Os congressistas que estiveram presentes no Primeiro Congresso de Instrucção Primaria (bem como os ausentes, mas que foram convidados a participar), eram pessoas ligadas a diversos setores da educação escolar do Estado de Minas Gerais (apesar de nem todos eles
100 To especify the meaning of repertoire, it helps to ask this question: to what degree does the group prefer the
means it has used before over those which are theoretically available for the same purpose? (TILLY, 1978, p.
terem sido chamados). A aparência de homogeneidade dos participantes se desfaz, quando nos deparamos com os agrupamentos nos quais foram classificados. Foi possível identificar diversos grupos, e ainda, a “movimentação” dos congressistas dentro de diferentes grupos, no momento em que os debates aconteciam.101 Estabelecer as relações entre esses grupos (e entre os educadores no interior desses grupos), identificar e compreender as tensões produzidas nessas relações constituíram um dos objetivos da minha pesquisa: a noção de campo tal como proposta por Pierre Bourdieu, mostrou-se muito adequada e essas análises.102
Uma das primeiras lições que Bourdieu “oferece” a seus alunos num curso de 1987, diz respeito à centralidade da noção de campo nas pesquisas que realiza e orienta. Ele disse:
A noção de campo é, em certo sentido, uma estenografia conceptual de um modo de construção do objecto que vai comandar – ou orientar – todas as opções práticas da pesquisa. Ela funciona como um sinal que lembra o que há que fazer, a saber, verificar que o objecto em questão não está isolado de um conjunto de relações de que retira o essencial das suas propriedades. Por meio dela, torna-se presente o primeiro preceito do método, que impõe que se lute por todos os meios contra a inclinação primária para pensar o mundo social de maneira realista ou [...] substancialista: é preciso pensar relacionalmente.103
Para ele, a noção de campo possibilita a produção de análises que “rompam” com as pré-
noções contidas nos “dados”. A permanência dessas pré-noções leva o pesquisador a circunscrever seu trabalho no âmbito das descrições ou então, das interpretações pura e simplesmente. Essa perspectiva subtrai à pesquisa o seu “papel” na produção do conhecimento que se pretende seja científico. Ao identificar a estrutura das posições nas quais estão contidos os sujeitos e as instituições, a partir delas, será possível estabelecer as relações entre tais posições (e entre os sujeitos e instituições) e, assim, superar a perspectiva de naturalização que a permanência das pré-noções implica. Além disso, ao situarmos a compreensão de um problema de pesquisa num campo, rompemos também com a perspectiva de análise que toma como referências certas construções genéricas – tais como Estado, Igreja,
101 Alguns desses agrupamentos: professores e diretores de grupos escolares, de escolas isoladas e de escolas infantis – escolas essas situadas no interior do Estado e na capital –, inspetores e conselheiros e outros mais. 102 O volume 40 da revista Paedagogica Historica (n. 5 e 6, outubro de 2004) é dedicado a comunicações de estudos relativos à emergência do campo das ciências educacionais na Europa, nos anos iniciais do século vinte, a partir da análise de congressos e institutos. No artigo que faz a apresentação de tais estudos, Hofstetter e Schneuwly (2004) afirmam que os congressos se constituíram um importante espaço de circulação, divulgação e internacionalização dos resultados das pesquisas sobre educação, realizadas por diferentes especialistas tais como sociólogos, antropólogos, pedagogos, psicólogos, demonstrando assim que a emergência do novo campo disciplinar [o da educação] se dava na confluência de outros campos disciplinares e profissionais [a new disciplinary field at the confluence of other professional and disciplinary fields (p. 573)]. Quase todos os congressos citados foram realizados antes do Congresso de Instrucção Primaria.
Família – que dificultam a articulação entre a teoria e a prática da investigação. Assim, um
campo remete sempre à existência concreta de sujeitos e instituições concretos, possibilitando que o conhecimento produzido leve a uma compreensão mais crítica da vida social. Mas, o que vem a ser um campo?
