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Part I - Introduction and summary

Chapter 1 - Introduction

1.1 Motivation and objectives of the study

Simultaneamente à constituição de um marco legal que reconhecesse os direitos das crianças e adolescentes, a transformação da sociedade brasileira em uma sociedade industrial influenciou de modo decisivo a condição da infância e da adolescência no país. Dentre estas, destaca-se a aceleração do movimento migratório em direção às cidades, entre 1930 e 1980. Durante este período, a população brasileira deixou de ser eminentemente rural para se tornar uma população estritamente urbana, concentrando-se de forma desordenada em poucas cidades6. Embora a migração tenha permitido que as famílias rurais desfrutassem de um maior acesso a serviços básicos que não estavam disponíveis em suas localidades de origem – e, no que tange o acesso à escola, muitas destas famílias puderam dar início a uma trajetória escolar impossível no campo -, os centros urbanos não ofereciam, a princípio, as melhores condições fitossanitárias7 para que estas famílias pudessem viver nas cidades. Além disso, não havia escolas e professores em número suficiente para atender a todas as crianças e adolescentes campesinos.

No meio rural, as poucas e distantes escolas materializavam a privação do acesso a escola. Devido a este fato, o trabalho sempre fora mais presente na trajetória destas famílias e, por isso, valorizado como instrumento transmissor de conhecimento e de valores morais. Este contexto, reproduzido ao longo de gerações, favoreceu a incorporação do trabalho ao capital cultural das famílias campesinas. Além disso, a importância do trabalho das crianças e adolescentes para a produção permitiu ao trabalho infanto-juvenil tornar-se um fator endêmico à cultura campestre, a influenciar inclusive o tamanho das famílias no campo. No

6 Após os anos 1980, a ocupação das cidades brasileiras ganhou um novo contorno, ganhando importância relativa as cidades de porte médio.

7 No princípio do século XX, as cidades já mostravam gargalos no que tange às condições fitossanitárias das moradias. No caso específico da cidade do Rio de Janeiro, as moradias dos mais pobres – os cortiços – foram responsabilizados pelos surtos epidêmicos que a população experimentava. A política agressiva, que gerou revolta da população mais pobre (principalmente a revolta da vacina, em 1904), acabou por expulsar a população mais pobre, desalojada muitas vezes à força, para as regiões periféricas da cidade e para as favelas (VALLADARES, 1991).

63 espaço urbano, as dificuldades iniciais relativas ao acesso à escola favoreceram que as famílias campesinas reproduzissem seu modo de vida no campo, principalmente o emprego do trabalho de seus filhos. Neste sentido, o processo de urbanização da população brasileira tornou o trabalho infanto-juvenil um problema manifesto nas cidades, onde a taxa de ocupação chegou a alcançar 18% do total das crianças e adolescentes entre 1974 e 1979 (PORTUGAL, 2007).

Nos anos que se seguiram ao cume do processo de urbanização da sociedade brasileira, a disponibilidade de vagas nas escolas se elevou, configurando-se em elemento importante para explicar a tendência de queda do trabalho infanto-juvenil. Vimos no capítulo anterior que o ciclo escolar determina a duração da infância e da adolescência porque os preserva do exercício do trabalho. Além disso, a permanência nas escolas é fator importante para que as crianças e adolescentes possam desenvolver suas capacidades psicossomáticas e de sociabilidade, importantes para que, em sua vida adulta, elas possam gozar de autonomia. Um entrave importante a se considerar para o desenvolvimento do sentimento de infância é a conscientização das famílias sobre a necessidade de garantir que seus filhos completem o ciclo escolar. Posto que a escola, apesar de sua importância, apenas continua a educação iniciada no seio familiar, torna-se necessário sensibilizar as famílias de sua importância. Neste sentido, para despertar nas famílias o sentimento de infância, se faz necessário que as escolas desenvolvam ações capazes de sensibilizar as famílias acerca da importância de que suas crianças e adolescentes permaneçam maior tempo na escola (GOMES, 1997).

