• No results found

Which of the morphological and syntactic conditions are a more persistent problem in

Seguiremos como orientação, neste tópico, o movimento de expansão da Racionalidade Moderna e do Desenvolvimento Técnico-Científico, como contribuições para a continuidade do processo de Modernização. A referência para discorrer sobre as questões inerentes à Racionalidade será a que predominou nos séculos XX e XXI. De tais períodos, destacaremos fatores constituintes do perfil mítico-ideológico, já iniciado nos tópicos anteriores, mas reforçando evidências do que se convencionou como “crise da Razão Contemporânea” e uma possível ruptura com a Modernidade.

Na seqüência, abordaremos questões conceituais da interface racional-irracional, procurando delinear configurações do Pensamento Mítico com o Conhecimento Técnico-Científico numa possível fusão com a esfera Econômica. Tal fusão representa uma forte parceria do Mito e da Razão, para compor uma trama Mito-Tecno-Lógica, cuja função seria a de acomodar conflitos de ordem política, social e cultural, a fim de solidificar as bases do Sistema Capitalista Contemporâneo.

Na perspectiva acima proposta, a Ciência, no que se afirma como caminho metodológico para o Conhecimento verdadeiro e seguro, respalda a identidade do sujeito cognoscente e descarta as estratégias que se pautam em explicações míticas ou religiosas, para conhecer, explorar e qualificar a natureza interna e externa ao indivíduo. Com isso, as estruturas lógicas e metodológicas se organizam em torno do Conhecimento Científico, visando a desfazer a confusão Homem-Mundo, numa intensidade que extrapola os limites da Racionalidade humana.

Outrossim, a Ciência, no modelo acima descrito e reforçada pelo rigor metodológico, alimentou a via interpretativa que assegurava ao sujeito, o direito, na forma de caminho metodológico, e o poder, no nível ideológico. Por essa via, era possível acessar diretamente o objeto (significando aquilo que está fora do sujeito) e, através de ações racionalizadas, explorá-lo, conhecê-lo e dominá-lo.

Por outro lado, enquanto a Ciência tratou de tornar o objeto menos perigoso e, portanto, cognoscível, o Mito investiu no desconhecido, ou seja, em esconder os detalhes e os fundamentos do que se apresentava como fenômeno. Desse modo, o Mito se encarregou de difundir apenas os contornos do que pode ser apreendido pela Razão humana. O resto ficou a cargo da imaginação e da criatividade, que fomentaram a curiosidade e o desejo de aventurar-se em busca do conhecimento mais próximo da verdade possível.

Voltando para a discussão central, o Mito e a Razão, apesar de contraditórios entre si, parecem participar e reforçar a relação dicotômica sujeito-objeto. Essa relação ganhou importância como caminho interpretativo no processo de Racionalização, pela extensão de outro nível de relação: Homem-Natureza.

Pragmaticamente, a relação acima representou ganhos significativos para a Racionalidade humana, por inserir-se no conjunto dos instrumentos e processos do conhecer, que impulsionaram o “avanço” estratégico e metodológico, ao mesmo tempo que redefiniram o comportamento e a postura dos indivíduos frente ao desconhecido.

Com isso, estamos querendo dizer que o Mito e a Razão acompanharam os níveis de relações que se apresentaram como caminhos interpretativos nos diversos estágios do Processo Civilizatório,38 na medida e na proporção da projeção das idéias, teorias e conhecimentos que se apresentaram e se identificaram como modeladores de comportamentos.

Tais modeladores eram organizados por meio dos produtos e processos da aprendizagem, objetivados na estruturação do contexto social que se mostrava como resultado dos conflitos de interesses dos grupos mais articulados.

De outra forma, mas, ainda no contexto das idéias abstraídas do recorte histórico dos séculos XX e XXI, passaremos a analisar aspectos da Revolução Eletroeletrônica e Tecnológica, e o que dela nos foi legado como forma e conteúdo. A ênfase será para o desvio dos princípios da Racionalidade e da Modernidade efetuado em nome da exploração econômica, a fim de estimular o desejo e as expectativas com os novos direcionamentos para a Racionalização e a Modernização Contemporânea.