Em termos analíticos, um campo pode ser definido como uma rede, ou uma configuração de relações objetivas entre posições. Estas posições são definidas objetivamente em sua existência e nas determinações que elas impõem a seus ocupantes, agentes ou instituições, por sua situação (situs) atual e potencial na estrutura da distribuição das diferentes espécies de poder (ou de capital) cuja posse comanda o acesso aos benefícios específicos que estão em jogo no campo, e, ao mesmo tempo, por suas relações objetivas às outras posições (dominação, subordinação, homologia, etc).104
Portanto, um campo está sempre relacionado a um poder (ou poderes) que o caracterize/defina (ou que os caracterizem/definam) e sua dinâmica se concentra, basicamente, na disputa pela posse de objetos (simbólicos ou não) ou pela imposição de uma determinada visão/posição de um/uns sobre os demais. No caso da minha pesquisa, nos debates realizados em torno das propostas/conclusões de cada congressista para fazer valer a sua posição frente às teses apresentadas, as adesões, as oposições, as abstenções foram analisadas como as manifestações de um jogo que, naquele momento, pôs em destaque de modo contundente, no interior da sociedade mineira, o campo educacional.105
Não pretendi, neste trabalho, fazer um mapeamento do campo educacional mineiro nos primórdios da República. Apoiei-me em algumas orientações a que tive acesso em dois seminários sobre Pierre Bourdieu.106 No primeiro deles, dentre um conjunto denso de informações/reflexões, a professora Maria Alice Nogueira referiu-se aos elementos “básicos” que constituem as propriedades invariantes de um campo. Assim, todos os campos se constituiriam espaços estruturados de posições objetivas, ou seja, que não dependem da
104 BOURDIEU, 1992, p. 72-73 (destaque do autor). En termes analytiques, un champ peut être défini comme un réseau, ou une configuration de relations objectives entre des positions. Ces positions sont définies objectivement dans leur existence et dans les déterminations qu’elles imposent à leurs occupants, agents ou institutions, par leur situation (situs) actuelle et potentielle dans la structure de la distribution des différentes espèces de pouvoir (ou de capital) dont la possession commande l’accès aux profits spécifiques qui sont en jeu dans le champ, et, du même coup, par leurs relations objectives aux autres positions (domination, subordination, homologie, etc).
105 Para Bourdieu, vários campos podem ser identificados, numa sociedade, num dado momento. Alguns campos trazem consigo um poder maior, inclusive de influir em outro campo, ou seja, são portadores de maior autonomia. É o caso do campo político ao qual, vários outros sub-campos estão relacionados. No caso desta pesquisa, é possível identificar as explícitas relações entre esse e o campo da educação. Procurei compreender como se dava essa relação, ali, naquele momento, partindo das posições objetivas às quais os congressistas estavam vinculados.
vontade dos sujeitos, e nas quais tais sujeitos se apresentam de um modo hierarquizado. Além disso, todos os campos possuem uma forma de capital, cuja posse mobiliza as ações dos sujeitos. Mais ainda, todo campo é um campo de forças e um campo de lutas para conservar
ou transformar esse campo de forças107 o que o faz se assemelhar a um espaço de jogo, com suas regras próprias. Por fim, todo campo tem suas instâncias próprias de consagração. A compreensão dessas invariantes foi fundamental em minhas análises, tanto para orientar minhas indagações quanto para operar as análises dos textos.108
No segundo seminário, a professora Denice Bárbara Catani afirmou que o estudo do campo permite historicizar, considerando que uma análise genética dos campos é fundamental para explicar a sua constituição. Além disso, as análises/reflexões de Bourdieu sobre a relação entre ciência e reflexividade, nos provocam a aumentar o rigor das nossas próprias análises, e questionar nossas operações historiográficas. Assim, Denice Catani destaca a aproximação entre as noções de campo, reflexividade e história.109 No estudo histórico de um campo, a reflexividade constituir-se-ia uma exigência a partir da qual fosse possível expurgar, de nossas análises, por exemplo, a perspectiva que considera o agente como um indivíduo racional, incondicionado. As lições, nesse sentido, ampliadas pela leitura de um dos textos recomendados,110 estimularam-me a, ao pensar o meu trabalho no conjunto das pesquisas em HE, permanecer atenta às regras desse campo (à sua constituição, às condições objetivas que as possibilitaram, ou seja, à sua história), tanto no que elas me oferecem de possibilidades quanto de constrangimentos; estimularam-me a questionar minhas próprias escolhas/adesões (e os meus “estranhamentos”), a explicitar para os meus pares as minhas operações de leitura e a organização das informações contidas nos documentos que reuni, ou seja, convenceram- me a empenhar numa escrita que fosse a mais clara/objetiva possível.111
107 BOURDIEU, 2004, p. 22-23.
108 Além disso, devo acrescentar que a leitura da crítica feita por Lahire (2001), à noção de campo de Bourdieu, ajudou-me a redimensionar minha escolha.
109 Sobre as relações entre a sociologia e a história, Denice Catani afirma a posição de Bourdieu: – a história seria uma sociologia histórica do passado e a sociologia uma história social do presente.
110 BOURDIEU, 2002.
111 Em meu trabalho, procurei “ouvir” as recomendações sugeridas nos dois seminários, não como um “guia para a aluna”, mas naquilo que elas têm de expressão de um “guia das mestras”, construído a partir de experiências longa e magistralmente acumuladas na pesquisa.