4.2 MSGL og strømningssett
4.2.1 MSGL i Bjørnøyrenna
Há poucas informações sobre a idade das vítimas. De um total de 1.904 mulheres abusadas sexualmente, em 365 referências obtidas no conjunto de fontes, apenas informam a idade de 87 vítimas. Esse número representa 4,6% das que sofreram abusos sexuais e 23,8% das referências respectivamente. Se suprimirmos as informações gerais feitas por John Rabe e James M. McCallum, que ressaltam a cifra de 1.000 mulheres violentadas, o número total de vítimas cai para 904. Isso, com efeito, faz com que os 87 casos identificados que informam a idade das mulheres violentadas corresponda a 9,7% do total. Ainda que essa seja uma amostragem parcial, ela é valiosa para se extraírem algumas conclusões.
Tabela 1
Tabela de faixa etária, quantidade de vítimas e porcentagem
FAIXA ETÁRIA QUANTIDADE %
8 a 14 19 21,8 15 a 17 10 11,5 18 a 20 8 9,2 21 a 25 14 16,1 26 a 30 7 8,0 31 a 35 5 5,7 36 a 40 8 9,2 < 40 16 18,4 TOTAL 87 100,0
Pela tabela 1 é possível constatar que o maior número de vítimas está no grupo de garotas de 8 a 14 anos da idade, já que elas representam 21,8% do total de casos, ou seja 19 vítimas. Há 16 casos de mulheres acima de 40 anos, correspondendo a 18,4% do total, o que faz delas o segundo grupo com maior incidência de estupros. Entretanto, devemos fazer as devidas ressalvas, em especial a de que essa faixa etária compreende mulheres de até seus 71 anos.271
Consideramos, portanto, o grupo das mulheres entre 21 e 25 anos o terceiro conjunto em números e o segundo em importância, haja vista que elas representam 16,1% do total, com 14 vítimas.
Devemos explicar as razões que nos levaram a separar as jovens de 15 a 17 anos daquelas com 8 a 14 anos. A razão precípua adveio das próprias fontes, pois elas listam muitos casos de mulheres casadas ou grávidas com 16 ou 17 anos, fazendo crer que as mulheres nessas idades já tivessem tido uma experiência sexual, diferente da situação das mais jovens, muitas delas virgens.
Essa conclusão é reforçada pelos estudos de Sommer272 e pelos relatos de Xinran273 e Chang274 sobre a vida das mulheres na China contemporânea. O primeiro autor ressalta que era uma prática costumeira na China o casamento com meninas com idade entre seus 15 a 17 anos. Chang complementa dizendo que essas meninas eram consideradas “bens valiosos”, pois podiam ser vendidas para
271 O grupo acima de 40 anos era composto mulheres com 40 anos (2), 42 anos (1), 44 anos (1), 48 anos (1), 50 anos (1), 53 anos (1), 54 anos (1), 55 anos (1), 58 anos (1) e acima de 60 anos (8). 272 SOMMER, 2000,
273 XIRAN, Xue. As boas mulheres da China. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 274 CHANG, 2006.
homens ricos, que as assumiriam como concubinas, ou para os bordéis, que as explorariam como prostitutas. Sobre o trafico de mulheres na China Sommer apresenta um gráfico expondo o número de mulheres e suas respectivas idades salvas pela Associação Anti-sequestro entre os anos de 1913 a 1920. O gráfico infoma que naqueles 7 anos, aproximadamente 60 meninas de 13 a 14 anos e pouco menos de 140 jovens de 13 a 16 anos foram resgatadas de bordéis pela instituição.275
Não significa, entretanto, que a violência que afligiu as mulheres de maior idade fosse de menor gravidade; ela foi tão impactante quanto a que afligiu as mais novas. Tão-somente buscamos obter compatibilidade dentro dos grupos etários. Um aspecto diz respeito às lesões decorrentes do estupro. O relatório da CIZSN, protocolado no dia 4 de janeiro de 1938, ressalta que “no dia 3 de janeiro de 1938, uma garota de 14 anos de idade que ainda não estava constituída para relações sexuais foi estuprada com resultados desastrosos que irão requerer reparos cirúrgicos consideráveis”.276 Robert O. Wilson o único cirurgião em Nanking, que trabalhava no Hospital Universitário, relembra também esse caso numa carta escrita na data do atendimento médico e enfatizou a gravidade das lesões no órgão genital da menina.277
Também não eram de menor gravidade as lesões infligidas às mulheres com idade superior à 16 anos. As mulheres, independentemente da idade, eram vítimas de estupros coletivos, ou seja, eram freqüentemente abusadas por vários agressores. Acompanhavam o estupro outras violências físicas ou psicológicas.
