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Para Swales (1992), um gênero é uma classe de eventos comunicativos em que se devem considerar o discurso em seu contexto de produção e o papel dos participantes. Ele expõe que o critério para que uma coleção de eventos seja transformada em um gênero são os propósitos comunicativos compartilhados por uma comunidade ou comunidades de discurso.

Em sua obra de 1990, o autor caracteriza comunidade discursiva como redes

sociorretóricas, constituídas por conjuntos de pessoas que se formam socialmente, com objetivos comunicativos semelhantes, e que em diversas situações de comunicação utilizam-se dos mesmos gêneros, ao partirem dos mesmos propósitos comunicativos. Nessa época, Swales (1990: 24-27) define

seis critérios para a identificação de uma comunidade discursiva:

1. possuir um conjunto de objetivos públicos comuns amplamente aceitos; 2. possuir mecanismos de interlocução entre seus membros;

36 3. usar mecanismos de participação, principalmente para prover informação e feedback;

4. utilizar um ou mais gêneros para a realização comunicativa de seus objetivos; 5. desenvolver um léxico específico;

6. admitir um grau adequado de conhecimento relevante e perícia discursiva.

Por enfocar que os membros das comunidades discursivas compartilham objetivos idênticos e utilizam os mesmos gêneros em situações de comunicação semelhante, a visão swalesiana é considerada reducionista por diversos teóricos, tais como Witte (apud ASKEHAVE; SWALES, 2009) e Bhatia (1993). Para eles,

Swales (1992) não leva em conta a participação individual do sujeito na caracterização de comunidade discursiva e propósito comunicativo, privilegiando uma análise de gêneros embasada em suas estruturas formais.

De modo geral, os críticos do trabalho de Swales defendem que, dentro de uma comunidade discursiva, não há a possibilidade da existência de objetivos idênticos e inquestionáveis, pois cada participante possui objetivos específicos que podem estar relacionados a outras comunidades discursivas. Biasi- Rodrigues, Hemais e Araújo (2005: 24) reforçam que tais críticas mostram “que um sujeito não pertence a uma única comunidade discursiva, o que acarreta variadas práticas sociais e diversos relacionamentos com outras comunidades (de fala ou discursiva)”.

Nesse contexto, Askehave e Swales (2009) produzem o artigo Identificação de gênero e propósito comunicativo: um problema e uma possível solução, em que

afirmam que, para a identificação de um gênero, o analista deve realizar uma investigação ampla desse gênero, sem se deixar levar por classificações apoiadas em traços estilísticos e crenças estabelecidas.

Os autores afirmam ainda que “os especialistas, em uma comunidade profissional, podem não concordar sempre com respeito ao propósito de um gênero” (ASKEHAVE e SWALES, 2009: 227). Eles explicam que um gênero específico pode ter seu propósito comunicativo ampliado ou modificado, de acordo com os objetivos do produtor. Dessa maneira, tal propósito somente é

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identificado com base em uma análise que considera aspectos linguísticos, cognitivos e contextuais, com visão aprofundada nas concepções do produtor e de sua audiência.

Swales (2009: 207b) revê, então, os critérios para identificação de uma comunidade discursiva:

1. possuir um conjunto perceptível de objetivos, que podem ser formulados pública e explicitamente e também podem ser, no todo ou em parte, aceitos pelos membros, podem ser consensuais, ou podem ser distintos, mas relacionados;

2. possuir mecanismos de intercomunicação entre seus membros;

3. usar mecanismos de participação para uma série de propósitos: para prover o incremento da informação e do feedback; para canalizar a inovação; para manter os

sistemas de crenças e de valores da comunidade e para aumentar seu espaço profissional;

4. utilizar uma seleção crescente de gêneros para alcançar seu conjunto de objetivos e para praticar seus mecanismos participativos. Eles frequentemente formam conjuntos ou séries;

5. empregar uma terminologia específica;

6. possuir uma estrutura hierárquica explícita ou implícita que oriente os processos de admissão e de progresso dentro dela.

Nessa revisão, Swales (2009b) reforça as diferenças dos participantes de uma comunidade discursiva, principalmente quando afirma que a comunidade possui objetivos relacionados, mas que podem ser distintos. Além disso, ele não caracteriza de forma taxativa que os membros da comunidade discursiva utilizam os mesmos gêneros, ponderando que os membros utilizam “frequentemente” gêneros que formam conjuntos ou séries.

Diante de tais considerações, o autor propõe uma abordagem metodológica para a análise de gêneros acadêmicos e gêneros voltados para o contexto do trabalho, rejeitando a definição do ato de escrever apenas como uma habilidade tipicamente individual e cognitiva. Ele defende que a escrita é social e, por isso,

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em sua análise devem ser considerados os papéis desempenhados pelos seus usuários.

Em sua proposta, Swales (1990 e 1992) admite a influência de várias tendências, entre elas os estudos variacionistas; os estudos sobre habilidades e estratégias; as abordagens situacionais; as abordagens nocionais-funcionais; os estudos sobre análise do discurso; a Sociolinguística; os estudos sobre contextos da escrita; os estudos da Antropologia Cultural. Hemais e Biasi-Rodrigues (2005) explicam que o pesquisador estudou os gêneros em diferentes disciplinas, como a Teoria do Folclore, a Literatura, a Linguística e a Nova Retórica, para ampliar sua visão sobre o tema, sem reduzi-lo a prescritivismos.

A análise de Swales (1990; 1992) converge para a identificação dos movimentos discursivos ou movimentos retóricos presentes em introduções de artigos acadêmicos, por meio de um modelo denominado CARS (Create a Research Space). Em suas observações, ele afirma que cada texto possui movimentos

retóricos e que cada movimento possui passos, que são estratégias retóricas, utilizados para alcançar o propósito comunicativo do movimento, isto é, cada enunciado de um texto é produzido em prol de um propósito relacionado a um objetivo maior, que é a intenção geral da produção escrita. Tais movimentos são retóricos porque seu intuito é convencer o interlocutor a aderir ao que se fala ou ao que se escreve. Em seu corpus de análise, identificam-se os seguintes

39 Movimento 1: Estabelecer o território

Passo 1: apresentar a centralidade e/ ou

Passo 2: levantar generalizações de tópicos e/ ou

Passo 3: revisar itens de pesquisa anterior

Movimento 2: Estabelecer um nicho

Passo 1A: contra-alegar ou

Passo 1B: indicar lacuna ou

Passo 1C: levantar questão ou

Passo 1D: continuar a tradição

Movimento 3: Ocupar o nicho

Passo 1A: esboçar propostas ou

Passo 1B: anunciar a pesquisa ou

Passo 2: anunciar as principais descobertas ou

Passo 3: indicar a estrutura do artigo

Fonte: Swales (1990:141)

Observamos que cada movimento possui um propósito e um completa o outro para o objetivo final que, nesse caso, é a elaboração de introdução de artigos. Swales (1990) preconiza que, por meio da ocorrência de movimentos, é possível comprovar se há ou não recorrência entre os exemplares de um mesmo gênero.

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2.5. Uma proposta metodológica para o estudo de gêneros – a