Neste excerto, Juliana justificava porque ter amigos nos faz crescer feliz. Eric falava junto com Juliana e a professora pediu sua concordância ou discordância em relação à opinião da colega. Ele justifica sua resposta, dizendo que os amigos nos ajudam. A professora solicita um exemplo. Ele responde “falando para comprar um remédio”. Gabriela acrescenta que é preciso comer bem para crescer forte e feliz. A professora requer o ponto de vista da Beatriz sobre o assunto. Diante da dúvida da aluna, a professora retoma a questão controversa apresentada no turno 69.
Turnos Análise Observações / Imagens ilustrativas19
(69) A 36: Você acha que a gente tem que
comer para crescer saudável e feliz? (Beatriz balança a
cabeça afirmativamente).
O verbo achar é uma marca de modalização. Nesse
caso, a pergunta feita introduz a dúvida, a incerteza, possibilitando
que o aluno, enquanto enunciador inscreva o que
pensa, por meio de um pedido de esclarecimento para a questão controversa.
Gestualidade afirmativa
(70) Felipo 1: Tia tem outra coisa… Alguns falam ao mesmo tempo. Tentativa de complementação com concordância.
Felipo solicita o turno.
(71) A 37: O Felipo vai falar o que é que ele
está pensando, por favor, Tiago, vamos
escutar?
Instrução usada para que o Tiago escutasse também o
Felipo.
(72) Felipo 1: Tem que ter uma boa medicação
A complementaridade proposta pelo aluno por
meio do substantivo medicação, modificado pelo
adjetivo “boa”, aponta para o conhecimento prévio que o aluno possui, em torno do
que poderíamos supor como bons cuidados médicos, um acesso adequado à saúde, entre
outros.
(73) A 38: Uma boa medicação? Mas, se eu como bem, eu vou
precisar de medicação?
Pedido de esclarecimento feito pela professora, contudo, contrapõe o conhecimento trazido pelo aluno, já que a sua questão
19 Nesta coluna, as imagens inseridas não foram objeto de análise, mas foram incluídas com o intuito
já induz para uma possibilidade de reposta, por meio da utilização de uma oração subordinada
adverbial condicional.
(74) Felipo 2: Não. Réplica simples, por meio do advérbio de negação.
(75) A 39: Por que
não? marcado pela conjunção.Pedido de justificativa,
(76) Felipo 3: Só se você come mal.
Réplica elaborada explicativa com exemplo,
concessão restritiva. O aluno, contudo, reproduz a
resposta induzida pela questão. Previsibilidade. (77) Letícia 2: Não, mas se você… Tentativa de expansão. O advérbio de negação e a conjunção adversativa demonstram que a aluna
contrapõe a posição apresentada. (78) Felipo 3: Tia? Doenças. Esclarecimento dado à necessidade de medicação. Expansão. O substantivo utilizado pelo aluno demonstra que houve uma reformulação dos conceitos
refletidos, inserindo um novo aspecto que justifica
sua posição anterior.
(79) Letícia 2: Pode ser que aconteça alguma
coisa que você fique doente que você precise de um médico que te dê um remédio.
Esclarecimento com persuasão à oposição feita
ao Felipo com réplica elaborada. O uso do verbo
modalizador sugere, além da elaboração argumentativa, que a aluna
entende que muitas pessoas podem ficar doentes mesmo tendo uma
boa alimentação. Logo, só isso não é necessário para
(82) Felipo 4: Não, ele não te dá o remédio,
ele recomenda para você comprar.
Oposição à Letícia com réplica elaborada na diferenciação da ação do médico: “recomendar”, ao invés de “dar”. A oposição entre os verbos dinâmicos (que exprimem ação ou
atividade) demonstram outro conhecimento trazido
pelo aluno, ao diferenciar uma característica da prática social do médico.
Momento em que se estabelece a interação entre os dois
alunos.
(83) Letícia 3: Mas ele
precisa falar Dedução condicional.
