Eclesiástica apresenta a seguinte proposta de encaminhamento sob o título:
Ano de Contrição e Chamado à Tolerância: “Nossa Igreja já viveu muitas
dores e alegrias no desejo de sinalizar o Reino de Deus. Não podemos deixar adormecer a memória de tais acontecimentos na Igreja, no passado. Por isso reconhecemos que é necessário recordar a experiência de tribulação que a Igreja Metodista viveu no período da ditadura militar. Muitos (as) metodistas, principalmente jovens, foram sacrificados (as) em seus ideais,
371 Cf. Jovens que superaram a crise de 1968. Expositor Cristão, São Paulo, agosto de 1998. Pág. 4.
372 Cf. É Tempo de Encontro Nacional. Expositor Cristão, São Paulo, 1ª Quinzena de Fevereiro de 1974. Pág. 5. 373 Como foi visto, o último havia sido realizado em meados de 1969.
374 Cf. Companheiros de Caminhada: ao 8º Congresso Nacional de Jovens Metodistas. Expositor Cristão, São
corpos, formação e experiência de fé, através de denúncias e perseguições as mais diversas, pela intolerância de alguns que apoiaram o autoritarismo e a violência, o que resultou, inclusive no fechamento da Faculdade de Teologia, em 1968... Reconhecemos que não é possível reparar danos às pessoas atingidas, mas é necessário resgatar a memória de cada uma delas. Hoje a Igreja ainda se ressente... da falta de tanta gente que, por força do arbítrio interno, na Igreja, e externo, na sociedade, foram afastadas do convívio da comunidade de fé. Por isso propomos que o ano de 1998, 30 anos depois do fechamento da Faculdade de Teologia, seja declarado o Ano de Contrição e
Chamado à Tolerância...” 375
A Igreja Metodista era convocada por sua liderança a olhar para o seu passado. Foram criados então grupos de trabalho para desenvolver as atividades que marcariam o Ano de Contrição e Chamado à Tolerância.
“... Para tanto, recomendamos que se crie, neste Concílio, um Grupo de Trabalho. Vinculado ao Colégio Episcopal, com as tarefas de: 1. Elaborar uma declaração com reconhecimento de culpa, ato de arrependimento e pedido de perdão a Deus e aos (às) afligidos (as); 2. Resgatar a memória das muitas pessoas que tiveram suas vidas afetadas pela intolerância, procurando-as para dar-lhes conhecimento da decisão deste Concílio e para solicitar-lhes perdão; 3. estimular as Igrejas no Brasil a refletirem sobre os fatos acontecidos, proporcionando estudos e atos celebrativos que levem a Igreja à contrição e ao espírito de reconciliação; 4. Promover ações docentes que ajudem o povo metodista no aprendizado da tolerância, tarefa permanente na vivência da Fé Cristã numa Igreja que deseja impedir, a qualquer custo, que fatos como os ocorridos tenham chance de se repetir.” 376
Durante todo o ano de 1998 foram realizados cultos e publicados boletins, todos tendo como eixo principal os fatos acontecidos durante os anos sessenta. O ponto central do ano foi o pedido de perdão dos bispos, em nome da igreja como um todo àqueles que haviam sido perseguidos pelas lideranças metodistas durante o regime militar:
... É verdade que nós identificamos e mencionamos o problema ocorrido com a Igreja Metodista e a Faculdade de Teologia, e que culminou no Concílio Geral Extraordinário de 1968 e no fechamento da Faculdade de Teologia. Queremos, agora, dizer aos atingidos e feridos por aqueles acontecimentos que nós, Bispos da Igreja Metodista, representando a Igreja como um todo, pedimos humildemente a Deus perdão pelos atos praticados na condução dessas questões, assim como pedimos perdão aos jovens daquela época atingidos pelos atos da Igreja na Faculdade de Teologia e fora dela, em várias Regiões Eclesiásticas. Pedimos perdão, ainda, a professores e pastores que também foram feridos por tais decisões... 377
375 Cf. Atas do XVI Concílio Geral da Igreja Metodista. São Paulo: Imprensa da Fé, 1999, pág.143. os grifos são
do próprio texto.
376 Cf. Idem.
377 Cf. LOCKMANN, Paulo Tarso de Oliveira. 1998: Ano de Contrição e Chamado à Tolerância. Expositor Cristão, São Paulo, dezembro de 1998. Pág. 15.
Síntese e Encaminhamentos
Neste capítulo vimos que embora durante o Período de Engajamento o Metodismo brasileiro buscasse uma Igreja mais encarnada na realidade social, essa postura não era uma unanimidade. Dentro da denominação existiam grupos de tendência mais conservadora, que olhavam com desconfiança para os rumos que a Igreja Metodista do Brasil estava tomando. É importante lembrar que este conservadorismo não era, em absoluto, uníssono. E nesse ambiente conservador se destaca a figura do bispo Isaías Fernandes Sucasas, cujo diário serviu de fonte de estudo.
Vimos também que durante os últimos cinco anos do longo episcopado do reverendo Sucasas (que foi de 1946 a 1965), as vozes conservadoras aumentaram de tom, talvez devido ao clima político que o próprio país vivia na primeira metade dos anos sessenta. A mais ouvida foi a do grupo conhecido como Esquema, liderado pelo reverendo Nathanael Innocêncio do Nascimento. A força deste grupo se fez notar no IX Concílio Geral da Igreja Metodista, realizado em 1965. Apesar de ver boa parte de suas propostas serem derrotadas, o Esquema conseguiu colocar seu líder no episcopado da I Região. Essa eleição é sintomática, pois mostra os novos rumos que a denominação tomaria na segunda metade da década: ela marca o início do Período da Reação Conservadora (1965-1970).
A leitura deste capítulo mostra também que este período da história do Metodismo brasileiro foi marcado por choques entre a liderança conservadora (ou que atenuou seu discurso engajado, como é o caso do bispo Almir dos Santos) e os detentores dos ideais da primeira metade da década. Como exemplos destes atritos podem ser citados a intervenção no Colégio Bennett e o convite feito ao Arcebispo católico de Olinda e Recife, D. Hélder Câmara, para paraninfar a turma de 1967 da Faculdade de Teologia. Porém estes conflitos seriam pequenos perto do maior de todos eles: a Crise da Faculdade de Teologia, em meados de 1968.
A Crise da Faculdade de Teologia foi o palco onde os conservadores e os liberais travaram sua maior luta. A ela se seguiu o Concílio Geral Extraordinário, em setembro de 1968, quando a decisão da liderança conservadora de fechar a Casa de Profetas foi ratificada. Porém, depois desta tempestade não se seguiu a bonança. Veio sim um furacão. Os últimos dois anos do Período da Reação Conservadora foram marcados por um acirramento ainda maior de posições. Pastores foram cassados, jovens foram entregues aos
órgãos de repressão da ditadura militar. A recuperação da normalidade depois do Concílio de 1970 foi longa, durando três décadas.
Nenhum dos acontecimentos da segunda metade dos anos sessenta na Igreja passou despercebido aos olhos do velho bispo Isaías Sucasas. As páginas do seu diário mostram que ele os testemunhou, opinou sobre eles e tomou parte ativa no que estava acontecendo na denominação.
Porém, a leitura dos fatos acima narrados faz surgir uma questão: quais foram as motivações que levaram as alas conservadoras do Metodismo, representadas aqui pela figura do bispo Sucasas, a agir da forma que agiram? É o que o quarto e último capítulo deste trabalho se propõe a investigar.