A primeira identificação possível de se fazer na organização do currículo escolar que intenciona uma perspectiva emancipatória, diz respeito a capacidade que os educadores da EMEF Profª Rosa Tomita, juntamente com os Supervisores da Secretaria de Educação Municipal, tiveram para reconhecer nas “entrelinhas” e nas evidências dos acontecimentos daquele primeiro ano de funcionamento da escola (2004), descrito no capítulo anterior, a necessidade de romper com um currículo prescrito por uma determinada política educacional do município — que estabelece um currículo mínimo, padronizado, que deveria ser comum a todas as escolas da Rede de Ensino — para propor uma nova forma de organização curricular integral, em parceria com a Unidade FHUNDAS Jardim São José, capaz de responder às necessidades e as peculiaridades da população do Conjunto Habitacional Jardim São José II.
As modificações estruturais e administrativas, apresentadas no capítulo anterior, com a proposição do “Projeto Especial” trazem em seu bojo uma nova forma de selecionar os profissionais que deveriam se envolver naquele cotidiano educacional específico, uma proposta de reorganização do tempo escolar, uma maneira diferenciada para a formação de turmas, um acréscimo do horário de estudo para os professores. Estas mudanças foram indispensáveis para dar suporte às transformações pedagógicas necessárias para a construção de um currículo que respondesse à realidade emergente daquele contexto.
Especificamente, no que diz respeito à proposta pedagógica, o Projeto Político Pedagógico da escola previa em 2004 a seguinte organização curricular:
Ciclo I
número de aulas / semana Componentes Curriculares 1º 2º 3º 4º Português 07 07 06 06 História 02 02 03 03 Geografia 02 02 03 03 Ciências 03 03 04 04 Matemática 07 07 05 05 Ed. Física 02 02 02 02 Base Nacional Comum Artes 02 02 02 02
Total da Base Comum 25 25 25 25
Quadro 2: Proposta Curricular vigente na escola em 2004.
Esta estrutura é tipicamente o modelo de uma organização curricular formal, fragmentada e compartimentalizada, cujo objetivo está centrado na veiculação de informações e não na construção do conhecimento. O estabelecimento de um determinado número de aulas por semana das diferentes áreas do conhecimento evidencia, também, que algumas áreas específicas, como Português e Matemática, são consideradas mais importantes do que as demais, conseqüentemente, demandam um número maior de aulas por semana.
É sabido que, nesta forma de organização curricular, o livro didático é, em geral, a única fonte informativa, pressupondo, implicitamente, que existe um único perfil de formação desejada para os educandos; que os educandos utilizam-se da mesma estratégia para compreender qualquer informação; que o conhecimento veiculado no ambiente educacional é totalmente
descontextualizado; e que a repetição de algumas informações decoradas é suficiente para a realização de uma avaliação em que o educando deve, apenas, demonstrar o que memorizou a respeito de um determinado componente curricular.
O reconhecimento de que tal estrutura não garantia à escola o desenvolvimento de sua função e muito menos um percurso de aprendizagem significativo para os educandos, fez com que os educadores da EMEF Profª Rosa Tomita rompessem com esta estrutura posta e concebessem uma reestruturação curricular, em uma lógica totalmente diferenciada da proposta anteriormente, porém adequada às necessidades educacionais e sociais dos educandos.
Um primeiro aspecto a ser destacado, é que a forma integrada de compreender o currículo que pressupõe a possibilidade de trabalhar com os componentes curriculares definidos nacionalmente, sem a necessidade de seguir uma mesma ordem que caracteriza a estrutura lógica dos conteúdos por disciplinas. É o que podemos verificar na proposta pedagógica descrita no “Projeto Especial” (2005 – 2006) que prevê como estrutura curricular, a seguinte organização:
Base Nacional Comum Horas / semana Ciclo I
Português, Matemática, História, Geografia, Ciências 15
Artes 02
Educação Física 02
Projeto – Sala de Leitura 01
Total da Base Comum 20
Ações Educativas Complementares
Enriquecimento Curricular 15
Carga Horária Total Semanal 35
Quadro 3: Proposta Curricular vigente a partir de 2005 com o Projeto Especial.
