1. Introduction
1.1 Radiometric calibration of optical instruments
1.1.3. Laboratory and vicarious calibration of aeronomic optical instruments 4
O relato das agressões é uma dimensão essencial da consciência da violência. Retomando os princípios da fenomenologia, é nesse momento do relato que as mulheres
tomam como objeto intencional a experiência de agressão que tiveram. Nesse momento do processo de consciência, podemos falar de uma consciência irrefletida, uma vez que elas se percebem como objeto da ação de violência e não, necessariamente, refletem sobre como elas mesmas concebem o que seja a violência – com base em seus valores e preconceitos a respeito de si mesmas e dos outros.
Essa primeira constatação é muito importante para valorizarmos o relato das agressões, humilhações, ameaças e outras formas de violência vivenciadas, pois são parte de um processo reflexivo que deve começar na própria experiência imediata dessas mulheres. Na medida em que se favorece que as mulheres vítimas possam relatar o contexto, as repetições, a gravidade e a participação de outras pessoas durante os episódios de agressões, abre-se caminho para um segundo momento do processo de consciência, que é a reflexão sobre como elas vivenciam e interpretam esses episódios de violência.
A nuance, extremamente significativa, presente no segundo momento, e que gera possibilidade de transformação da consciência irrefletida em consciência de si é que não se trata de falar a respeito do episódio de agressão, mas sim de como este foi vivenciado. Busca- se nesse momento ouvir e entender como a mulher se propõe a permanecer no relacionamento apesar das reincidências das agressões; como ela se relaciona com outras pessoas ao longo dos ciclos de agressões; como ela entende essa ação por parte de seu parceiro; e sua participação no relacionamento. Nesse contexto é que a redução fenomenológica tem lugar - quando a pessoa consegue refletir sobre si atuando e não sobre os fatos em si. A consciência, nessa perspectiva, se desdobra em torno da experiência da agressão, da percepção de si durante a agressão e realiza tantas outras voltas sobre a vivência da agressão quanto forem possíveis ou intencionadas.
Durante as entrevistas, foi possível percorrer parte da experiência de violência das participantes. A categoria “Agressões” é reveladora desse momento de experiência como consciência irrefletida e está apresentada a seguir numa tabela resumida de todos os temas das quatro entrevistas. Nossa reflexão a respeito dos temas permitirá um esclarecimento a respeito da percepção das agressões efetivadas por essas mulheres como consciência irrefletida, como acesso à experiência imediata de agressão.
Agressões
Dilma Maria Sheila Gisele
Os pescoções Ameaças verbais Agressão contra o filho Histórico de violência Outras agressões Ações ameaçadoras Violência verbal Sempre houve agressão Intimidação Fuga 1ª Denúncia agressão no filho Agressões pioraram
Humilhações Por mim mesma eu, não iria.
Não foi violência o tapa
no telefone
Esperando o hematoma As outras Apoio social
para queixa Chute no estômago Agressão da queixa Queixa para proteger os outros 2ª Denúncia tentativa de homicídio Agressão verbal e sexual atual Registro da queixa Medo da morte
Se, junto com a tabela, verificarmos os quadros síntese, as linhas cronológicas dos relacionamentos de cada uma das mulheres entrevistadas, é fácil constatarmos que as agressões foram recorrentes ao longo do relacionamento e aumentaram em frequência e intensidade. Outros estudos mostraram resultados semelhantes ao longo do relacionamento violento (Capaldi, Shortt, & Crosby, 2003; Walker, 2000 e 1979; Tjaden & Thoennes, 2000; Goldner, 1998). A teoria dos ciclos de violência de Walker (2000; 1979) nos permite inferir que as quatro mulheres passaram por mais de três ciclos de violência, ao menos.
É importante percebermos, com base na tabela de temas da categoria de “Agressão”, a multiplicidade de sentidos para agressão. Cada mulher interpreta como violenta uma dimensão específica das vivências de agressão. Dilma se sente mais agredida pelas humilhações e traições do que pelas graves agressões físicas que sofre. Maria afirma todo o tempo que não foi vítima de violência física e nega, também, a violência psicológica. Sheila percebe claramente a violência contra seus filhos, mas não percebe com a mesma prontidão a violência contra ela. Gisele aguarda, ao longo do relacionamento, a agressão mais intensa que possa caracterizar uma violência indubitável para si e para os outros.
