Contudo, a perceção da dor como sendo uma sensação ou emoção, como sendo uma condição do corpo ou da alma, durou até ao século XX, quando a definição de dor, por parte da IASP (1986), englobou tanto a componente psíquica como a componente física. Consequentemente, a avaliação da dor deverá ser realizada através de um diagnóstico multidisciplinar, onde diagnóstico clínico, radiológico, laboratorial e psicossocial deve ser realizado.
Para a DGS, a dor “é um sintoma que acompanha, de forma transversal, a generalidade das situações patológicas que requerem cuidados de saúde” (DGS, 2003, p. 1), sendo o 5º sinal vital.
A forma como é experienciada e/ou percecionada é multidimensional, na medida em que os indivíduos diferenciam a sua compreensão, a forma de a sentir e de a vivenciar distintamente a nível emocional, comportamental e cognitivo (Sousa, 2002). Consequentemente, o significado que cada um de nós atribuí à dor e a maneira como procura aliviá-la é, igualmente, diverso, pois este fenómeno encontra-se associado à cultura, à religião e a crenças (Fleming, 2003).
Cecily Saunders, que preconizou o termo dor total, considerava que a abordagem do tratamento da dor deveria considerar o ser humano como um todo na sua multidimensionalidade, ou seja, não está envolvido apenas o domínio físico, mas este, juntamente com o social, o emocional, o psicológico e o espiritual, específicos de cada indivíduo e em consonância com a situação de cada sujeito, deveriam ser tidos em conta na observância e tratamento da mesma (IASP, 2009; Mehta, & Chan, 2008).
A dor é, de facto, um fenómeno percetivo complexo, subjetivo e multidimensional, constituindo uma experiência única de cada um, pelo que cada individuo, a comunica de forma díspar, verbal e comportamentalmente (Dias, & Brito, 2002).
Na abordagem efetiva da dor, é então necessário considerar que cada indivíduo traz consigo um somatório de aspectos fisiológicos, sociais e psicológicos que o colocam numa situação especial de perceção da sua dor e, perante um quadro álgico, temos de procurar, para além dos sintomas fisiológicos, os aspectos psicológicos associados à experiência dolorosa (Sardá, Kupek, & Cruz, 2000).