O histórico do projeto Arte-Educação na FUNDHAS, guarda estreitas relações com transformações de outros programas e mesmo com o posicionamento conceitual que foi sendo redimensionados ao longo dos anos no entorno das questões sociais na cidade de São José dos Campos e mesmo na instituição.
Esta história esta vinculada ao COSEMT (Centro Educativo do Menor Trabalhador) que em 1985 tinha como meta desenvolver o potencial das crianças e dos adolescentes, a partir da valorização do trabalho manual cujo
programa foi se reestruturando continuamente frente às dificuldades em conseguir professores adequados à função desejada.
Essa questão evidencia, em muitos momentos da história do ensino de arte no país, que a falta de profissionais permitiu que muitos outros, não habilitados para tal função, ocupassem o lugar para ministrar as aulas de arte, gerando assim, muitas vezes, uma atuação de baixa qualidade, contribuindo para que a área de artes não fosse vista como conhecimento, e sim como atividade manual.
Em abril de 1992 a FUNDHAS implanta o Projeto Oficina de Artes, objetivando atender crianças de 7 a 11 anos com oficinas de artes, possibilitando o desenvolvimento de habilidades (trabalhos manuais) e da coordenação motora das crianças. As atividades eram desenvolvidas seguindo temas mensais voltadas às datas comemorativas do mês e envolviam máscaras de papel, bonecos em jornal, pipas, trabalhos com argila, pintura em madeira com desenhos pirogravados, flores, árvores de papel, tapetes artesanais, trabalhos com barbante, colagens, dobraduras, recortes, pintura (guache, lápis), desenhos, jogos e cartões para as datas comemorativas.
De 1993 a 1996 as atividades da FUNDHAS são desenvolvidas em uma linha que prioriza as atividades manuais, que ainda guardam uma relação muita direta com uma concepção e postura de ensino que concebe a área enquanto atividade e não enquanto área de conhecimento, muito diferente do que podemos constatar, atualmente, ao analisar as ações desenvolvidas na Unidade FUNDHAS Jardim São José, instituição essa, parte do nosso objeto de pesquisa, onde tivemos a oportunidade de ver o quanto a conceituação da
área de arte foi construída ao longo da sua historicidade, por meio de tentativas e busca de uma melhor maneira em atender o seu público alvo.
As atividades giravam em torno de projetos de costura, artesanato em bambu, com o objetivo de desenvolver o potencial dos adolescentes, valorizando o trabalho manual, propiciando meios de garantir a sua subsistência após a maioridade. Vemos aí uma preocupação da arte, como possibilidade para a geração de renda, uma concepção que centra no saber fazer.
Esta preocupação com a geração de renda, expressa na criação de “lojinhas” para venda dos seus fazeres e nas sondagens para ver as aptidões e interesses por atividades, nos revela o quanto estes programas que atendem crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, acabam por estender as suas preocupações educacionais e por incluir no próprio currículo dimensões que extrapolam as proposições da escola formal, como uma necessidade de evidenciar que a escola, com o seu currículo, não correspondem às necessidades apresentadas por essas crianças e adolescentes que, muitas vezes, precisam procurar muito cedo sua subsistência.
De 1997 a 2000 o Projeto Oficina de Artes passou por uma revisão metodológica, subdividindo-se em duas divisões: “Programa Adolescente” e “Oficinas Profissionalizantes” composta por projetos agrupados por blocos30,
30 Esses blocos eram organizados da seguinte maneira: Bloco 1 (Artesanato, Oficina de Moda,
Oficina de Pintura em cerâmica e tecido, Oficina de artesanato em bambu, madeira e papel, Oficina de Lãs e linhas, Oficina de Tear); Bloco 2 (Alimentação - Padaria Escola); Bloco 3 (Horta orgânica, Jardins, Viveiro, Horta medicinal, Orientadores Ambientais); Bloco 4 (Marcenaria artesanal, Oficina de viola, Construção Civil, Mecânica, Elétrica, Hidráulica);
que os adolescentes freqüentavam que ofereciam oficinas que iam desde a preocupação para desenvolver com as crianças e os adolescentes uma habilidade, um ofício, passando por outras que tinham como propósito estimular e desenvolver a dimensão criadora.
De 2001 a 2004 são extintos os cursos pré-profissionalizantes e após uma reestruturação o Projeto passa a ser denominado Arte e Cultura, oferecendo oficinas de: Artes Plásticas; Música; Dança; Teatro; Propaganda e Marketing.
No ano de 2002, a Divisão “Programa Adolescente” iniciou os "Intervalos Culturais" que eram espaços abertos de expressão corporal (Teatro, Dança, Música, Artes Plástica, Literatura), com a intenção de desenvolver a expressão e a apreciação cultural e, em 2003, este programa foi reestruturado e passa a ser denominado "Arte-Educação" com oficinas de: Teatro, Música, Dança, Artes Plásticas, Vídeo.