Nesses dois últimos turnos, houve uma interação apenas
entre o Felipo e a Letícia. Ninguém deu continuidade ao que ambos discutiam, porque a professora não ouviu devido às falas concomitantes de outros
alunos.
A professora possibilita para os alunos a posição de sujeitos argumentantes, ou seja, que se posicionam em relação a uma verdade em função de uma proposta existente. Ao criar a questão controversa “Você acha que a gente tem que comer para crescer saudável e feliz?” (turno 69), solicita que apresentem suas opiniões, assumam uma posição frente ao que foi colocado. À medida que os alunos emitem suas respostas, apresenta novos questionamentos, gerando a partir de novas respostas, razões, justificativas, esclarecimentos e exemplos “Tem que ter uma boa medicação” (turnos 72), “Só se você come mal” (turno 76), “Tia, doenças?” (turno 78), “Pode ser que aconteça alguma coisa que você fique doente, que você precise de um médico que te dê um remédio” (turno 79), criando, assim, bases para o desenvolvimento da argumentação.
Dessa forma, os alunos são encorajados a explicitar diferentes formas de pensamento e, nessa pluralidade de opiniões, podem ampliar sua maneira de pensar, demonstrando, como expõe Bakhtin (2003), que o único meio de significado
se estabelece no diálogo, na troca entre os sentidos dos interlocutores, centrada na comunicação entre os envolvidos.
A pergunta realizada pela professora (“Mas, se eu como bem, eu vou precisar de uma boa medicação?” - turno 73) induz a uma resposta. Caso Letícia não tivesse contraposto o posicionamento, Felipo poderia não chegar ao outro raciocínio. Acredita-se que esse excerto seja relevante para demonstrar como os significados foram compartilhados entre os dois alunos, para chegar a um sentido comum e mais preciso.
A professora, embora não utilize uma pergunta adequada, possibilita o diálogo e induz a conclusão dos alunos. Devido a essa abertura para todos os participantes, permite a reflexão e a complementaridade do raciocínio. No turno 77, Letícia faz uma tentativa de expansão à outra possibilidade da necessidade de medicação, mas não conclui, pois é interrompida por Felipo, no turno 78, que expande a ideia de probabilidade de doenças como algo imperativo para o uso de medicamentos.
Na colocação “Não, ele não te dá o remédio, ele recomenda para você comprar” (turno 82), proferida por Felipo, Letícia responde “Mas ele precisa falar” (turno 83). A oposição, caracterizada pela diferenciação da ação do médico, denota a discordância de opinião, movimento conversacional, no qual os interlocutores sentem-se compelidos a dar razões ou buscar justificativas (PONTECORVO, 2005).
Embora, nesses dois últimos turnos, a interação tenha se estabelecido somente entre os dois, pode-se perceber que existem momentos na aula em que ocorrem interações paralelas, às vezes, imperceptíveis à escuta da professora. Os dois alunos acima mencionados, contudo, estabelecem uma pequena discussão, demonstrando divergência, o que, apesar de parecer sutil, distingue a possível atitude de um médico em relação à pergunta da professora. Felipo assume sua posição enunciativa quando se contrapõe à colocação da Letícia. Houve, conforme aponta Orsolini (2005), uma oposição justificada pelo Felipo que, de certa forma, rompe com a previsibilidade da discussão, incluindo não somente uma simples troca de opiniões, mas a capacidade de transformar tais expressões em conhecimento, possibilitado pela argumentação colaborativa (MAGALHÃES, LIBERALI, 2009) na interação entre eles.
Excerto 2 – Aula 1
No momento apresentado no excerto a seguir, Matheus dizia que é preciso ficar feliz, pois do contrário, não é possível ir a qualquer lugar. A professora pede clarificação dessa ideia. Ele faz espelhamento da própria frase. Percebendo que Pedro não ouvia o que Matheus falava, a professora dirige-lhe a pergunta expressa no turno 87.