Apesar de os sujeitos da pesquisa não terem trabalhado na fábrica de calçados em Quixeramobim, durante o levantamento que fiz com as juventudes do curso (REAJO) a partir da lista de egressos/as da escola, a recorrência desse evento ou dos/as jovens que foram para essa cidade à procura de emprego despertou minha atenção. Quando citei o nome de um jovem da lista de concludentes de 2014, obtive a seguinte notícia:
(Camélia)89: Que eu falei, que ele tinha ido para a fábrica. Mas voltou, tá trabalhando com o pai dele, e tá fazendo o curso na escola.
(Kamila): Mas você acha que foi o curso que trouxe ele de volta? (Camélia): Não, foi não. Ele voltou antes.
(Flora): Foi não, foi não.
(Dália): Talvez não tenha dado tanto certo o trabalho dele. Porque o trabalho da fábrica, as pessoas acabam se cansando...
[...]
(Camélia): Mas a Acácia falou que era a questão da despesa da casa, que o menino que tava morando com ele ia sair, aí ele não tinha mais condição de manter a casa sozinho.
(Dália): Porque fica muito pesado. E as pessoas também se frustram muito quando vão para aquela fábrica, porque acabam morrendo de trabalhar e, quando eles conseguem... geralmente, quando eles conseguem... trabalham um certo período, conseguem um certo recurso, param, vão meio que usufruir do recurso que receberam e, quando se acaba, acabam voltando depois de novo para a fábrica. (Trecho da entrevista com Lourdinha, Camélia, Flora e Dália, 02/12/2015)
Por ter áreas de terra que fazem parte do município de Quixeramobim, a proximidade entre algumas comunidades do Assentamento 25 de Maio e o centro dessa cidade é menor do que a distância para Madalena ou Boa Viagem.
Figura 6 – Mapa de localização do Assentamento 25 de Maio
Fonte: Mapa elaborado por Lúcio Correia Miranda para este trabalho.
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Camélia, Flora, Dália e Acácia são nomes fictícios para as jovens que participam do Curso Técnico em Agroecologia e Extensão Rural e que estavam no dormitório no Centro de Formação, Capacitação e Pesquisa Frei Humberto no momento em que eu fazia o levantamento dos percursos dos/as egressos/as com Lourdinha, uma das jovens da pesquisa.
Segundo as jovens Idalina, Conceição e Lourdinha, existe diariamente no assentamento um transporte coletivo que promove o deslocamento até Quixeramobim. Idalina, em uma conversa que tivemos, acrescentou que esse transporte é o que leva as pessoas que estão trabalhando na fábrica ou as que trabalham como atendentes de loja.
As três jovens citadas demonstram uma relação próxima e rotineira com esse lugar. Duas já trabalharam como atendentes em lojas ou em outros serviços; as três, no período da coleta de dados, faziam curso lá, assim tendo uma frequência semanal de idas e vindas entre suas comunidades e o município. Os vínculos das jovens com a cidade expressam um duplo movimento, como uma “via de mão dupla” (WANDERLEY, 2009) da relação campo-cidade que elas estabelecem. Na medida em que a cidade oferece a formação que elas buscam ou oferta trabalho, elas, enquanto moradoras da área rural, consomem o que a cidade produz ou disponibilizam sua força de trabalho para a continuidade da atividade urbana.
Wanderley (2009) entende que há relações de interdependência entre o campo e a cidade. Para a autora, o acesso das populações rurais aos bens e serviços produzidos e disponibilizados na sociedade brasileira é importante e necessário para garantir a participação dos/as brasileiros/as que residem no campo ao progresso social, cumprindo com o princípio que a constituição estabelece de igualdade de chances para todos/as os/as cidadãos/ãs. Entretanto, essa relação tem mais de um sentido, pois as juventudes do campo não conseguem acessar tudo que a cidade oferta, então elas experimentam a exclusão. Essa é uma relação ambígua, que acaba por denotar as expectativas que as juventudes tinham sobre a própria cidade.
À medida que Quixeramobim representa para os sujeitos a possibilidade de ter um emprego, remuneração, acesso aos estudos, a cidade também lhes revela “o outro lado da moeda”, em que tudo se paga: água, comida, transporte. A vida na cidade se estrutura sobre outra lógica, que não é a de reciprocidade, característica marcante das sociedades camponesas. A comunidade/família do campo se apresenta como uma “cápsula protetora” (WOORTMANN, 1990b) à qual as juventudes, ainda que sem condições monetárias, podem voltar até que outras oportunidades surjam.
(Lourdinha): Eu ficava lá. Ia toda segunda e voltava no sábado. Ia na segunda e voltava no sábado. Aí eu gastava com passagem, gastava com comida, gastava com num sei mais o quê, gastava (fez uma pausa), não sobrava nada pra mim, sabe? Rapaz, ô negócio sem futuro, eu vou é pra casa. O meu filho bem “pequenininho”, eu aqui morrendo de trabalhar pra não ganhar nada, gastava com passagem, transporte. Aí eu voltei (Trecho da entrevista com Lourdinha, 09/12/2015).
