O X Concílio Geral pode ser considerado como o marco final do Período da Reação Conservadora. Nele, boa parte da antiga liderança foi substituída. Embora alguns dos novos bispos eleitos fossem antigos líderes do Esquema, caso de Alípio da Silva Lavoura, eles representavam uma minoria. Este concílio foi realizado em dois períodos. O primeiro, de 15 a 22 de julho de 1970, na Igreja Metodista Central de Belo Horizonte. O segundo, de 31 de janeiro a 8 de fevereiro de 1971, nas dependências do Colégio Bennett, na cidade do Rio de Janeiro.
Fato sintomático desta renovação foi o pedido de demissão do antigo líder do Esquema, Reverendo Nathanael Innocêncio do Nascimento, bispo da I Região, na sessão vespertina do dia 22 de julho. O velho grupo que havia tentado chegar ao poder agora estava desgastado. Ameaçado por um processo movido por antigos aliados, o reverendo Nathanael renunciou para não acontecer algo pior362.
359 O nome aparece no manuscrito, porém opteis por mantê-lo em oculto. 360 Cf. Sucasas, Diário de 1969- 1970, pág. 316.
361 Cf. Idem, pág. 346.
362 O bispo Nathanael foi o primeiro superintendente regional a renunciar ao cargo na história da Igreja
Metodista brasileira. Ele foi substituído nos últimos meses do mandato pelo reverendo Almir dos Santos, que era também bispo da IV Região. Cf. Atas, Suplementos e Documentos do X Concílio Geral, pág. 166. As acusações contra o reverendo Nathanael Innocêncio do Nascimento eram: a de ter declarado que pastores metodistas seriam penalizados se cedessem seus púlpitos a ministros de outras denominações evangélicas, de ter alterado o relatório do secretário de atas do duodécimo concílio da Primeira Região, de ter nomeado para o pastorado elementos não qualificados, de ter beneficiado um engenheiro amigo em uma série de situações na Primeira Região, de ter trazido matéria de lei sem tempo útil para discussão ao Concílio Regional, de ter
Neste instante devolvo, como por devolvido tenho ao Décimo Concílio Geral o mandato episcopal que em 1965 recebi do Nono Concílio Geral. Devolvo igualmente ao Colégio de Bispos a superintendência regional da Primeira Região Eclesiástica que por ele me foi concedida. Deixo o episcopado. Nunca o desejei e não me compadeço de conservá-lo a qualquer preço.363
Mas aquele concílio também foi marcado pela aposentadoria de outros dois bispos que tiveram importante papel nos eventos ocorridos na Igreja durante a década de sessenta. Ao final de seu relatório de atividades no qüinqüênio, o bispo João Augusto do Amaral anunciou sua aposentadoria:
Contando, pois, quarenta e cinco anos de ministério ininterruptos (1925- 1970), requeiro, nos termos canônicos, minha aposentadoria. Hoje, mais do que nunca, creio que a Igreja Metodista é fruto da vontade de Deus, nascida do Espírito Santo e tem sua contribuição de suma relevância em nossa extremada Pátria. 364
No que foi seguido pelo bispo José Pedro Pinheiro:
E ao dar por finda minha participação na Administração Geral em vista de meu pedido de aposentadoria através da Comissão de Episcopado... estendo aos meus colegas no Episcopado... a minha despedida com emoção e gratidão pela confiança que em mim depositaram por 3 (três) qüinqüênios sucessivos.365
Os bispos que permaneceram ou que foram eleitos posteriormente pouco, ou nada, tinham a ver com os eventos ocorridos nos anos sessenta366. Exceção deve ser feita, como já foi dito, a Alípio da Silva Lavoura, antigo líder do Esquema. O Período da Reação Conservadora havia chegado a seu fim. Porém, as suas reverberações acompanhariam a Igreja nos anos que se seguiram.
usado de má fé na Campanha de Contas de Luz, de ter transformado o Colégio Bennett em “casa bancária” para administrar o Fundo de Expansão Regional, de uso indébito dos fundos de venda dos lotes da Fazenda do Lameirão Pequeno, de intromissão indébita na administração financeira do Bennett e de ter se envolvido em irregularidades no serviço de ação social da Igreja Metodista de Ca mpo Grande (antigo Estado da Guanabara). Cf. Fundamento na Queixa contra o Bispo Nathanael? Aos não informados e aos unilateralmente informados. Rio de Janeiro: s.d., pp. 5- 9.
363 Cf. NASCIMENTO, Nathanael I. do. REVMO. BISPO NATHANAEL I. DO NASCIMENTO APRESENTA
RENÚNCIA AO EPISCOPADO. Expositor Cristão, São Paulo, 15 a 30 de setembro de 1970. Pp. 30 e 31.
364 Cf. Atas, Suplementos e Documentos do X Concílio Geral, pág. 154. 365 Cf. Idem, pág. 151.
366 Naquele período os bispos não foram eleitos no Concílio Geral, mas sim nos concílios de suas próprias
regiões. A vitaliciedade também foi abolida. Os bispos eleitos e reeleitos foram:
• Almir dos Santos (I Região);
• Sady Machado da Silva (II Região);
• Alípio da Silva Lavoura (III Região);
• Omar Daibert (IV Região);
• Oswaldo Dias da Silva (V Região);
A análise de documentos permite que se perceba que este deslocamento se deu de maneira lenta, gradual e progressiva367 nas outras esferas da Igreja. Ele se estendeu por todas as décadas de setenta, oitenta e noventa.
