Vidal (2002) destaca alguns requisitos importantes para o sucesso de um programa de ergonomia:
a) Timing: um programa de ergonomia deve ser estruturado em perfeita consonância com os tempos da organização e as oportunidades que nele se apresentam;
b) Progressividade: o programa deve ser pensado nos termos da melhoria contínua comprovada, sendo a avaliação da melhoria e a formação de indicadores gerenciais uma constante ao longo do programa.
c) Engajamento: apresentar clareza dos envolvimentos, de forma a que as ações tenham sustentação na empresa e alcancem os níveis de repercussão pretendidos;
d) Empowerment: o programa deve orientar-se à apropriação local de estratégias globais, no sentido de que se constitua numa aquisição de tecnologia, instrumental metodológico e capacidade localizada de agir para resolver problemas;
e) Sustentação: o programa deve resolver em si mesmo o problema de continuidade e permanência.
Hendrick (2001) também destaca a importância da participação quando coloca que programas de maior sucesso empregaram o conhecimento e a perícia dos operadores num processo participativo, onde o papel do ergonomista é o de facilitador e o de provedor de conhecimentos específicos. A ergonomia tem maiores oportunidades de sucesso quando é efetivada como uma parte integrante de processos de melhoria contínua e aponta três outros fatores determinantes:
a) Abordagem macroergonômica: os programas devem estar fundamentados numa análise do sistema de produção como um todo, especialmente sua estrutura e seus processos-chave a fim de possibilitar grandes mudanças em termos de saúde, segurança e produtividade.; b) Enfoque prático: os estudos de posto de trabalho freqüentemente identificam problemas posturais, manipulação de cargas excessiva e torções corporais que, geralmente, podem ser resolvidos com soluções simples e econômicas;
c) Desenvolver projetos centrados no usuário e não na tecnologia: é consideravelmente mais simples redesenhar a tecnologia, na maior parte dos casos.
A reunião destes conjuntos de requisitos representa, em muitos casos, uma mudança de paradigma que nem sempre é imediata, daí a importância de uma atitude negocial e incremental ao longo de todo o processo.
Destaca-se na tabela abaixo, a partir da revisão teórica, aspectos a serem considerados na implantação e manutenção de um programa de ergonomia:
ASPECTOS DESCRIÇÃO Soluções Adaptáveis Apesar da fragmentação da situação para fins de análise, a solução
deve integrar o sistema de produção como um todo.
Participação dos Usuários A participação, com caráter de co-projetação, é fundamental em todas as etapas: análise e descrição das atividades, definição e implantação da solução.
Apoio São necessários apoio financeiro e comprometimento dos tomadores de decisão para modificar as situações de trabalho de maneira integrada às políticas e estratégias da empresa.
Progressividade Deve haver um processo continuado de melhoria do trabalho e a formação de indicadores para o acompanhamento do programa. Sustentação Refere-se à garantia da perenidade do programa mesmo quando da
saída dos consultores ou da mudança do setor-foco das intervenções.
Representação dos Atores Refere-se à participação dos diversos atores sociais, em especial no nível de desenvolvimento de projetos.
De acordo com Dejours (2004), a ergonomia é sustentada por duas intenções fundamentais: de uma parte, produzir conhecimentos sobre o trabalho, sobre as condições e sobre a relação do homem com o trabalho; de outra, forjar conhecimentos, instrumentos e princípios suscetíveis de orientar racionalmente a ação de transformação das condições de trabalho, tendo em vista melhorar a relação homem-trabalho. Produção de conhecimento e racionalidade da ação são, então, a essência da pesquisa ergonômica.
Essa dupla construção, técnica e social, da intervenção, é a condição necessária para que os resultados da análise do trabalho conduzam os atores da empresa a transformar suas representações do trabalho, requisito para a transformação dos seus determinantes.
Dias (2000) relata que, embora algumas medidas como formação de profissionais em ergonomia ou constituição de comitês sejam tomadas por empresas, os Programas têm sido, de modo geral, insuficientes para a introdução de fato da ergonomia que se preocupa com a compreensão do trabalho real.
Para Hägg (2002), a implementação de programas corporativos de ergonomia varia substancialmente de acordo com o tipo de empresa em que são implementados, suas organização e política internas. O autor discute a necessidade de se integrar os programas de ergonomia com as políticas e estratégias da empresas a fim de superar intervenções pontuais, bem como aponta as dificuldades dessa integração, dentre elas a fraca documentação das intervenções que deixa de lado questões essenciais como o envolvimento da empresa com os programas e o impacto que as intervenções têm nas organizações em longo prazo.
Menegon (2006) acredita que as dificuldades de implementação também derivam do fato que a integração entre questões de saúde e segurança de um lado e, qualidade e produtividade de outro, não se equacionam dentro do paradigma da continuidade, uma vez que constituem lógicas contraditórias, pressupondo, assim, um processo continuado de confrontação, escolhas e deliberação. A integração entre a ergonomia e as políticas gerais das companhias só é possível se a descontinuidade entre o trabalho projetado e o trabalho realizado for objeto de análise continuada, incorporando
novos achados e reconhecendo a impossibilidade de antecipação dos efeitos projetados sobre a saúde, a segurança, a produtividade e a qualidade.
A ação ergonômica requer um engajamento por parte da organização que não se limita ao investimento financeiro, mas também no que se refere ao entusiasmo compartilhado pelo grupo de ação especificado pela organização, pelo investimento em tempo de pessoas importantes, caracterizado pela participação imprescindível de pessoas- chave com poder de decisão (VIDAL, 2002).
A avaliação e validação das soluções implementadas, além de constituir uma etapa da AET, permitem a avaliação das ações desenvolvidas pelos programas e levam a uma reflexão de todo o processo de AET, visto que a solução caracteriza a materialização desse processo.
É a partir da superação de intervenções pontuais, da validade das soluções propostas e de um efetivo envolvimento dos diversos atores que serão garantidas as condições de sucesso do Programa.