A intensidade da agressão em si não revela o impacto que o relacionamento violento tem para cada uma das mulheres, embora seja uma variável importante para realizar uma avaliação de risco. Além da agressão em si, a maneira como cada uma reflete sobre os
episódios agressivos é que permite uma redefinição do que sejam os limites de violência toleráveis para cada uma delas. A distinção entre agressões e violência nesse momento de nossa reflexão ocorre quando as mulheres reconhecem em uma dada agressão, física ou moral, uma intensidade que ultrapassa algum limite de uso da força no relacionamento com o agressor e buscam ajuda.
O escalonamento das agressões físicas pode ser observado ao longo dos relatos, um padrão recorrente nos casos de violência contra mulheres (Ospina et al., 2006; Waldrop & Resick, 2004; Walker, 1979 e 2000; Ravazzola, 1997). A percepção de que um limite de agressividade no relacionamento foi ultrapassado cria um estranhamento a partir do qual a vítima e o agressor podem nomeá-lo como violência. Contudo, na medida em que o ciclo de violência se perpetua, fica cada vez mais difícil perceber um episódio de agressão que ultrapasse algum limite e a mulher não tem condições de perceber a rotina de violências que sofre. Nos momentos em que as agressões superam os limites de violência aceitáveis para cada uma, é que as mulheres voltam-se para a sua rede social e/ou para o aparelho de Justiça para buscarem algum tipo de ajuda (Liang et al., 2005; Walker, 2000 e Ravazzola, 1997).
Ao longo do ciclo de violência, existem momentos de violência recíproca narrados pelas mulheres. Dilma e Sheila relatam situações nas quais elas foram fisicamente e verbalmente agressivas. Já Maria e Gisele, ao contrário, se mantiveram passivas diante das agressões sofridas. As agressões, por parte daquelas mulheres, constituiram momentos em que elas se protegeram ou mesmo iniciaram um episódio de agressão física, contudo, em todos esses episódios, o desfecho é de uma agressão mais intensa dos parceiros contra elas. No caso de Dilma, ela sofre um “pescoção” e uma tentativa de afogamento no vaso sanitário, enquanto Sheila briga violentamente com Sílvio e acaba vomitando após um chute no estômago. Nos dois casos relatados, as mulheres só agrediram os homens após a recorrência das agressões deles contra elas; uma situação perigosa para muitas mulheres, pois pode acarretar num desfecho ainda mais trágico em decorrência de um pico de agressividade de ambos os lados (Johnson,2006a; Leone et al., 2007) .
O padrão relacional de subordinação aos interesses do agressor e de preservação da família é muito mais comum para as mulheres do que para os homens (Johnson, 2008). Nessa condição, as mulheres têm limitadas sua autonomia e até mesmo suas possibilidades de proteção diante do agressor por se identificarem com estereótipos tradicionais de gênero (Goodman & Epstein, 2008; Johnson, 2006; Ospina et al., 2006; Liang et al., 2005; Waldrop & Resick, 2004; Tjaden, 2004; Walker, 2000 e 1979; Ravazzola, 1997). Alguns autores confirmam que mesmo em situações nas quais as mulheres reajam violentamente ou iniciem
uma briga, o fato de terem vivenciado a recorrência de agressões contra elas caracterizaria um padrão relacional assimétrico, de “terrorismo íntimo”, ou, simplesmente, uma reação diante das agressões sofridas (Johnson, 2006; Johnson & Leone, 2005; Henning & Feder, 2004; Walker, 2000).
Walker (2000) apresenta dados que mostram que, após a diminuição das agressões físicas, por meio de intervenção externa ao casal, as agressões verbais se mantêm ou mesmo escalonam. Isso ocorre no caso de Gisele quando ela afirma que continua sendo xingada e humilhada por seu marido. Ocorre também no caso de Sheila - quando ela é esclarecida a respeito da medida protetiva, passa a utiliza-la como forma de refrear a agressividade do marido.
A despeito de as agressões verbais e as humilhações gerarem muito sofrimento e poderem configurar um padrão no qual se caracterize a violência psicológica, como previsto na Lei nº 11.340/2006, elas não são percebidas como violências. Mesmo Dilma, que refere como a maior violência as humilhações pelas quais passou ao longo do relacionamento, considerou as agressões físicas o fato que a fez apresentar queixa na delegacia.