O relatório de John Rabe escrito em 15 de janeiro de 1938 e endereçado à embaixada alemã dá alguns exemplos:
Uma mulher teve sua garganta cortada pela metade, um ferimento tão grave que mesmo o próprio Dr. Wilson se surpreendeu por ela ainda estar viva. Uma mulher grávida foi perfurada por uma baioneta em sua barriga, matando a criança ainda não nascida. Muitas meninas que foram abusadas ainda na infância deram entrada no hospital, uma das quais foi violada 20 vezes seguidas.278
275 SOMMER, 2000, p. 175.
276 CIZSN, apud BROOK, 2003, p. 66. 277 WILSON, apud ZANG, 2001, p. 406. 278 RABE, 2000, p. 121
Há relatos em que são descritos casos de extrema crueldade. Um caso que chama a atenção refere ao encontro de corpos de mulheres com mutilações na vagina. John Rabe, desconcertado com a repetência dessas agressões, escreveu em seu diário que: “Não é possível respirar com tamanha revulsão quando continuamos a encontrar os corpos de mulheres com varas de bambu enfiadas em suas vaginas. Até mesmo mulheres idosas acima de 70 anos são estupradas constantemente”.279
Algumas descrições sobre essa agressão foram igualmente feitas por outros escritores-testemunhas. A ressalva que se faz é devido à data dos comentários, dois deles feitos no mês dia, e outros dois, em datas diferentes. Dando voz às fontes:
Anotação de James H. McCallum, datada de 15 de janeiro de 1938.
Eles fizeram uma caminhada para inspecionar a propriedade britânica e próximo ao A.P.C [?] em Ho Ping Men encontraram o corpo de uma mulher, que tinha um taco de golfe colocado, forçosamente, internamente; uma parte do taco estava protuberante.280
Correspondência de John G. Magee, de 30 de janeiro de 1938.
Eu tenho ouvido falar de quatro casos horríveis que aconteceram em Nanking. O secretário da embaixada alemã contou de uma mulher que teve um bastão de golfe introduzido em seu corpo.281
Anotação de Ernest H. Foster, escrita em 24 de janeiro de 1938.
Outro caso foi testemunhado por um membro da embaixada britânica. Uma mulher foi estuprada e um taco de golfe foi introduizdo dentro dela. Ela foi encontrada morta nestas condições. Não parece possível que tais demônios humanos existam. 282
Relatório de John Rabe à Embaixada alemã, datado de 15 de janeiro de 1938.
Em 12 de janeiro, meu colega inglês, o Cônsul Prideaux-Brune, o oficial consular militar Lovat-Fraser, e o oficial consular aeronáutico comandante Walser visitaram a casa do Sr. Parsons, da Companhia British-American Tobacco, e lá descobriram o corpo de uma mulher chinesa em cuja vagina haviam inserido forçosamente um taco de golfe inteiro. Há casos documentados em que os cúmplices forçaram os maridos e pais das vítimas a testemunharem a violação de sua honra doméstica. Em várias ocasiões, soube-se que os oficiais agiram como cúmplices, como aconteceu quando o reverendo Magee [John G. Magee] tentou proteger um grupo de cristãos chineses na casa de um conselheiro militar alemão ausente.283
279 RABE, 2000, p. 172.
280MCCALLUM, apud ZHANG, 2001, p. 241. 281 MAGEE, apud ZHANG, 2001, p. 190. 282 FOSTER, apud ZHANG, 2001, p. 134. 283 RABE, 2000, p. 121.
