2 Background
2.1 Eye movement and eye tracking
Conforme o relato dos sujeitos, o que mais os atrai no futuro parceiro é a consistência de sua experiência espiritual. Aqueles que são envolvidos com os rituais religiosos e possuem uma vida espiritual sólida são considerados os companheiros mais apropriados. Há, pois, uma espiritualização do objeto de desejo. Normalmente, os jovens
97 As primeiras discussões e reflexões teológicas apresentavam o casamento como terapêutica do desejo,
remédio para a concupiscência e possibilidade de purificação da atividade sexual. Nos primeiros séculos da era cristã, foi considerado um mal necessário. A igreja protestante, no entanto, não repudiou o matrimônio. Considerou-o um meio de conter a libido e, por isso, o valorizou.
não possuem um perfil pré-definido de parceiro afetivo que mais lhes agrada. Basta que pertença à igreja e esteja comprometido com o sistema representacional e dogmático da instituição eclesiástica. Desse modo, acredita-se que haja uma maior possibilidade de identificação entre os futuros namorados. Mais uma vez o desejo é relegado a segundo plano, pelo menos no discurso.
Lucas: [Que tipo de menina você gostaria de namorar?] Acho que uma menina que fosse da
igreja. (...) Não penso em nenhuma característica especial. Não. O fato de ela estar na igreja meio que já englobou tudo, entendeu? Porque se ela está na igreja... Se ela está na igreja que eu falo é porque ela gosta. Não de ser obrigada pelo pai. Então, se ela está na igreja é porque ela se identificou e se eu estou na igreja é porque eu me identifiquei. (...) [O que você me diz é que não
tem muito um perfil de mulher...] Não. Não, porque o que eu quero às vezes não é o certo. Porque
eu não sei, sabe? Deus consegue ver além. Então, Ele sabe o certo. Então, às vezes, para mim, aos meus olhos, pode ser que aquilo seja certo. Só que Deus está vendo o negócio na frente.
Mateus: [Como seria essa mulher?] Ah, tem que ser primeiro temente a Deus, né? O que eu gosto
de fazer é praticar esporte. Eu gosto muito de sair, não gosto muito de ficar em casa. Sair, viajar, curtir, passear, praticar esporte, servir a Deus em geral assim, levar a Palavra... Se ela puder ser cantora também, GLÓRIA A DEUS. Se ela não puder, também tudo bem, não tem problema. (...) Eu não posso falar para você que eu tenho uma pessoa definida fisicamente, porque eu não tenho. Eu só sei que eu quero uma pessoa, como eu já te falei, de Deus, que tenha pelo menos algumas coisas parecidas comigo, que gosta de esportes, de música. Para mim, está ótimo. Então, eu não tenho assim um perfil...
Marcos: [Como é essa mulher?] Que seja uma mulher de Deus, que esteja na mesma visão do que
eu. [Qual seria a mesma visão?] A visão é a visão da igreja. Por exemplo, um dia ou outro, o pastor chegar e falar: “Olha, você vai ser enviado para tal local”. Será que essa pessoa vai estar fazendo uma faculdade, fazendo alguma coisa? Ela vai largar tudo para ir junto comigo? Porque eu tenho certeza que eu vou abrir mão de muita coisa minha para suprir ela. Eu espero a mesma coisa, entendeu? Então, será que ela largaria tudo para ir começar uma vida nova comigo em outro local? É esse tipo de pessoa que eu quero. Uma pessoa que não seja fresca, que seja normal, não se importe muito com as coisas materiais. Eu quero uma pessoa mais espiritual.
Ester: Eu queria uma pessoa que fosse mais jovem que eu, não tão jovem porque eu também já não
sou tão jovem assim. Mas que fosse um pouco mais novo que eu, que tenha uma vida com Deus, que seja um homem de muita fé, cheio do Espírito Santo, que seja conhecedor da palavra de Deus e que seja uma pessoa assim que verdadeiramente é um servo de Deus. Para mim, o mais importante de tudo isso, tem que primeiro ser um servo de Deus, entendeu?
Os jovens tentam desconsiderar a importância do aspecto físico do futuro parceiro. Contudo, em alguns momentos os seus discursos parecem revelar o contrário. Aparece com sutileza a questão da atração física tão fortemente negada.
