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A mobilidade campo-cidade é uma característica forte nos percursos de Lourdinha. Segundo a jovem, sua expectativa para quando terminasse o ensino médio era:

(Lourdinha): Trabalhar. Entrar no mercado de trabalho. Conseguir me manter. (Kamila): E você tinha algo em mente? Trabalhar com o quê exatamente?

(Lourdinha): Não. Tinha não. Eu tinha vontade de estudar e trabalhar. Minhas metas eram estudar e trabalhar, estudar e trabalhar. Continuar estudando e aí trabalhar. E ser independente.

(Kamila): E o trabalhar não tinha nenhum trabalho específico? (Lourdinha): Não. Pra mim, o que viesse era bom. De começo, n/é? (Trecho da entrevista com Lourdinha, 09/12/2015)

Como visto anteriormente, a jovem teve experiências de trabalho na cidade de Quixeramobim; e ela também esteve em Madalena. Motivada pelo desejo de trabalhar, ganhar dinheiro e conseguir independência, Lourdinha teve a sua primeira inserção no mundo do trabalho.

(Lourdinha): Quando eu terminei o terceiro ano, eu só queria trabalhar, sabe? Pensava mais em trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, que eu queria muito trabalhar, porque eu pensei que trabalhar era a melhor coisa do mundo. Que você sair de casa é também, ia ser também a melhor coisa do mundo. Aí eu arranjei um

“empreguim réi”...

(Kamila): Onde?

(Lourdinha): Lá no Quixeramobim. Na Sky. Aí eu só faltava morrer sapecada no sol

“aperriando” o pessoal para fazer plano.

(Kamila): Você vendia os planos onde? (Lourdinha): Vendia na rua.

(Kamila): Em Quixeramobim mesmo?

(Lourdinha): Era. Aí depois a mulher colocou eu pra ser atendente, de balcão. Pra atender lá o pessoal. Aí depois ela colocou eu pra telefonar para o pessoal, ser telefonista.

(Lourdinha): É tão chato. [...] Aí, isso aí eu só aguentei um mês. (Trecho da entrevista com Lourdinha, 09/12/2015)

Apesar de ter trabalhado em Quixeramobim, onde passava a semana na casa de um parente, sua identificação enquanto lugar de moradia não era com esse município — pois, para a jovem, ela passava a semana lá, mas morava no assentamento (para onde voltava nos finais de semana). A mobilidade da jovem e essa possibilidade de vivenciar o campo e a cidade vão ao encontro do que Kayser (1990) denominou de continuum, que significa um novo sistema de relações entre rural e urbano proporcionado pelo crescimento da cidade e pela urbanização do campo, o que contribui na diminuição da oposição e dependência espacial.

Após sair desse trabalho, a egressa teve outros percursos:

(Lourdinha) Aí eu voltei. Eu fiquei em casa, aí, com pouco tempo, pintou o vestibular. Aí eu fiz o vestibular, passei e comecei a estudar. Aí, com pouco tempo, também pintou... os técnicos andavam aqui, aí falou que tava precisando de uma pessoa para trabalhar na administração, lá do CETRA. Que tava tendo uma seleção, aí pediram meu currículo, eu mandei, depois me ligaram, eu fui para entrevista e aí eu passei na entrevista. Aí eu trabalhava lá no CETRA (Trecho da entrevista com Lourdinha, 09/12/2015).

À medida que as oportunidades iam “pintando”, aparecendo, ela ia aceitando e vivenciando outras experiências. Outras rotas eram traçadas, novos planos iam se constituindo nos seus percursos. Sua atuação no CETRA era no município de Madalena, onde ficava a semana, e cursava de Licenciatura em Pedagogia em Quixeramobim. Com isso, a jovem elaborava corriqueiramente uma nova relação cidade-campo-cidade:

(Lourdinha): [...] Aí eu trabalhava no CETRA de Madalena até sexta. Sexta, meio- dia ou sexta de tarde, eu ia para o Quixeramobim. Eu estudava de noite, estudava o sábado, praticamente o sábado todo, e voltava pra casa, passava só o domingo em casa, muito corrido, na segunda eu já voltava.

(Kamila): Pra Madalena?

(Lourdinha): Pra Madalena. Aí era São Joaquim-Madalena-Quixeramobim-São Joaquim-Madalena-Quixeramobim (Trecho da entrevista com Lourdinha, 09/12/2015).