Embora percebamos que Artes, Educação Física e Sala de Leitura são assumidas na estrutura curricular como áreas a serem trabalhadas separadamente dos componentes curriculares convencionais (Português, Matemática, História, Geografia, Ciências), inclusive com profissionais especializados, a integração dos profissionais e dos conteúdos é perceptível. Sendo assim, é possível inferir que existe a tentativa de construir um trabalho não fragmentado, onde tais áreas são tratadas em igual importância e os diferentes campos de conhecimento são considerados meios para a compreensão do contexto social, a partir dos projetos de aprendizagens que são desenvolvidos pelos educadores e educandos.
O segundo aspecto a ser destacado nesta estrutura curricular é a inserção das ações educativas, que no projeto são chamadas de complementares, desenvolvidas em horário inverso ao das atividades escolares, a partir da parceria estabelecida com a Fundhas, a partir de 2006, possibilitando ampliar a concepção curricular para além das áreas de conhecimento, tradicionalmente trabalhadas na escola, bem como desenhar o
currículo em uma dimensão integral, objetivando o desenvolvimento dos educandos no plano físico, social, emocional, cognitivo e cultural.
Embora reconhecendo que a escola é o espaço do currículo formal, que segue os parâmetros nacionalmente definidos para as diferentes áreas de conhecimento, a FUNDHAS, enquanto instituição parceira, pode trabalhar com mais flexibilidade, ancorando suas atividades nas demandas emergenciais da comunidade, bem como desenvolvendo um programa baseado na proposta de Arte-Educação e Comunicação, possibilitando a expressão, a criação, a experimentação e investigação nos diferentes projetos oferecidos, oportunizando, assim, a formação integral.
As ações educativas complementares desenvolvidas pela Unidade Fundhas Jardim São José apresentam o seguinte desenho curricular:
Núcleos Horas/Semana
Arte-Educação: teatro, dança, artes plásticas, música. Comunicação: rádio, jornal, vídeo, fotografia, leitura. Informática aplicada à educação
Esporte/Lazer Educação Ambiental
Higiene Pessoal e Formação de Atitudes
15
Quadro 4: Composição Curricular da Unidade Fundhas São José.
Tais ações educativas complementares integradas no desenho curricular da Unidade FUNDHAS São José, embora sejam interpretadas no “Plano de Trabalho para o Projeto de Ensino Integral EMEF Profª Rosa Tomita – FUNDHAS”33, como atividades de enriquecimento curricular, não são
assumidas na perspectiva de complementação curricular, ou como aquilo que
33 Anexo05: Plano de Trabalho para o Projeto de Ensino Integral EMEF Profª Rosa Tomita –
falta a uma instituição e precisa ser adicionado por outra. Muito pelo contrário, são, cada vez mais, assumidas como parte integrante de um único currículo construído no cotidiano das duas instituições, uma vez que propiciam aprendizagens que não se complementam, mas que se integram em um único processo de construção de conhecimento.
A compreensão de que as atividades desenvolvidas pelas duas instituições são provenientes de conhecimentos de natureza diferenciada, porém, com o mesmo grau de importância, e que são necessários ao desenvolvimento dos educandos, é comum aos educadores de ambas as instituições. É o que evidencia o testemunho de uma educadora:
A FUNDHAS tem conteúdos específicos e os dois (escola e FUNDHAS) são importantes e apresentam oportunidades de aprendizagens diferentes. Nós não vamos complementar os conteúdos dados pela escola. Nós estamos desenvolvendo conteúdos que são importantes tanto quanto. Nós não complementamos o ensino escolar, mas complementamos o currículo escolar. O trabalho que é desenvolvido na FUNDHAS auxilia as aprendizagens do currículo formal. A gente acredita que essa aprendizagem vai contribuir de alguma forma na aprendizagem do educando também na escola. É uma mudança de foco. (Educ F – 03).
A compreensão da integração curricular apresentada pela parceira Escola X FUNDHAS está para além da idéia de complementação de um currículo que se mostra incompleto, e que não abarca as necessidades formativas e de aprendizagens de educandos reais daquele contexto.
Tal parceria não evidencia a incapacidade de uma instituição frente ao desafio educacional apresentado pela contemporaneidade, que se mostra,
cada vez mais, exigente e complexo. Muito pelo contrário, a parceria estabelecida entre duas instituições com características distintas evidencia o reconhecimento de que a escola, instituída e organizada (administrativa e pedagogicamente) da forma como está, não dá conta, sozinha, de construir, em seu cotidiano, um currículo que humanize, que supere a alienação e que potencialize a transformações. Em outras palavras, um currículo com perspectivas emancipatórias, cujas práticas passam a ser analisadas no próximo capítulo.