Acreditamos que entre as questões que influenciaram diretamente a relação Mito-Razão, a Técnica e a Ciência foram, no nosso entendimento, as áreas do Conhecimento que mais ofereceram subsídios para estreitar a relação. Na

38 O termo “Processo Civilizatório” é empregado aqui com o sentido de influência da Cultura Ocidental nas

Contemporaneidade, os laços ficaram ainda mais estreitos pela fusão da Tecno- Ciência na Tecnologia, atualizando o que temos de mais evidente, nas relações Mito- Razão, Racionalidade-Irracionalidade, em nome da Modernização.

Mais adiante, tomaremos para reflexão mais aprofundada aspectos dessa temática que deram formas e conteúdos a estratégias mais ambiciosas do conhecimento e da informação sobre o homem e o mundo. Contudo, apenas antecipamos indicadores que revelam o estreitamento entre os níveis da Razão e do Mito no binômio, Racionalidade-Irracionalidade.

Para tal, referimo-nos aqui ao destaque que tiveram a Técnica e a Ciência como estruturas geradoras e aglutinadoras de conhecimentos e experiências, a serviço do jogo de interesses que estimulou ações com conotações de “avanço”, tanto da Racionalidade quanto da irracionalidade humana. Esses elementos aparecem configurados na difusão da idéia de Progresso e Desenvolvimento, que a perspectiva Ocidental adotou como estratégia de Modernização.

O século XIX e o inicio do século XX foram uma época de crise, um tempo em que as pessoas se deixavam impressionar pela tecnologia e viajavam grandes distancias para se maravilhar com os motores a vapor nas feiras mundiais, um tempo em que os artistas pintavam as novas forjas e fornalhas em dimensões romanticamente aumentadas.(...) a combinação de grandes dimensões e alta complexidade, associadas aos sistemas tecnológicos praticamente garantia que as catástrofes ocorreriam com freqüência bem menor do que nos séculos anteriores.(...) à medida que os desastres eram controlados no Ocidente (...) os próprios meios para preveni-los às vezes criavam o risco de desastre ainda maiores no futuro. Além disso, esses novos problemas eram

cultura científica ou sua visão de mundo (Ver a esse respeito, Norbert Elias In: O processo civilizador. Rio de Janeiro-RJ: Zahar.1994. p. 23.vol. 1).

freqüentemente de natureza gradual distribuída e, portanto, muito mais difíceis de resolver do que os problemas agudos, localizados (Tenner 1997:p.32).39

O desenvolvimento técnico e científico, pelo que vimos, esteve muito presente no Projeto de Colonização implementado pelo Ocidente, para expandir não apenas os limites geográficos de sua extensão territorial, mas, principalmente os limites da Racionalização Econômica que fornecia as bases estruturais dos rumos da Modernização.

A idéia de colonização, por exemplo, foi objeto de implementação pelos países ditos desenvolvidos, visando a forjar uma pseudoautorização internacional, que os permitisse destruir territórios ou roubar a identidade cultural dos países subdesenvolvidos ou emergentes. As guerras e as imposições econômicas, políticas, culturais e sociais foram amplamente utilizadas como instrumentos de Poder e soberania entre povos e nações (muito presente ainda hoje, no cenário internacional).

Todo o cenário acima sugerido foi montado e desenvolvido em nome da Racionalização e Modernização do mundo, os quais se faziam urgentes e necessárias como erradicação da barbárie e do respaldo que o Mito lhe proporcionava. O “novo” despontava como modelo ideal de Civilização apontado pela Ciência e Tecnologia como o melhor e o mais racional dentre os modelos até então concebidos pela raça humana.

Para Tarnas (2000), a Ciência se desenvolveu assumindo uma representação do Conhecimento Objetivo que a projetou para a Contemporaneidade como salvadora da Cultura Moderna. Essa representação da Ciência, já assinalada anteriormente, a

caracterizou como caminho metodologicamente seguro para alcançar certezas epistemológicas e facilitar o processo de objetivação do mundo. Isso tudo graças aos “Poderes” advindos com os avanços da previsibilidade de suas ações e pela “transparência” na manipulação dos dados experimentais que impulsionavam o “controle” da Natureza (Tarnas: 2000, p.306).

É interessante observar que, apesar das conquistas científicas indicarem uma certa “segurança” nos produtos da Ciência e da Tecnologia e gerarem uma crescente onda de aceitabilidade do discurso apresentado como técnico e científico, ainda é grande o medo, o receio e o distanciamento, da maioria da população, em se envolver pelos intrincados caminhos do Conhecimento Científico.

