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A dêixis de pessoa diz respeito à codificação do papel dos participantes no acontecimento discursivo em que a enunciação em questão é proferida. A categoria “primeira pessoa” é a gramaticalização da referência do falante a si mesmo, a “segunda pessoa”, a codificação da referência do falante a um ou mais destinatários e, a “terceira pessoa”, a codificação da referência a pessoas e entidades que não são falantes nem destinatários da enunciação em questão. Maneiras conhecidas pelas quais tais papéis dos participantes são codificados na linguagem são, evidentemente, os pronomes pessoais e as concordâncias de predicado associadas (LEVINSON, 2007).

Já a dêixis de lugar, de acordo com Levinson (2007), está ligada à codificação das localizações espaciais relativas aos participantes do discurso. Provavelmente a maioria das línguas naturais gramaticaliza pelo menos uma distinção entre proximal (perto do falante) e distal (perto do destinatário) e, essas distinções são codificadas nos demonstrativos, como este vs aquele, e nos advérbios de lugar, como aqui vs lá.

Por dêixis de tempo entende-se a codificação de pontos e extensões temporais relativamente ao tempo em que uma enunciação foi pronunciada ou uma mensagem foi escrita. A este tempo denomina-se “tempo de codificação ou TC”, que pode ser diferente do tempo de recepção. Por exemplo, se chegamos em casa e encontramos um bilhete de um familiar escrito simplesmente “Estarei de volta em uma hora”, como não sabemos quando o bilhete foi escrito, não temos como saber quando a pessoa que o escreveu, retornará (FILLMORE, 1971; LEVINSON, 2007). Este tipo

de dêixis é comumente gramaticalizada nos advérbios dêiticos de tempo, como “agora”, “então”, “ontem”, “este ano” e, acima de tudo, no tempo verbal.

A dêixis de discurso (ou dêixis textual) diz respeito à codificação da referência feita a porções do discurso em andamento, no qual se localiza a enunciação (que inclui a expressão que faz referência ao texto). Conte (1981) diz que a dêixis textual tem uma função metatextual que permite organizar o espaço do texto e facilita, assim, a orientação do leitor ou do ouvinte neste espaço, tal como podemos observar no exemplo que se segue:

(7) Neste parágrafo, abordaremos questões essenciais ao estudo do genoma.

Segundo Guimarães (2006, p.141), embora este tipo de dêixis possa ser encontrado no Português do Brasil em textos “informais” e “pessoais”, “é bastante freqüente em textos escritos formais, como os jurídicos e os científicos”.

A dêixis social, por sua vez, trata das distinções sociais relativas aos papéis dos participantes, particularmente dos aspectos da relação social entre o falante e o(s) destinatário(s) ou entre o falante e algum referente. Em muitas línguas, por exemplo, existem distinções sutis entre o grau hierárquico do falante e do destinatário que são sistematicamente codificados por meio da escolha dos pronomes, das formas de interpelação ou vocativos e expressões de tratamento.

Já a “dêixis fantasma”, proposta por Bühler (1978), é explicada pelo autor por meio de uma comparação com o universo teatral: a “dêixis fantasma” mostra-se como uma forma de tornar presente o ausente, assim como o ator no teatro personifica o personagem sem sê-lo “em carne e osso”. Para o estudioso alemão, este tipo de dêitico é uma representação e não uma mímesis, nem uma retomada; assim como o ator é uma representação do ausente, os interlocutores situam-se imageticamente num tempo e espaço no qual a “dêixis fantasma” funciona como uma arena teatral. Portanto, este tipo de dêixis se constitui como um processo referencial indireto e realizado pela imaginação. Para Martins (2000, p.91), a designação deste dêitico “não causará estranheza, se tivermos presente o significado primeiro de ‘fantasma’ enquanto imagem ou espaço imaginário formulado pela mente, não percepcionado pelos sentidos”.

Ainda em relação à “dêixis fantasma”, também denominada por Fonseca (1996, p.442, grifo da autora) como “deixis transposta (ou projectada)”,

[...] não há qualquer evidência real que viabilize o acto de mostrar; a sua possibilidade assenta numa ‘evidência mental’ compartilhada por locutor e interlocutor: utilizando dados presentes na sua memória (mediata ou ‘a longo prazo’) e que supõe serem constitutivos da

memória comum que compartilha com o interlocutor, o locutor

reproduz ou constrói (imagina) uma determinada situação distinta daquela em que estão inseridos, propondo ao interlocutor uma

transposição para essa situação imaginada. O contexto

compartilhado que é utilizado, neste caso, é a memória comum.