Pensar a mobilidade de Lourdinha, ou de Idalina e Conceição, é considerar que a “[...] mobilidade dos jovens persiste, mas ao mesmo tempo nos faz pensar sobre a diversidade de fatores que podem influenciar a migração campo-cidade, campo-campo, cidade-cidade e campo-cidade (SALES, 2006, p.150). É relevante chamar atenção para essa diversidade de fatores, para que as migrações juvenis não sejam pensadas apenas nos termos do trabalho, por

exemplo — assim como Lourdinha estabelecia uma relação entre duas cidades e o assentamento para trabalhar e estudar, ao mesmo tempo era uma relação mediada pela volta pra casa, o que não deixava de ser uma opção, uma nova relação, com outros termos.

No CETRA, a jovem ficou até que seu contrato acabasse (sete meses) e desenvolvia atividades burocráticas e em alguns momentos acompanhava os técnicos nas visitas aos assentamentos, o que lhe despertou interesse pela agroecologia e em seguida pelo Curso Técnico em Agroecologia e Extensão Rural:

(Lourdinha): A gente (ela e uma pessoa do CETRA) passou lá na escola do Quieto, aí eu vi lá (seleção para o curso técnico em agroecologia). Aí eu, “Nossa (falou com intensidade), um curso técnico de agroecologia!”... aí eu já tava toda apaixonada por essa parte de agroecologia, porque o CETRA trabalha em cima da agroecologia, n/é? Aí eu já tava toda fascinada, toda apaixonada, aí eu peguei e me inscrevi. Aí saiu a seleção. Aí meu nome não saiu. Aí eu fiquei mó desiludida da vida. Pra outra etapa, pra segunda etapa, aí me chamaram, porque tinha tido várias desistências. Aí me colocaram. Aí, pronto, eu fiquei muito feliz, que eu tinha sido colocada (Trecho da entrevista com Lourdinha, 09/12/2015).

Apesar de fazer o curso de Pedagogia, por ter sido uma oportunidade que apareceu, a jovem tinha como vontade fazer algum curso na área das ciências agrárias, porque gostava do contato com a terra, o que foi ainda mais estimulado pelo último trabalho, como também pela sua formação no ensino médio:

(Lourdinha): Com a Educação do Campo, eu aprendi mais sobre a valorização da gente do campo, com a terra, a convivência com o campo, sem prejudicar tanto, sem agredir. As práticas de OTTP também, coisas que a gente convivia e não entendia, clareou bem [...] para desenvolver na casa da gente, no cotidiano da gente. É... coisas que a gente convivia todos os dias e não sabia a importância, aquela planta servia pra alguma coisa, pra isso, isso servia para um remédio. Essas coisas assim a gente foi aprendendo mais nas aulas de OTTP (Trecho da entrevista com Lourdinha, 09/12/2015).

Durante a minha inserção no campo, desde o Curso Técnico em Agroecologia e Extensão Rural, e no contato com Lourdinha nas redes sociais ou no assentamento, percebi que a jovem tem seus percursos bem dinâmicos, não conseguindo ficar parada sem ganhar uma renda. Provavelmente por ser mãe, a jovem sinta a necessidade de estar sempre procurando novas coisas para fazer (apesar de ela e o filho viverem na casa dos seus pais), como atuar com vendas junto com sua mãe no assentamento. Por último, a jovem estava fazendo a graduação, o curso e desenvolvendo algumas atividades autônomas, como a venda de roupas e bijuterias de revistas em parceria com a mãe.

(Lourdinha): Quero me formar, não quero desistir, não. Talvez começar, mais na frente, outra graduação ou uma pós-graduação. Continuar, n/é? Continuar meus estudos. Conseguir um emprego. Quem sabe passar num concurso e ser concursada. E poder me manter, n/é? Com meu dinheiro, com meu trabalho. Ajudar minha família. Fazer a minha família. Ter a minha família (Trecho da entrevista com Lourdinha, 09/12/2015).

Os percursos da egressa chamam atenção por suas várias inserções no assentamento e fora dele. A jovem aproveita as oportunidades como tática para continuar com a família no campo. Apesar de os seus projetos de vida não serem definidos dentro do espaço do assentamento, suas rotas são traçadas aos arredores deste, o que facilita sua mobilidade.