A estrutura sadomasoquista do trote na UFSCar é embasada pelas ideias de Freud (1989a, 1989b, 1989c, 2011a, 2011b), Costa (1984) e Endo (2005).
Tanto no trote no curso de Física, quanto no curso de Pedagogia, pode-se perceber a dinâmica da transferência. Em algumas reflexões sobre a Psicologia Escolar, Freud (1989a) explicita o processo de transferência de sentimentos contraditórios vivenciados por indivíduos na relação com os pais e irmãos, para a relação com os professores. Nesse artigo, Freud avalia que, provavelmente, a influência dos mestres do passado é mais marcante no aspecto da formação da personalidade do sujeito, do que propriamente da formação científica por ele empreendida. Ao passar pela primeira infância, nutre-se um enorme sentimento de amor em relação às primeiras figuras afetivas; afeto este que se modifica ao longo da vida até a adolescência (entre 10 e 18
anos), período em que tais afetos transformam-se em hostilidade expressa por meio de críticas, raiva e confrontações dirigidas aos pais. A ambivalência frente às figuras educativas é explicada pelo fato de o jovem transferir para os professores todos os sentimentos amorosos e hostis que experimentou inicialmente com os pais. Ou seja, como os primeiros objetos de amor das crianças são os pais, irmãos, babás, todos os relacionamentos posteriores são substitutos dos primeiros protótipos e podem despertar a herança emocional de todos os sentimentos de simpatia e antipatia vividos com os primeiros afetos (imagos do pai e mãe).
Posto este aparato teórico da ambivalência entre alunos e professores, supomos que os alunos trotistas na UFSCar revivem, durante o trote, situações muito próximas aos momentos de aversão a seus protótipos afetivos. Esses sentimentos hostis aos mestres (herança emocional das relações parentais do passado) não podem ser discutidos entre aluno e professor, devido ao autoritarismo docente. Assim, o ódio às figuras de autoridade é reproduzido, quando o aluno mais antigo vivencia seu sentimento de hostilidade em relação ao professor, essa hostilidade mobiliza a transferência da agressividade para o aluno ingressante.
Outro fator que auxilia na compreensão do trote na UFSCar é a elaboração das resistências.
Freud (1989b) discute a elaboração das resistências do paciente em análise. No período após o abandono da hipnose, a atividade terapêutica consistia na regra da associação livre, no sentido de promover o aparecimento de conteúdos não lembrados, ou seja, inconscientes e, através da interpretação, vencer a resistência em torno desses materiais.
Ao contrapor à competência da hipnose a associação livre, no tocante ao material reprimido, Freud (1989b) observa que, por meio da associação livre, o paciente não recorda nada do que foi reprimido, mas o atua, ou seja, repete-o sem, contudo, ter consciência de estar reproduzindo tal conteúdo. Além disso, observa e descreve exemplos de como essa atuação pode ocorrer e demonstra ser comum o paciente repetir com o médico atitudes que teve com outros indivíduos ou situações. A esta dinâmica psíquica denominou “compulsão à repetição”. Grosso modo, Freud observou que o manejo de tal fenômeno poderia auxiliar o paciente na recordação de questões inerentes ao sofrimento vivenciado. Importante salientar a relação entre a compulsão à repetição e a transferência. “A transferência é, ela própria, um fragmento da repetição e (...) a repetição é uma
transferência do passado esquecido, não apenas para o médico, mas também para todos os outros aspectos da situação atual” (FREUD, 1989b, p. 197).
Freud (1989b) aponta como desfecho satisfatório do impasse provocado pela resistência a necessidade de o analista esperar um tempo para que o paciente conheça melhor esta resistência, de modo a familiarizar-se e até superá-la. Momento denominado de elaboração, que permite a continuidade do processo analítico.
Pode-se dizer que no momento em que o aluno que sofreu trote quando ingressante repete o ato sofrido descontando-o em outro colega no ano seguinte, está atuando e tentando se livrar do sofrimento vivenciado durante o processo em que foi vítima do trote. Mas este processo não ocorre de maneira consciente, por isso se faz relevante explicar conceitualmente os processos que permeiam a repetição do trauma.