A fim de ilustrarmos este tipo dêitico, emprestaremos um exemplo de Fonseca (1996, p.442, grifo da autora):

(8) Na Rotunda da Boavista, estás a ver aquela casa verde, à direita, depois de saíres do Correio? É aí.

No exemplo acima, percebemos que locutor estabelece o cenário imaginário de sua referenciação e, “de comum acordo” com seu interlocutor, transportam-se para um mundo sem ancoragem na situação real: o mundo da recordação ou o mundo possível. Fonseca (1996, p.442), ao comentar o exemplo (8), afirma que

[...] a mostração realiza-se num espaço evocado mentalmente pelo locutor supondo (ou sabendo) que o interlocutor conhece o lugar em questão e que pode também ‘transpôr-se’ mentalmente para lá. Trata- se de uma mostração ‘in absentia’, logo, de uma mostração fictiva; sendo o acto de mostração que induz a evocação de um campo perceptivo, esta modalidade de deixis ilustra a possibilidade de criação, pela linguagem (na narração, nomeadamente) do seu próprio contexto referencial.

Para Martins (2000), em um enunciado como o que observamos em (8), “transposição” é uma palavra essencial para a compreensão da “dêixis fantasma” ou “transposta”, como prefere Fonseca (1996); a situação enunciativa observada em (8), remete-nos justamente à transposição para um espaço ausente que arrasta consigo todo o sistema de coordenadas enunciativas. Tais coordenadas acabam se adequando a uma nova ancoragem que, embora imaginária, é compartilhada pelos interlocutores. De acordo com Martins (2000, p.92, grifo do autor), “o campo mostrativo am phantasma não pre-existe à produção discursiva, mas é configurado

aquando do acto de transposição para o espaço fictivo que essa produção discursiva proporciona. Eis o infinito poder referencial da linguagem”.

A definição de “dêixis fantasma” ou “transposta”, portanto, muito se assemelha, a nosso ver, ao que Apothéloz (2003) denomina como dêixis de memória, já que, segundo o lingüista, este tipo dêitico ocorre quando um sintagma nominal pode remeter-se in absentia, ou seja, na ausência de qualquer designação antecedente de seu referente e sem que este esteja presente na situação enunciativa. Abaixo, apresentamos dois exemplos retirados de nosso corpus, os quais julgamos como representantes da dêixis de memória:

(9) [...]. Olha só os dilemas que a esperam no futuro. Morar um ano na Inglaterra vai valer a pena? Saio da casa dos meus pais e vou morar sozinha? Vou morar com o meu namorado? Esse emprego vai ser bom para mim? Caso ou compro um guarda-chuva? Perder a virgindade é um belo passaporte para esse mundo adulto. [...].

(Capricho, Abril de 1994).

(10) Sempre fui uma miúda certinha, incapaz de sair com dois rapazes ao mesmo tempo. Mas o meu problema começou quando o meu namorado me disse que tínhamos de acabar porque o Natal se estava a aproximar e ele, muito sem-vergonha, não sabia se conseguiria aguentar sem me pôr os cornos. Quem não aguentou fui eu e desde essa altura que tenho saído com um rapaz diferente cada fim-de-semana. As minhas amigas começam a murmurar nas minhas costas e eu não sei o que fazer para resistir às tentações. Podem-me ajudar? Diana-Alenquer. [...].

(Ragazza, Fevereiro de 1995).

Acreditamos ser notória a referenciação in absentia - caracterizadora da dêixis de memória - nos exemplos (9) e (10); justamente por ser uma referenciação dêitica, “esse mundo” e “essa altura” evocam um referente espaço-temporal, discursivamente construído, a fim de aproximá-lo do momento da situação enunciativa.

Como se pode observar é possível “tipificar” o fenômeno dêitico a partir dos diferentes tipos de informação dêitica. No entanto, Bosque e Demonte (1999) afirmam que, além desta, existe outra maneira de classificar as unidades dêiticas, a qual tem a ver com o grau em que tais unidades dependem de gestos ou de informações

contextuais adicionais para identificar o seu referente. Segundo este ponto de vista, é possível estabelecer a seguinte distinção: “dêiticos transparentes ou completos” e “dêiticos opacos ou incompletos”. Ou seja, quanto mais as unidades dêiticas dependerem de gestos ou informações adicionais para auxiliar numa eficiente identificação do referente, mais “incompletas” ou “opacas” serão. E vice-versa.

