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Systematic Review of Design Guidelines for Full-Body Interactive Games

CCS CONCEPTS

5 Design Guidelines

5.1 Movement Elicitation

A noção de ―fluxo‖ televisivo foi abordada pela primeira vez por Raymond Williams (1975) ao comparar a programação britânica (sem interrupções e intervalos) à televisão comercial americana. O pesquisador refletiu sobre a experiência de ver TV. Em suas ponderações iniciais registradas sobre o tema em Television: Technology and Cultural Form, observou:

Tem havido uma mudança significativa do conceito de sequência de programação para o conceito de sequência como fluxo . No entanto, isto é difícil de ver porque o conceito antigo de programação – a sequência temporal dentro da qual operavam a mistura, a proporção e o equilíbrio – ainda está ativo e, em certa medida, real. (WILLIAMS, 1975, p. 89)111

Williams questionou as interrupções dos programas e suas relações com a temporalidade, isto é, a forma como eram transmitidos, sem a unidade de tempo correspondente, e sim de forma sequencial. Ao analisar a fragmentação de filmes exibidos na TV, por exemplo, ponderou que estes produtos não eram feitos para serem divididos em partes, o que gerava um ―irresponsável fluxo de imagens e sentimentos‖ (1974, p. 92)112. Outros programas, porém, já eram planejados desde o início contando com estas interrupções, isto é, ―não um programa de unidades discretas com inserções em particular, e sim um fluxo planejado‖ (WILLIAMS, 1975, p. 91)113. As sequências dos programas, portanto, formariam o fluxo real, ―o real broadcasting‖.

110Do original: ―Rather than watching through a single internet-connected device, we consume media on a variety of devices

including iPhones, tablets, and laptops, as well as through DVD players and set-top boxes.‖ Tradução nossa.

111Do original: ―There has been a significant shift from the concept of sequence as programming to the concept of sequence as

flow. Yet this is difficult to see because the older concept of programming – the temporal sequence within which mix and proportion and balance operate – is still active and still to some extent real.‖ Tradução nossa.

112 Do original: ―irresponsible flow of images and feelings‖. Tradução nossa.

113Do original: ―What is being offered is not, in older terms, a programme of discrete units with particular insertions, but a

planned flow, in which the true series is not the published sequence of programme items but this sequence transformed by the inclusion of another kind of sequence, so that these sequences together compose the real flow, the real ‗broadcasting‖. Tradução nossa.

O autor considerou ainda que o broadcasting era um fenômeno tanto de tecnologia quanto de cultura (justificando o título do livro). Para Williams, um dos pontos de discussão sobre o fluxo televisivo é que ―ficamos tão acostumados a isso de maneira que não percebemos‖ (1975, p. 87)114. Quando se lê um livro ou se assiste a uma peça de teatro, utiliza-se o conhecimento e a experiência prévia de ter lido a outros livros ou assistido a outras peças, exemplifica. Com o fluxo de TV e seus programas fragmentados, ocorreria a mesma situação, contextualiza o autor, referindo-se a ―condicionamentos internos e respostas‖. ―Nossos modos gerais de compreensão e julgamento estão intimamente ligados a estes tipos de formas de atenção temporárias e isoladas‖ (WILLIAMS, 1975, p. 87)115.

Cannito (2009) analisa o conceito de fluxo sob outra ótica: a TV, em seu surgimento, desenvolveu um outro modelo de recepção, inspirado no rádio, em que a atenção do indivíduo passou a ser ―menos concentrada do que a do espectador cinematográfico‖, – com o decorrer dos anos, quando perde o tom solene de novidade. Os programas com intervalos e uma sequência de programação em fluxo guiam as rotinas dos espectadores, sem a necessidade da atenção dedicada:

(...) além de presente na sala de estar, a televisão faz companhia (...). Há espectadores que assistem à televisão ao mesmo tempo que cozinham ou fazem outras atividades caseiras. (...) Todos fazem uso descompromissado e despretensioso da televisão. Em vez de exigir compenetração, a televisão em casa começou a pautar o cotidiano doméstico, servindo de referência para os horários da família. (CANNITO, 2009, p. 42)

Também Machado (2009) aborda esta característica da TV como programação ininterrupta, mas intercalada, ao avaliar que o elemento ―surpresa‖ também é um dos fatores indissociáveis do fluxo, isto é, a transmissão de conteúdos em sequência em todos os canais durante todo o tempo:

(...) uma das grandes vantagens da televisão é justamente o fato de ela ser um fluxo. Nem sempre o espectador sabe ao que quer assistir. Em muitos casos, ele apenas liga a televisão para ver o que está passando, tal como quem sai à rua para ver como anda o

114Do original: ―We have become so used to this that in a way we do not see it.‖ Tradução nossa.

115Do original: ―Our most general modes of comprehension and judgement are then closely linked to these kinds of specific and

movimento no bar da esquina. Assistir à televisão tem um lado inusitado e de acaso. (MACHADO, 2009, p. 53)

No que se refere a produtos audiovisuais seriados, a noção de fluxo predominante desde sua origem na TV consistia em uma transmissão semanal de horário pré-determinado e com seu conteúdo igualmente intercalado por comerciais. As possibilidades de recepção sob demanda de tais conteúdos (fora da grade de programação e sem interrupções) configuram um deslocamento do fluxo tradicional como o conhecemos. Na interpretação de Pescatore e Innocenti (2015), esta mudança representa uma reestruturação no ritual de consumo de narrativas seriadas:

Um único episódio (de um seriado) nada mais é do que um ponto de partida para o engajamento do usuário. (...) O ritual que foi enraizado no consumo de TV através do palimpsesto, bem como a lógica do compromisso fixo que determinou a composição de um dia de televisão, no passado, tem sido prejudicado pelas novas tecnologias e pelos novos modos de relacionalidade criada entre o usuário e o meio. (PESCATORE; INNOCENTI, 2015)116.