Na compulsão à repetição, o indivíduo não recorda o trauma e apenas reproduz, sem se dar conta, os atos que respondem ao conflito inconsciente. Se houver transferência positiva com o médico, o indivíduo pode romper os obstáculos à recordação e menor será a ativação dos sintomas patológicos. Porém, se no transcurso da análise, a transferência for hostil, necessitando de repressão, a recordação facilitará a atuação das resistências que barrarão o progresso do tratamento. É relevante destacar que a compulsão à repetição pode ocorrer não somente na relação do paciente com o médico13, mas também em outros relacionamentos, enquanto estiver em tratamento, disse Freud (1969).
De acordo com Laplanche (2000, p.514), no escopo teórico da psicanálise, a transferência denomina “o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro da relação analítica. Trata-se aqui de uma repetição de protótipos infantis vivida com um sentimento de atualidade acentuada”.
Apesar do conceito de transferência ter sido construído no contexto da clínica, Freud não deixou de considerar a possibilidade da manifestação da transferência além da relação médico-paciente, como na relação professor-aluno, orientador espiritual- penitente, dentre outras (LAPLANCHE, 2000).
No contexto do trote, os alunos trotistas podem ter realizado a transferência de seus afetos relacionados aos primeiros protótipos para os mestres e colegas a quem aplicaram o trote, como tentativa de elaboração de traumas anteriores reativados pelas experiências atuais. Ou seja, o trotista projeta nos colegas sentimentos agressivos inconscientes em relação aos familiares ou substitutos, despertados quando foram vítimas
13 É necessário alertar que, no período deste escrito de Freud, a Psicanálise ainda era praticada apenas por médicos.
do trote no ano anterior. Importante salientar que o trotista não está em processo analítico que lhe permita compreender os próprios impulsos destrutivos. Nesse sentido, seria interessante que, dentro do contexto universitário, houvesse intervenções no sentido de intermediar a elaboração deste conflito interno com a violência, o que não ocorre.
Jurandir Freire Costa (1984) amplia a compreensão dos fatos subjetivos em interface com o fenômeno do trote universitário ao retomar Lasch e Costa, que recorrem aos conceitos kleinianos para descrever/analisar os aspectos agressivos narcisistas.
Segundo Costa (1984), autores kleinianos apontam uma ligação estreita entre narcisismo e agressividade, indicando que o narcisismo representa uma regressão do ego, de maneira que os instintos de morte estão preeminentes na estrutura de personalidade narcísica. Entretanto, por meio da desintricação instintiva, durante os estágios superiores de evolução do psiquismo, os instintos de vida sobrepujam os de morte. Em seguida, passam a agir neste processo as equações kleinianas: projeção/introjeção; projeção identificatória / identificação projetiva; idealização/ identificação onipotente; clivagem do ego/clivagem do objeto, etc. Tais equações estão relacionadas aos mecanismos agressivos da pulsão14 de morte em todos os espaços do psiquismo narcisista. Por fim, a importância das ideias kleinianas recaem sobre a desintricação pulsional, ou seja, a presença dos derivados da pulsão de morte, que resultam por sua vez da regressão egoica, que confere ao narcisismo sua característica patológica. Além disso, Costa (1984) aponta que a desintricação pulsional pode vincular-se não só ao narcisismo, como também a outras expressões agressivas da vida psicológica.
A repetição do acontecimento traumático é outro mecanismo observado:
De fato, do ponto de vista dinâmico, o que surpreende nestas síndromes é a repetição do acontecimento desagradável, defesa oposta ao princípio do prazer. Em lugar de rememorar ou “alucinar” (no sentido da “alucinação onírica”) o objeto ou situação portadores de prazer o sujeito reedita incessantemente o trauma, contrariando aquele princípio (COSTA, 1984, p. 171).
Costa (1984) descreve que o indivíduo tenta resolver o traumatismo excessivo, que é diferente do traumatismo infantil. Em vez de evacuar a carga libidinal, como no
14 A pulsão refere-se ao processo dinâmico, em que ocorreu uma pressão ou força que leva o organismo a um objetivo. Para Freud, a fonte de uma pulsão é uma excitação corporal e seu objetivo ou meta é anular o estado de tensão que impera na fonte pulsional, sendo no objeto ou por seu intermédio, que a pulsão consegue alcançar sua meta (LAPLANCHE e PONTALIS, 2000, p. 394). Como já dito anteriormente, os conceitos pulsão e instinto são traduções comuns para o termo alemão Trieb e o conceito de instinto foi esclarecido na página 15 desta pesquisa.