Raquel: [O que você acha dos meninos da igreja?] Tem uns que não tem nada a ver com o que eu
gosto de homem assim, mas tem uns bem bonitinhos. Você acaba mudando até o seu conceito assim. Deus vai transformando as coisas. O padrão que eu tinha de homem ideal já não é o mesmo, sabe? Antes, eu gostava de uns caras rebeldes, tatuados. Eu gosto de homem tatuado ainda, mas hoje em dia eu já olho para os meninos mais certinhos, sabe? Eu me interesso por uns meninos mais de surfe, assim, uns caras mais natureza, sabe?
Marcos: Eu vejo as mulheres da igreja assim: todas elas esperam aquele cara, aquele homem de
Deus, cara forte, alto, moreno, bronzeado. Brincadeira!!! [Risos] Mas elas esperam assim um cara legal, que esteja centrado na vontade, no propósito de Deus, que esteja na visão da igreja também principalmente.
Portanto, o pré-requisito básico para iniciar um relacionamento é que o parceiro pertença à igreja, o que possibilita a convergência de opiniões, comportamentos e idéias e a compatibilidade afetiva. Caso o companheiro não seja da igreja, a possibilidade de entrosamento é menor. Além disso, o cristão corre o risco de não mais obedecer aos dogmas religiosos, de não mais se submeter à hierarquia eclesiástica e de se desinteressar pela vida espiritual.
Mateus: Primeiro de tudo a pessoa tem que ser evangélica. Primeiro passo, senão... Não existe
jugo desigual. Isso daí eu já aprendi também. Ou nós somos ou nós não somos. (...) Imagine o seguinte: você está em cima da cadeira... não, você está embaixo da cadeira e eu tô em cima. É mais fácil você me puxar para baixo do que eu te puxar para cima. Certeza. Então, se eu tenho uma
relação com uma pessoa que não é... que não segue a mesma coisa que eu sigo, que não é uma pessoa evangélica, que não tem o temor que eu tenho por Deus, o respeito que eu tenho, enfim, que não seja o mínimo assim semelhante a mim, não tem como nós vivermos juntos. Não tem como porque ela vai querer outras coisas. Eu já tentei isso... experiência própria.
Lucas: [Como são as meninas da igreja?] São diferentes porque elas também têm os valores. Isso
é legal, porque é um entrosamento perfeito quando a gente conversa com uma menina da igreja. Porque a menina tem o mesmo princípio que você. Então, você conversa normal e ela pensa igualzinho, sabe? E vocês conversam e sem nenhuma maldade, entendeu? Isso é que é legal.
Segundo o relato das meninas, a seriedade dos rapazes da igreja as impressiona. Eles demonstram claro interesse pelo compromisso afetivo, pelo casamento e por constituir uma família.
Ester: [Como são os meninos?] Os meninos da igreja? Eles são... Eles levam a sério, viu? Eles
levam a coisa a sério mesmo assim. Como é que eu posso dizer? Em relação a que você quer saber? [De modo geral, o que te chama mais atenção neles?] A seriedade deles. Porque muitos, a maioria dos meus amigos, querem constituir uma família.
Os meninos, por sua vez, descrevem as moças como companheiras perfeitas, que os complementam afetivamente. Apesar de considerá-las livres profissionalmente, acreditam que elas devem se submeter às determinações de seus esposos. Parece difícil conciliar a independência da mulher atual com um preceito bíblico tão antigo como a submissão da esposa ao marido. No entanto, a igreja insiste em adotá-lo, não obstante ele não corresponda na prática à realidade das mulheres da congregação evangélica Bola de Neve.
Marcos: Eu olho, eu vejo uma mulher como uma coluna, a outra metade. Eu vejo uma mulher
como algo muito especial, talvez uma das coisas mais especiais que Deus, se não for a mais, que Deus deixou para a gente, HOMENS. Uma companheira, aquela que está do seu lado na caminhada, na sua caminhada cristã principalmente, que não é fácil...
Marcos: (...) eu quero que a minha mulher trabalhe, que ela tenha a vida dela, entendeu? Porque
eu sei que deve ser difícil para uma mulher. Já pensou você ter uma faculdade e você não poder exercer sua profissão? Eu acho que você estudou, você tem os seus ideais, você quer crescer na vida também. Então, eu sou totalmente a favor de uma mulher trabalhar, fazer uma faculdade, até mesmo ir fazer um curso no exterior curto e voltar. Eu confio plenamente.
