Em muitos dos trotes descritos a seguir, o conteúdo sexual é destacado. É comum, também, a realização de desejos sexuais e sádicos de alunos trotistas que possuem orientação homoafetiva. Há os que se utilizam das práticas de trote, para expressarem sentimentos ambivalentes de amor e ódio pelos colegas iniciantes, de forma cruel e autoritária.
Segundo Almeida Júnior. e Queda (2003; 2006), são incontáveis os trotes dessa natureza, como: proxeneta (obrigar o ingressante a assediar uma mulher) e tijolinho ou castração sem dor (o ingressante tem amarrado em seus genitais um tijolo preso a um barbante e, de olhos vendados, este segura o tijolo com as mãos, é ameaçado pelos trotistas que dizem que o tijolo será arrancado com força. O tijolo é arrancado sem dor, mas de forma angustiante para o ingressante).
Além desses, existem outros trotes semelhantes como o chispada (consiste em uma corrida, em que alunos nus são levados a um espaço público ou a lugares distantes, onde são despidos); cabo de guerra (simulação de um cabo de guerra, com barbantes amarrados a órgãos genitais de dois alunos do primeiro ano); pastinha ou pascu (o ingressante imobilizado recebe a ameaça de ter um creme dental injetado no ânus); bundograma (imprimir nádegas em papel, em paredes); rola 69 (de roupa, os alunos homens e mulheres, são forçados a rolar, com a cabeça enfiada na perna do outro, abraçados pelo chão, em simulação do ato sexual conhecido como 69) e morder nádegas ou pernas dos alunos que os desagradaram, podendo o aluno estar nu ou vestido.
Tais trotes envolvem agressão à saúde e a integridade física e psíquica do ingressante. Ainda na ESALQ, há trotes em que dejetos, bebidas e alimentos são colocados na boca, cuspidos novamente em um copo e repassados em um círculo de ingressantes, em que o último a receber deve tomar o conteúdo. São eles: bochechinha (bochecho de bebida pelo trotista que a repassa para os ingressantes) e reforço (ingestão de mistura de ovo, farinha, maionese, mostrada, vinagre, sal, obrigando os ingressantes a tomá-la). Existe também o costume de jogar ingressantes dentro da piscina, sem a preocupação com os alunos de 1º ano que não sabem nadar.
Vale lembrar que foi decorrente deste tipo de trote que morreu o estudante de Medicina da USP- São Paulo, Edison Tsung-chi Hsueh, em 1999.
Outros trotes apelam para a extrema violência em relação à questão emocional, sexual e moral dos estudantes de primeiro ano, relativamente mais graves do que alguns dos listados anteriormente. De acordo com Almeida Júnior. e Queda (2003, 2006), são eles:
Práticas de exclusão veladas: não dirigir a palavra, não ouvir e não olhar, quando o ingressante não aceita submeter-se aos trotes;
Ralo monstro: os ingressantes, nus, tomam grandes quantidades de bebidas alcoólicas, recebem mangueiradas de água e são submetidos a exercícios físicos extenuantes, a tapas, ameaças, lembrando atividades militares.
Canavial: continuação do ralo monstro pela madrugada, com os ingressantes levados de carro para lugares distantes.
Passeata do ingressante: momento final do período de margem, isto é, após a iniciação e antes da “emancipação” dos castigos, marca o início da reintegração do neófito. Há alto grau de embriaguez dos participantes, além do uso de inalantes (lança- perfume). A data faz referência à Libertação dos Escravos, porém de forma racista.
Assim como em alguns trotes já discutidos, verifica-se nessas práticas a presença da domesticação baseada na visão do ingressante como uma “fera” ou como indivíduo inocente que tem que ser adestrado, além do autoritarismo nazista e a evidência de desejos sexuais manifestos de forma violenta.
O autoritarismo da instituição trotista12 personifica-se cotidianamente no período da recepção dos alunos e no decorrer da graduação, estende-se nas repúblicas estudantis e alimenta o ideário do sistema político-econômico capitalista vigente. Consiste em um processo de participação da comunidade acadêmica, que não somente sustenta o trote permanente, como efetua processos de segregação de determinados grupos e unificação de outros. Estes últimos, voltados para a formação de um banco de reserva de empregados afinados com a lógica da exploração ambiental, com a exclusão e a desigualdade social. Durante e após os trotes, no percurso da graduação, provavelmente os preconceitos dos representantes dos grupos trotistas são realçados nos diversos tipos de trotes, na medida em que os que resistem são alvos de processo de “lavagem cerebral” ou exclusão velada (ALMEIDA JÚNIOR.; QUEDA, 2003).
No mês de novembro de 2014, diversas denúncias de trotes nas universidades paulistas (Unesp, USP, PUC) vieram ao conhecimento dos diretores dessas instituições. Tal fato gerou um movimento importante de uma rede formada por diversos setores da sociedade, como professores universitários, políticos, alunos, pais de alunos, que reivindicaram a apuração justa das violências de toda ordem (incluindo violência sexual) e a punição dos responsáveis. Apesar da resistência, pois reconhecer o abuso dos trotes dentro da universidade envolve questionar o prestígio social das instituições e
12Este conceito é formulado pelos pesquisadores da ESALQ/ USP. Parece muito pertinente a utilização no contexto a seguir: “chamamos de trotistas não apenas os alunos que aplicam ou recebem o trote, mas todos aqueles que de alguma forma contribuem para a sua manutenção. Por exemplo, podem ser trotistas professores, funcionários, dirigentes de universidades, jornalistas, políticos, governantes, famílias e instituições de ensino (ALMEIDA JR; QUEDA, 2003, p. 10).
representantes do poder intelectual brasileiro, no início de 2015 foi instalada a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) referente aos trotes, com repercussão na mídia jornalística e televisiva. Finalmente, em 15 de março de 2015 foi divulgado um relatório que sintetizou o processo apurativo, contendo os principais membros atuantes, denunciantes e fatos denunciados. Um dos principais resultados foi o encaminhamento para protocolo do projeto de lei junto ao Congresso Nacional que classifica os trotes como crime no Código Penal Brasileiro. Além disso, e consistindo na sugestão mais importante, houve uma indicação ao Ministério Público para tipificar condutas praticadas durante os trotes estudantis como crime de tortura. Há atualmente um Projeto de Lei do Senado em tramitação (Nº 117 de 2015) com o fim de prever como contravenção penal a realização do trote vexatório. Entretanto, o relatório da CPI da ALESP parece avançar mais no combate aos trotes nas universidades, em especial no que se refere ao rigor com que trata e pune a gravidade do ato (SÃO PAULO, 2015).
2.1.3 O trote na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar): ritual