Estas transformações no modo de consumo, ou seja, fora do fluxo, promovem alterações também de impacto mercadológico na distribuição como um todo:

Pense nas consequências de um programa de televisão transmitido sob a forma de dados e contendo uma descrição de si próprio que um computador possa ler. Você poderia gravar tais programas orientando-se por seu conteúdo, e não pela hora, dia ou canal em que eles passam. (NEGROPONTE, 1995, p. 23)

Este modelo é chamado narrowcasting (difusão restrita), expressão de Negroponte (1995) em oposição à radiodifusão (broadcasting). Jenkins, Ford e Green analisam o

broadcasting como um ―modelo de compromisso‖, predominante antes da internet, que tem suas origens no modelo comercial de inserção de anúncios que dão suporte financeiro aos canais:

Sob o modelo de compromisso, os espectadores comprometidos organizam suas vidas para estar em casa em determinado horário a fim de assistir aos seus programas favoritos. O conteúdo é criado e distribuído essencialmente para atrair essa atenção em certo horário, uma audiência que pode ser prevista e, posteriormente, mensurada e vendida para os anunciantes com fins lucrativos. (JENKINS, FORD, GREEN, 2014, p. 152)

116Do original: ―(...) The single episode is now little more than a departure point for the engagement of the user (…).

The ritual that was ingrained in TV consumption via the palimpsest as well as the logic of the fixed appointment that determined the composition of a day of television in the past have been undermined by new technology and by the new modes of relationality created between user and medium.‖ Tradução nossa.

No entanto, como reflete Negroponte (1995), boa parte dos programas de TV que não requerem uma visualização imediata (as exceções seriam eventos esportivos ou resultados de uma eleição, por exemplo) e que, portanto, não precisariam necessariamente serem consumidos em tempo real. Quando o consumidor assiste a um conteúdo por streaming, baixado da internet ou gravado da TV a cabo, ele não está mais nas estatísticas de audiência e não está sendo exposto aos patrocinadores de tais conteúdos, isto é, não estão consumindo TV. Na avaliação do autor, este comportamento (que embora seja crucial para a TV digital) é ―amplamente ignorado‖:

Isso significa que ver TV é, em grande parte, como baixar um arquivo para um computador. Os bits são transferidos a uma velocidade que nada tem a ver com aquela em que serão vistos. E, mais importante, uma vez no computador, não há necessidade de vê-los na ordem em que foram enviados. (NEGROPONTE, 1995, p. 49)

Chegamos, assim, às possibilidades de consumo de conteúdos sob demanda: nas colocações de Dominique Wolton em Internet, E Depois? (2003), a TV representaria ― o consumo individual de uma atividade coletiva‖, o que seria a ―razão do seu sucesso‖ (WOLTON, 2003, p. 72). Para o autor, que analisa a questão sob o ponto de vista da teoria sociológica, há um risco‖ ao se ―romper esta dimensão contraditória‖, isto é, as novas tecnologias estariam causando ―uma degradação dos canais generalistas em proveito de uma legião de canais temáticos com o argumento da ‗escolha‘ e da ‗liberdade individual‖ (WOLTON, 2003, p. 72).

O pesquisador argumenta que a profusão de ofertas de conteúdos (na internet ou na TV por assinatura) é justamente o que reforçaria a necessidade e a importância de uma grade de programação na televisão generalista:

Quanto mais existem imagens, mais se coloca o problema de sua organização, então aquele da existência de uma programação. A abundância de imagens não supre a necessidade de uma programação, ela a reforça. O que obscurece o argumento um pouco demagógico segundo o qual ―o telespectador escolhe o que ele quer‖. Sim, o telespectador escolhe, mas a partir de uma oferta organizada. O espectador não é o programador. (WOLTON, 2003, p. 73)

Ao defender que o espectador não é o programador, o autor reafirma seu ponto de vista sobre o papel da televisão não segmentada, isto é, “(serve) para unir indivíduos e públicos que de

um outro ponto de vista tudo separa e lhes oferecer a possibilidade de participar de uma atividade coletiva‖ (WOLTON, 2003, p. 70). Esta noção de coletividade será abordada no Capítulo 2.4.1,

bem como as colocações de Wolton a respeito da TV como vínculo social, um dos pontos-chave de impacto no comportamento de binge-watching ao se considerar que cada espectador faz, sim, sua própria programação independentemente do fluxo televisivo. São modos distintos de consumo de conteúdos, e é por isso que este trabalho parte agora para a separação das figuras de telespectador e de consumidor.

O primeiro se encontra na posição de assistir aos seriados da maneira como eles são transmitidos no fluxo sequencial televisivo, sem o controle da sua programação. Já o consumidor é aquele que busca os conteúdos que deseja assistir, formando uma distinção própria do modelo sob demanda do qual estamos tratando.