O caso de Maria é importante para ilustrar a dificuldade de percepção da violência psicológica em um padrão de relacionamento violento no qual não ocorrem agressões físicas. Ao longo de toda a entrevista, Maria é repetitiva em afirmar que Márcio não a agrediu fisicamente. Mesmo após ele perfurar o colchão envolta de seu corpo nu ela é enfática: “mas, assim, ele não triscou nem um momento em mim”. A violência psicológica passa despercebida por exigir uma avaliação mais elaborada do padrão relacional que gera o sofrimento psíquico. Uma maior facilidade para objetivar os fatos e sinais corporais deixados pelas agressões físicas pode ser um dos motivos para essa seletividade na interpretação do que constitui violência.
A violência física pode ser intencionada em episódios específicos e muitas vezes isolados de seu contexto relacional. A violência psicológica se refere a padrões de relacionamento nos quais ocorre um sofrimento psicológico que pode se manifestar por meio de sintomas de ansiedade, angústia ou depressão (Goodman et al., 1993; Burstow, 2003). A violência psicológica não é apenas um subproduto do contexto relacional de violência física. O caso de Maria ilustra que a violência psicológica pode ocorrer isoladamente por meio de um padrão relacional disfuncional em si (Goodman & Epstein, 2008; Walker, 2000 e 1979).
As quatro mulheres relatam, em algum momento da entrevista, uma vivência da sexualidade de maneira conturbada com os agressores. Esse tipo de agressão é subnotificado e de difícil percepção devido à dificuldade que as mulheres têm de transcender o sentido de
obrigação de esposa de atender, mesmo desrespeitando a si mesmas, as necessidades sexuais dos esposos. Fica evidente o compromisso da mulher de servir e cuidar Essa postura reflete a força condicionante dos papéis e estereótipos de gênero nos contextos conjugais, em especial na conjugalidade violenta e merece ser problematizada. Muitas vezes as mulheres atendem aos caprichos sexuais dos homens em função das ameaças que recebem; outras vezes buscam “acalma-los” para proteger os filhos e/ou para evitar outras formas de violência. Existe ainda uma dimensão paradoxal – se ele procura, ele ainda deseja, o que pode ser equivalente a “ele sente algo por mim – gosta, ama” - constatação que pode ajudar a justificar a permanência na relação. Outra hipótese é que as mulheres encontram dificuldade em conversar sobre experiências que podem misturar emoções de medo, angústia, raiva e mesmo prazer (Liang et al., 2005; Pondaag, 2003; Walker, 1979 e 2000; Jacobson, 1994). O relato do ato sexual em si e o sentimento da mulher ao longo de seu intercurso dificilmente são objetos de reflexão para as mulheres. Uma vez que não seja intencionada como objeto para a consciência, a agressão sexual pode passar despercebida apesar do sofrimento que possa gerar para elas.
Dentre as quatro mulheres entrevistadas, a violência sexual só é referida por Gisele após uma pergunta direta: (Você acha que ele te forçar a fazer sexo é violência?) “É uai. Se eu não tô querendo, se o homem disse que eu não presto e tá do meu lado lá dizendo que eu tenho que servir ele. Eu acho que seja”. Mesmo relatando a prática sexual deles, Gisele não confere um sentido de violência a ela. Foi a pergunta do pesquisador que criou a oportunidade para ela refletir sobre a prática sexual sob esse prisma.
Ao optarmos por uma pergunta aberta “Como foi/é o seu relacionamento com (...) (nome do parceiro agressor)?” cremos que isso permitiu desdobramentos no relato das experiências de violências das mulheres e abriu espaço para a percepção de outros tipos de violência que não fossem apenas as físicas. Com base no relato das experiências das mulheres entrevistadas, podemos inferir que a definição de violência não está estabelecida no momento de apresentação da queixa. O que foi percebido como limite inaceitável da violência variou de acordo com a história pessoal, valores, o contexto da relação, e a participação da rede social.
Qualificar a intervenção em casos de violência contra mulheres passa por um momento no qual, ao invés de objetivar o episódio de violência, com base na descrição e contextualização do incidente, é possível refletir junto com a vítima sobre os parâmetros utilizados para qualificar a intensidade, frequência e o próprio sentido da violência para ela. A descrição dos fatos em si não viabiliza uma consciência reflexiva do processo de definição da violência. Produzir o relato é uma etapa importante para que a mulher se aproprie de sua
experiência. No encontro com seu/sua interlocutor(a) fica em aberto a necessidade de interpretação do relato. Nesse ponto, uma abordagem que valorize o processo de consciência em seus níveis irrefletido e reflexivo permite a valorização da interpretação das mulheres vítimas ao mesmo tempo que permite a elas perceberem os valores e crenças que contribuem para que elas identifiquem, ou não, a violência que sofrem.