A escolha pelo trabalho na fábrica ou a saída para as cidades, em ambos os casos expostos (São Paulo e Quixeramobim), anunciam outra decisão dos/as jovens: o não trabalho na agricultura familiar. A migração dos/as jovens ou o não envolvimento deles/as na agricultura são motivos de preocupação para o futuro dos assentamentos, da produção agrícola, da continuidade da propriedade da terra. Apesar de essa situação também ter correlação com a seca em muitas das áreas rurais do Nordeste brasileiro, em outras regiões do País esse fato também está presente; e a sucessão das terras encontra nas migrações das juventudes certo entrave. Abramovay et. al. (1998) considera que o que está em jogo na “questão sucessória” não é apenas o futuro de certas empresas e famílias, mas “[...] o próprio destino de boa parte das regiões que hoje passam por processos severos de êxodo rural” (ABRAMOVAY et. al., 1998, p.17).
A necessidade da renda, de ganhar seu próprio dinheiro, é sem dúvida um fator preponderante para as determinações dos/as jovens, mas outras relações de poder, de força, de hierarquia se engendram, uma miscelânea de elementos que incidem na vida dos/as jovens do campo. A considerar o fato de que o “dono da terra” são os pais, e seus trabalhos na propriedade da família se configuram apenas como “ajuda”, o trabalho que eles (principalmente os jovens homens) desenvolvem nos roçados ou no cuidado com os animais não lhes dá retornos monetários (com continuidade, exceto quando os pais lhes ofertam algum dinheiro), porque a renda obtida é da casa, ou seja, da família, e é administrada pelo pai.
A tomada de decisões sobre a propriedade da família ou sobre o trabalho desenvolvido nela é comumente feito de forma vertical: o pai é quem determina o que fazer e quando fazer. Além de uma relação de controle, é possível encontrar, como na fala do jovem Vicente a seguir, a imposição dos pais para que os/as jovens se envolvam no negócio da família:
(Kamila): Vocês já tinham gado em casa?
(Vicente): Tinha, mas era meio fraco. Com isso, ano passado nós fizemos 200 sacos de milho. Com isso, o pai vendeu, comprou o gado, comprou de leite. Até agora, nós
“tamo” vendendo, na cidade.
(Kamila): E aí, você entrou com seu pai, pra ajudar nessa questão da vaca?
(Vicente): É! No início eu entrei junto, mas lá pela metade do ano assim, ele queria que eu parasse de estudar pra ajudar ele...
(Kamila): Ele queria que você parasse de estudar pra ajudar?
(Vicente): Aham... Eu não aceitei. Ele mandou escolher. Ou tu vai trabalhar ou pega o rumo... eu disse: Então tá. Peguei minhas coisas, eu saí de casa
(Trecho da entrevista com Vicente, 22/12/15)
durante a maior parte dos casos, entre os/as que se envolvem com a atividade, como “ajuda”. Na fala dos sujeitos, as juventudes “não têm vez” porque são agregados, não podendo concorrer aos editais e projetos que chegam para o assentamento, quando diz respeito a trabalhos produtivos. Eles/as desconhecem em suas comunidades, no assentamento em estudo, algum projeto que tenha disponibilizado recurso para os/as jovens criarem alguma atividade de produção. Projetos citados por eles/elas, como o que foi implantado para a produção de canteiros, era para a unidade doméstica, ficando vinculada a mãe, pai ou avôs; novamente, as jovens mulheres então atuavam ajudando e cuidando dos canteiros junto com os responsáveis oficiais. As juventudes não se sentem inclusas no campo, não há de fato uma participação democrática em todas as esferas da vida camponesa.
La juventud rural no se siente protagónica e incluso es difícil especificar su condición de actor social potencial en esse medio. A esto contribuye el hecho de que la ciudadanía rural, en geral, está devaluada en la sociedad y que los adultos tienden a no abrir espacios a los jóvenes. Tradicionalmente, no se permite la manifestación de la voz juvenil en el trabajo ni en la familia (CEPAL, 1996, p.253).
Apesar das juventudes ainda terem seus discursos negados ou compreendidos como “fora da ordem das leis” (SALES, 2001, p.26), os/as jovens conseguem usurpar as interdições e construir espaços de fala, de expressão dos seus anseios. Os movimentos sociais, o MST principalmente, no contexto desses/as jovens, são porta-vozes das pautas juvenis e neles agregam jovens, adultos, idosos, homens e mulheres, que, ao se articularem em prol da Reforma Agrária, tentam também criar espaços de participação política para os/as jovens assentados/as.
Conquistas foram alcançadas para as juventudes brasileiras, em foco as juventudes do campo, mas as dificuldades e incertezas para esse segmento social ainda são grandes. Em um levantamento feito no portal da Secretaria Nacional de Juventude90 sobre as políticas públicas destinadas às juventudes do campo, consegui identificar três programas: Programa Nacional de Educação do Campo (Pronacampo), Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf Jovem) e Programa de Fortalecimento da Autonomia Econômica e Social da Juventude Rural (Pajur). Esses programas são importantes, mas mínimos e pouco específicos para a diversidade rural que existe entre as regiões brasileiras e para as suas juventudes, que se relacionam e vivem o campo de maneira múltipla.
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Para mais informações, visitar a página do Portal da Juventude, da Secretaria Nacional de Juventude: http://juventude.gov.br/juventude/programas?npage=1#.VqYpJZorJ1s.