Em tese, se descontextualizarmos o conceito de soft power de seu emprego pelos norte-americanos, que sempre foram potentes nesse sentido – mantendo ao mesmo tempo uma posição espectral, metafísica, intersubjetiva e comum, de liderança e de dominação, pelo menos perante considerável tempo e espaço ocidentais – podemos empregar o termo em contextos regionalizados, perante a vontade de afirmação junto à cultura nacional. Se pensarmos assim, poderíamos dizer que há um simulacro interno no Brasil da guerra ―mundial‖ das mídias e das culturas, como sugere Martel (2012) no subtítulo de seu estudo. Podemos pensar ainda que a adoção de um soft power pela potência, para além de uma estratégia discursiva, representa um momento global de ―afrouxamento‖ do sistema de dominação, por parte dos dominadores. Pelo menos no sentido de contextualização teórica, e desamarrado dos conceitos anteriormente discutidos, podemos fenomenologicamente considerar esse mais um ―adumbramento‖ possível.
Ademais, cabe também observar que a dádiva é presente no espaço primitivo. Onde seu élan não se rebusca de sofisticação, por assim dizer. Observar a instrumentação da poesia como força dinâmica da cultura é a evidência da circulação da dádiva, sem amarras, sem constrangimentos modernos. E ao mesmo tempo interagindo com eles. É isso o que identifico em um trecho da poesia de Pinduca, o herói fundador da cena alternativa de Belém para o Brasil. Suas letras aparentemente ingênuas mostram com o poeta local retrata a sua compreensão da socialidade de base, naturalmente, sem esse élan de sofisticação. A letra que vou exemplificar tem o título de ―O Rico e O Pobre‖, e foi uma das músicas mais populares de Pinduca no final da década de 1970. Veja a letra:
O rico e o pobre são duas pessoas O soldado protege os dois O operário trabalha pelos três O vagabundo come pelos quatro
O advogado defende os cinco O juiz condena os seis O médico examina os sete
O coveiro enterra os oito O diabo carrega os nove E a mulher engana os dez E a mulher engana os dez101.
101 A música ―O Rico e o Pobre‖, de Pinduca, está disponível no Youtube no link: https://youtu.be/wsaE3ZiC6is. Acessado
em 05 de abril de 2015. Note-se que a letra, diferentemente do que está escrito na página da internet, e aqui reproduzida, na gravação a partir do terceiro verso as profissões são anunciadas quando outro elemento vocal da banda de Pinduca pergunta: ―e o operário?‖, no que Pinduca responde: ―come pelos quatro‖. Assim os versos são apresentados indiretamente em sistema de perguntas e respostas, o que aparentemente reforça a noção de uma educação comunitária em que o artista vai explicado didaticamente o papel social de cada profissão.
A letra, simples e sem rebuscamentos, suscita muitas questões sobre a socialidade e mesmo uma espécie de filosofia ―mundana‖. Para uma breve análise de interesse instrumental e teórico ignoro a classificação de gênero literário do texto. Muito menos vou me deter sobre conceituações estéticas de gosto ou preferência. Ignoro também as implicações sexistas presentes nos versos finais (E a mulher engana os dez) que em um estudo propriamente antropológico do tema traria questões muito pertinentes.
Para o efeito proposto, interessa-me o sentido ―primitivo‖ de socialização subterrâneo ao texto. Primitivo no sentido daquela solidariedade de base a que venho me ferindo ao longo do trabalho. Não por ―subdesenvolvido‖ ou ―arcaico‖, mas de primário, principal, inicial, primeiro, ou a algo mais próximo que se possa chegar disso. Assim como não devo fazer julgamentos morais num sentido moderno também não me cabe julgar, ao menos para efeito da análise, a moral do poeta.
A mulher pode ser vista, para o homem ―não-moderno‖, como a dádiva da convivência social. Essa perspectiva traz certamente junto outras reflexões éticas e de valor sobre o primitivismo que pode estar na base evolutiva dos conceitos e preceitos modernos, iluministas. Mas concentremo-nos na dimensão de socialidade empreendida pelo autor.
Em primeiro lugar, observo que o uso do artigo definido em cada verso anterior aos versos finais dá a ênfase à dimensão ―individual‖, personalizada de cada ―profissão‖ ou ―função social‖. Por outro lado, as funções sociais são estabelecidas a partir de uma noção primitiva de sociedade moderna (pela divisão do trabalho) e de hierarquização. O autor, porém, não julga nem o ―vagabundo‖ nem a ―mulher‖. Se mantém, a priori, isento na ideia de soma que cada profissão acresce ao todo social, aparentemente sem ordem lógica, dando a impressão de ―completude‖. O ―juiz‖ não soma mais do que o ―médico‖, por exemplo, ele está lá e sua posição é aquém, porque o médico ainda lhe é ―superior‖, capaz de manter a vida do cidadão comum e mesmo do juiz.
A música começa, porém, como a compreensão ―igualitária‖, em que ―O rico e o pobre‖ são ―duas‖ ―pessoas‖, isto é, são iguais. A sucessão de funções sociais e o uso dos números que somam sucessivamente o ―corpo‖ social que aumenta, propõem a ideia de ―reforço‖ social, comunitário. Efetivamente ―gerativo‖, poderíamos perguntar? Ao que parece há funções socais que se ressentem umas das outras e há outras que por levarem o meio maior a um número maior de pessoas (como o médico ou o coveiro), parecem estar socialmente
melhor posicionados, mas isso apenas é uma aparência relativa, logo desfeita pela própria canção.
Se a posição diferenciada da mulher, por um lado, pode ser vista como sexista, do ponto de vista da compreensão popular ou militante, pode-se dizer a favor (ou não) do gênero feminino que ele ―supera‖ os demais atores sociais, sendo socialmente mais ―forte‖ do que todos os demais, inclusive ―o diabo‖. Por outro lado, a ―revelação‖ final de que a mulher ―engana‖ a todos os demais demonstra que a função e a hierarquia social não é, assim, tão ―igual‖, tão solidariamente partilhada – e aí, certamente, o sexismo se afirma.
Essa análise quase superficial e aparentemente ingênua tem a mesma proposta da canção. Em sua poesia, Pinduca revela as desigualdades em sentido de força e de equilíbrio. E percebe-se que o equilíbrio só se afirma na perspectiva da morte (com o ―diabo‖ e o ―coveiro‖). Performativamente, poderia perguntar: fenomenologicamente, onde residiria a natureza comunicativa de Pinduca e suas canções?