traumatismo infantil, o psiquismo do indivíduo desestrutura-se ao confrontar-se com estímulo muito intenso. Isto leva o sujeito a mobilizar seus mecanismos de defesa para resolver o conflito interno, o que gera uma fixação no trauma. Há um aspecto do narcisismo em todo processo, uma vez que o indivíduo, sem poder voltar a dor para fora de seu corpo, dirige-a a si mesmo. Por meio destes mecanismos psíquicos, uma parcela dos indivíduos inseridos em grupos agressivos na dinâmica do trote tenta lidar com seus sofrimentos, repetindo os traumatismos ou voltando a dor para si mesmo. Quando essa repetição se dá dentro de certos limites de intensidade do trauma ou dor, pode-se encontrar resultados mais ou menos equilibrados, ou patológicos. O nível patológico corresponde a uma fixação no trauma. Neste caso, é provável que os indivíduos vinguem-se nos colegas que ingressarem no ano seguinte. Tal processo está associado a uma desestruturação do psiquismo dos sujeitos e até à ativação de mecanismos de defesa, como projeção de preconceitos, identificação com figuras agressivas, que impelem à destruição de outros indivíduos, com a finalidade de se defender dos conteúdos que tentam ultrapassar a barreira da resistência.
Nesse sentido, segundo Costa (1984, p.172-3),
Violência, (...), é toda ação traumática que conduz o psiquismo ou a desestruturar-se completamente ou a responder ao trauma através de mecanismos de defesa, análogos à economia da dor. Violenta é toda circunstância de vida em que o sujeito é colocado na posição de não poder obter prazer ou de só buscá-lo como defesa contra o medo da morte. A violência, portanto, radica num estímulo de natureza não sexual. E a sexualidade que emerge no sujeito violentado como consequência desta violência é sempre narcísica na medida em que é uma sexualidade defensiva.
Assim, será que os indivíduos que ingressam nas escolas e universidades, vítimas dos colegas trotistas se tornarão algozes no próximo ano letivo, e estarão sujeitos à mobilização de defesas como as mencionadas acima (introjeção/projeção; identificação/projeção, repetição, etc.)?
Pode-se dizer que sim. Como componentes do instinto de morte, estes mecanismos tornam-se defesas contra o medo da própria destruição. No caso do trote na UFSCar, mostrado por Zuin (2002), os estudantes são humilhados desde o início por seus colegas, mas, posteriormente, assim como estes colegas que já estão no curso, sofrerão também a violência ou abuso de autoridade dos professores. Desta forma, o trote violento
torna-se uma via de descarga de sentimentos hostis, relacionados a uma identificação inadequada, à compulsão à repetição, construídos nas relações com os mestres e os colegas mais experientes no curso. Essa manifestação de sentimentos aversivos sobre o outro apresenta-se como forma de defesa contra a traumática destruição simbólica e material promovida pela violenta relação educativa, bem como pela violência trotista (que também utiliza mecanismos de repetição). Ou seja, o caminho encontrado pelo psiquismo para resolver o conflito é a repetição da violência no outro, nos anos seguintes, por meio dos trotes.
Para Costa (1984), o objeto-fonte de violência será representado pelo indivíduo violentado como um agente de ameaça de morte e não meramente de uma frustração de ordem libidinal. Este objeto violentador não é mau simplesmente porque se ausenta ao princípio de prazer, mas porque sempre foi destrutivo e, mesmo que tenha sido representado como bom pelo indivíduo, logo se transforma em mau. Diante desse processo de representação do objeto violentador como bom ou mau, o indivíduo estará permanentemente repetindo a experiência por meio das defesas de projeção, identificação, com o fim de reencontrá-lo na realidade, ou de transformar a recusa do objeto violentador em promover prazer ou na persistência em provocar dor. Trata-se do retorno do “recalcado”. O Ego do indivíduo, para sobreviver à violência,
(...) diante deste objeto traumático, pode tentar “aluciná-lo”, projetá-lo, introjetá-lo, mas para petrificá-lo, congelá-lo, mantê-lo imóvel. A evocação mnésica do “objeto violentador”, repetimos, não é feita com vista à obtenção do prazer, mas com o objetivo de neutralizar seu poder de destruição. Em certos casos, o Ego vai até o ponto de “aluciná-los negativamente”. Este mecanismo, antípoda da alucinação positiva do
objeto de desejo, mostra, claramente, a diferença entre o trauma que se
subordina aos mecanismos do prazer-desprazer e o trauma que só é dominável pelo mecanismo da dor (COSTA, 1984, p. 176-77).