Baseando-nos em Bosque e Demonte (1999, p.935), apresentamos, na forma de quadro, as características do que tais pesquisadores denominam como dêiticos

transparentes ou completos e, dêiticos opacos ou incompletos:

Dêiticos transparentes ou completos Dêiticos opacos ou incompletos

a) determinam, a priori, o tipo de referente denotado;

b) só podem se empregar em um único tipo de situação possível (não criando assim, enunciações ambíguas);

c) seu referente não pode ser trocado por meio de um gesto, o que não quer dizer que não possam ser reforçados por meio de gestos.

a) sua mera enunciação não garante a exata identificação do referente;

b) é possível fazer referência a distintos elementos da situação de enunciação; c) é possível trocar (mudar) a referência por meio de gestos.

Quadro 1. Proposta de classificação dêitica, segundo Bosque e Demonte (1999)

Para ilustrarmos o que é um dêitico transparente e um dêitico opaco, sugerimos os seguintes exemplos:

(11) Ganhei esta caneta do meu pai.

(12) Paulo costumava a pegar o seu carro para passear.

Em (11), temos um caso de dêitico transparente, já que o objeto apontado está bem marcado; não é uma caneta qualquer, mas sim “esta”, uma caneta em especial que o falante ganhou do pai. Portanto, o referente é “transparente” Já em (12), temos um exemplo de dêitico opaco, pois não está claro de quem é o carro: se o carro for de Paulo, temos em “seu carro”, uma anáfora, porém, caso seja um dêitico, o carro

pertence a um “tu/você” que não está claro no enunciado; essa “opacidade” acaba gerando, inclusive, uma ambigüidade no texto.

Para Levinson (2007, p.78), é essencial distinguir, também, os diferentes tipos de uso da expressão dêitica, ou seja, os diferentes tipos de unidades lingüísticas ou morfemas para os quais o uso dêitico é básico ou central, pois a maioria dessas expressões tem usos não-dêiticos. Além de usos dêiticos em contraposição a usos não-dêiticos das expressões dêiticas, é importante que se diferenciem os tipos de uso dêitico que, segundo Fillmore (1971) e Levinson (2007) são dois: o “uso gestual” e o “uso simbólico”. Em seguida, na forma de quadro, apresentamos tais usos:

GESTUAL SIMBÓLICO

Só podem ser interpretados com referência

a um monitoramento áudio-visual-tátil e, geralmente, físico do acontecimento discursivo.

Este uso requer, em geral, para sua interpretação, o conhecimento (específico) dos parâmetros espaço- temporais básicos do acontecimento discursivo. Porém, em algumas

ocasiões, parâmetros sociais, do papel dos participantes e do discurso precisam ser considerados.

Quadro 2. Uso gestual e simbólico dos dêiticos, segundo Fillmore (1971) e Levinson (2007)

Se pensarmos numa situação discursiva em que a interlocução se dá face a face, podemos apresentar como exemplo de interpretação de um uso gestual:

(13) Eu não quero este casaco, quero este.

Já se pensarmos num uso simbólico, para interpretá-lo, basta:

a) conhecermos a localização geral dos participantes; (14) Este sapato é mesmo confortável.

b) conhecer o conjunto de destinatários potenciais na situação discursiva;

c) saber quando a interação está ocorrendo para identificar a que ano está se fazendo referência;

(16) Neste ano quero ir à praia novamente.

Como podemos observar, a interpretação dos usos gestuais exige um monitoramento físico do acontecimento discursivo momento a momento, ao passo que os usos simbólicos fazem referência apenas a coordenadas contextuais disponíveis para os participantes antes da enunciação.

Esses dois tipos de uso dêitico contrastam com o uso não-dêitico das mesmas palavras ou morfemas. Os exemplos abaixo ajudarão a esclarecer essa tríplice distinção (uso gestual de expressões dêiticas; uso simbólico de expressões dêiticas e uso não-dêitico de expressões dêiticas). No entanto, cabe ressaltar que a plena compreensão dos exemplos abaixo dependerá de uma abstração por parte do leitor, a fim de construir um contexto de uso para tais frases e transportar-se para a situação enunciativa, visto que, como se sabe, neste trabalho sempre partimos do universo discursivo, e não apenas frásico, para entendermos e analisarmos os fenômenos referenciais.

(17) Este biquine não serve mais para mim. (uso gestual)

(18) Essa comida geralmente é muito boa. (uso simbólico)

(19) Essa não! (uso não-dêitico)

Estabelecidas todas as informações, considerações e discussões a respeito dos tipos de dêixis apresentados nesta seção, voltaremos nossa atenção, na seção seguinte, para outro tipo de fenômeno relacionado ao universo da referenciação: a anáfora.