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E.: Eu não... (Mãe E.).

Na fala desta mãe pode-se concordar com a fala de Sanches Teixeira (1994, p. 148) na qual afirma que “as situações da vida cotidiana apresentam uma intensa carga de subversão, em que se é permitido escapar dos constrangimentos do controle social”.

Percebe-se que essa mãe está francamente desinteressada em apresentar seu posicionamento em relação à sua criança. Seu silêncio frente a uma pessoa representante da instituição, que poderia estar analisando suas palavras impeliu-a para este comportamento. Ela poderia simplesmente não ter vindo à entrevista, mas sabe-se, ainda concordando com Sanches Teixeira, que:

[...] o indivíduo, para não ser quebrado, para não ser rejeitado, se coloca participante ainda que de forma submissa, mas ao mesmo tempo esta participação é perversa, sempre aleatória e perigosa. (1994, p. 148)

Cabe lembrar que este mesmo silêncio manifestado de forma astuciosa e resistente, constitui-se em força que mantém a socialidade, fazendo a própria vida permanecer oculta, protegida e particular. Mantém-se, assim, a vida do grupo através do silêncio, no refúgio, ou no “lado de sombra” do vivido cotidiano, ou seja, o domínio das mães, para além das intervenções técnicas institucionais ou de cobranças sociais generalizantes, preservam suas forças justamente por manterem-se em silêncio, no refúgio e a participação, ainda que absolutamente intermitente, constitui apenas “brechas” para a manutenção da identidade social e do reconhecimento de “mãe de criança especial”.

Para além da atenção sobre o cotidiano específico das mães, cabe notar a maneira como a permanência trágica é perdurada e afirmada na relação “amortecida” entre as mães e a instituição de educação especial.

No espaço específico deste estudo verificou-se, para propósitos de análise, não apenas as entrevistas, mas as participações destas mães no Grupo de Mães, em comparecimentos na instituição e conversas informais junto a pesquisadora.

No que se refere ao Grupo de Mães e às convocações realizadas para seu comparecimento na instituição – seja com o objetivo de orientação familiar e educacional, seja com o objetivo de atender às solicitações da própria família – sempre foi uma queixa do corpo técnico da instituição a ausência de participação e permanência das mães junto aos encontros programados para trocas de experiências e orientações técnicas propostas para este

grupo. Ao debruçar sobre as maneiras como estas mães vivenciam a socialidade, cabe questionar o por que da ausência de participação nos grupos propostos pela instituição para este fim.

No entendimento sobre este tipo de criação de grupo, é possível recorrer à inversão que Maffesoli realiza dos termos de Durkheim de solidariedade orgânica e solidariedade mecânica24. Tais manifestações ocorrem, sobretudo, no solo cotidiano e são entendidas também como categorias de análise do cotidiano e em sua expressão, uma vez que é devido à existência da solidariedade orgânica na criação e manutenção dos laços sociais que a duplicidade, a astúcia e o silêncio, podem manifestar-se como forma de resistência na aceitação do destino (ou da vida) no vivido por um grupo em suas identificações e em sua especificidade (SANCHES TEIXEIRA, 1994).

Vê-se, no entanto, que a maioria dos pais atende ao convite inicial para o grupo de debate e trocas de experiências com outros pais, mas estas participações findam-se em menos de três encontros. O que será que acontece que o grupo não se mantém? Segundo os critérios de análise propostos por Maffesoli (1988; 2001), pode-se considerar a criação do Grupo de Pais, orientado por uma psicóloga da instituição, como uma tentativa de criar um núcleo de solidariedade mecânica, na qual os participantes encontram-se frente a uma proposta interventiva a respeito de questões colocadas em seu cotidiano, no qual se inclui uma situação diferenciada.

A não identificação com o discurso interventivo e a distância com o universo afetual do vivido cotidiano acaba por fazer com que este tipo de intervenção tipificada não tenha sentido para estas mulheres. Não raro, em um primeiro encontro elas se conhecem, no

24 Ao contrario de Durkheim, Maffesoli acredita que a organicidade funcional de um todo ordenado seja uma das

características das sociedades tradicionais, enquanto que nas sociedades do tipo econômico, onde reina a atomização, as relações são intermediadas pelo cálculo que as remete ao mecanicismo. Assim a solidariedade orgânica só é possível onde a personalidade individual é absorvida pelo organismo coletivo, enquanto que a solidariedade mecânica só é possível se cada individuo tem uma esfera de ação que lhe é própria, ou seja, depende de uma personalidade tipificada. (SANCHES TEIXEIRA, 1994, p. 130).

segundo trocam “tagarelices”, trocam telefones, e deixam de participar. É pela constatação da afinidade e identificações que a mães estabelecem a solidariedade orgânica, de acordo com o seu vivido cotidiano.

A solidariedade orgânica por se calcar nos laços sociais afetivos e na ambigüidade básica da estruturação simbólica, garante a “coesão” do grupo, a partilha sentimental de valores, de lugares, de idéias. Para ele, a propensão das pessoas a se associarem não pode ser explicada unicamente pela causalidade ou pelo utilitarismo, mas, principalmente, por uma contaminação do imaginário coletivo. A troca de sentimentos, as crenças populares, as visões de mundo e o que chama de “tagarelices sem consistência” tem muito mais a ver com a elaboração e divulgação de opiniões do que a razão. (SANCHES TEIXEIRA, 1994, p.150).

Ainda assim, assiste-se, no discurso das mães a solicitação, o pedido constante, de criação de um grupo de apoio aos pais como forma e local próprio para “orientação” ou “ajuda”, no que se referem a suas dificuldades:

[Sobre a possibilidade de criação do grupo de pais]: