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1. INTRODUCTION

1.2. Motivation

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Essa seção visa apresentar uma nova metodologia empírica para o estudo de ilocuções. A nova proposta visa manter os expressivos méritos da metodologia LABLITA e superar o seu principal problema, a saber, o tratamento inadequado da categoria de atitude. Sinteticamente, a proposta consiste em: i. coletar ilocuções com a maior variação atitudinal possível, tanto em corpus, quanto em contextos fictícios registrados em vídeo; ii. identificar as propriedades que permanecem mais estáveis entre as realizações de uma ilocução com atitudes diferentes. Esse conjunto de propriedades estáveis será tomado como a forma prosódica da ilocução, enquanto as propriedades diferenciais serão vistas como atitudinais.

A primeira parte da nova metodologia consiste na identificação em corpus de enunciados que veiculem as ilocuções que serão estudadas. Todavia, diferentemente da proposta original, entendemos que o pesquisador deva coletar exemplos que expressem a maior variação atitudinal possível de uma ilocução. Durante essa tarefa, (a) deve-se considerar que tanto a forma prosódica ilocucionária quanto a atitude veiculada por um enunciado se manifestam por meio de propriedades prosódicas e (b) não se deve pensar que dois enunciados que possuem diferenças prosódicas evidentes necessariamente veiculam ilocuções diferentes. Assim como nem toda diferença funcional entre dois enunciados é facilmente percebida como sendo ilocucionária ou atitudinal, ganha importância a fase de descrição pragmático-cognitiva dos exemplos. É, em última análise, a descrição pragmático- cognitiva que permite definir se dois enunciados correspondem a ilocuções diferentes ou à mesma ilocução realizada com atitudes diferentes. Esse é um problema delicado e importante, que será melhor explorado no capítulo 7.

Da mesma forma que a versão original da metodologia, esse trabalho defende que os enunciados a serem submetidos à análise prosódica devam ser eliciados em contextos fictícios registrados em vídeo. Assim, para cada atitude da mesma ilocução, deve ser produzida uma cena de eliciação que espelhe todas as propriedades pragmático-cognitivas associadas a essa ilocução. Além disso, a cena deve conter elementos contextuais que ajudem a eliciar a atitude desejada. Por mais que a realização de uma ou outra atitude dependa mais de estados internos do falante do que de propriedades contextuais, os vídeos produzidos durante essa pesquisa mostram que é possível motivar uma atitude em particular manipulando alguns parâmetros pragmático-cognitivos (cf. 5.2.1). Para eliciar uma Ordem com atitude de Cortesia, por exemplo, pode ser produzida uma cena em que os falantes não se conhecem. Naturalmente, ao

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Essa seção, da mesma forma que a anterior, segue a linha argumentativa do artigo de Raso e Rocha (2015) realizado como preparação para essa tese.

125 tentar motivar uma atitude, deve-se estar atento para não alterar alguma propriedade que elicie outra ilocução que não a desejada.

A descrição prosódica das propriedades ilocucionárias deve entender a forma prosódica como uma entidade mais abstrata, associada não a valores fixos de alguns parâmetros prosódicos, mas sim a um espectro de variações possíveis que se dão em função das atitudes com as quais a ilocução é veiculada (e da intensidade com a qual as atitudes são veiculadas). É necessário considerar que a forma prosódica ilocucionária possa ser constituída por relações de proporção entre parâmetros, admitindo algumas variações dentro de um limite específico. Consequentemente, para se fazer uma melhor caracterização fonética dos parâmetros que não podem ser alterados sem que se tenha variação ilocucionária, é proveitoso estudar, em certa medida, as propriedades que caracterizam as atitudes com as quais essa ilocução pode ser veiculada.

É inegável que o processo de descrição das formas ilocucionárias proposto nessa versão da metodologia é mais complexo que aquele proposto pela versão original, o que leva a uma mudança de foco da metodologia: a versão original dá um peso grande à comparação entre formas prosódicas de ilocuções diferentes, para determinar se possuem ou não a mesma forma prosódica; na nossa proposta, o foco está na descrição da forma, mesmo sabendo que provavelmente não se chegará a uma descrição que compreenda toda a variabilidade atitudinal da ilocução. Nesse novo quadro, o meio previsto pela metodologia LABLITA para verificar se duas ilocuções possuem a mesma forma prosódica – o teste de substituição – deve ser visto com mais cautela. Se aplicado, deve ser usado para comparar somente ilocuções realizadas com a mesma atitude (ou seja, não pode ser feito um teste de substituição entre duas ilocuções com atitudes sentidas como não marcadas para aquelas ilocuções).

Os passos da metodologia são:

1. Identificação das ilocuções em corpus, coletando exemplos da mesma ilocução expressa com a maior variedade atitudinal possível;

2. Descrição das propriedades pragmático-cognitivas das ilocuções e identificação de seus parâmetros de eliciação;

3. Produção de cenas fictícias que eliciem a mesma ilocução com o maior número de atitudes diferentes;

4. Extração do perfil prosódico do enunciado produzido no contexto de eliciação de cada atitude;

126 5. Validação do perfil prosódico pela repetição por atores no contexto de eliciação, com

diferentes conteúdos locutivos e estruturas acentuais;

6. Identificação de propriedades prosódicas comuns aos enunciados da mesma ilocução com atitudes diferentes;

7. Substituição do perfil de uma ilocução com uma determinada atitude no contexto de eliciação de outra ilocução com a mesma atitude;

8. Caracterização das marcas formais de uma atitude, por meio de manipulações e testes de percepção.