• No results found

Mostra del material didàctic del projecte

Robert Gilpin (2001 e 2004) nos fornece alguns subsídios teóricos para a compreensão da importância e atuação de uma EMN, bem como seu relacionamento com os Estados.

Para Gilpin as EMN caracterizam-se por apresentar a propriedade, direção, produção e atividades de vendas disseminadas em várias jurisdições nacionais com objetivo de assegurar o menor custo de produção. Sua expansão e a consolidação da sua influência nas últimas décadas foram possíveis porque as transformações estruturais (adoção da produção flexível), ideológicas (adoção das políticas neoliberais) e tecnológicas (melhoria dos transportes e comunicações) permitiram-nas articular a centralização da tomada de decisões e integração vertical da estrutura produtiva (sempre quando possível) de forma a dirigir seus recursos humanos, econômicos/financeiros, suas técnicas/tecnologias de produção e estratégias corporativas de forma a maximizar a utilização de suas vantagens competitivas e otimizar a busca de oportunidades em escala global, aproveitando inclusive as vantagens (humanas, econômicas, estratégicas, geográficas, sociais e políticas) dadas pelos países que esperam angariar benefícios com sua presença.

Em razão disso Gilpin admite que as EMNs tenham indubitável força na economia global porque elas alteraram seu funcionamento, determinando o fluxo de comércio, a localização de plantas e outras atividades econômicas, detendo inclusive o papel central nos fluxos de expansão tecnológica tanto para economias industriais como emergentes. Entretanto, apesar de algumas EMNs terem comportamento reprovável seu papel não é sempre negativo. Especialmente na forma de IED, elas são fontes de capital, tecnologia, renda, empregos e mercados para qualquer país, por isto tornaram-se importantes para determinar o bem-estar das nações. Esta posição é compartilhada, por exemplo, por Hirst & Thompson (1998), que também acreditam que as EMNs são a fonte mais importante de capital e tecnologia.

A despeito desta força Gilpin acredita que por si só os argumentos sofisticados da teoria da alocação econômica e a teoria das vantagens comparativas não conseguem explicar tudo o que acontece na economia mundial, como por exemplo, a distribuição de riqueza, os efeitos da economia mundial nos interesses nacionais e a ação dos regimes internacionais.

Apesar da ampliação da globalização econômica e da integração entre economias nacionais ainda é necessário distinguir a economias nacionais da internacional, sendo que os limites políticos podem produzir e depois dividir as economias e as políticas econômicas das diferentes nações, distinção que é percebida pelos diferentes agentes econômicos. Em função disto Gilpin acredita que o Estado ainda é o principal ator na economia internacional e que as economias domésticas ainda formam a característica mais importante da economia mundial. Ele vê como exageros tanto os que crêem que as EMNs sobrepujam o âmbito doméstico e estatal, tornando-se independentes e globais, determinando o ritmo da economia e a política mundial, como são exagerados aqueles que acreditam no potencial das EMNs como agentes coletivos da internacionalização. Segundo o autor, apesar de todos os ataques que o Estado sofreu nos últimos anos, sua existência ainda parece ser a condição indispensável para o funcionamento do regime capitalista. Se por um lado os sistemas econômicos nacionais são entraves para os movimentos em direção a uma possível economia global mais aberta, por outro lado diferenças em assuntos tais como políticas competitivas, práticas de negócios e estruturas corporativas têm se tornado cada vez mais central no que diz respeito ao comércio internacional e outras negociações, mostrando que o Estado cresce de importância conforme avança a internacionalização da economia. Apesar das convergências, as sociedades ainda retêm as suas características essenciais e não foram diluídas numa massa homogeneizada.

Outrossim, Gilpin aponta algumas diferenças no relacionamento entre as EMNs e os Estados. Quanto ao relacionamento com o País Sede (onde a EMN tem o núcleo dos seus negócios, a partir do qual articula e coordena todas as suas operações) Gilpin argumenta (com base no relacionamento entre as EMNs norte-americanas e o governo dos EUA) que são as políticas do governo do país de origem as que mais que influenciam nas decisões dos gestores das EMNs tendendo a existir complementaridade entre os interesses destas e os governos porque, como mostra o exemplo norte-americano, as EMNs que atuam no exterior controlam, entre outros fatores, o acesso as matérias-primas, mantém a posição relativa do país nos mercados externos, são importantes para equilibrar a balança de pagamentos, atuam como mecanismo de expansão ideológica e atuam como instrumento de diplomacia, em suma, as EMNs definem uma esfera de atuação para o País Sede que poderia ser ocupado pelas congêneres de outros países.

Hirst & Thompson (op. cit.) corroboram esta noção complementando que apesar de ser quase impossível mapear todo o fluxo de negócios internacionais e, por conseguinte a rede de interesses é correto acreditar que as operações das EMNs ainda estão estreitamente vinculadas aos países de origem onde estão seus maiores investimentos os que as tornam passíveis de serem “gerenciadas” ou “governadas” pelos governos nacionais porque na realidade as mesmas continuam “embedded” (enraizadas) nos territórios nacionais de origem.