Os novos tempos deixaram suas marcas nas igrejas locais. Na verdade, pode-se dizer que o momento de lenta abertura que a Igreja viveria teve seu nascedouro em suas pequenas comunidades. Apreensivas com os fatos ocorridos na Igreja Metodista Central de São Paulo, muitas congregações das diversas regiões eclesiásticas realizaram reuniões semanais de oração em prol dos jovens presos. Outros membros das igrejas locais começaram a pressionar o Gabinete Geral (formado ainda pelos bispos do Concílio de 1965) a uma tomada de atitude em favor dessa juventude perseguida. A consciência começava a vencer o medo. Os bispos foram instados a visitar Anivaldo, Celso e Fernando. E estas visitas fizeram com que alguns deles tivessem seus olhos abertos para a realidade dura dos porões da ditadura no país.
“Houve um grande setor da Igreja que teve simpatia pelo meu caso. O Colégio de Bispos foi várias vezes me visitar na OBAN... ”368
Porém, este lento deslocamento acabou atingindo outros setores da Igreja. Um deles foi o dos antigos pastores, professores e alunos atingidos pela tempestade da Crise da Faculdade de Teologia e pelo furacão do final dos anos sessenta. Um simples olhar sobre o Expositor Cristão confirma este fato. No início da década de oitenta, o órgão oficial informava que a reitoria da Faculdade de Teologia era ocupada por uma antiga vítima do furacão: o reverendo Isaac Aço369. A monografia de Reynaldo Ferreira Leão Neto é desta época e diz em suas últimas páginas:
De repente, a oportunidade surge, abre se o espaço e os cassados e descontinuados da Faculdade em 1968, a pouco mais de dez anos atrás, ocupam lugar como professores da Faculdade de Teologia, são convidados para palestras nas Igreja s, para ministração de cursos especiais, etc.370
Os anos oitenta também marcaram o retorno de muitos ex-alunos que haviam sido expulsos em 1968. Em 1998, o Expositor Cristão publicou o testemunho do reverendo Adhayr Cruz, que em 1968 era um dos líderes dos alunos “rebeldes”:
367 Usando as palavras do Presidente Ernesto Geisel sobre a reabertura democrática do Brasil no final da década
de setenta.
368 LESSA, Roberto Themudo. Anivaldo Padilha - Um metodista em Genebra. São Paulo, Expositor Cristão, 1ª
quinzena de fevereiro de 1982, pág.13.
369 Cf. Coragem, Profecia e Sonho. Expositor Cristão, São Paulo, 1ª Quinzena de Fevereiro de 1982. Pág. 8. 370 Cf. Leão Neto, pág. 58.
Adhayr permaneceu na Igreja como leigo e “após 20 anos, retornei ao pastorado em 1988... Adhayr hoje é pastor em Serra/ Pitanga, e Superintendente do Distrito da Grande Vitória II, na 4ª Região...371
O deslocamento também atingiu outra esfe ra da denominação que teve duras perdas durante o Período da Reação Conservadora: as Federações de Jovens da Igreja. Aqui também o movimento foi lento. Em 1974, depois de dez anos de intervalo, o primeiro encontro de jovens foi realizado no acampamento Clay, Estado do Rio de Janeiro. A partir daí, os movimentos de juventude metodistas começaram a se reorganizar:
Por ser o primeiro Encontro da Mocidade depois de dez anos de recesso, a reunião em Sacra Família do Tinguá tem um alto valor como contribuição da juventude dos anos 70 para a Igreja.372
Porém, os tempos ainda eram de ditadura. Por isso, foi só no início dos anos oitenta que a juventude metodista conseguiu realizar o seu VIII Congresso Geral373. O discurso da liderança lembra as velhas falas da década de sessenta:
A existência de um intervalo de 14 anos entre esse congresso e o anterior é significativa. O ano de 1968 é um marco na repressão à juventude e suas lideranças. Infelizmente as igrejas funcionaram como eco da repressão conduzida pelos governantes brasileiros... Os anos de tortura e guerrilha e exílio de boa parte da liderança jovem brasileira são os dias de nossa adolescência desorientada, acompanhada por... uma Igreja local de ênfase individualizadora. Aos trancos e barrancos... nós estamos retomando a caminhada.374
Mas foi na década de noventa que o maior passo foi dado. Em 1998 completar-se-iam trinta anos dos eventos que marcaram a Igreja na segunda metade dos anos sessenta. Então, o XVI Concílio Geral, em sua segunda fase realizada em Piracicaba de 11 a 19 de julho de 1997 decidiu que 1998 seria o Ano de Contrição e Chamado à Tolerância. A própria liderança da Igreja, que num Concílio trinta anos antes havia criado um clima de perseguição, agora pedia perdão aos que ela havia perseguido:
PROPOSTA DE ENCAMINHAMENTO: ANO DE CONTRIÇÃO E