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A primeira condição para o estabelecimento de um relacionamento duplo-vincular é que as pessoas envolvidas tenham uma relação intensa (Costa, 2003). Segundo Watzlawick (1995[1967]) “As situações em que existem, tipicamente, tais relações intensas abrangem mas não se limitam à vida familiar (especialmente a relação mãe-filho); enfermidade; dependência material; cativeiro; amizade; amor; fidelidade a um credo, causa ou ideologia; contextos influenciados por normas ou tradições sociais; e a situação psicoterapêutica”(p. 191). A afetividade será aqui entendida como uma forma de qualificar essa intensidade do relacionamento não se remetendo, necessariamente, a uma qualidade prazerosa do relacionamento. Todos os temas relativos estão expostos na tabela seguinte:

Pessoa de alto valor afetivo

Dilma Maria Sheila Gisele

Início do relacionamento Início do relacionamento Gostar Começou rápido Foi avassalador Gostava e cuidava dele

Ele era muito bom Engravidou rápido Ele gosta de mim Ele respeita as filhas dela Dois anos de

namoro Morar junto Idolatria Separação Filhos Ele gostava

de mim Vontade de

casar

Ameaça de suicídio

Pai para criar os filhos

Afeto por João Cuidar dele Apego à família O grande amor

Afeto de João com os filhos Decepção com o grande amor Em casa sem trabalhar

Nas quatro entrevistas analisadas, o relacionamento amoroso se desenvolveu rapidamente, sendo percebido como romântico nos primeiros meses e mesmo nos primeiros anos, uma característica constatada nos estudos de Walker (1979 e 2000). A formalização do relacionamento ocorre de maneira apressada na perspectiva de três entre as quatro participantes. Sheila é a única que mantém um relacionamento de namoro por dois anos sem intercurso sexual e parece imprimir o seu ritmo de maneira mais confortável para o relacionamento, receosa de agir de modo precipitado com base em experiências de relacionamentos anteriores.

Os relatos são indubitáveis quanto a presença de afeto entre os parceiros. Todas as mulheres afirmaram que os seus parceiros gostavam delas, ao menos no início do relacionamento.. A demarcação da presença do afeto é importante para as vítimas, pois justifica o investimento emocional (Coelho, 2006; McGoldrick, 1994). Por outro lado, essa vivência do afeto romântico permite que o ciclo de violência se sustente. Na fase de arrependimento e amorosidade ambos os parceiros já têm uma experiência comum de afeto a qual se reportarem.

Maria, Sheila e Gisele afirmam que elas não tinham um interesse especial por seus parceiros no início do relacionamento. Ao longo dos primeiros meses, elas foram desenvolvendo um carinho especial por eles, o que pode ser sugestivo de um padrão relacional complementar, no qual está presente a disposição das mulheres em atenderem às expectativas dos homens. Concepções estereotipadas de gênero tornam as mulheres mais vulneráveis para aceitarem e permanecerem nesse tipo de relação complementar.

Walker (2000) constata que as chances de se desenvolver em um padrão relacional violento aumentam muito a partir do início do intercurso sexual. Outros pesquisadores apresentam dados nos quais o fato de as mulheres terem filhos em comum com os agressores aumenta as chances de manutenção do relacionamento violento (Ospina et al., 2006; Liang et al., 2005; Waldrop & Resick, 2004). As três participantes - Maria, Sheila e Gisele- que tiveram filhos e/ou já tinham filhos anteriores ao início do relacionamento relataram que a presença de respeito, afetividade e carinho entre os parceiros agressores e seus filhos era um dos motivos pelos quais a relação se mantinha. Em dois relatos -Sheila e Gisele - afirmam a necessidade de manter o pai dentro de casa com o objetivo de oferecer uma melhor educação para os filhos. Elas buscaram preservar o vínculo afetivo entre pais e filhos mesmo que esse vínculo não sendo afetuoso nos últimos anos. O estereótipo de que as mulheres são responsáveis por zelar pela unidade familiar é frequentemente associado à manutenção do

padrão relacional violento e aparece nesse estudo como algo introjetado por elas (McGoldrick & Hardy, 2008; Diniz & Pondaag, 2004 e 2006; Liang et al., 2005; Waldrop & Resick, 2004; Diniz, 1999; Pondaag, 2003; Greenspun, 2002; Goldner, 1999; Ravazzola, 1998; McGoldrick, 1994).

Nas situações em que existe uma ameaça contra os familiares, o desejo de preservá- los gera uma afetividade triangulada. A intensidade do afeto das mulheres por seus parentes as leva a investir na manutenção do relacionamento com o agressor como forma de proteger esses familiares.. O caso de Maria é emblemático dessa situação. Uma vez que ela sente um grande afeto por sua família originária, ela se dispõe a manter o relacionamento a fim de evitar que Márcio cumpra as ameaças de morte contra eles. Perder seus irmãos ou sua mãe seria um golpe mais duro que sua própria morte – “eu ficava tentando defender a minha família, entendeu? Eu tanto fazia se eu morresse ou não morresse”.

A proteção com o agressor, seja para impedir o seu suicídio, para cuidar dele como se fosse um filho ou para assumir o cuidado reconhecendo uma incapacidade circunstancial (refletida através de comentários como “ele deve ter um problema”, “ele não sabe o que quer”, “eu fico aguardanto ele decidir”) é um forte indício do valor do vínculo afetivo entre agressores e vítimas. Todas as participantes afirmam, em algum momento da entrevista, suas disposições para cuidarem e empatizarem com as dificuldades dos parceiros agressores. O discurso do cuidado é bastante perigoso por viabilizar uma situação contraditória na qual as mulheres buscam controlar seus parceiros numa situação de flagrante descontrole do relacionamento (Goldner, 1997).

Em síntese, a afetividade nos relacionamentos violentos remete a um histórico de envolvimento romântico rápido entre os parceiros. Esse vínculo estabelece uma condição para a fase de “arrependimento e amorosidade” do ciclo de violência (Goodman & Epstein, 2008; Walker, 1979 e 2000; Ravazzola, 1997). Outra marca importante da afetividade nos relacionamentos conjugais violentos é que ela ocorre em meio a triangulações afetivas com outros membros da família nuclear, originária e extensa.