Mesmo sem entrar em detalhes, observamos que a questão acima está diretamente associada a uma postura consciente e intencional da comunidade científica, que vincula saber e poder, atribuído ou conquistado, como modo de delimitar o que é, e o que não é,

científico. Ao que nos parece, o invólucro que recobre o conjunto de tais ações no contexto da Modernização escapa aos limites da Racionalização e entra pelos caminhos da Mitificação, seduzindo muitos dos que tentam se aproximar para romper os limites do seu próprio conhecimento.

Para o momento, o que nos interessa é ressaltar que o sentido e a necessidade de ordem, inerente ao exercício da racionalidade humana, parecem haver estado junto aos sentimentos de medo e submissão aos mistérios do desconhecido. O que serviu e ainda hoje parece servir de conteúdo ideal para construções criativas, que inventam ou reinventam Mitos e os expõem através de mirabolantes narrativas.

A combinação Mito-Razão foi explorada durante muito tempo mais como jogo de contrários do que como partes distintas de um mesmo fenômeno. O que estamos querendo inserir na discussão é um outro grupo de contrários que reforçou e redefiniu direcionamentos de visões dicotômicas, em vários momentos do Processo Civilizatório, tais como Mito-Razão, Homem-Natureza, Sujeito-Objeto, Ciência-Senso Comum, etc. Estamos nos referindo a categorias conceituais, aparentemente contrárias entre si, que se fazem presentes em todas as esferas de organização coletiva dos indivíduos: saber e poder.40

Para efeito de aproximação conceitual, adotaremos para o binômio saber-poder a mesma conotação com a qual esteve associada durante vários períodos da Racionalização Ocidental. Ou seja, associada ao Conhecimento e à Dominação. Nessa perspectiva e dentro do legado que nos chegou, concebemos o binômio em evidência, adequando-se aos novos símbolos e modelos de comportamentos sociais, graças ao discurso técnico e científico adotado como instrumento comunicativo essencial para o projeto de modernização contemporânea.

No entanto, ao retroceder na História da evolução humana, encontraremos traços da adequação, acima sugerida, inscritos nas ações aplicadas nos primórdios do modelo de dominação proposto pelo Ocidente, implícitas nas políticas de Colonização, que foram efetivadas em nome do Desenvolvimento Econômico. O contexto oferecia uma perspectiva de futuro, na qual a

40 No momento, estamos usando essas expressões no sentido mais amplo que o termo possa oferecer:

Conhecimento, Dominação, Experiência Individual, Exploração Comercial visando a lucro excedente, Conhecimento Técnico e Científico como visão de mundo superior, a qualquer outra interpretação, etc.

Europa seria a fábrica do universo, enquanto o resto do mundo seria fornecedor de matérias-primas e produtos primários. Considerava-se que esta divisão ‘espontânea’ do trabalho correspondia aos dotes naturais de recursos de cada parceiro e oferecia vantagens para todos. Ela jamais teria existido ‘naturalmente’ se a ordem colonial e imperial não tivesse instituído pela violência aberta (abertura de mercados a tiros de canhão, culturas obrigatórias) ou pela violência simbólica (intimidação, sedução).41

O fato histórico, acima descrito, nos permite perceber além da preocupação com a extensão territorial, o caráter de trocas comerciais de mercadorias que passaram a ser intensificadas a partir da segunda metade do século XIX, com o desenvolvimento da indústria na Europa.42 Esta, por sua vez, trouxe junto o processo extremamente rápido da

produção, transformando a estrutura básica do mercado internacional, passando da esfera da circulação de mercadorias para a da produção.43

Começara, portanto, o processo de consolidação e independência (ou interdependência) valorativa da Racionalização Ocidental. Contudo, o Mito, para usar uma expressão mercantilista, a outra face da moeda, ou a outra face do fenômeno, assumiu a forma da Modernização do mundo, sob o discurso inovador da Ciência e da Técnica. A consolidação do processo foi assegurada pelo cultivo do que ainda havia sido semeado pelo colonizador, nas descobertas do Novo Mundo.

41 Latouche, Serge. A ocidentalização do mundo: ensaios sobre a significação, o alcance e os limites da

uniformização planetária. Petrópolis-RJ: Vozes, 1994. p.22. (coleção horizontes da globalização).