Nem todas as agressões eram cometidas no momento imediato ao estupro. Havia casos de crimes premeditados. Um deles foi o de um soldado que, após ser solapado pelo marido de uma mulher que ele tentara levar para um cômodo da residência a fim de estuprá-la, depois de evadir-se do local, retornou com arma em punho para assassinar o marido. Esse caso foi muito bem detalhado, pois foi citado em quatro fontes diferentes. Dando voz a elas.
Diário de John Rabe, anotação de 3 de janeiro de 1938.
Ontem cedo, pela manhã, o soldado japonês tentou estuprar a esposa de Liu, mãe de cinco filhos. Então o marido chegou e, com alguns tapas no rosto, forçou o japonês a se retirar. Naquela tarde o soldado, que estava desarmado pela manhã, retornou com uma arma, procurou e encontrou Liu escondido na cozinha e atirou nele, mesmo após todos os vizinhos de Liu terem implorado pela vida do homem, um deles até havia se ajoelhado perante o soldado japonês.284
Anotação de James H. McCallum, datada de 1º de janeiro de 1938.
Um homem foi morto perto do quartel-general das equipes de apoio ontem à tarde. No começo da tarde, um soldado japonês tentou estuprar uma mulher; seu marido interveio e a ajudou a resistir. No entanto, o soldado retornou mais tarde para atirar no marido.285
O relatório da CIZSN, protocolado em 4 de janeiro de 1938.
Um soldado japonês chegou entre as 10 e 11 horas da manhã em 2 de janeiro de 1938 à casa em que Liu Pan-kwen, sua esposa e seus cinco filhos viviam, em Ch’en Chia Hsiang, nº 5. O soldado tentou investigar a casa. Então, ele viu uma mulher, a esposa de Liu Pan-kwen, e fez perguntas a respeito da condição da casa. A mulher começou a responder às perguntas. Aqueles que estavam presentes na casa viram e sugeriram à mulher que saísse da casa, pois o soldado estava tentando levá-la para um dos quartos. A mulher estava tentando sair. Ao mesmo tempo, seu marido, Liu Pan-kwen, trocou grosserias com o soldado e deu-lhe um tapa no rosto. E então, o soldado se retirou. A mulher voltou e começou a cozinhar o arroz e seu marido tentava trazer alimentos para comer com seus cinco filhos. O soldado voltou com uma arma por volta das 4 da tarde. O soldado japonês perguntava pelo marido e os vizinhos imploraram a ele pela vida daquele homem, um homem até mesmo se ajoelhou perante o soldado japonês. O marido estava escondido na cozinha. Assim que o soldado japonês o viu, atirou em seu ombro instantaneamente.286
A carta de John G. Magee, escrita em 4 de janeiro de 1938.
Eu fui com ele [Hubert Lafayette Sone] numa pequena distância a uma residência chinesa, onde eu encontrei inúmeras pessoas lamentando. Parece que em torno das 16h30min um soldado japonês tinha ido até lá e tentou carregar uma mulher para dentro de um quarto para violá-la. Seu marido a ajudou, então ela correu pelo quarto afora e saiu pela portas dos
284 RABE, 2000, p. 111.
285 MCCALLUM, apud ZHANG, 2001, p. 235. 286 CIZSN, apud BROOK, 2003, p. 64.
fundos para uma alameda para escapar. O soldado saiu e voltou, passados vinte minutos, armado e matou o marido. A mulher tem cinco crianças pequenas e eles mantinham uma pequena loja em algum lugar no sul da cidade [...].287
Nota-se, portanto, que os abusos não foram atos simplesmente praticados com o fim de obter o prazer sexual. Havia um planejamento ou preferência por parte dos soldados. Eles avaliavam as condições das vítimas, a faixa etária demonstra que escolhiam as mulheres com o duplo objetivo, obter mulheres mais atraentes e sem doenças venéreas. Por sua vez, a violência também não era uma completa irracionalidade, praticada durante o abuso; ela era, com efeito, um instrumento para a submissão da mulher, agressões essas pautadas nas assimetrias de poder entre os gêneros e no uso do terror e da força.