Mateus: Eu tenho que... não servir a ela, porque é a mulher que tem que ser submissa a mim, mas
eu tenho que sempre estar ajudando. Mas eu sempre ajudei independente de eu ser... Quando eu era casado, eu cozinhava, eu sempre arrumei as coisas, lavei roupa. Isso para mim não era nada de mais fazer. Eu não era menos homem ou mais homem porque eu fazia isso.
Logo, a contradição marca a relação entre os sexos. A mulher da igreja, apesar de conquistar espaços na sociedade contemporânea e de se destacar socialmente, deve acatar as decisões do marido, demonstrando resignação. O homem, portanto, deve continuar ocupando o lugar tradicional de poder no ambiente doméstico. Entretanto, as mulheres da igreja não se mostram submissas e dóceis. Muitas se destacam profissionalmente e se expressam livremente na instituição eclesiástica. Algumas delas assumem posições importantes na hierarquia religiosa, tornando-se pastoras, o que as autoriza a fazer pregações, dirigir cerimônias religiosas e orientar o comportamento dos fiéis, sem, no entanto, ameaçar a tradicional autoridade masculina. A igreja, paradoxalmente, mantém a norma de submissão feminina, mesmo sabendo que não é seguida por seus membros. Certamente, conserva essa regra para restringir de algum modo a liberdade da mulher e impedir que a pretensa superioridade masculina seja abalada.
A nova mulher pentecostal não é discreta, recatada e silenciosa como as mulheres estudadas por Gouveia (1986). Talvez, seja ela temida pelos homens, como observou Gay (1999), pois consegue falar, se expressar, seduzir, se comunicar e dirigir. Atualmente, ela invadiu o espaço eletrônico (Gouveia, 1998), penetrou nos meios virtuais, demonstrou capacidade de comunicação e faz parte da estratégia eclesiástica de divulgação da mensagem religiosa. Todavia, ainda não gerencia os bens simbólicos que estão sob controle masculino. Quando administra algum setor da igreja, permanece submetida à supervisão de um homem.
CAPÍTULO VII
Deus, o diabo e o desejo sexual 1. A experiência sexual na relação com o sagrado
O êxtase religioso é a expressão da realização do desejo. Os fiéis desviam a energia sexual para o relacionamento com a transcendência. A libido é, pois, transferida para as coisas religiosas. A sexualidade é vivida pela via indireta98. O desejo, impedido de ser satisfeito na relação sexual, é deslocado. O sagrado passa a ser erotizado. Assim como os cristãos espiritualizam a relação erótica, erotizam a relação com as coisas espirituais. O desejo aparece nitidamente no espaço da sacralidade. Expressões como “sede”, “loucura”, “explosão” e “êxtase” são utilizadas pelos jovens para caracterizar a relação erótica com o sagrado99.
Marcos: Quando eu comecei a ir na igreja, eu falei: “Nossa! É isso mesmo”. Comecei a buscar,
comecei a ler mais a Bíblia. Era uma sede, era uma coisa louca que eu queria cada vez mais!
Marcos: Depois de quinze dias, eu me batizei. (...) Na hora que eu entrei no batismo, é um negócio
louco, louco, louco. Você fica ansioso. (...) Quando você vai para a beira da piscina para descer às águas, você fala alguma coisa: o que Jesus é para você. O pastor pergunta isso: “O que Jesus significa para você?”. Eu falei assim: “Jesus é o caminho que eu busquei, busquei, rodei e não encontrei. É esse o caminho que eu quero seguir agora. Não importa... Eu vou seguir esse caminho. (...) Agora o que importa para mim é estar com a sua presença e estar fazendo o que é certo, fazer o bem para as pessoas”. Desci às águas. A hora que eu desci, ele faz a oração e mergulha você.
98 As manifestações de catarse nos cultos possibilitam por vias indiretas a realização da sexualidade e a
obtenção de um prazer substituto. Segundo Edir Marcedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, o prazer da experiência religiosa é “muito mais gostoso do que o gozo entre um homem e uma mulher” (Campos, 1996: 74).
99 Freud (1981a) explorou a idéia de que, por meio do deslocamento pulsional, a libido se desvia de sua
função sexual para ligar-se a outras representações psíquicas, como as crenças religiosas. Gay (2000), a partir das premissas psicanalíticas, afirmou que a energia sexual contribui para a formação e consolidação da religião.