42 O início da Indústria Moderna foi possível graças a pelo menos dois fatores: a existência de capital

acumulado (boa parte conseguido com saques e explorações em diversos níveis) e a existência de uma classe trabalhadora livre, sem propriedades (resultante em sua grande maioria dos fechamentos de terras e elevação dos arrendamentos). Andery. Op. cit. P.165.

43 Ver a esse respeito, Anita Kon. “Tecnologia e trabalho do cenário da globalização”. In: Desafios da

Globalização. Petrópolis-RJ: Vozes, 1998. (p. 62). Ela aponta esse processo como movimento de transformação e internacionalização do capital financeiro, resultando na acumulação de capital nos Bancos, os quais unindo-se às empresas no processo produtivo, passaram a atuar, não apenas como intermediários, mas como monopolistas do capital-dinheiro, de meios de produção e de matéria-prima em vários países.

No giro da roda do mundo, renovaram-se, estrategicamente, as relações de exploração. Para o que antes era senhor-escravo, tomou a forma do binômio patrão-empregado. Alteraram-se, também, as formas e os instrumentos de dominação: a terra, o chicote - símbolos visíveis do poder -, deram lugar à indústria, aos produtos eletroeletrônicos, como instrumentos de um saber e de um saber-fazer, da Ciência e da Técnica.

A perspectiva mítica, para acompanhar os mesmos padrões de mudanças acima apresentados, trocou a distante linguagem sagrada dos deuses do Olímpo, que expunha claramente o poder e o capricho dos deuses sobre homens, ainda que metafórico; por uma linguagem mais sutil, liberal, com característica mais mundana, escondendo princípios de uma dominação autoritária, sob disfarces democráticos.

Esta apoteose do Ocidente não é mais a presença real de um Poder humilhante por sua brutalidade e arrogância. Ela se apóia nos poderes simbólicos cuja dominação abstrata é mais insidiosa, mas por isso mesmo menos contestável. Esses novos agentes da dominação são a ciência, a técnica, a economia e o imaginário sobre o qual elas repousam: os valores do progresso.44

A dicotomia saber-poder, disseminada nas relações do saber da Ciência e do saber-fazer da Técnica, desenvolveu-se semelhante à interface atribuída ao binômio Mito-Razão. Ou seja, projetou-se em íntima ligação com o Desenvolvimento Ocidental. O poder, intrínseco às transformações técnicas e científicas, forçou o surgimento de formas mais sutis de dominação, fortalecendo a parceria com o saber, subsidiando (ideologicamente) o discurso técnico-científico, que, por sua vez, servia para respaldar (metodologicamente) as

estratégias necessárias ao exercício, permanência ou continuidade que o status do Poder exigia.

Sabemos, pela História do conhecimento humano, que a Razão humana ganhou impulso e poder através da Linguagem Matemática, ao desvelar os segredos dos deuses e possibilitar a descoberta do Novo Mundo, numa versão menos sagrada e mais profana. Indivíduos como Platão, Galileu, Descartes, Newton e outros, grandes pensadores, acreditaram na Linguagem Matemática e, através dela, se empenharam na construção de sistemas que possibilitaram ampliar uma possível ruptura entre o Sagrado e o Profano, o Racional e o Irracional, o Mito e o Logos.

Desse modo, a relação Homem-Natureza passou a ser conduzida pela Ciência, que assumiu o papel de protagonista na reorientação do Mundo. Mas o que dizer das tendências míticas, religiosas ou irracionalistas? A projeção da Ciência, como instrumento de elevação do espírito humano, e portadora da verdade sobre o Mundo, aboliu de fato outras interpretações? Ou, para admitirmos uma opinião mais moderada, a ruptura entre os Modelos interpretativos da realidade foi apenas de caráter momentâneo, considerando o grande período de predomínio das interpretações mítico-religiosas?

O fato é que, a ênfase demasiada na Razão pareceu-nos ter projetado, também, sua mitificação. Ou seja, o projeto de reorientação do mundo, implementado pela Racionalidade Técnica e Científica, ao tentar romper em definitivo com as interpretações mítico-religiosas, foi supervalorizado e, por vezes, assumido com conotações de divino.

As regras lógicas e simbólicas que constituíram o espírito matemático passaram a ser estrategicamente configuradas como métodos e instrumentos pelo quais o indivíduo

Poderia purificar-se dos valores profanos, e construir, racionalmente, um modelo de compreensão do mundo.