Endo (2005) explica que quando a Psicanálise retomou a questão da neurose traumática, em 1920, e introduziu o conceito de pulsão de morte, a segunda tópica do aparelho psíquico e o conceito de superego, abriu-se uma fenda teórica. Nesse momento, a violência voltou a ser pensada na relação interno/externo e em relação à pulsão de vida e de morte.
Segundo Endo (2005), o choque traumático promovido por algum tipo de catástrofe foi abordado por Freud em discussão sobre o deslocamento da articulação
vida/morte, quando as forças que atacam o indivíduo são tão intensas que impedem de sobreviver atividade do ego, o corpo erógeno e formas de ligação e vida sexuais. Este choque traumático relaciona-se ao horror decorrente do fracasso das defesas egóicas, o que leva o aparelho psíquico à repetição empobrecedora. Assim, o ego, fracassado, torna à situação traumática, fadada à repetição.
No que se refere ao trote, passar por esta experiência no papel de vítima pode ser tão aterrador que a repetição do ato no ano seguinte configura uma forma de dominar o sofrimento decorrente da experiência traumática externa e interna. Nesse sentido, a identificação com o trotista é uma defesa contra o fracasso vivido pelo ego, que se torna ameaçado.
Endo (2005, p.140) diz que:
A compulsão à repetição como sintoma da ultrapassagem da realidade exterior sobre o sujeito, revelar-se-á então, em 1920, como a atração da pulsão de morte, que perigosamente se volta contra o ego, empurrando- o na direção de sua aniquilação, desabilitando-o à busca de todo prazer que não seja destrutivo e cabal: prazer de morte.
Costa (1984, p.177) elucida que a violência não deve ser considerada como inevitável no processo subjetivo individual, e considera que “se a posição esquizoparanoide de Melanie Klein é um fato indispensável à formação do psiquismo, não pode ser violenta”.
É intrigante perceber que a violência é apresentada ao indivíduo no contexto capitalista como algo natural e intrínseco ao modo de vida social; como se o indivíduo não tivesse como dela escapar e fosse o responsável por sua destruição. O narcisismo cultural pode ser entendido como uma forma desse indivíduo defender-se da violência, por meio dos mecanismos fundamentados no modelo da dor, descritos anteriormente. Em um processo narcisista defensivo, uma vez que o indivíduo volta o investimento para o corpo, este corpo sofre a ameaça de morte decorrente do efeito da violência.
Perversamente, a sociedade do narcisismo cultural moderno abre somente duas opções ao homem: prazer ou sofrimento decorrente da culpa pelo fracasso, que na verdade é de responsabilidade do próprio sistema econômico.
Cria-se o mito da igualdade diante do prazer, simulacro da igualdade diante dos direitos do homem, e reforça-se a ideologia da competição e do sucesso individual. Só os incapazes, os que opõem entraves psicológicos à aquisição deste bem-estar, permanecem marginalizados
da democracia do corpo e do prazer. (...) este é o lado feérico, festivo, da alteração da imagem corporal (COSTA, 1984, p. 178).
Porém, é possível observar um segundo lado do narcisismo cultural: do incentivo à competição e concorrência por prestígio, a produção da disputa entre sexos, para citar apenas os mais relacionados diretamente com o trote. Toda destruição promovida pelo capitalismo torna-se naturalizada sob o nome de stress. Ou seja, os meios de comunicação transformam os bens da indústria de consumo excessivo em “um mal natural”. Nesse processo de violência, subsistem o prazer ou o desprazer, a vida ou a morte para os indivíduos, o que endossa a constante dedicação narcísica ao corpo (COSTA, 1984, p. 179).