No ano de 2005, o Programa Arte-Educação foi novamente reestruturado, passando a funcionar na forma de núcleos com projetos interdisciplinares, além de contar com a proposta de Educomunicação, com capacitação realizada pela ECA-USP. A faixa etária atendida pelo projeto foi ampliada, pois anteriormente os adolescentes permaneciam um semestre neste programa. Com a reestruturação, os adolescentes são encaminhados aos 13 anos e permanecem até os 15 anos.
A metodologia e a operacionalização do Programa Arte-Educação estão pautados em uma linha sócio-pedagógica-cultural, de forma a garantir o
Bloco 5 (Administrativo Comercial, Informática; Auxiliar Administrativo); Bloco 6 (Artes Musicais); Bloco 7 (Educação – Cursos, Auxiliar de classe).
atendimento das necessidades básicas das crianças e dos adolescentes e a práxis social consciente, priorizando o desenvolvimento de ações interdisciplinares, a partir da junção de diferentes áreas de conhecimento, estruturadas por núcleos, pressupondo um planejamento coletivo e permitindo às crianças e adolescentes do Programa a possibilidade de fazer a escolha semestralmente pela participação em um dos diferentes núcleos, podendo, durante sua permanência no Programa, optar pela continuidade ou transferência para outros núcleos.
As áreas que constituem os núcleos são: Comunicação, Artes Plásticas, Dança, Teatro, Música, Sala de Leitura, Educação Ambiental, Educação Física e Informática na Educação.
O planejamento do programa ocorre de forma sistemática, de acordo com o calendário semestral. A equipe das unidades constrói coletivamente o planejamento, contemplando as diferentes áreas e registram individualmente em formulário específico e registros eletrônicos. Os profissionais da equipe Multidisciplinar31 monitoram todas as unidades e orientam as equipes de
acordo com os pressupostos do Programa.
É feito um acompanhamento social que busca promover ações centradas na família, visando a co-responsabilidade e a percepção do seu papel na formação da criança e do adolescente a partir de suas demandas e
31 A equipe Multidisciplinar é composta por diferentes áreas de atuação, tendo como objetivo
principal subsidiar técnica e metodologicamente as ações do programa. A equipe é composta por: Orientador Pedagógico; Psicólogo; Psicopedagogo; Professor de Educação Física; Monitor de Informática; Coordenador de Educação Ambiental; Assistente Social.
necessidades com base nos fatores de vulnerabilidade social, tendo como norteador do trabalho as Diretrizes Técnicas do Serviço Social na Instituição.
É realizado, também, um acompanhamento escolar. A FUNDHAS acredita no importante papel que o ensino formal tem sobre a formação das crianças e dos adolescentes, para ela o principal sistema de promoção da educação básica é a escola formal, portanto é primordial que as crianças e os adolescentes permaneçam na escola aproveitando o que ele de melhor tema a oferecer.
A FUNDHAS exerce importante papel na mediação estimulando a freqüência e oferecendo espaços que contribuem de forma significativa para melhorar o desempenho escolar das crianças e dos adolescentes. Para estreitar vínculos com a escola, os profissionais das unidades mantêm contatos sistemáticos com o corpo docente da rede formal de ensino.
Para o funcionamento e a garantia da qualidade de atendimento às crianças e adolescentes do programa, as Unidades contam com uma equipe composta por: Gestor de Unidade; Assistente Social; Professor I (Informática, Sala de Leitura); Professor II (Educação Física); Instrutor de Oficina Escola (Teatro, Dança, Artes Plásticas, Música, Comunicação; Técnico Agrícola) e Estagiários (Serviço Social; Educação Física; Pedagogia / Normal Superior / Letras / Comunicação).
A avaliação e monitoramento são extremamente importantes para dar transparência ao programa, além de verificar os resultados e localizar os possíveis problemas, permite mudar estratégias e procedimentos, melhorando
assim o desempenho do Programa. O processo de avaliação é realizado de forma sistemática e contínua, com a participação dos profissionais, das crianças, adolescentes e famílias.
É no contexto do Projeto Arte-Educação que a Unidade FUNDHAS Jardim São José desenvolve seu trabalho com 603 crianças e adolescentes que também freqüentam a EMEF Profª Rosa Tomita. Passamos a refletir, na seqüência, a relação que a Unidade estabeleceu com a comunidade, no início de suas atividades, redimensionando, assim, o conceito e as ações acerca da parceria estabelecida com a escola, bem como, a organização de um currículo em uma dimensão integralizadora e emancipatória.