Na verdade, a breve referência acerca da supervalorização da Razão em sintonia com a visão mítica, que aqui estamos ressaltando, nos servirá apenas de pretexto para introduzir a idéia, ainda em forma de hipótese, de que a perspectiva cientificista, intrínseca ao projeto de Modernidade, não aprofundou o jogo dicotômico dos pólos, Mito-Razão, Racional-Irracional. Antes, parece tê-lo unificado ainda mais, ou, até mesmo, servido de base na formação do que se projetou para o Homem Moderno.

A hipótese acima apresentada parte do pressuposto de que a formação do Pensamento Moderno Ocidental teve como base um conteúdo racional, resultado de uma Razão constituída historicamente, e uma forma mítica, configurada pela ênfase demasiada nos métodos e nos instrumentos de produção do Conhecimento.

Desse modo, o conteúdo e a forma do Conhecimento, convertido em modelo do Pensar Moderno, representado pela Razão Instrumental, avançou como Racionalização do Mundo e ganhou espaço no Desenvolvimento Econômico, Social e Cultural. Tal dinâmica passou a adotar os padrões, o rigor e a precisão do método científico como estratégia de legitimação do Poder e do Modelo Ocidental de Desenvolvimento.

Próximo do que estamos sugerindo, temos a Matemática que, depois de ganhar “status” de linguagem exata e formal, capaz de decifrar os enigmas tanto dos deuses quanto dos homens, serviu de suporte metodológico para a atividade Científica e reduziu toda a complexidade da ordem cósmica às leis da Lógica.

Com isso, o Homem deixou de temer a Natureza e passou a submetê-la aos seus mais escrupulosos caprichos, em nome do Desenvolvimento Econômico, Social e Cultural.

Tal Desenvolvimento, por sua vez, foi difundido como a mais pura manifestação de superioridade do Logos.

O método científico gerou atitudes mecanicistas também no pensamento político da Europa dos séculos XVII e XVIII. O conhecimento da lei universal da aceleração, por exemplo, levou as pessoas a achar que o progresso da sociedade também se aceleraria com o passar do tempo. Regularidade e uniformidade tornaram-se a marca da sociedade ‘moderna’. Na Inglaterra, a posição financeira da monarquia foi regularizada e feita uniforme, por meio de um salário real, e os assuntos nacionais passaram a ser codificados e monitorados pelo primeiro banco nacional (Burke: 1998, p.182).45

A necessidade vinculada ao interesse no aumento da produção semeou o campo para o cultivo da criatividade e da técnica. Essa conjunção de possibilidades somadas a um conjunto maior de fatores contextuais desencadeou uma série de invenções e reações que mudaram a dinâmica, os hábitos e os valores do homem moderno. Entrava em cena a máquina, com o papel específico de substituir a força motriz, gerada pela energia humana, por outras fontes de energia no processo de produção.

Com isso, a ferramenta foi retirada das mãos do trabalhador e passou a fazer parte da máquina, rompendo-se, assim, a unidade entre o trabalhador e sua ferramenta. Fragilizava-se, portanto, o sistema manual, a manufatura, em nome do sistema mecânico: o fabril.

Com a introdução da máquina, elimina-se a necessidade seja de trabalhadores adultos resistentes, seja de operários especializados e hábeis, uma vez que o operário nada mais tem a fazer senão vigiar e corrigir o trabalho da máquina. Há, assim, uma maior desqualificação do trabalho operário, que não mais precisa passar por uma longa aprendizagem para exercer sua função: como conseqüência, torna-se possível a utilização de mão-de-obra não

45 Burke, James e Ornstein, Robert. O presente do fazedor de machados: os dois gumes da história da cultura

qualificada (principalmente mulheres e crianças). (...) o trabalhador perde o controle do processo de trabalho. É ele quem se adapta ao processo de produção. A máquina determina o ritmo do trabalho e é responsável pela qualidade do produto (Andery: 1988, p.168).

Assim, o moderno modo de pensar, organizado sob a ótica do Iluminismo, se projetou dentro das novas orientações culturais. O capitalismo, enquanto sistema econômico, disponibilizou os recursos necessários para solidificar o processo de Modernização e preparou o melhor ambiente futurista para a exploração e a difusão dos produtos tecnológicos.

Na verdade, a sintonia entre o Saber e o Poder, estabeleceu laços mais fortes e