Quando eu levantei, é como se uma explosão tivesse dentro de mim. Bum! [Risos]. Eu falei: “Nossa! Que negócio louco, cara!”. Você sente assim, você levanta uma outra pessoa. (...) Quando eu saí do batismo, eu e o Paulo começamos a gritar: “Aaaaah... [Gritos de alegria]. A gente está batizado. Eu fui batizado”. A gente pulava, nós dois juntos. Não conseguia parar de dar risada. Naquele momento, o Espírito Santo literalmente começou a habitar na nossa vida. E aí, comecei minha caminhada cristã.
Marcos: Você quer orar. Você fica nessa sede. [Quando você ora menos, o que você sente?] Se
sente fraco. Você fica acuado, você quer explodir aquela coisa assim na oração e entrar naquele êxtase. Porque você tem as fases da oração. Chega uma hora que você está totalmente tomado pelo Espírito Santo. Você não quer saber de ninguém te chamando, de alguém tocando, de alguém te atrapalhando, telefone tocando. Você não quer saber de nada disso. É um momento ali, você e Deus. E para você chegar nesse momento, você tem que está preparado.
Raquel: A relação com o meu ex-namorado roubava um pouco a minha energia. Então, depois que
eu terminei com ele, eu passei a usar a energia que eu usava para me dedicar a ele para ir buscar a Deus. Agora, eu estou fazendo teologia de novo, coisa que eu tinha começado a fazer, que eu tinha parado.
Ester: Então, eu comecei a buscar Deus, buscar Deus, buscar Deus e Deus começou a me mostrar
muitas coisas, a mudar meu caráter... (...) Quando eu me firmei mesmo com Deus, que eu ia buscar a Deus de todo o meu coração, Deus começou a restaurar minha vida.
Ester: O pastor Rina ensina as pessoas a amarem a Deus na sua essência, não porque Deus pode
te dar algo, mas porque Ele é soberano e a gente tem que adorar a Ele, né? Ele nos ensina a amar a Deus em primeiro lugar...
Ester: Mas assim a gente simplesmente faz tudo por Deus, por amor a Deus.
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Marcos: A própria palavra diz que quando a gente tem um verdadeiro encontro com o Espírito
Santo, com Deus, não tem como voltar atrás. Eu tive esse encontro. É uma coisa muito forte. É um negócio que... As coisas não te chamam mais nada a atenção, as coisas do mundo, as coisas materiais... Você desencana totalmente disso.
Marcos: Eu pensava que faltava algo na minha vida, eu achava que era o namoro, a mulher. Mas
na verdade não era a mulher, na verdade era... Meu, se tem alguém que eu preciso namorar, é namorar Jesus. Porque é assim... buscai a Deus em primeiro lugar e todas as coisas vos serão acrescentadas. Eu não busquei tanto a Deus em primeiro lugar como eu deveria, entendeu?
Os depoimentos colhidos revelam que há outras formas de realizar o desejo sexual, privado pela cúpula clerical de seguir o seu fluxo natural. Acredita-se que o Espírito Santo é capaz de suprir as carências sexuais, de atender às necessidades físicas e de satisfazer os desejos eróticos. Logo, pela via espiritual, é possível alcançar algum nível de satisfação sexual, mesmo que não seja de forma direta e plena.
Marcos: É complicado, né? Você tem uma vida sexual ultra-ativa e de repente você corta. Mas o
Espírito Santo... (...) Isso o Senhor sabe que era uma coisa que eu sentia prazer, que eu gostava, que eu amava. Então, me supre. De alguma forma, o Senhor vai ter que me suprir. E é o que o Espírito Santo faz. Ele supre você. É assim: é como se você tivesse alguém ao seu lado.
Raquel: Deus preencheu o espaço vazio assim, sabe? Eu não estou sentindo falta, não estou
sentindo falta mesmo. Lógico que eu quero uma pessoa, mas eu estou bem do jeito que eu estou. Estou bem mesmo.
Parece que o jovem sozinho investe mais sua libido na relação com o sagrado e, talvez por isso, desenvolva maior “intimidade” com Deus e adquira maior experiência espiritual. Quando está envolvido afetivamente, utiliza sua energia sexual na relação amorosa, o que pode comprometer seu relacionamento com o sagrado.
Marcos: A vida sentimental afeta tudo, afeta todas as áreas, a sua comunhão com Deus, a sua vida
familiar.
Marcos: Às vezes, você poderia estar buscando a Deus, que é uma coisa que te faz muito feliz, às
vezes mais feliz do que você estar ali com a pessoa, assistindo um filme, comendo pipoca, orando junto, sei lá, entendeu?