Nesse sentido, pode-se dizer que os efeitos da cultura trotista na subjetividade dos estudantes resultam em tipos “sujos” do narcisismo moderno. Indivíduos que provocam sofrimento nos alunos por meio da afirmação irônica “só leva trote quem quer”, ao mesmo tempo em que estimulam a perseguição dos que não desejam ser troteados. Ao realçarem os aspectos lúdicos e camuflarem os elementos agressivos do evento, alimentam mecanismos defensivos pelos sujeitos submetidos à violência do trote. Deve- se lembrar a possibilidade de outro mecanismos defensivo atuando durante o trote, a negação, já mencionado anteriormente (FADIMAN e FRAGER, 1980; FREUD, 1983). Muitos trotistas ou indivíduos ligados ao trote dentro e fora das instituições negam os aspectos de agressividade nele contidos. .
Importante lembrar que a questão das defesas do ego é um dos fatores que contribui para o trote, e que a compreensão ampla deste fenômeno não se faz meramente por este ângulo.
Foi dito que o trote na UFSCar tem também o aspecto do sadomasoquismo. As obras freudianas relativas ao sadismo e masoquismo contemplam conteúdo vastíssimo (LAPLANCHE, 2000; ENDO, 2005).
No conjunto dos textos freudianos, a agressividade aparece primeiramente associada à sexualidade. Os termos sadismo e masoquismo aparecem pela primeira vez na obra “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, (FREUD, 1989c) e assumem caráter conceitual relevante para psicanálise. O termo sadomasoquismo foi utilizado para designar as formas de imposição de dor infligida a si mesmo e ao outro, denotando os processos violentos que envolvem agressor e vítima.
Endo (2005) assinala que há uma diferença fundamental entre o sadomasoquismo e a neurose traumática nos modos de superar ou reproduzir a violência. A presença da repetição do fato traumático e das defesas egoicas foram discutidas anteriormente.
Na primeira fase de estudos sobre sadomasoquismo, Eros está associado ao sofrimento psíquico. Esta fase primária de conceituação do sadomasoquismo ocorreu por volta de 1915. A partir de 1920, Freud passou a relacionar o sadomasoquismo a um caráter não sexual e à pulsão de morte (ENDO, 2005).
Segundo Endo (2005), o caráter sexual e de agressividade são recorrentes no pensamento freudiano. O sadismo e o masoquismo figuram como pares opostos, mas interligados. Do mesmo modo, quando Freud escreve a segunda teoria das pulsões, não descarta a ideia da violência ligada ao prazer, mas aponta na teoria da pulsão de morte um novo caminho explicativo. Ou seja, “está apontando, teoricamente, para dois caminhos psicanaliticamente possíveis de interpretação das violências” (p. 184).
Endo (2005, p.185) afirma também que entre os meios necessários para que o indivíduo se livre da sua própria violência
(...) figura frequentemente a coletivização da própria destrutividade que, muitas vezes e sob muitas formas, busca na aniquilação radical do outro este mesmo outro como parceiro da própria autoimolação. Trata- se do sadomasoquismo já contaminado pela contribuição da pulsão de morte. Um sadomasoquismo que, agora, aponta para a morte, e não apenas para sua perpetuação. A pulsão de morte inscreve-se no sadomasoquismo introduzindo uma finalidade, um fim e a ambivalência.
Quando Zuin (2002) fala que o trote na UFSCar concilia afeto e relações sadomasoquistas, nota-se que, por meio do trote, os alunos (tanto os mais experientes quanto os ingressantes) infligem dor aos outros e a si mesmos. Ou seja, os alunos de 2º ano infligem sofrimentos aos ingressantes e estes a si próprios, ao submeterem-se/serem obrigados a participar das ações trotistas. Acredita-se que o mesmo pode ter ocorrido também no Colégio Agrícola.
Mattoso (1985) e Vasconcelos (1993) identificaram uma gama de trotes, que repetem as características das práticas trotistas descritas e analisadas. No trote do CCC (Comando Caça-Ingressante), referente à Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Cruz das Almas, os alunos iniciantes são chamados de “casca-de-jaca”, que significa inútil, igualmente indigno de respeito, tal como suscita o termo “fera”, utilizado na
UFSCAR. Há na UFBA a regra básica de total anomia: deixar moradias e pertences pessoais dos ingressantes de “cabeça para baixo”, fato que faz alusão ao sadismo, conforme visto acima.
Mattoso (1985) observou, embora em número reduzido, a existência de práticas de recepções mais humanizadoras, com confraternizações em que atividades de escárnio