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Em seus estudos, Bhatia (1993; 2001) leva em consideração o aspecto social do gênero e retoma alguns termos empregados por Swales (1990), como

comunidade de discurso e propósito comunicativo, ampliando-os. Para o autor, os

participantes de um determinado evento comunicativo valem-se de recursos estratégicos cognitivos para alcançar seus propósitos específicos, por isso a análise de um gênero não deve levar em conta somente os propósitos comunicativos do próprio gênero ou da comunidade discursiva em que o gênero está inserido.

Bhatia (2001) explica que uma adequada compreensão da situação retórica típica de um gênero leva à identificação dos propósitos mutuamente compartilhados por participantes tipicamente associados a uma comunidade discursiva em particular. Sua análise de gêneros baseia-se na observação do motivo que leva determinado gênero a ser escrito de uma forma e não de outra, com base no contexto cultural e institucional em que se insere, bem como nas especificidades de seus produtores.

O autor salienta que um membro de determinada comunidade discursiva deve seguir certas práticas padronizadas dentro dos limites de um gênero, mas também tem liberdade para utilizar os recursos linguísticos, desde que se subordine a regra e convenções, a fim de obter certos efeitos que não causem estranhamento na comunidade em que se insere. Essa concepção permite-nos afirmar que, ao mesmo tempo em que há uma certa convenção, há também uma certa dinamicidade no processo de produção dos gêneros.

Sobre o conhecimento convencionado, Bhatia (2001) assinala que há, pelo menos, três aspectos que devem ser levados em consideração: a recorrência de situações retóricas, os propósitos comunicativos compartilhados e as regularidades de organização estrutural. Sobre a versatilidade genérica, ele

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explica que ela opera em dois níveis, no texto e no contexto: no primeiro, porque é possível uma característica formal servir a um ou mais gêneros; no segundo, porque uma função discursiva particular pode servir para duas ou mais realizações formais totalmente diferentes.

Sobre a dinamicidade dos gêneros, o teórico pondera que, ao mesmo tempo em que o gênero apresenta uma certa recorrência, devido à sua dinamicidade, pode sofrer alterações, visto que cada indivíduo pode utilizar estratégias linguísticas que não condizem com a prática de padronização do gênero, mas que são aceitas pelos membros do contexto em questão.

De acordo com Bhatia (1993), a análise de gêneros é uma atividade multidisciplinar, já que se embasa em orientações linguísticas, sociológicas e psicológicas. No que se refere às orientações linguísticas, ele expõe que as análises dos traços linguísticos em si mesmos revelam muito pouco sobre a verdadeira natureza dos gêneros e sobre a maneira como os propósitos sociais são cumpridos neles e por meio deles, nos contextos em que são produzidos. Assim, menciona algumas questões que considera relevantes para a análise linguística de gêneros, como, por exemplo:

alguns traços linguísticos são verdadeiros para todos os gêneros de uma variedade em particular?;

como determinadas características concretizam as realidades sociais de uma área acadêmica ou profissional particular?;

por que os usuários de um gênero utilizam tais características e não outras?;

a utilização de tais características representa convenções específicas de um gênero particular? Se sim, o que ocorre se alguns praticantes tomam certas liberdades em relação às convenções? (BHATIA, 1993:18)

Esses questionamentos contribuem para que o processo de análise linguística seja mais relacionado à identificação do propósito comunicativo do escrevente, sem focar simplesmente nos aspectos formais do próprio gênero.

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Quanto às orientações sociológicas, Bhatia (1993) enfatiza que os estudos da Sociologia permitem ao analista entender como determinado gênero define, organiza e, por fim, comunica a realidade social. Nesse prisma, o texto, por si só, não é um objeto completo que possui significado; deve ser observado como um processo de negociação em andamento, tendo-se em vista aspectos como papéis sociais, propósitos do grupo, preferências e pré-requisitos profissionais e organizacionais, limitações culturais. O autor observa que os estudos da área podem se tornar mais vigilantes em relação ao uso dos recursos linguísticos para fins sociais: os linguistas podem adicionar muito das explicações sociológicas a suas interpretações do uso da linguagem em contextos acadêmicos e profissionais.

A respeito das orientações psicológicas, por fim, ele menciona que o analista deve atentar para os aspectos psicolinguísticos da construção do gênero, que revelam a estruturação cognitiva típica de áreas particulares de investigação, bem como para o aspecto tático da sua descrição, que enfatiza as escolhas individuais estratégicas feitas pelo escritor a fim de satisfazer sua intenção.

Com base em tais observações, Bhatia (1993: 22-36) propõe uma análise de gêneros por meio de sete passos que poderão ser seguidos total ou parcialmente pelo analista, de acordo com seus interesses:

1. situar o texto no seu contexto de produção, atentando para as convenções comunicativas associadas ao gênero dentro da comunidade em que circula;

2. levantar literatura existente sobre o gênero analisado, investigando o que se já se estudou sobre ele, se há menção a métodos de análise que sejam relevantes para o estudo, por exemplo;

3. definir os participantes da interação verbal, bem como a comunidade em que o gênero é realizado e a rede de textos e tradições que se relacionam a ele;

4. selecionar o corpus de acordo com os objetivos visados, tendo em vista critérios de

análise bem definidos;

5. estudar o contexto institucional, pesquisando sobre o sistema no qual o gênero circula, sobre as regras e convenções que governam o uso da língua em seu contexto de existência;

43 6. decidir em quais níveis linguísticos se baseará a pesquisa: nível léxico-gramatical,

amostras textuais ou estruturais;

7. buscar informações especializadas para a análise do gênero, principalmente se for pouco o conhecimento sobre ele.

Silveira (2005) enfatiza que o modelo de análise proposto por Bhatia (1993) permite uma descrição mais substancial das variedades funcionais da linguagem falada e escrita do que quaisquer outros sistemas de análise na literatura existente, uma vez que suas categorias analíticas possibilitam descrever não somente os aspectos convencionais da construção dos gêneros, mas também os aspectos individuais do seu produtor.

Como podemos observar, Bazerman (2005), Swales (1990) e Bhatia (1993) consideram os gêneros fundamentais para a vida em sociedade, já que viabilizam a interação comunicacional. Eles defendem que os gêneros são ações sociais realizadas de acordo com a necessidade comunicativa do indivíduo, as quais foram sendo, histórica e culturalmente, desenvolvidas e tipificadas, inovadas ou recriadas. São esses os pressupostos que fundamentam nosso trabalho de análise nesta dissertação.

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