Gilpin observa que um dos sintomas da importância do Estado-Nação para as EMNs é que pelas teorias econômicas seria lógico supor que estas buscam alocar recursos sempre objetivando maximizar seus ganhos econômicos, porém estudos empíricos demonstram que não é o que ocorre. A preferência das EMNs é por concentrar os investimentos no País Sede ou seu entorno por motivos extra econômicos, entre eles: os interesses políticos e estratégicos, as afinidades culturais, a segurança política, a qualidade da mão de obra, etc. Em conseqüência o País Sede retém sua importância porque ainda detém o verdadeiro locus do poder corporativo: os recursos econômicos, da tomada de decisões, parte da produção, a concentração da pesquisa e desenvolvimento (P&D) e o principal mercado consumidor.

Quanto ao relacionamento com o País Hospedeiro (o que recebe os IED da EMN), as EMNs frequentemente concentram seus investimentos em setores específicos, onde possuem vantagens competitivas ante as empresas locais. Entretanto, como os investimentos geram relacionamentos econômicos de natureza integrativa eles acabam envolvendo a corporação nos assuntos econômicos internos dos países, o que torna a presença das EMNs controvertida, especialmente nos países pobres. Mas, para os países pobres as EMNs são importantes por

vários motivos: podem iniciar um setor econômico previamente inexistente, trazem capitais, recursos, tecnologias, geram empregos e receitas e podem reforçar a balança de pagamentos.

Gilpin não crê no poder das EMNs solapar o Estado por mais fraco que este seja e/ou mais fortes que sejam as companhias. O Estado-Nação ainda é o principal ator na cena mundial e existem indícios que eles estão sabendo articular interesses e aproveitar a presenças das EMNs em seu próprio benefício, explorando entre outras coisas, o caráter intrinsecamente competitivo delas. Entretanto Gilpin nota que a presença das EMNs não é apenas positiva. Entre os problemas que elas podem causar é o de competir desigualmente com as similares nacionais, inibir o desenvolvimento de uma base tecnológica local, ocupar setores econômicos estratégicos, influenciar e mesmo interferir na política interna e alterar os padrões de consumo de uma sociedade, por isto sugere que é salutar aos Estados tomarem muito cuidado com contratos e objetivos que pretendem alcançar com sua presença.

Nesta conjuntura há necessidade de equilibrar interesses inerentes à interdependência da economia internacional e o desejo de cada Estado em manter sua independência econômica e sua autonomia política. Ao mesmo tempo em que os Estados querem os benefícios do livre comércio e os investimentos estrangeiros, eles desejam também proteger sua autonomia política, seus valores culturais e suas estruturas sociais. Enquanto a lógica do mercado é a de obter eficiência, lucros e mais mercados, a lógica do Estado é a de obter e controlar o processo de crescimento econômico e acumulação de capital, capazes de aumentar seu poder e o bem-estar econômico da nação.

De acordo com Gilpin, a integração existe e a liberalização do capital e os mercados financeiros integrados têm sido importantes para a economia global porque tem complicado e reduzido à autonomia dos Estados na condução de suas próprias políticas macroeconômicas o que pode ser mais ou menos agudo, dependendo da habilidade dos governos ou da força relativa de cada economia nacional. Por seu turno, para os donos das corporações o movimento em direção ao mercado global tem resultado em aumento do fluxo financeiro e isto tem facilitado grandemente as fusões corporativas e aquisições por parte das EMNs. O crescimento vertiginoso das finanças internacionais tem aumentado tanto a interdependência monetária, comercial como outros aspectos da economia internacional.

Gilpin acredita que a integração é maior no entorno de Alemanha (Europa Ocidental), EUA (América do Norte) e Japão (Extremo Oriente), porque essas potências econômicas adotaram a estratégia política de privilegiar o regionalismo econômico como forma de

aumentar o seu poder de barganha nas negociações globais. Um dos resultados dessa integração é o aumento da competitividade e do fortalecimento das empresas regionais.

Hirst & Thompson acrescentam também que não obstante o discurso liberal em favor da abertura da economia, os países da tríade (Alemanha, EUA e Japão) continuam fechados em termos de interdependência. Isso demonstra que a dimensão política tanto capacita como restringe, e de forma bastante particular, as estratégias e operações “econômicas” das EMNs. Tendo em vista a assimetria histórica entre Estados ou governos de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento isso também demonstra que a dimensão política internacional continua sendo conduzida mais pelos primeiros do que pelos segundos.

Portanto, o processo de regionalização conduzido pelo Estado-Nação e que tem nas EMNs uma parte interessada podem ser explicados neste marco teórico porque possibilitam a absorção de novos métodos de produção e gerenciamento e a produção flexível, o que exige equipes de profissionais treinados e motivados. Além disso, a produção regional possibilita a produção em escala maior, cria a possibilidade das firmas aproximarem-se mais dos seus consumidores com base em afinidades culturais e podem ajudar a isolar regionalmente as companhias dos problemas políticos e econômicos mundiais.

Em resumo, Gilpin rejeita o potencial integrador visto apenas do ponto de vista econômico e como processo conduzido apenas do ponto de vista das EMN. Desmistifica também o argumento de que a globalização econômica é o processo que organiza a economia contemporânea, por meio das forças do livre mercado e da competição, destacando a importância do regionalismo e da política.