Em decorrência do processo de urbanização, a despeito dos problemas iniciais, observa-se que as experiências com uma maior vivência escolar estão mais presentes na vida das famílias brasileiras. Em 1982, 49,5% dos filhos tinham escolaridade superior à de seus respectivos chefes de família, 31,6% a mesma e 18,9% tinham escolaridade inferior, ao passo que em 1996, os mesmos números eram, respectivamente, 57,2%, 24,2% e 18,6%. Contudo, esta maior vivência escolar é um processo ainda muito lento para se configurar em melhores condições para que as crianças e adolescentes possam completar seus respectivos ciclos escolares, pois muitas famílias defendem que seus filhos trabalhem como atividade complementar às escolas. Observa-se que, em 1982, 53% dos pais analfabetos transferiram esta condição a seus filhos, ao passo que em 1996 esta proporção era de 37% (CARDOSO, 2008). O fato de este processo ter por ponto de partida uma sociedade com níveis de escolaridade precários e o fato de ser mais difícil sensibilizar famílias com histórico de analfabetismo e de origem campesina sobre a importância da escola para a formação de seus

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filhos são elementos importantes para explicar as dificuldades de generalização dos ciclos escolares. Gomes (1997) aponta que é comum entre famílias com trajetórias associadas ao analfabetismo e a origem campesina o julgamento de que a educação escolar suficiente deve apenas se prestar ao ensino de conhecimentos aritméticos e lingüísticos básicos para que seus filhos possam desempenhar atividades de trabalho. Assim, tão logo eles adquiram estes conhecimentos, abandonam a escola para trabalhar.

Diante dos meandros que envolvem a questão da infância e da adolescência no Brasil, torna-se claro que o país ainda não dispõe de plenas condições para fomentar o desenvolvimento pleno de um sentimento de infância. No que diz respeito ao aspecto legal e às iniciativas de assistência aos menores, as diferentes normas e políticas tinham por leme a idéia de que o trabalho era preferível à delinqüência e ao abandono e, por isso, os diversos arcabouços legais normalmente regulamentavam, ao invés de combater, o trabalho das crianças e adolescentes visando garantir sua integridade física no ambiente de trabalho. A assistência, do mesmo modo, não tinha por objetivo garantir meios para a proteção da infância e da adolescência, mas sim facilitar o ingresso de crianças e adolescentes em atividades de trabalho8.

Por sua vez, as transformações estruturais por que passou o país, principalmente entre 1940 a 1980, permitiram a consolidação do trabalho como a única alternativa para as crianças e adolescentes. A urbanização desordenada expôs a incapacidade de as cidades oferecerem de modo suficiente os serviços básicos. No que diz respeito ao acesso à escola, no período citado não havia nem escolas e nem pessoal suficientemente capacitado para atender, a princípio, toda a população. Embora a presença das famílias campesinas nas cidades as permitisse gozar de uma trajetória escolar impensável no campo, o trabalho se fez valer como instrumento de transmissão de valores. A consolidação de uma cultura favorável ao trabalho motivou as famílias a empregarem a mão de obra de seus filhos na lida diária. Nas cidades, a dificuldade de acesso inicial às escolas e o fato de a escola ocupar apenas parcialmente o tempo disponível diário das crianças e adolescentes criou ambiente propício para que o trabalho infanto-juvenil, fração importante da cultura e da tradição do meio campestre, pudesse se consolidar como um problema urbano. Mesmo em tempo parcial e apesar das dificuldades para a difusão do sentimento de infância, a elevação do acesso às escolas, ainda mais presente nas cidades, favoreceu a incursão de uma experiência escolar nas trajetórias de vida das

8 O trabalho como alternativa à delinqüência servia apenas às crianças e adolescentes delinqüentes e aos abandonados. Aos nascidos em famílias-padrão, a garantia dos direitos civis estava preservada. Neste sentido, a legislação e a assistência às crianças e adolescentes estavam marcadas, desde o princípio, por esta dualidade.

65 famílias e auxiliou na elevação da escolaridade da população brasileira e na consolidação de uma tendência de diminuição do número de crianças e adolescentes trabalhadores nos anos que se seguiram.

O fim do período da ditadura militar, onde se enrijeceu a idéia de que o trabalho fosse uma alternativa à cultura das ruas, e a pressão de organizações internacionais em prol da erradicação do trabalho infanto-juvenil permitiu a gestação de um ambiente favorável para que ações e políticas públicas de combate ao trabalho e à exploração de crianças e adolescentes pudessem se estabelecer após a década de 1990. O fato de tal ambiente ainda ser historicamente recente ainda dificulta o desenvolvimento e a difusão de um sentimento de infância em patamar suficiente para erradicar o trabalho de crianças e, principalmente, adolescentes no Brasil. É neste sentido que se enquadram as ações articuladas focadas na atenção aos determinantes do trabalho infanto-juvenil (renda, recursos familiares, características da demanda etc.). No tópico seguinte, trataremos das experiências de políticas públicas internacionais pós-1990.

2.2 AS EXPERIÊNCIAS DE COMBATE AO TRABALHO INFANTO-JUVENIL